É o comer que faz a fome
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
É o coração que faz o caráter.
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
A Gente nasce e morre só. E talvez por isso mesmo é que se precisa tanto de viver acompanhado.
( Frases e Pensamentos de Rachel de Queiroz) Mensagem sobre solidão
Poupe-se ao boi a vista ao malho.
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
A todo viver corresponde um sofrer.
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
A Gente nasce e morre só. E talvez por isso mesmo é que se precisa tanto de viver acompanhado.
( Frases e Pensamentos de Rachel de Queiroz) Mensagem sobre solidão
Que mérito há em amar os que nos amam?
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
Os noticiosos têm todos a mesma notícia.
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
Os políticos têm todos a mesma política.
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
Morrer,só se morre só. O moribundo se isola numa redoma de vidro,ele e a sua agonia. Nada ajuda nem acompanha.
( Frases e Pensamentos de Rachel de Queiroz) Mensagem sobre Morte
Se a tua dor te aflige, faz dela um poema.
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
Morrer,só se morre só. O moribundo se isola numa redoma de vidro,ele e a sua agonia. Nada ajuda nem acompanha.
( Frases e Pensamentos de Rachel de Queiroz) Mensagem sobre Morte
Para ensinar há uma formalidade a cumprir: saber.
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
A felicidade no amor dá tudo, até as boas cores
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
A arte é um resumo da natureza feito pela imaginação
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
Para aparecerem no jornal, há assassinos que assassinam
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
O apreço exterior pela arte é a sobrecasaca da inteligência.
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
Portugal é um país muito bonito, o problema é os Portugueses.
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
Não haveria o direito de vencer, se não houvesse o direito de perdoar.
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
Os sentimentos mais genuinamente humanos logo se desumanizam na cidade
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
Na arte têm importância os que criam almas, e não os que reproduzem costumes.
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
Ah nunca homem deste século batalhou mais esforçadamente contra a seca de viver.
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
A imprensa é composta de duas ordens de periódicos: os noticiosos e os políticos.
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
A curiosidade leva por um lado a escutar às portas e por outro a descobrir a América
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
A arte é um compêndio da natureza formado pela imaginação.
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiroz) Mensagem sobre Arte
Pensar e fumar são duas operações idênticas que consistem em atirar pequenas nuvens ao vento
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
Um homem de letras, que não escreve as suas memórias, tem realmente direito a que outros lhas não escrevam
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
Nada há de mais ruidoso - e que mais vivamente se saracoteie com um brilho de lantejoulas - do que a política
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
Quem sem descanso apregoa a sua virtude, a si próprio se sugestiona virtuosamente e acaba por ser às vezes virtuoso
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
O riso é uma filosofia. Muitas vezes o riso é uma salvação. E em política constitucional, pelo menos, o riso é uma opinião.
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
A arte oferece-nos a única possibilidade de realizar o mais legítimo desejo da vida - que é não ser apagada de todo pela morte
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
no fundo, nós somos todos fadistas: do que gostamos é de vinhaça e viola e bordoada, e viva lá sô compadre (acerca os portugueses)
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
O jornal exerce hoje todas as funções do defunto Satanás, de quem herdou a ambigüidade. E é não só o pai da mentira, mas o pai da discórdia.
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
O riso é a mais útil forma da crítica, porque é a mais acessível à multidão. O riso dirige-se não ao letrado e ao filósofo, mas à massa, ao imenso público anónimo
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
Nas nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas, os homens praticam todas as acções - mesmo as boas
( Frases e Pensamentos de Eça de Queiróz )
Uma religião a que se elimine o ritual desaparece - porque as religiões
para os homens (com excepção dos raros metafísicos, moralistas e místicos) não
passam de um conjunto de ritos, através dos quais cada povo procura estabelecer
uma comunicação íntima com o seu deus e dele obter favores.
Nas nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete
linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas, os
homens praticam todas as acções - mesmo as boas.
(...) Para aparecerem no jornal, há assassinos que assassinam.
(...) O jornal exerce todas as funções do defunto Satanás, de quem herdou a
ubiquidade; e é não só o pai da mentira, mas o pai da discórdia.
O riso é a mais útil forma da crítica, porque é a mais acessível à
multidão. O riso dirige-se não ao letrado e ao filósofo, mas à massa, ao imenso
público anónimo. É por isso que hoje é tão útil como irreverente rir das ideias
do passado: a multidão não se ocupa de ideias, ocupa-se das fórmulas visíveis,
convencionais das ideias. Por exemplo: o povo em Portugal, nas províncias, não é
católico - é padrista: que sabe ele da moral do cristianismo? da teologia? do
ultramontanismo? Sabe do santo de barro que tem em casa, e do cura que está na
igreja.
