Frases e Pensamentos de Realidade

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REALIDADE

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A única verdade é a realidade.
( ARISTÓTELES )


Saber significa ver a realidade em sua nudez.
( Erich Fromm)


As teses de matemática não são certas quando relacionadas com a realidade, e, enquanto certas, não se relacionam com a realidade.
(ALBERT EINSTEIN)


A realidade dá os cursos práticos, A TV se encarrega da teoria.
( Eduardo Galeno )


A palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras. Elas são nossa única realidade ou, pelo menos, o único testemunho de nossa realidade.
( Frases e Pensamentos de Octávio Paz )


Apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-la
( BERTOLD BRECHT )


A primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la.
( Eduardo Galeno )


O mundo da realidade tem seus limites. O mundo da imaginação não tem fronteiras
( ROUSSEAU )


A realidade é meramente uma ilusão apesar de ser uma ilusão muito persistente.
(ALBERT EINSTEIN)


Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação.
( CHARLES CHAPLIN )


Só a arte permite a realização de tudo o que na realidade a vida recusa ao homem
( JOHANN WOLFGANG VON GOETHE)


A morte é de certa maneira uma impossibilidade, que de repente se torna realidade
( JOHANN WOLFGANG VON GOETHE)


Um sonho sonhado sozinho é um sonho. Um sonho sonhado junto é realidade.
( Frases e Pensamentos de Raul Seixas )


Em realidade somos mais do que conhecedores de nós próprios.
( Frases e Pensamentos de Ralph Waldo Emerson)


A religião é a maior arma na guerra contra a realidade
( Frases e Pensamentos deAnônimo) Mensagem sobre Religião


A maioria das pessoas aumenta a dimensão dos problemas de tal forma que perde a noção da realidade!
(ROBERTO SHINYASHIKI)


O mundo é o seu caderno, as páginas em que você faz suas somas. Não é a realidade, embora você possa exprimir a realidade ali, se quiser. Você também tem a liberdade de escrever tolices, ou mentiras, ou rasgar as páginas
( Frases e Pensamentos de Richard Bach )


O maior problema de toda arte é produzir por meio de aparências a ilusão de uma realidade mais grandiosa.
( JOHANN WOLFGANG VON GOETHE)


Um sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade
( Frases e Pensamentos de Raul Seixas )


A maneira mais fácil e mais segura de vivermos honradamente, consiste em sermos, na realidade, o que parecemos ser.
( Autor: SOCRATES)


A diferença entre ficção e realidade? A ficção tem que ter senso.
( Frases e Pensamentos de Tom Clancy) Mensagem sobre Literatura


"Disse Platão que os bons são os que se contentam com sonhar aquilo que os maus fazem na realidade." (Frases e Pensamentos de Sigmund Freud)

"

Um sonho sonhado sozinho é um sonho. Um sonho sonhado junto é realidade.
( Frases e Pensamentos de Raul Seixas) Mensagem sobre Sonho


As trevas, em realidade não existem, porque não passam da ausência da luz.
( Frases e Pensamentos de Angela Ribas ) Mensagem sobre Filosofia


A esperança não é um sonho,mas uma maneira de traduzir os sonhos em realidade.
( Frases e Pensamentos de Suenens) Mensagem sobre Esperança


O maravilhoso da fantasia é nossa capacidade de torná-la realidade.
( Frases e Pensamentos de Autor Desconhecido) Mensagem sobre Pensamentos


A mais nobre paixão humana é aquela que ama a imagem da beleza em vez da realidade material. O maior prazer está na contemplação.
( Autor: Leonardo da Vinci)


A filosofia vem sempre demasiado tarde. Enquanto pensamento do mundo, só aparece quando a realidade realizou e terminou o seu processo de formação
( HEGEL )


Na realidade,basta um drinque para me deixar mal. Mas nunca sei se é o 13º ou o 14º
( Frases e Pensamentos de George Burns) Mensagem sobre Bebida


Olhar preso no meu, perdidamente.Não exijas mais nada. Não desejo também mais nada, só te olhar, enquanto a realidade é simples, e isto apenas
( MÁRIO DE ANDRADE)


Dizem sempre que o tempo muda as coisas, mas na realidade somos nós próprios quem tem de as mudar.
( Frases e Pensamentos de Andy Warthol) Mensagem sobre Tempo


Uma obra de arte só é superior se for,ao mesmo tempo,um símbolo e a expressão exata de uma realidade.
( Frases e Pensamentos de Maupassant) Mensagem sobre Arte


Algo que aprendi em uma longa vida: toda nossa ciência, medida contra a realidade, é primitiva e infantil - e ainda assim, é a coisa mais preciosa que temos
(ALBERT EINSTEIN)


O maior problema de toda arte é produzir por meio de aparências a ilusão de uma realidade mais grandiosa.
( Frases e Pensamentos de Johann Goethe) Mensagem sobre Arte


Quem não pode mudar a própria contextura do seu pensamento,nunca será capaz de alterar a realidade.
( Frases e Pensamentos de Autor Desconhecido) Mensagem sobre Problemas


Existe uma coisa que uma longa existência me ensinou: toda a nossa ciência, comparada à realidade, é primitiva e inocente; e, portanto, é o que temos de mais valioso.
(ALBERT EINSTEIN)


Após muitos nascimentos o devoto esclarecido recorre a Mim, entendendo que todas as coisas são, na realidade, Minha manifestação. Semelhante alma é muito rara (7.19).
( Bhagavad Gita )


Nunca te é concedido um desejo sem que te seja concedida também a facilidade de torná-lo realidade. Entretanto, é possível que tenhas que lutar por ele.
( Frases e Pensamentos de Richard Bach )


Tratando-se de um estado subjetivo, cuja existência não pode ser legitimada por nenhum critério exterior, nenhuma tentativa posterior de descrição e explicação será bem sucedida, pois só quem fez tal experiência poderá compreender e testemunhar tal realidade. A "felicidade", por exemplo, é uma realidade importante e não há quem não a deseje; no entanto, não há qualquer critério objetivo para testemunhar a existência indubitável dessa realidade. Assim, justamente nas coisas mais importantes é que devemos contentar-nos com nosso julgamento subjetivo.
( Frases e Pensamentos de CARL GUSTAV JUNG)


A televisão, essa última luz que te salva da solidão e da noite, é a realidade. Porque a vida é um espetáculo: para os que se comportem bem, o sistema promete uma boa poltrona.
( Eduardo Galeno )


Eu não troco a justiça pela soberba. Eu não deixo o direito pela força. Eu não esqueço a fraternidade pela tolerância. Eu não substituo a fé pela supertição, a realidade pelo ídolo.
( Frases e Pensamentos de Rui Barbosa )


A arte tem uma maneira oblíqua de dizer as coisas,buscando zonas obscuras,a dos naufrágios. A realidade é importante,mas o filtro da arte é muito mais.
( Frases e Pensamentos de Antônio Tabucchi) Mensagem sobre Arte


A arte tem uma maneira oblíqua de dizer as coisas,buscando zonas obscuras,a dos naufrágios. A realidade é importante,mas o filtro da arte é muito mais.
( Frases e Pensamentos de Antonio Tabucchi) Mensagem sobre Arte


Saímos da realidade e assim criamos perspectivas que nos levaram à imagem de Deus e de uma alma humana imortal, concepções tão fúteis e vazias quanto as da velha mitologia
( Frases e Pensamentos deSilva Mello ) Mensagem sobre Religião


"Tinha o aspecto das naturezas cálidas, e podia-se dizer, que, na realidade, resumia todo o amor. Resumia-o sobretudo naquela ocasião, em que exprimia mudamente tudo quanto pode dizer a pupila humana<." (Frases e Pensamentos de Machado de Assis)


Existe um mito de que tempo é dinheiro. Na realidade, tempo é mais precioso que dinheiro. É um recurso não renovável. Uma vez que você o gasta, e se você o usou mal, ele se foi para sempre.
( Frases e Pensamentos de Neil Fiore) Mensagem sobre Tempo


É terrível dizer, mas, no fundo, o amante não está querendo saber "quem é" em realidade seu parceiro. Estouvado em seu egoísmo, ele se contenta de saber que o outro lhe faz um bem incompreensível... Os amantes permanecem um para o outro, em última análise, um mistério


- O sonho chega como a expressão de um involuntário processo psíquico inconsciente, além do controle da mente consciente. Mostra a verdade interior e a realidade do paciente como efetivamente ela é: não como eu conjecturo que seja e não como ele gostaria que fosse, mas como é.


