A vida só se dá para quem se deu
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
Ser feliz é viver morto de paixão
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
O destino dos homens é a liberdade
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
A gente não faz amigos, reconhece-os.
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém...
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
Quem pagará o enterro e as flores se eu me morrer de amores?
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
O uísque é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado.
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
Amar, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
De manhã escureço /De dia tardo /De tarde anoiteço /De noite ardo
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
Se o amor é fantasia, eu me encontro ultimamente em pleno carnaval.
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida.
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
Existem umas feias potáveis. Mas a maioria só serve mesmo para fazer sabão.
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
A vida só se dá para quem se deu.
( Frases e Pensamentos de Vinícius de Moraes) Mensagem sobre Vida
Por mais longa que seja a caminhada o mais importante é dar o primeiro passo.
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
Que não seja imortal posto que é chama mas que seja infinito enquanto dure...
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
Com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia eu fiz o cimento da minha poesia.
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu...
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão.
( Frases e Pensamentos de Vinícius de Moraes) Mensagem sobre solidão
Eu quisera dar-te, ademais dos beijos e das rosas, tudo o que nunca foi dado por um homem à sua amada
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
Um novo dia vem nascendo. Um novo sol já vai raia. Parece a vida, rompendo em luz, E que nos convida a amar.
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
E de amar assim, muito amiúde, é que um dia, em teu corpo de repente, hei de morrer de amar mais do que pude
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
O uísque é o melhor amigo do homem,ele é o cachorro engarrafado.
( Frases e Pensamentos de Vinícius de Moraes) Mensagem sobre Bebida
A vida é a arte do encontro,embora haja tantos desencontros pela vida.
( Frases e Pensamentos de Vinícius de Moraes) Mensagem sobre Vida
Nádegas é importantíssimo. Grave, porém, é o problema das saboneteiras. Uma mulher sem saboneteiras é como um rio sem pontes.
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!
( Autor: VINÍCIUS DE MORAES)
E de te amar assim,muito a amiúde,é que um dia de repente hei de morrer de amar mais do que pude
( Frases e Pensamentos de Vinícius de Moraes) Mensagem sobre Poesia
O homem ama naturalmente a verdade e o bem,e deles só se aparta quando as paixões o arrastam e extraviam. Que não seja imortal posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure.
( Frases e Pensamentos de Vinícius de Moraes) Mensagem sobre Paixão
E mais uma variação do célebre jogo de palavras: "O amor é eterno enquanto dura". Quem primeiro o disse foi o francês Henry de Régnier: "L'Amour est éternel tant qu'il dure". Repetiu-o no Brasil Vinícius de Moraes: "Mas que seja infinito enquanto dure"; acha-se também nas palavras do humorista Sofocleto: "Amor eterno é o que dura enquanto existe".
( Frases e Pensamentos de Amor)
Mulher, ai, ai, mulher
Sempre mulher
Dê no que der
Você me abraça, me beija, me xinga
Me bota mandinga
Depois faz a briga
Só pra ver quebrar
Mulher, seja leal
Você bota muita banca
Infelizmente eu não sou jornal
Mulher, martírio meu
O nosso amor
Deu no que deu
E sendo assim, não insista
Desista, vá fazendo a pista
Chore um bocadinho
E se esqueça de mim
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama
De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente
Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
E que era preciso fugir para não perder o único instante
Em que foste realmente a ausência de sofrimento
Em que realmente foste a serenidade.
Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham pra você
Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
Eu não existo sem você.
Nas tardes de fazenda há muito azul demais.
Eu saio as vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.
Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.
Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve
Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.
Filhos . . . Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete . . .
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los . . .
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da
noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República [Popular
Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Qu tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da [aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-e dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) e também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem [saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de 5 velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de [coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima [penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca [inferior
A 37° centígrados podendo eventualmente provocar queimaduras
Do 1° grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer [beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ele não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
Você começa quando aprende a juntar as letras; faz frases engraçadinhas que seu
avô acha gênio e mostra a todo mundo. Então você se convence de que é escritor.
Essa convicção representa um compromisso, desde aquela idade remota, "já que é
um escritor, é obrigado a escrever". Se os pais são medíocres intelectualmente,
o exercício da suposta vocação torna-se fácil.