Eis que temos aqui a Poesia,
a grande Poesia.
Que não oferece signos
nem linguagem específica, não respeita
sequer os limites do idioma. Ela flui, como um rio.
como o sangue nas artérias,
tão espontânea que nem se sabe como foi escrita.
E ao mesmo tempo tão elaborada -
feito uma flor na sua perfeição minuciosa,
um cristal que se arranca da terra
já dentro da geometria impecável
da sua lapidação.
Onde se conta uma história,
onde se vive um delírio; onde a condição humana exacerba,
até à fronteira da loucura,
junto com Vincent e os seus girassóis de fogo,
à sombra de Eva Braun, envolta no mistério ao
mesmo tempo
fácil e insolúvel da sua tragédia.
Sim, é o encontro com a Poesia.
Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar
oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a
moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações.
A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso,
diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade,
pela frivolidade e pelo interesse.
A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias;
ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da
vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali
há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de
grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros
inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a
miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura;
combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os
desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com
dor e com raiva.
À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos
querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, ávidos de
consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade.
(in Folha de São Paulo, 27/06/00)
Em 1990, quando tomei posse de minha cadeira na Academia Brasileira de Letras,
agi de modo a ligar o mais possível a cerimônia, o uniforme, o colar e a espada
aos rituais de festa do nosso povo. Eu lera, de Gandhi, uma frase que me
impressionou profundamente. Dizia ele que um indiano verdadeiro e sincero, mas
pertencente a uma das classes mais poderosas de seu país, não deveria nunca
vestir uma roupa feita pelos ingleses. Primeiro, porque estaria se acumpliciando
com os invasores. Depois, porque, com isso, tiraria das mulheres pobres da Índia
um dos poucos mercados de trabalho que ainda lhes restavam.
A partir daí, passei a usar somente roupas feitas por uma costureira popular,
Edite Minervina. E também foi ela quem cortou e costurou meu uniforme acadêmico,
bordado por Cicy Ferreira. Isaías Leal fez o colar e a espada, unindo, nesta,
num só emblema, a zona da mata e o sertão.
Naquele ano, era Miguel Arraes quem governava Pernambuco. E, como o Estado que
me adotou como filho se encarregou da doação normalmente feita ao acadêmico pela
terra de seu nascimento, combinei tudo com o governador e fizemos, no palácio do
Campo das Princesas, uma espécie de cerimônia prévia na qual Arraes (que, como
eu, é egresso do Brasil oficial, mas procura se ligar ao real) faria o discurso
de entrega das insígnias; e artistas populares me entregariam os adereços feitos
por eles: Edite e Cicy, o fardão, Isaías Leal, o colar, e mestre Salusitano, a
espada (que, na ABL, meseria entregue por meu mestre Barbosa Lima Sobrinho).
Depois que Isaías Leal me deu o colar, no Recife, pedi à maior cantadora
nordestina, Mocinha de Passira, que o colocasse em meu pescoço - uma vez que, na
Academia, escolhera para isso outra mulher, minha querida Rachel de Queiroz.
Como se vê, em tudo, eu tentava mostrar, do modo canhestro, simbólico e precário
que me é possível, que, apesar de nascido e criado no Brasil oficial, procuro
sempre não esquecer que existe o Brasil real e é a seu lado que me alinho em
todas as circunstâncias da minha vida.
Foi por tudo isso também que, escrevendo aqui em dezembro do ano passado,
escolhi dois personagens simbólicos para representarem o Brasil real. Dizia: -O
primeiro é Chico Ambrósio, cabreiro do sertão da paraíba, homem de sangue
predominantemente indígena e jeito aciganado; a outra é Mocinha de Passira,
violeira dotada de uma voz impressionante”
E concluía: -Na minha opinião, o que devemos fazer é olhar o brasil de Chico e
Mocinha para seguir e aprofundar (no campo social, político e econômico) o
caminho indicado por Antônio Conselheiro - aquele socialismo-de-pobre que, para
nós, foi uma picada aberta em direção ao sol de Deus.
Nos tempos de desprezo que estamos vivendo em relação à cultura brasileira (e em
especial à popular), espero, então, que pelo menos as nossas universidades
percebam a importância dessa cantora e repentista, que, como afirmei em meu
discurso da ABL, significa para mim, para o Brasil e para o nosso povo o mesmo
que Pastora Pavón representava para García Lorca, para a Espanha e para o povo
espanhol.