O que os homens chamam de amizade nada mais é do que uma aliança,uma conciliação de interesses recíprocos,uma troca de favores. Na realidade,é um sistema comercial,no qual o amor de si mesmo espera recolher alguma vantagem.
( Frases e Pensamentos de La Rochefoucauld) Tema: Amizade


Meus próprios sonhos felizmente se tornaram realidade neste grande estado. Me tornei Mr. Universo; me tornei um empresário bem sucedido. E mesmo que algumas pessoas digam que eu ainda falo com um leve sotaque, alcancei o topo da profissão de ator.
( Frases e Pensamentos de Arnold Schwarzenegger )


O que os homens chamam de amizade nada mais é do que uma aliança,uma conciliação de interesses recíprocos,uma troca de favores. Na realidade,é um sistema comercial,no qual o amor de si mesmo espera recolher alguma vantagem.
( Frases e Pensamentos de La Rochefoucauld) Mensagem sobre Amizade


O amor real é dedicado ao processo de transformação constante. Pois quando, por qualquer motivo, esse processo termina, o amor torna-se tedioso, indiferente e está destinado ao fracasso. Ele decai. Destrói a si próprio. Então, o que parece ser um começo é, na realidade, apenas o começo de um fim.
( LEO BUSCAGLIA )


Sou pessimista. Não como Schopenhauer. Eu me identifico com a linha do Nietzsche, do Sartre. A vida não tem perspectiva. O importante é a gente estar dentro da realidade, saber que tudo é um minuto e não vale a pena estar brigando. Sempre digo que todos têm um lado bom. Isso ajuda a viver. A minha preocupação é ajudar as pessoas, ser útil, reconhecer que a vida é um espaço curto e que estamos no mesmo barco. .
(OSCAR NIEMEYER)


A causa da derrota não se encontra no obstáculo ou no rigor das circunstâncias; está no retrocesso na determinação e na desistência da própria pessoaSe falasse em dificuldades, tudo realmente era difícil Se falasse em impossibilidades, tudo realmente era impossível Quando o ser humano regride em sua decisão os problemas que se erguem em sua frente acabam parecendo maiores e confundem-no como uma realidade imutável A derrota encontra-se exatamente nisso.
(Daisaku Ikeda)


Vida Ilusória ( HENRY DAVID THOREAU )

Ao mesmo tempo que a realidade é uma fábula, simulações e enganos são
considerados como as verdades mais sólidas. Se os homens se detivessem a
observar apenas as realidades, e não se permitissem ser enganados, a vida,
comparada com as coisas que conhecemos, seria como um conto de fadas ou as
histórias das Mil e Uma Noites.
Se respeitássemos apenas o que é inevitável e tem direito a ser, a música e a
poesia ressoariam pelas ruas fora. Quando somos calmos e sábios, percebemos que
só as coisas grandes e dignas têm existência permanente e absoluta, que os
pequenos medos e os pequenos prazeres não passam de sombra da realidade, o que é
sempre estimulante e sublime. Por fecharem os olhos e dormirem, por consentirem
ser enganados pelas aparências, os homens em toda a parte estabelecem e confinam
as suas vidas diárias de rotina e hábito em cima de fundações puramente
ilusórias.


- Ela [a humanidade] projeta então o símbolo unificador nos céus. Através desta projeção torna-se `numinoso' e provido de forças míticas, e transforma-se no mito do salvador... mas considerando que os UFOs fossem fenômenos reais, materiais, de natureza desconhecida, neste caso poderia ser um fenômeno sincronístico (...). A situação psíquica da humanidade, por um lado, e o fenêmeno dos UFOs como realidade física do outro, não tem relação causal que possa ser reconhecida, mas parecem coincidir de forma significativa.


Anseios ( FLORBELA ESPANCA )

Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha que cais!
Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quirneras irreais,
Não valem o prazer duma saudade!
Tu chamas ao meu seio, negra prisão!
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbres o brilho do luar!...
Não 'stendas tuas asas para o longe..
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela,a soluçar...


HOMO INFIMUS ( AUGUSTO DOS ANJOS )

Homem, carne sem luz, criatura cega,
Realidade geográfica infeliz,
O Universo calado te renega
E a tua própria boca te maldiz!
O nôumeno e o fenômeno, o alfa e o omega
Amarguram-te. Hebdômadas hostis
Passam... Teu coração se desagrega,
Sangram-te os olhos, e, entretanto, ris!
Fruto injustificável dentre os frutos,
Montão de estercorária argila preta,
Excrescência de terra singular.
Deixa a tua alegria aos seres brutos,
Porque, na superfície do planeta,
Tu só tens um direito: - o de chorar!


Vida (MADRE TERESA DE CALCUTÁ)

A vida é uma oportunidade, aproveite-a...
A vida é beleza, admire-a...
A vida é felicidade, deguste-a...
A vida é um sonho, torne-o realidade...
A vida é um desafio, enfrente-o...
A vida é um dever, cumpra-o...
A vida é um jogo, jogue-o...
A vida é preciosa, cuide dela...
A vida é uma riqueza, conserve-a...
A vida é amor, goze-o...
A vida é um mistério, descubra-o...
A vida é promessa, cumpra-a...
A vida é tristeza, supere-a...
A vida é um hino, cante-o...
A vida é uma luta, aceite-a...
A vida é aventura, arrisque-a...
A vida é alegria, mereça-a...A vida é vida, defenda-a...


A história passada está de pernas para cima porque a realidade anda de cabeça para baixo. E não apenas no sul da América: também no Norte. Quem, nos Estados Unidos, não conhece Theodore Roosevelt? Este herói nacional predicou a guerra, e a praticou contra os fracos: a guerra, proclamou Roosevelt, purifica a alma e melhora a raça. Portanto, recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Em compensação, quem conhece, nos Estados Unidos, Charles Drew? Não é que a história o tenha conhecido, simplesmente jamais o conheceu. No entanto, este cientista salvou muitas milhões de vidas humanas, desde que suas pesquisas tornaram possíveis a conservação a transfusão de plasma. Drew era diretor da Cruz Vermelha nos Estados Unidos. Em 1942, a Cruz Vermelha proibiu a transfusão de sangue de negros. Então Drew se demitiu. Drew era negro.
( Eduardo Galeno )


A Razão ( HEGEL )

A razão é a suprema união da consciência e da consciência de si, ou seja, do
conhecimento de um objecto e do conhecimento de si. É a certeza de que as suas
determinações não são menos objectais, não são menos determinações da essência
das coisas do que são os nossos próprios pensamentos. É, num único e mesmo
pensamento, ao mesmo tempo e ao mesmo título, certeza de si, isto é,
subjectividade, e ser, isto é, objectividade.
(...) A razão é tão poderosa quanto ardilosa. O seu ardil consiste em geral
nessa actividade mediadora que, deixando os objectos agirem uns sobre os outros
conforme à sua própria natureza, sem se imiscuir directamente na sua acção
recíproca, consegue, contudo, atingir unicamente o objectivo a que se propõe.
(...) A Razão governa o mundo e, consequentemente, governa e governou a história
universal. Em relação a essa razão universal e substancial, todo o resto é
subordinado e serve-lhe de instrumento e de meio. Ademais, essa Razão é imanente
na realidade histórica, realiza-se nela e por ela. É a união do Universal
existente em si e por si e do individual e do subjecitvo que constitui a única
verdade.