Mas quando os pais são ou literatos ou simples letrados muito mais lhe é
exigido. Você tem que apresentar originalidade ao lado da qualidade. Isso quer
dizer que você, desde esses inícios, já padece a maldição do escritor: ter
estilo e idéias animando esse estilo. Em geral, os pais se embasbacam diante de
qualquer manifestação intelectual precoce dos filhotes. Se eles não têm formação
intelectual sofisticada, tudo bem. Qualquer paráfrase dos livros da escola já
lhes parece excelente. Mas pais sofisticados é fogo. Não precisa nem que eles
leiam os modernos, Drummond, Guimarães Rosa, Cecília Meireles, para só citar os
mais ilustres e defuntos. Pai letrado quer que o filho faça pequenas frases,
emita conceitos, tudo dentro da baixa qualidade que a sua literatice considera
excelente. Portanto, para a qualidade da obra do filho, é melhor que os pais não
tenham fumaças literárias e deixem que o menino seja o seu próprio juiz.
E, se ele tiver talento, pode ir longe, liberto dos padrões da mediocridade domé
stica. Esse tipo de condenação não se pode fazer aos pais que realmente ou
produzem ou pelo menos sabem apreciar uma boa peça literária. O filho, em geral,
esconde deles as suas primícias, receoso do julgamento. E ele se faz censor de
si mesmo, olhando com os olhos do pai aquilo que o pai não vê. Existe ainda
outra maneira de ver estimulada a vocação literária dos jovens. É uma casa
aberta onde todo mundo lê, o bom e o ruim, mas onde igualmente todo mundo tem
direito à crítica, a falar o que pensa sobre a produção de pais, irmãos, tios e
visitas íntimas, numa espécie de tribunal literário exercido à mesa de jantar.
Lembro-me da casa de Aníbal Machado, ponto obrigatório dos principiantes ou recé
m-chegados que lá iam (levados por algum "freguês" semanal de Aníbal).
Sendo o dono da casa quem era, além de excelente escritor ele próprio, um
animador generoso e um fino crítico de letras, a sua casa era uma espécie de
fórum literário, referência obrigatória de quem pretendia se apresentar como
escritor: "Ainda no domingo, na casa do Aníbal, ouvi o Vinícius dizer ao Conde
que o modernismo morreu..." e se desmentindo a si próprio acabava mostrando o
seu último poema - fina flor do modernismo, claro.
Mas voltando ao assunto da vocação literária: para escrever, tem que haver o dom
da escrita, tal como para o cantor é preciso o dom da voz. Todos conhecemos
pessoas inteligentes, até brilhantes na sua especialidade - medicina,
arquitetura, engenharia, economia e, na verdade, por mais sabedores que sejam no
seu ofício, não conseguem exprimir na palavra escrita essa sabedoria. Deus
sempre é parco na concessão de dotes: os que acumulam são sempre contados. Por
que as boas cantoras líricas geralmente têm tendência a engordar? E por que as
de bela silhueta quase sempre só dispõem de um fio mal afinado de voz?
Os grandes oradores dificilmente são bons escritores. Parece que eles necessitam
do estímulo de uma audiência cativa para suas frases de efeito. O que
desencadeia o seu talento não é uma página de papel em branco, mas uma audiência
presente. E, pensando bem, isso está certo: por que um único indivíduo pode
receber juntos os dons da escrita e da eloqüência? Eu, por mim, sempre espero
descobrir nos outros os dons ocultos pela modéstia ou timidez. Verdade que nem
sempre tenho êxito; Nosso Senhor parece que só distribui tais dotes com a mão
esquerda...
Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe
prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca
porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer,
o doce feito com leite condensado.
E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque
nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas
partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.
E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c.
para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de
você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim
procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer
mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está
sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa
moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você
é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos
até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para
trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.
E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e
porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e
logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma
maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para
ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se
sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito
uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca
nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de
ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a
Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até
eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou
meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e
Fiel Cavalheiro.
E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe
sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura
que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é
um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para
ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e
aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu
conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de
que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha
abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de
ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.
E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão
purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui
nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando
você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.
E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta
se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus
segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por
você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas
as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes
estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em
mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas;
foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você
é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma
flor.
Macho e fêmea os criou.
Gênese, 1, 27
I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado
III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens,
ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como
as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas
em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda
e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das
águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em [cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e [sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.