A arte oferece-nos a única possibilidade de realizar o mais legítimo desejo
da vida - que é não ser apagada de todo pela morte. Agora que o espírito, tendo
uma consciência mais segura do universo, se recusa a crer na capciosa promessa
das religiões de que ele não acabará inteiramente, e irá ainda, em regiões de
azul ou de fogo, continuar a sua existência pelo êxtase ou pela dor - a única
esperança que nos resta de não morrermos absolutamente como as couves é a fama,
essa imortalidade relativa que só dá a arte.
Só a arte realmente pode dizer aos seus eleitos, com firmeza e certeza: - «Tu
não morrerás inteiramente: e mesmo amortalhado, metido entre as tábuas de um
caixão, regado de água benta, tu poderás continuar por mim a viver. O teu
pensamento, manifestação melhor e mais completa da tua vida, permanecerá
intacto, sem que contra ele prevaleçam todos os vermes da terra; e ainda que,
fixado definitivamente na tua obra, pareça imobilizado nela como uma múmia nas
suas ligaduras, ele terá todavia o supremo sintoma da vida, a renovação e o
movimento, porque fará vibrar outros pensamentos e através das criações deles
estará perpetuamente criando.
Mesmo o teu riso, de um momento, reviverá nos risos que for despertando; e as
tuas lágrimas não secarão porque farão correr outras lágrimas. Ficarás para
sempre vivo, para te misturares perpetuamente à vida dos outros; e as mesmas
linhas do teu rosto, o teu traje, os teus modos, não morrerão, constantemente
rememorados pela curiosidade das gerações. Assim, não desaparecerás nem na tua
forma mortal: e serás desses eternos viventes, mais eternos que os deuses, que
são os contemporâneos de todas as gerações, e vão sempre marchando no meio da
humanidade que marcha, espíritos originais a que se acendem outros espíritos,
para que se não apague o fogo perene da inteligência - iguais a essas quatro ou
cinco lâmpadas que leva a grande caravana de Meca, para que a elas se acendam
lareiras e tochas, e a caravana possa sempre marchar, orando sempre, e segura.
Você começa quando aprende a juntar as letras; faz frases engraçadinhas que seu
avô acha gênio e mostra a todo mundo. Então você se convence de que é escritor.
Essa convicção representa um compromisso, desde aquela idade remota, "já que é
um escritor, é obrigado a escrever". Se os pais são medíocres intelectualmente,
o exercício da suposta vocação torna-se fácil.
Mas quando os pais são ou literatos ou simples letrados muito mais lhe é
exigido. Você tem que apresentar originalidade ao lado da qualidade. Isso quer
dizer que você, desde esses inícios, já padece a maldição do escritor: ter
estilo e idéias animando esse estilo. Em geral, os pais se embasbacam diante de
qualquer manifestação intelectual precoce dos filhotes. Se eles não têm formação
intelectual sofisticada, tudo bem. Qualquer paráfrase dos livros da escola já
lhes parece excelente. Mas pais sofisticados é fogo. Não precisa nem que eles
leiam os modernos, Drummond, Guimarães Rosa, Cecília Meireles, para só citar os
mais ilustres e defuntos. Pai letrado quer que o filho faça pequenas frases,
emita conceitos, tudo dentro da baixa qualidade que a sua literatice considera
excelente. Portanto, para a qualidade da obra do filho, é melhor que os pais não
tenham fumaças literárias e deixem que o menino seja o seu próprio juiz.
E, se ele tiver talento, pode ir longe, liberto dos padrões da mediocridade domé
stica. Esse tipo de condenação não se pode fazer aos pais que realmente ou
produzem ou pelo menos sabem apreciar uma boa peça literária. O filho, em geral,
esconde deles as suas primícias, receoso do julgamento. E ele se faz censor de
si mesmo, olhando com os olhos do pai aquilo que o pai não vê. Existe ainda
outra maneira de ver estimulada a vocação literária dos jovens. É uma casa
aberta onde todo mundo lê, o bom e o ruim, mas onde igualmente todo mundo tem
direito à crítica, a falar o que pensa sobre a produção de pais, irmãos, tios e
visitas íntimas, numa espécie de tribunal literário exercido à mesa de jantar.
Lembro-me da casa de Aníbal Machado, ponto obrigatório dos principiantes ou recé
m-chegados que lá iam (levados por algum "freguês" semanal de Aníbal).