Amizade Condicionada ( ARISTÓTELES )

A amizade é menos frequente entre pessoas azedas e entre os mais velhos,
porque quanto pior for o feitio das pessoas, menor é o prazer que têm no
convívio. Ora o bom feitio e o convívio social são marcas de amizade e motivos
criadores de amizade. Por este motivo, os jovens depressa se tornam amigos, os
velhos, não. É que não se podem tornar amigos daqueles na presença dos quais não
sentem prazer; de modo semelhante se passa com os que estão sempre mal
dispostos. Estes também podem ser benevolentes entre si porque desejam o bem ao
outro e vão ao encontro das necessidades do outro. Contudo, não são
completamente amigos uma vez que não passam juntos o dia nem sentem prazer na
companhia um do outro, coisas que parecem ser marcas distintivas de amizade.
Agora, parece que não é possível ser-se amigo de muitas pessoas, pelo menos no
sentido pleno da amizade, do mesmo modo que não é possível amar ao mesmo tempo
muitas pessoas (tal parece que, na realidade, seria excessivo; e o amor costuma
nascer naturalmente em relação a uma única pessoa), porque não é fácil de
agradar de modo totalmente satisfatório a muitos ao mesmo tempo.


Coragem Ilusória ( ARISTÓTELES )

Há cinco espécies de coragem, assim denominadas segundo a semelhança:
suportam as mesmas coisas, mas não pelos mesmos motivos. Uma é a coragem
política: provém da vergonha; a segunda é própria dos soldados: nasce da
experiência e do facto de conhecer, não - como dizia Sócrates - os perigos, mas
os recursos contra eles; a terceira brota da falta de experiência e da
ignorância, e por ela são induzidas as crianças e os loucos, estes quando
enfrentam a fúria dos elementos, aquelas quando pegam em serpentes. Outra espé
cie é a de quem tem esperança: graças a ela, arrostam os perigos aqueles que,
muitas vezes, tiveram sorte (...) e os ébrios; o vinho, de facto, excita a
confiança.
Outra ainda dimana da paixão irracional, por exemplo, do amor e da ira.
Se alguém está enamorado, é mais temerário que cobarde e enfrenta muitos
perigos, como aquele que no Metaponto matou o tirano, ou o cretense de que fala
a lenda; o mesmo se passa com a cólera e com a ira. Pois a ira é capaz de nos pô
r fora de nós. Por isso, se afiguram também corajosos os javalis, embora não
sejam; quando fora de si, têm uma qualidade semelhante, de outro modo, são
inconstantes como os temerários. Todavia, a coragem que nasce da ira é a mais
natural: a ira é, efectivamente, algo de invencível, e é por isso que os jovens
lutam melhor. A coragem cívica, pelo contrário, brota da lei. Nenhuma destas esp
écies é, na realidade, coragem, mas todas são úteis para encorajar nas situações
de perigo.


Absurdo, Liberdade e Projecto ( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Uma vez admitidos dois factos: que o devir não tem fim e que não é dirigido por
qualquer grande unidade na qual o indivíduo possa mergulhar totalmente como num
elemento de valor supremo, resta só uma escapatória possível: condenar todo esse
mundo do devir como ilusório e inventar um mundo situado no além, que seria o
mundo verdadeiro. Mas, logo que o homem descobre que este mundo não é senão
construído sobre as suas próprias necessidades psicológicas e que ele não é de
nenhum modo obrigado a acreditar nele, vemos aparecer a última forma do
niilismo, que implica a negação do mundo metafísico e que a si mesma se proíbe
de crer num mundo verdadeiro. Alcançado este estado, reconhecemos que a
realidade do devir é a única realidade e abstemo-nos de todos os caminhos
afastados que conduziriam à crença em outros mundos e em falsos deuses - mas não
suportamos este mundo que não temos já a vontade de negar.
(...) Que se passou portanto? Chegámos ao sentimento do não valor da existência
quando compreendemos que ela não pode interpretar-se, no seu conjunto, nem com a
ajuda do conceito de fim, nem com a do conceito de unidade, nem com a do
conceito de verdade. Não chegamos a nada, não logramos coisa nenhuma dessa espé
cie; a unidade global não aparece na pluralidade do devir: o carácter da
existência não é o de ser verdadeira, mas o de ser falsa (...) não há razão
alguma para nos persuadirmos de que existe um mundo verdadeiro. (...) Em suma,
as categorias de fim, de unidade, de ser, graças às quais demos um valor ao
mundo, retiramos-lhas e o mundo parece ter perdido todo o valor.


Afirmando ironicamente que de nada sabia, Sócrates logo de início desarmava seu interlocutor e encorajava-o a expor seus pontos fracos. Através de perguntas, introduzia ora um, ora outro conceito, até que a pessoa via-se em tal conflito que já não podia prosseguir. Embaraçada, percebia que não sabia o que julgava saber e que apenas cultivara preconceitos. A partir daí, Sócrates podia guiá-la para o verdadeiro conhecimento, fazendo que extraísse de si mesma a resposta.
Certa vez, um rico habitante de Larissa chamado Mênon, viajou até Atenas para aprender a retórica dos sofistas. Ao encontrar Sócrates na praça, descalço e de ar zombeteiro, não resistiu a provocá-lo:
-- "Poderias me dizer, Sócrates, se a virtude pode ser ensinada? Ou se ela se adquire por exercício?"
-- "Muito me honras, estrangeiro, se julgas que sei se a virtude pode ser ensinada ou se ela se adquire de outro modo. Na realidade, confesso-te, Mênon, que não o sei. Aliás, nem sei o que é a virtude. E não sabendo o que é uma coisa, como queres que saiba como ela é?
A conversa prossegue, e a palavra passa rapidamente de um a outro interlocutor, até que Mênon, sente-se embaraçado e interrompe o diálogo. Irritado, tenta ridicularizar Sócrates e compara-o à tremelga marinha, peixe de abdômen volumoso, cabeça grande e lisa, capaz de desferir descargas elétricas, paralisando a quem o toca. Com isso, referia-se tanto ao físico de Sócrates, quanto ao seu modo de discutir.
Passado o choque inicial, Mênon vem a receber ampla compensação. É no decorrer deste diálogo que Sócrates fórmula sua teoria da reminiscência. Segundo ela, nada se aprende e nada se ensina, pois a alma apenas se recorda, de tudo que viu e de tudo que conheceu em suas infinitas vivências. A verdadeira ciência e a verdadeira opinião são apenas uma vaga recordação das verdades eternas que um dia a alma contemplou (Platão, Mênon).


Impressões mal Fundamentadas ( PLATÃO )

Sócrates- Quando a cera que está na alma de alguém é não apenas densa, mas
abundante e lisa, com a consistência adequada, o que vem através das percepções
grava-se neste «coração» da alma. Como Homero lhe chama de modo enigmático,
referindo-se à semelhança com a cera. Nesse momento, os sinais tornam-se puros
nestas pessoas e têm suficiente densidade para chegarem a ser duradouros.
Quantos são desse tipo têm, em primeiro lugar, facilidade em aprender, em
segundo, boa memória, e, em terceiro, não desviam os sinais das suas percepções,
mas têm opiniões verdadeiras. Com efeito, dado que os sinais são claros e bem
espaçados, distribuem-nos rapidamente em cada uma das impressões, às quais sem
dúvida se chama coisas que são. E estas pessoas são chamadas sábias. Ou não te
parece?
Teeteto- Sem dúvida. A explicação é maravilhosamente convincente.
Sócrates- Ora bem, vejamos o que sucede quando o coração de uma pessoa é hirsuto
- coisa que o poeta elogiou, na sua enorme sabedoria - ou, quando a cera está
suja e é impura, ou quando é extremamente líquida ou dura: aqueles cuja cera é
líquida têm facilidade para aprender, mas tornam-se esquecidos, enquanto, com
aqueles cuja cera é dura, ocorre o contrário. Os que têm a sua cera hirsuta e
áspera, como se fosse de pedra, repleta de terra, ou de sujidade mesclada com
ela, têm impressões sem clareza. Os que a têm dura também têm as impressões sem
clareza, pois têm-nas sem densidade. E os que a têm líquida, por sua vez, também
carecem de clareza, pois, por acção da fusão, rapidamente se tornam confusas. E
se, além de tudo isto, as impressões caíram umas em cima das outras, devido à
falta de espaço, e, se a alminha de uma pessoa é pequena, são ainda mais
carentes de clareza que aquelas. Por conseguinte, todos estes são os que chegam
a opinar falsidades, pois, quando vêem, ouvem ou pensam algo não são capazes de
distribuir com rapidez a impressão a cada coisa e são lentos. E, ao distribuirem
o que corresponde a outra, não só vêem mal, como ainda por cima ouvem e pensam
mal, na maior parte das vezes. Estes são os que não só se encontram na
falsidade, a respeito da realidade, como são chamados ignorantes.


A Busca da Felicidade ou do Sofrimento ( ALBERT CAMUS )

O homem recusa o mundo tal como ele é, sem aceitar o eximir-se a esse mesmo
mundo. Efectivamente os homens gostam do mundo e, na sua imensa maioria, não
querem abandoná-lo. Longe de quererem esquecê-lo, sofrem, sempre, pelo
contrário, por não poderem possuí-lo suficientemente, estranhos cidadãos do
mundo que são, exilados na sua própria pátria. Excepto nos momentos fulgurantes
da plenitude, toda a realidade é para eles imperfeita. Os seus actos
escapam-lhes noutros actos; voltam a julgá-los assumindo feições inesperadas;
fogem, como a água de Tântalo, para um estuário ainda desconhecido. Conhecer o
estuário, dominar o curso do rio, possuir enfim a vida como destino, eis a sua
verdadeira nostalgia, no ponto mais fechado da sua pátria. Mas essa visão que,
ao menos no conhecimento, finalmente os reconciliaria consigo próprios, não pode
surgir; se tal acontecer, será nesse momento fugitivo que é a morte; tudo nela
termina. Para se ser uma vez no mundo, é preciso deixar de ser para sempre.
Neste ponto nasce essa desgraçada inveja que tantos homens sentem da vida dos
outros. Apercebendo-se exteriormente dessas existências, emprestam-lhes uma
coerência e uma unidade que elas não podem ter, na verdade, mas que ao
observador parecem evidentes. Este não vê mais que a linha mais elevada dessas
vidas, sem adquirir consciência do pormenor que as vai minando. Então fazemos
arte sobre essas existências. Romanceamo-las de maneira elementar. Cada um,
nesse sentido, procura fazer da sua vida uma obra de arte. Desejamos que o amor
perdure e sabemos que tal não acontece; e ainda que, por milagre, ele pudesse
durar uma vida inteira, seria ainda assim um amor imperfeito. Talvez que, nesta
insaciável necessidade de subsistir, nós compreendêssemos melhor o sofrimento
terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece que, por vezes, as grandes almas se
sentem menos apavoradas pelo sofrimento do que pelo facto de este não durar. À
falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um
destino. Mas não; as nossas piores torturas terão um dia de acabar. Certa manhã,
após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que
tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade.


Aprendi( CHARLES CHAPLIN )

Aprendi que eu não posso exigir o amor de ninguém, posso apenas dar boas razões
para que gostem de mim e ter paciência, para que a vida faça o resto. Aprendi
que não importa o quanto certas coisas sejam importantes para mim, tem gente que
não dá a mínima e eu jamais conseguirei convencê-las. Aprendi que posso passar
anos construindo uma verdade e destruí-la em apenas alguns segundos. Que posso
usar meu charme por apenas 15 minutos, depois disso, preciso saber do que estou
falando. Eu aprendi... Que posso fazer algo em um minuto e ter que responder por
isso o resto da vida. Que por mais que se corte um pão em fatias, esse pão
continua tendo duas faces, e o mesmo vale para tudo o que cortamos em nosso
caminho. Aprendi... Que vai demorar muito para me transformar na pessoa que
quero ser, e devo ter paciência. Mas, aprendi também, que posso ir além dos
limites que eu próprio coloquei. Aprendi que preciso escolher entre controlar
meus pensamentos ou ser controlado por eles. Que os heróis são pessoas que fazem
o que acham que devem fazer naquele momento, independentemente do medo que
sentem. Aprendi que perdoar exige muita prática. Que há muita gente que gosta de
mim, mas não consegue expressar isso. Aprendi... Que nos momentos mais difíceis
a ajuda veio justamente daquela pessoa que eu achava que iria tentar piorar as
coisas. Aprendi que posso ficar furioso, tenho direito de me irritar, mas não
tenho o direito de ser cruel. Que jamais posso dizer a uma criança que seus
sonhos são impossíveis, pois seria uma tragédia para o mundo se eu conseguisse
convencê-la disso. Eu aprendi que meu melhor amigo vai me machucar de vez em
quando, que eu tenho que me acostumar com isso. Que não é o bastante ser
perdoado pelos outros, eu preciso me perdoar primeiro. Aprendi que, não importa
o quanto meu coração esteja sofrendo, o mundo não vai parar por causa disso. Eu
aprendi... Que as circunstâncias de minha infância são responsáveis pelo que eu
sou, mas não pelas escolhas que eu faço quando adulto. Aprendi que numa briga eu
preciso escolher de que lado estou, mesmo quando não quero me envolver. Que,
quando duas pessoas discutem, não significa que elas se odeiem; e quando duas
pessoas não discutem não significa que elas se amem. Aprendi que por mais que eu
queira proteger os meus filhos, eles vão se machucar e eu também. Isso faz parte
da vida. Aprendi que a minha existência pode mudar para sempre, em poucas horas,
por causa de gente que eu nunca vi antes. Aprendi também que diplomas na parede
não me fazem mais respeitável ou mais sábio. Aprendi que as palavras de amor
perdem o sentido, quando usadas sem critério. E que amigos não são apenas para
guardar no fundo do peito, mas para mostrar que são amigos. Aprendi que certas
pessoas vão embora da nossa vida de qualquer maneira, mesmo que desejemos
retê-las para sempre. Aprendi, afinal, que é difícil traçar uma linha entre ser
gentil, não ferir as pessoas, e saber lutar pelas coisas em que acredito.
Tua caminhada ainda não terminou... A realidade te acolhe dizendo que pela
frente o horizonte da vida necessita de tuas palavras e do teu silêncio. Se
amanhã sentires saudades, lembra-te da fantasia e sonha com tua próxima vitória.
Vitória que todas as armas do mundo jamais conseguirão obter, porque é uma
vitória que surge da paz e não do ressentimento. É certo que irás encontrar
situações tempestuosas novamente, mas haverá de ver sempre o lado bom da chuva
que cai e não a faceta do raio que destrói. Se não consegues entender que o céu
deve estar dentro de ti, é inútil buscá-lo acima das nuvens e ao lado das
estrelas. Por mais que tenhas errado e erres, para ti haverá sempre esperança,
enquanto te envergonhares de teus erros. Tu és jovem. Atender a quem te chama é
belo, lutar por quem te rejeita é quase chegar a perfeição. A juventude precisa
de sonhos e se nutrir de lembranças, assim como o leito dos rios precisa da água
que rola e o coração necessita de afeto. Não faças do amanhã o sinônimo de
nunca, nem o ontem te seja o mesmo que nunca mais. Teus passos ficaram! Olhes
para trás... mas vá em frente pois há muitos que precisam que chegues para
poderem seguir-te.


OMONÓLOGO DE UMA SOMBRA ( AUGUSTO DOS ANJOS )

Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!
A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!
Pairando acima dos mundanos tectos,
Não conheço o acidente da Senectus
- Esta universitária sanguessuga ,
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!
Na existência social, possuo uma arma
- O metafisicismo de Abidarma -
E trago, sem bramânicas tesouras,
Como um dorso de azêmola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.
Com um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho...
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
E com certeza meu irmão mais velho!
Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Amarguradamente se me antolha,
À luz do americano plenilúnio,
Na alma crepuscular de minha raça
Como uma vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o Infortúnio.
Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,
Trazendo no deserto das idéias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!
Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem...
E apenas encontrou na idéia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as cousas se reduzem!
E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mostrar, já nos últimos momentos,
Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luz danada,
espólio dos seus dedos peçonhentos.
Tal a finalidade dos estames!
Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,
Nas eterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!
Será calor, causa úbiqua de gozo,
Raio X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!
E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
- Engrenagem de vísceras vulgares -
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares!
A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.
É uma trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece ...
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.
E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,
À guisa de um faquir, pelos cenóbios?! ...
Num suicídio graduado, consumir-se,
E após tantas vigílias, reduzir-se
A herança miserável de micróbios!
Estoutro agora é o sátiro peralta
Que o sensualismo sodomista exalta,
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo.
Como que, em suas células vilíssimas,
Há estratificações requintadíssimas
De uma animalidade sem castigo.
Brancas bacantes bêbedas o beijam.
Suas artérias hírcicas latejam,
Sentindo o odor das carnações abstêmias,
E à noite, vai gozar, ébrio de vício,
No sombrio bazar do meretrício,
O cuspo afrodisíaco das fêmeas.
No horror de sua anômala nevrose,
Toda a sensualidade da simbiose,
Uivando, à noite, em lúbricos arroubos,
Como no babilônico sansara,
Lembra a fome incoercível que escancara
A mucosa carnívora dos lobos.
Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.
Negra paixão congênita, bastarda,
Do seu zooplasma ofídico resulta...
E explode, igual à luz que o ar acomete,
Com a veemência mavórtica do ariete
E os arremessos de uma catapulta.
Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Hirto, observa através a tênue trança
Dos filamentos fluídicos de um halo
A destra descarnada de um duende,
Que, tateando nas tênebras, se estende
Dentro da noite má, para agarrá-lo!
Cresce-lhe a intracefálica tortura,
E de su'alma na caverna escura,
Fazendo ultra-epilépticos esforços,
Acorda, com os candieiros apagados,
Numa coreografia de danados,
A família alarmada dos remorsos.
E o despertar de um povo subterrâneo!
É a fauna cavernícola do crânio
- Macbeths da patológica vigília,
Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
As incestuosidades sanguinárias
Que ele tem praticado na família.
As alucinações tácteis pululam.
Sente que megatérios o estrangulam...
A asa negra das moscas o horroriza;
E autopsiando a amaríssirna existência
Encontra um cancro assíduo na consciência
E três manchas de sangue na camisa!
Míngua-se o combustível da lanterna
E a consciência do sátiro se inferna,
Reconhecendo, bêbedo de sono,
Na própria ânsia dionísica do gozo,
Essa necessidade de horroroso,
Que é talvez propriedade do carbono!
Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca...
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de uma esfera opaca.
Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
A condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!
Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria.
Continua o martírio das criaturas:
- O homicídio nas vielas mais escuras,
- O ferido que a hostil gleba atra escarva,
- O último solilóquio dos suicidas -
E eu sinto a dor de todas essas vidas
Em minha vida anônima de larva!"
Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,
Da luz da lua aos pálidos venábulos,
Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo,
julgava ouvir monótonas corujas,
Executando, entre caveiras sujas,
A orquestra arrepiadura do sarcasmo!
Era a elegia panteísta do Universo,
Na podridão do sangue humano imerso,
Prostituído talvez, em suas bases...
Era a canção da Natureza exausta,
Chorando e rindo na ironia infausta
Da incoerência infernal daquelas frases.
E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandíloquos massacres,
Há-de ferir-me as auditivas portas,
Até que minha efêmera cabeça
Reverta à quietação da treva espessa
E à palidez das fotosferas mortas!


Discurso nas comemorações do Dia do Trabalho em 1º de maio de 1940 ( GETÚLIO VARGAS )

Trabalhadores do Brasil: Aqui estou, como de outras vezes, para compartilhar as
vossas comemorações e testemunhar o apreço em que tenho o homem de trabalho como
colaborador direto da obra de reconstrução política e econômica da Pátria. Não
distingo, na valorização do esforço construtivo, o operário fabril do técnico de
direção, do engenheiro especializado, do médico, do advogado, do industrial ou
do agricultor. O salário, ou outra forma de remuneração, não constitui mais do
que um meio próprio a um fim, e esse fim é, objetivamente, a criação da riqueza
nacional e o surto de maiores possibilidades à nossa civilização.
A despeito da vastidão territorial, da abundância de recursos naturais e da
variedade de elementos de vida, o futuro do país repousa, inteiramente, em nossa
capacidade de realização. Todo trabalhador, qualquer que seja a sua profissão é,
a este respeito, um patriota que conjuga o seu esforço individual à ação
coletiva, em prol da independência econômica da nacionalidade. O nosso progresso
não pode ser obra exclusiva do Governo, sim de toda a Nação, de todas as
classes, de todos os homens e mulheres, que se enobrecem pelo trabalho,
valorizando a terra em que nasceram.
Constitui preocupação constante do regime que adotamos difundir entre os
elementos laboriosos a noção da responsabilidade que lhe cabe no desenvolvimento
do país, pois o trabalho bem feito é uma alta forma de patriotismo, como a
ociosidade uma atitude nociva e reprovável. Nas minhas recentes excursões aos
Estados do Centro e do Sul, em conta to com as mais diversas camadas da
população, recebi caloroso acolhimento e manifestações que testemunham, de modo
inequívoco, a confiança que os brasileiros, desde os simples operários aos
expoentes das atividades produtoras, depositam na ação governamental.
Falando em momento como este, diante de uma multidão que vibra de Exaltação
patriótica, não posso deixar de pensar como os nossos governantes permaneceram,
durante tanto tempo, indiferentes à cooperação construtiva das classes
trabalhadoras. Relegados a existência vegetativa, privados de direitos e
afastados dos benefícios da civilização, da cultura e do conforto, os
trabalhadores brasileiros nunca obtiveram, sob os governos eleitorais, a menor
proteção, o mais elementar amparo. Para arrancar-lhes os votos, os políticos
profissionais tinham de mantê-los desorganizados e sujeitos à vassalagem dos
cabos eleitorais.
A obra de reparação e justiça realizada pelo Estado Novo distancia-nos,
imensamente, desse passado condenável, que comprometia aos nossos sentimentos
cristãos e se tornara obstáculo insuperável à solidariedade nacional. Naquela é
poca, ao aproximar-se o Primeiro de Maio, o ambiente era bem diverso.
Generalizavam-se as apreensões e abria-se um período de buscas policiais no
núcleos associativos, pondo-se em custódia os suspeitos, dando a todos uma
sensação de insegurança e exibindo um luxo de força nas ruas e locais de
reunião, que, não raro, redundavam em choques e conflitos sangrentos.
Atualmente, a data comemorativa dos homens de trabalho é festiva e de
confraternização.
Os benefícios da política trabalhista, empreendida nestes últimos anos, alcançam
profundamente todos os grupos sociais, promovendo o melhoramento das condições
de vida nas várias regiões do país e elevando o nível de saúde e de bem-estar
geral. A ação tutelar e providente do Estado patenteia-se, de modo constante, na
solicitude com que cria os serviços de proteção ao lar operário, de assistência
à infância, de alimentação saudável e barata, de postos de saúde, de creches e
maternidades, instituído o ensino profissional junto às fábricas e, ultimamente,
voltando as suas vistas para a construção de vilas operárias e casas populares.
Na continuação desse programa renovador, que encontrou no atual ministro do
Trabalho um eficiente e devotado orientador, assinamos, hoje, um ato de
incalculável alcance social e econômico: a lei que fixa o salário mínimo para
todo o país. Trata-se de antiga aspiração popular, promessa do movimento
revolucionário de 1930. Agora transformada em realidade, depois de longos e
acurados estados. Procuramos, por esse meio, assegurar ao trabalhador
remuneração eqüitativa, capaz de proporcionar-lhe o indispensável para o
sustento próprio e da família. O estabelecimento de um padrão mínimo de vida
para a grande maioria da população, aumentando, no decorrer do tempo, os índices
de saúde e produtividade, auxiliará a solução de importantes problemas que
retardam a marcha do nosso progresso.
À primeira vista, poderão pensar os menos avisados que a medida é prematura e
unilateral, visto beneficiar, apenas, os trabalhadores assalariados. Tal, porém,
não ocorre no plano do Governo. A elevação do nível de vida eleva, igualmente, a
capacidade aquisitiva das populações e incrementa, por conseguinte, as
indústrias, a agricultura e o comércio, que verão crescer o consumo geral e o
volume da produção.
As bases da nossa legislação social já estão solidamente lançadas nas leis que
regulam a duração do trabalho, a higiene industrial, a ocupação das mulheres e
menores, as aposentadorias e indenizações de acidentes, as associações
profissionais, os convênios coletivos e a arbitragem. Ultima-se, agora, a
organização da Justiça do Trabalho, cuja regulamentação está na fase final de
estudos e deverá ser posta em vigor dentro de pouco. É uma legislação que tende
a ampliar-se e a cobrir com a sua proteção os diversos ramos da economia
nacional, da fábrica aos campos, das oficinas aos estabelecimentos comerciais,
empresas de transportes e todos os empregos e ocupações. As sugestões da
experiência e as imposições da necessidade irão, naturalmente, indicando
modificações e ampliações cuidadosas. Chegaremos, assim, a consolidar esse corpo
de leis num Código do Trabalho adequando às condições do nosso progresso. Não é
de mais observar, a propósito das nossas conquistas de ordem social, que povos
de civilização mais velha, apontados como modelos a copiar, ainda não
conseguiram resolver satisfatoriamente as relações de trabalho, que continuam
sendo, para eles, causa de perturbações para o bem comum.
Embora deixados ao abandono, os nossos trabalhadores souberam resistir às
influências malsãs dos semeadores de ódios, a serviços de velhas e novas
ambições de poderio político, consagrados a envenenar o sentimento brasileiro de
fraternidade com o exotismo das lutas de classes. O ambiente nacional tem
reagido sadiamente contra esses agentes de perturbações e desordem. A propaganda
insidiosa e dissolvente, apenas, impressionou os pobres de espírito e ser viu
para agitar os mal intencionados.
Quem quer que observe a história e a dura lição sofrida por outros povos verá
que os extremismos, mesmo quando logram uma vitória efêmera, caem logo vítimas
dos próprios erros e das paixões que desencadearam, sacrificando muitas
aspirações justas e legítimas, que poderiam ser alcançadas pacificamente. A
sociedade brasileira, felizmente, repele, por índole, as soluções. Corrigidos os
abusos e imprevidências do passado, podermos encarar o futuro com serenidade,
certos de que as utopias ideológicas, na prática, verdadeiras calamidades
sociais, não conseguirão afastar-nos das normas de equilíbrio e bom senso em que
se pro cessa a evolução da nacionalidade.
Só o trabalho fecundo, dentro da ordem legal que as segura a todos patrões e
operários, chefes de indústrias e proletários, lavradores, artesãos,
intelectuais - um regime de justiça e de paz, poderá fazer a felicidade da
pátria brasileira.