Sendo o dono da casa quem era, além de excelente escritor ele próprio, um
animador generoso e um fino crítico de letras, a sua casa era uma espécie de
fórum literário, referência obrigatória de quem pretendia se apresentar como
escritor: "Ainda no domingo, na casa do Aníbal, ouvi o Vinícius dizer ao Conde
que o modernismo morreu..." e se desmentindo a si próprio acabava mostrando o
seu último poema - fina flor do modernismo, claro.
Mas voltando ao assunto da vocação literária: para escrever, tem que haver o dom
da escrita, tal como para o cantor é preciso o dom da voz. Todos conhecemos
pessoas inteligentes, até brilhantes na sua especialidade - medicina,
arquitetura, engenharia, economia e, na verdade, por mais sabedores que sejam no
seu ofício, não conseguem exprimir na palavra escrita essa sabedoria. Deus
sempre é parco na concessão de dotes: os que acumulam são sempre contados. Por
que as boas cantoras líricas geralmente têm tendência a engordar? E por que as
de bela silhueta quase sempre só dispõem de um fio mal afinado de voz?
Os grandes oradores dificilmente são bons escritores. Parece que eles necessitam
do estímulo de uma audiência cativa para suas frases de efeito. O que
desencadeia o seu talento não é uma página de papel em branco, mas uma audiência
presente. E, pensando bem, isso está certo: por que um único indivíduo pode
receber juntos os dons da escrita e da eloqüência? Eu, por mim, sempre espero
descobrir nos outros os dons ocultos pela modéstia ou timidez. Verdade que nem
sempre tenho êxito; Nosso Senhor parece que só distribui tais dotes com a mão
esquerda...
Eu penso que o riso acabou - porque a humanidade entristeceu. E entristeceu
- por causa da sua imensa civilização. O único homem sobre a Terra que ainda
solta a feliz risada primitiva é o negro, na África. Quanto mais uma sociedade é
culta - mais a sua face é triste. Foi a enorme civilização que nós criámos
nestes derradeiros oitenta anos, a civilização material, a política, a
económica, a social, a literária, a artística que matou o nosso riso, como o
desejo de reinar e os trabalhos sangrentos em que se envolveu para o satisfazer
mataram o sono de Lady MacBeth. Tanto complicámos a nossa existência social, que
a Acção, no meio dela, pelo esforço prodigioso que reclama, se tornou uma dor
grande: - e tanto complicámos a nossa vida moral, para a fazer mais consciente,
que o pensamento, no meio dela, pela confusão em que se debate, se tornou uma
dor maior. O homem de acção e de pensamento, hoje, está implacavelmente votado à
melancolia.
Este pobre homem de acção, que todas as manhãs, ao acordar, sente dentro em si
acordar também o amargo cuidado do pão a adquirir, da situação social a manter,
da concorrência a repelir, da «íngreme escada a trepar», poderá porventura
afrontar o Sol com singela alegria? Não. Entre ele e o Sol está o negro cuidado,
que lhe estende uma sombra na face, lhe mata nela, como a sombra sempre faz às
flores, a flor de todo o riso. Por outro lado o homem de pensamento que
constantemente, pelo fatalismo da educação científica e crítica, busca as
realidades através das aparências, e que no céu só vê uma complicada combinação
de gases, e que na alma só descobre uma grosseira função de órgãos, e que sabe
que porção de fosfato de cal entra em toda a lágrima, e que diante de dois olhos
resplandecentes de amor pensa nos dois buracos da caveira que estão por trás, e
que a todo o sacrifício heróico penetra logo o motivo egoísta, e que caminha
sempre à procura da lei estável e eterna, e que a cada passo perde um sonho, e
que por fim não sabe para onde vai, e nem mesmo sabe quem é - não pode ser senão
um triste!
Desde que homem de acção e homem de pensamento são paralelamente tristes - o
mundo, que é sua obra, só pode mostrar tristeza. Tristeza na sua literatura,
tristeza na sua sociedade, tristeza nas suas festas, tristeza nos fatos negros
de que se veste... Tristeza dentro de si, tristeza fora de si. E quando por
acaso alguém por profissão tradicional, como os palhaços, ou por contraste, ou
pela saudade da antiga alegria e o desejo de a ressuscitar, procura fazer rir
este mundo - só lhe consegue arrancar a tal casquinada curta, áspera, rangente,
quase dolorosa, que parece resultar de cócegas feitas nos pés de um doente.