O gigante egoísta(OSCAR WILDE)

Todas as tardes, ao regressar da escola, costumavam as crianças ir brincar no
jardim do Gigante.
Era um jardim amplo e belo, com um macio e verde gramado. Aqui e ali, por sobre
a relva erguiam-se lindas flores como estrelas e havia doze pessegueiros que na
primavera floresciam em delicados botões cor-de-rosa e pérola, e no outono davam
saborosos frutos. Os pássaros pousavam nas árvores e cantavam tão suavemente que
as crianças costumavam parar seus brinquedos, a fim de ouvi-los. - Como somos
felizes aqui!-, gritavam uns para os outros.
Um dia o Gigante voltou. Tinha ido visitar seu amigo o Ogre de Cornualha e ali
vivera com ele durante sete anos. Passados os sete anos, dissera tudo quanto
tinha a dizer, pois sua conversa era limitada, e decidiu voltar para seu
castelo. Ao chegar, viu as crianças brincando no jardim.
- Que estão vocês fazendo aqui? - gritou ele, com voz bastante ríspida e as
crianças puseram-se em fuga.
- Meu jardim é meu jardim - disse o Gigante -. Todos devem entender isto e não
consentirei que nenhuma outra pessoa, senão eu, brinque nele.
Construiu um alto muro cercando-o e pôs nele um cartaz:
É PROIBIDA A ENTRADAOS TRANSGRESSORES SERÃO PROCESSADOS
Era um Gigante muito egoísta.
As pobres crianças não tinham agora lugar onde brincar. Tentaram brincar na
estrada, mas a estrada tinha muita poeira e estava cheia de pedras duras, e isto
não lhes agradou. Tomaram o costume de vaguear, terminadas as lições, em redor
dos altos muros, conversando a respeito do belo jardim por eles cercados. - Como
éramos felizes ali!- diziam uns aos outros.
Depois chegou a primavera e por todo o país havia passarinhos e florinhas.
Somente no jardim do Gigante Egoísta reinava ainda o inverno. Os pássaros, uma
vez que não havia meninos, não cuidavam de cantar nele e as árvores esqueciam-se
de florescer. Somente uma bela flor apontou a cabeça dentre a relva, mas quando
viu o cartaz, ficou tão triste por causa das crianças que se deixou cair de novo
no chão, voltando a dormir. Os únicos que se alegraram foram a Neve e a Geada.
- A primavera esqueceu-se deste jardim - exclamaram -. de modo que viveremos
aqui durante o ano inteiro.
A Neve cobriu a relva com seu grande manto branco e o Gelo pintou todas as
árvores de prata. Então convidaram o Vento Norte para ficar com eles e o vento
veio. Estava envolto em peles e bramava o dia inteiro no jardim, derrubando
chaminés.
- Este lugar é delicioso - dizia ele -. Devemos convidar o Granizo a fazer-nos
uma visita.
De modo que o Granizo veio. Todos os dias, durante três horas, rufava no telhado
do castelo, até que quebrou a maior parte das ardósias, e depois punha-se a dar
voltas loucas no jardim, o mais depressa que podia. Trajava de cinzento e seu
hálito era frio como gelo.
- Não posso compreender por que a Primavera está demorando tanto a chegar -
disse o Gigante Egoísta, ao sentar-se à janela e olhar para fora, para seu
jardim frio e branco -. Espero que haja uma mudança de tempo.
Mas a Primavera nunca chegou, nem tampouco o Verão. O Outono deu frutos áureos a
todos os jardins, mas ao jardim do Gigante não deu nenhum.
- É demasiado egoísta - disse ele.
De modo que havia sempre Inverno ali e o Vento Norte, e o Granizo, e a Geada e a
Neve dançavam por entre as árvores.
Uma manhã jazia o Gigante acordado em sua casa, quando ouviu uma música
deliciosa. Soava tão docemente a seus ouvidos que pensou que deviam ser os
músicos do Rei que iam passando. Era na realidade apenas um pequeno pintarroxo
que cantava do lado de fora de sua janela, mas já fazia tanto tempo que não
ouvia ele um pássaro cantar em seu jardim que lhe pareceu aquela a mais bela
música do mundo. Então o Granizo parou de bailar por cima da cabeça dele, o
Vento Norte cessou seu rugido e delicioso perfume chegou até ele pela janela
aberta.
- Creio que chegou por fim a Primavera - disse o Gigante, saltando da cama e
olhando para fora.
Que viu ele?
Viu um espetáculo maravilhoso. Por um buraco feito no muro, as crianças
tinham-se introduzido no jardim, encarapitando-se nas árvores. Em todas as
árvores que conseguia ver achava-se uma criancinha. E as árvores sentiam-se tão
contentes por ver as crianças de volta que se haviam coberto de botões e
agitavam seus galhos gentilmente por cima das cabeças das crianças. Os pássaros
revoluteavam e chilreavam, com deleite, e as flores riam, apontando as cabeças
por entre a relva. Era um belo quadro. Apenas em um canto ainda havia inverno.
Era o canto mais afastado do jardim e nele se encontrava um menininho. Era tão
pequeno que não podia alcançar os galhos da árvore e vagava em redor, chorando
amargamente. A pobre árvore estava ainda coberta de geada e neve e o Vento Norte
soprava e rugia por cima dela.
- Sobe, menino! - dizia a Árvore, inclinando seus ramos o mais baixo que podia.
Mas o menino era demasiado pequenino.
E ao contemplar o Gigante aquela cena seu coração enterneceu-se.
- Como tenho sido egoísta - disse. Agora estou sabendo por que a Primavera não
vinha cá. Vou colocar aquele pobre menininho no alto da árvore e depois
derrubarei o muro e meu jardim será para todo o sempre o lugar de brinquedo para
os meninos.
Sentia-se deveras muito triste pelo que tinha feito.
De modo que desceu as escadas e abriu a porta de entrada bem devagarinho, saindo
para o jardim. Mas quando as crianças o viram, ficaram tão atemorizadas que
saíram todas a correr e o jardim voltou a ser como no inverno. Somente o
menininho não correu, pois seus olhos estavam tão cheios de lágrimas que não
viram o Gigante chegar. E o Gigante deslizou por trás dele, apanhou-o
delicadamente com a mão e colocou-o no alto da árvore. E a árvore imediatamente
abriu-se em flor e os pássaros chegaram e cantaram nela pousados e o menininho
estendeu seus dois braços, cercou com eles o pescoço do Gigante e beijou-o. E as
outras crianças, quando viram que o Gigante já não era mau, voltaram correndo e
com eles veio também a Primavera.
- O jardim agora é de vocês, criancinhas - disse o Gigante, que pegou um grande
machado e derrubou o muro. E quando as pessoas iam passando para a feira ao
meio-dia, encontraram o Gigante a brincar com as crianças no mais belo jardim
que jamais haviam visto.
Brincaram o dia inteiro e à noitinha dirigiram-se ao Gigante para despedir-se.
- Mas onde está o companheirinho de vocês? - perguntou -. O menino que eu pus na
árvore?
O Gigante gostava mais dele porque o havia beijado.
- Não sabemos - responderam as crianças -. Foi-se embora.
- Devem dizer-lhe que não deixe de vir amanhã - disse o Gigante. Mas as crianças
responderam-lhe que não sabiam onde ele morava e nunca o tinham visto antes. E o
Gigante sentiu-se muito triste.
Todas as tardes, quando as aulas terminavam, as crianças chegavam para brincar
com o Gigante. Mas o menininho de quem o Gigante gostava nunca mais foi visto de
novo. O Gigante mostrava-se muito bondoso para com todas as crianças, contudo
tinha saudades do seu primeiro amiguinho e muitas vezes a ele se referia.
- Como gostaria de vê-lo! - costumava dizer.
Os anos se passaram e o Gigante foi ficando muito velho e fraco. Não podia mais
tomar parte nos brinquedos, de modo que se sentava numa grande cadeira de braços
e contemplava o brinquedo das crianças e admirava seu jardim.
- Tenho belas flores em quantidade - dizia ele , mas as crianças são as mais
belas flores de todas.
Numa manhã de inverno, olhou de sua janela, enquanto se vestia. Não odiava o
Inverno agora, pois sabia que era apenas a Primavera adormecida e que as flores
estavam descansando.
De repente, esfregou os olhos, maravilhado, e olhou e tornou a olhar. Era
realmente uma visão maravilhosa. No canto mais afastado do jardim via-se uma
arvore toda coberta de alvas e belas flores. Seus ramos eram cor de ouro e
frutos prateados pendiam deles e por baixo estava o menininho que ele amara.
O Gigante desceu as escadas a correr, com grande alegria, e saiu para o jardim.
Atravessou correndo o gramado e aproximou-se da criança. E quando chegou bem
perto dela, seu rosto ficou vermelho de cólera e perguntou.
- Quem ousou ferir-te?
Pois nas palmas das mãos da criança viam-se as marcas de dois cravos e as marcas
de dois cravos nos pequeninos pés.
- Quem ousou ferir-te? - gritou o Gigante -. Dize-me, para que eu possa tirar
minha grande espada e matá-lo.
- Não - respondeu o menino -. São estas as feridas do Amor.
- Quem és? - perguntou o Gigante, sentindo-se tomado dum grande respeito e
ajoelhando-se diante do menininho.
E o menino sorriu para o Gigante e disse:
- Tu me deixaste brincar uma vez em teu jardim, hoje virás comigo para o meu
jardim, que é o Paraíso.
E quando as crianças chegaram correndo naquela tarde, encontraram o Gigante
morto sob a árvore toda coberta de alvas flores.


O Apóstolo ( RAINER MARIA RILKE )

Mesa redonda no melhor hotel de N... Contra as paredes de mármore da alta e
clara sala de jantar ondula o rumor humano e o barulho dos talheres.
Apressados, como sombras mudas, os criados de casaca preta andam de cá
para lá com as bandejas de prata. Nos baldes com gelo brilham garrafas de
champanhe. Tudo cintila à luz das lâmpadas eléctricas: as taças, os olhos e as
jóias das mulheres, os crânios luzidios dos cavalheiros e até mesmo as
palavras que saltam como faúlhas. Quando são espirituosas, estala, mais perto
ou mais longe, o chamejar agudo dum riso breve numa garganta feminina.
Depois as senhoras comem a sopa fumegante em finas taças translúcidas,
enquanto os jovens ajustam o monóculo e percorrem com um olhar crítico a
mesa multicor.
Eram todos eles frequentadores que se conheciam já. Mas, nesse dia, um
desconhecido sentara-se numa das extremidades da mesa. Os homens
deitaram-lhe um olhar rápido, porque o traje desse homem pálido e grave não
era da última moda. Subia-lhe até ao queixo um alto colarinho branco e
apertava-lhe o pescoço a grande gravata negra que se usava no começo do
século. O casaco preto assentava-lhe nos ombros largos. O mais surpreendente
eram os grandes olhos cinzentos do recém-chegado, que com olhar solene e
poderoso parecia trespassar de lado a lado toda a assistência, e que brilhava
como se algum longínquo desígnio nele incessantemente se reflectisse.
Aquele olhar atraía os olhos das mulheres curiosas que o interrogavam em
segredo. Murmuraram toda a espécie de suposições, tocaram-se com o pé,
interrogaram-se, encolheram os ombros e, apesar de tudo, não conseguia
explicar-se aquela presença.
A baronesa polaca Vilovsky, jovem e espirituosa Witib, estava ao centro dos
conservadores. Também ela parecia interessar-se pelo taciturno desconhecido.
Os seus grandes olhos negros suspendiam-se com estranha insistência nos
traços cavados do estrangeiro. A sua mão fina tamborilava nervosamente na
toalha adamascada, fazendo brilhar a magnífica jóia que ornava um dos seus
anéis. Com uma pressa impaciente e pueril, ora falava de um assunto, ora
doutro, para depois se interromper bruscamente ao notar que o estrangeiro não
tomava parte na conversação. Julgava-o um artista com muita habilidade e
levava a conversa para os temas de arte mais diversos. Em vão. O
desconhecido vestido de preto conservava o olhar perdido no vago. Mas a
baronesa Vilovsky não abandonava a partida.
- Já ouviu falar do terrível incêndio na aldeia de B...?- perguntou ela ao seu
vizinho.
E como lhe respondesse afirmativamente, acrescentou: - Proponho formarmos
uma comissão para organizar um peditório e uma obra de beneficência em
favor das vítimas desse incêndio.
Lançou em volta olhares interrogadores. Vivas aprovações acolheram a
proposta. Um sorriso sarcástico iluminou o rosto do desconhecido. A baronesa
sentiu esse sorriso sem o ver. Uma grande cólera a agitava.
- Está toda a gente de acordo? - observou ela num tom imperioso, que não
admitia réplicas. E ouviu-se então um coro de vozes:
- Sim, de acordo! Naturalmente!
O conviva que me ficava defronte, um banqueiro de Colónia, com gesto
eloquente, ia já a meter a mão no bolso que continha a sua carteira cheia de
notas do banco.
- Podemos contar consigo, senhor? - perguntou a baronesa ao estrangeiro. A
sua voz tremia. O desconhecido pôs-se de pé e, em voz alta, sem olhar, num
tom brutal, disse:
- Não!
A baronesa estremeceu. Sorriu contrafeita. Todos os olhos estavam fitos no

estrangeiro. Este dirigiu o seu olhar à baronesa e prosseguiu:
- A senhora comete um acto inspirado pelo amor; eu, pela minha parte, ando
através do mundo com o propósito de matar o mesmo amor. Seja onde for que
o encontre, assassino-o. E encontro-o muitas vezes em choupanas, nos
castelos, nas igrejas e na natureza. Mas persigo-o impiedosamente. E da
mesma maneira que na Primavera os ventos quebram a rosa que demasiado
cedo desabrochou, assim também a minha grande e obstinada vontade a
destrói: porque penso que a lei do amor nos foi prematuramente imposta.
A sua voz ressoou cavernosa como o eco do som do sino às Ave-Marias. A
baronesa fez menção de responder, mas o homem continuou: - Não me
compreendeu ainda. Escute-me. Os homens não se encontravam amadurecidos
quando o Nazareno veio até eles e lhes trouxe o amor. Na sua generosidade
pueril e ridícula, julgava ele fazer-lhes bem. Para uma raça de gigantes, o
amor teria sido um confortável travesseiro na brancura do qual poderiam com
volúpia sonhar novos feitos. Mas para homens fracos é a extrema decadência.
Um sacerdote católico que se encontrava presente levou a mão ao colarinho
como se sentisse faltar-lhe o fôlego.
- A extrema decadência!... - exclamava o estrangeiro. - Não falo do amor entre
os sexos. Falo do amor do próximo, da caridade e da piedade, da graça e da
indulgência. Não há piores venenos para a nossa alma!
Um som indistinto se ouviu entre os espessos lábios do sacerdote.
- Dize-me tu, ó Cristo: que fizeste? Parece-me que fomos educados como
aqueles animais ferozes que se procuram desabituar dos seus mais profundos
instintos, no propósito de lhes bater impunemente com um látego de domador
quando eles se tornarem meigos. Da mesma maneira nos limaram os dentes e
as garras e nos pregaram o amor do próximo. Arrancaram-nos das mãos o
brilhante dardo da nossa vontade altiva e pregaram-nos o amor do próximo! E
foi assim que nos entregaram nus à tempestade da vida, na qual
incessantemente sobre nós caem as marretadas do destino, ao mesmo tempo
que, por outro lado, se nos prega o amor do próximo!
Todos, sustendo a respiração, escutavam. Os criados não se atreviam a mexer-
se e mantinham-se firmes perto da mesa segurando nas mãos as bandejas de
prata. As palavras do desconhecido, como um sopro violento de tempestade,
rompiam o abafado silêncio.
- E nós obedecemos - continuou ele. - Obedecemos cega e estupidamente a
essa ordem insensata. Partimos em procura daqueles que tinham sede, dos que
tinham fome, dos doentes, dos leprosos, dos fracos e nós próprios somos
doentes e miseráveis. Sacrificamos a nossa vida para erguer aqueles que
caíam, animar os que duvidavam, consolar os que estavam tristes, e nos
próprios desesperamos. Aos que tinham assassinado as nossas mulheres e os
nossos filhos, tinham lançado a discórdia nos nossos lares, não destruímos as
suas próprias casas, e eles puderam esperar nelas calmamente o fim dos seus
dias.
Um terrível acento de zombaria fez-lhe tremer a voz, e continuou:
- Aquele que celebram como Messias transformou o mundo inteiro num
enorme hospício de doentes incuráveis. Os fracos, os miseráveis e os inválidos
são seus filhos e seus favoritos. Então os fortes viriam ao mundo apenas para
proteger, servir e velar por esses inermes seres? E se eu sinto em mim um
fogoso entusiasmo, um entusiasmo intenso e celeste para a luz, se subo com
firmeza o caminho escarpado e pedregoso, devo acaso, quando vejo já
flamejar o divino fim, inclinar-me para o inválido caído à beira do caminho?
Devo anima-lo, erguê-lo, arrasta-lo comigo e gastar a minha força ardente a
tratar desse cadáver impotente que, alguns passos adiante, cairá de novo,
prostrado? Como havemos nós de subir, se todas as nossas forças forem
aplicadas em proteger e erguer os miseráveis, os oprimidos e até mesmo os
preguiçosos hipócritas que não têm medula nem alma?
Elevou-se um murmúrio.
- Silêncio! - exclamou o estrangeiro numa voz de estentor. - Sois demasiado
fracos para confessardes que é assim mesmo como eu digo. Desejais enterrar-
vos eternamente no pântano. Julgais ver o céu porque vedes o reflexo dele no
regato. Ora, compreendei-me bem. Ligaram a nossa força à terra. É preciso
que ela se apague miseravelmente nos braseiros da misericórdia. Deve servir
apenas para acender o incenso da piedade, para produzir os vapores que nos
entorpecem os sentidos. Ela, essa força que poderia elevar-se para o céu como
uma grande chama livre e jubilosa!
Todos se calaram. Sorridente, o estranho desconhecido prosseguiu:
- E se os nossos antepassados fossem macacos, animais selváticos movidos
por poderosos instintos naturais, e se um Messias lhes tivesse pregado o amor
do próximo, obedecendo à sua palavra eles ter-se-iam impedido de realizar
todo e qualquer desenvolvimento das suas possibilidades. Nunca a massa
múltipla e estúpida pode determinar o progresso; só o «único», o grande, que
odeia a populaça, obscuramente consciente da sua baixeza, pode caminhar
sem receios na estrada da vontade, com uma força divina e um sorriso
vitorioso nos lábios. A nossa geração também não esta no cume da pirâmide
infinita do devir. Também nós não significamos um termo. Também nós não
estamos ainda demasiado amadurecidos como vós presunçosamente acreditais.
Portanto, para a frente! Não havemos de elevar-nos pelo conhecimento, pela
vontade e pelo poder? Não devem os fortes conseguir escapar da atmosfera de
constrangimento e de inveja das massas para seguirem em direcção à luz?
«Ouçam-me todos! Encontramo-nos em pleno combate! À direita e à esquerda
de nós caem os nossos companheiros; caem vítimas de fraqueza, de doença, de
vício e de loucura... e de todos os outros projécteis que sobre eles vomita o
destino terrível. Deixem-nos cair, deixem-nos morrer abandonados,
miseráveis! Sejam duros, sejam terríveis, sejam impiedosos! É preciso
avançar. Para a frente!
«Para que são esses olhares de temor? Sois acaso cobardes? Receais, vós
também, ficar para trás? Pois então deixai-vos para estoirar como cães! Sou
forte, tenho direito de viver. O forte segue sempre em frente!... As fileiras
cerradas abrir-se-lhe-ão. Mas são pouco numerosos os grandes, os poderosos,
os divinos que, com os olhos cheios de sol, esperam a nova terra sagrada.
Talvez que isso ocorra dentro de milhares de anos. Talvez que então, com os
seus braços fortes, musculosos e imperiosos construam um templo sobre os
corpos dos doentes, dos fracos e dos enfezados... Um império eterno...»
Os olhos brilhavam-lhe. Levantara-se. A sua silhueta erguia-se com grandeza
sobrenatural. Parecia aureolado de luz. Tinha o aspecto de um deus.
O olhar pareceu demorar-se-lhe um momento na visão maravilhosa; depois
regressando, subitamente, à realidade concluiu:
- Vou através do mundo para matar o amor. Que a força seja convosco! Vou-
me através do mundo para pregar aos fortes: ódio, ódio e ainda ódio!
Todos se olharam, mudos. A baronesa, dominada por viva emoção, calcava o
lenço contra as pálpebras.
Quando ela levantou os olhos, o lugar ao canto da mesa estava vazio.
Percorreu-os a todos um frémito. Ninguém proferiu palavra. Os criados,
trémulos ainda, retomaram o serviço.
O gordo banqueiro, sentado em frente de mim, foi o primeiro a retomar o uso
da palavra.
Disse entre dentes:- Era um louco ou...
Não ouvi o resto da frase, porque o homem mastigava com a boca muito cheia
um pedaço de empadão de lagosta.