Não há que duvidar! Voltaram os tempo de Albert Durer! Outra vez o famoso moço
de asas potentes, no meio dos inumeráveis instrumentos das ciências e das artes,
que atulham o seu laboratório, e diante das obras colossais, que com eles
construiu, sente, sob esta produção excessiva que o não tornou nem melhor nem
mais feliz, um imenso desalento, e, considerando a inutilidade de tudo, de novo
deixa pender sobre as mãos a testa coroada de louro.
Pobre moço, que, de muito trabalhar sobre o universo e sobre ti próprio,
perdeste a simplicidade e com ela o riso, queres um humilde conselho? Abandona o
teu laboratório, reentra na Natureza, não te compliques com tantas máquinas, não
te subtilizes em tantas análises, vive uma boa vida de pai próvido que amanha a
terra, e reconquistarás, com a saúde e com a liberdade, o dom augusto de rir.
Mas como pode escutar estes conselhos de sapiência um desgraçado que tem, nos
poucos anos que ainda restam de século, de descobrir o problema da comunicação
interastral, e de assentar sobre bases seguras todas as ciências psíquicas?
O infeliz está votado ao bocejar infinito. E tem por única consolação que os
jornais lhe chamem e que ele se chame a si próprio - o Grande Civilizado.
Quarenta anos, quarenta e cinco. Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o
tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é
claro. A velhice tem suas alegrias, as sua compensações - todos dizem isso,
embora você pessoalmente, ainda não as tenha descoberto - mas acredita.
Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá
aquela nostalgia da mocidade.
Não de amores nem de paixão; a doçura da meia-idade não lhe exige essas
efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu
sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de
criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram
as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas, que hoje são seus
filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento e prestações, você
não encontra de modo algum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres -
não são mais aqueles que você recorda.
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação
ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis - nisso
é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua raça, da
qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela
criancinha, longe de ser um estranho, é um menino que se lhe é "devolvido". E o
espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito sobre ele, ou pelo menos o
seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo ou
decepção, se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor que há anos
se acumulava, desdenhado, no seu coração.
Sim, tenho a certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas
as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes, que
vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis.
Aliás, desconfio muito de que netos são melhores que namorados, pois que as
violências da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos. Se o Doutor Fausto
fosse avô, trocaria calmamente dez Margaridas por um neto...
No entanto! Nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave
maior, a grande rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não
deixa por isso de ser a mãe do neto. Não importa que ela hipocritamente, ensine
a criança a lhe dar beijos e a lhe chamar de "vovozinha" e lhe conte que de
noite, às vezes, ele de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada
mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas posições respectivas,
a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da
esposa e da amante nos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da
domesticidade e da presença constante. Dorme com ele, dá-lhe banho, veste-o,
embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar e o ô
nus de castigar.
Já a avó não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do
imprevisto. Mora em outra casa. Traz presentes. Faz coisas não programadas. Leva
a passear, "não ralha nunca". Deixa lambuzar de pirulito. Não tem a menor
pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último
recurso dos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma
noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os encantos
de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes
uma maravilhosa subversão da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a
sopa e comer croquetes, tomar café, mexer na louça, fazer trem com as cadeiras
na sala, destruir revistas, derramar água no gato, acender e apagar a luz elé
trica mil vezes se quiser - e até fingir que está discando o telefone. Riscar a
parede com lápis dizendo que foi sem querer - e ser acreditado!
Fazer má-criação aos gritos e em vez de apanhar ir para os braços do avô, e lá
escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação moderna...
Sabe-se que, no reino dos céus, o cristão defunto desfruta os mais requintados
prazeres da alma. Porém não estarão muito acima da alegria de sair de mãos dadas
com o seu neto, numa manhã de sol. E olhe que aqui embaixo você ainda tem o
direito de sentir orgulho, que aos bem-aventurados será defeso. Meu Deus, o
olhar das outras avós com seus filhotes magricelas ou obesos, a morrerem de
inveja do seu maravilhoso neto!
E quando você vai embalar o neto e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe
reconhece, sorri e diz "Vó", seu coração estala de felicidade, como pão ao
forno.
E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe
castiga, e ele olha para você, sabendo que, se você não ousa intervir
abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade.
Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e
neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menino - involuntariamente!
- bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com
preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beicinho
pronto para o choro; e depois o sorriso malandro e aliviado porque "ninguém" se
zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, vó? Era um simples boneco que
custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague.