Mau grado o que dizem os moralistas, o entendimento humano deve muito às
paixões, que, de comum acordo, também lhe devem muito: é pela sua actividade que
a nossa razão se aperfeiçoa; só procuramos conhecer porque desejamos gozar; e
não é possível conceber porque aquele que não tivesse desejos nem temores se
desse ao trabalho de raciocinar. As paixões, por sua vez, originam-se a partir
das nossas necessidades, e o seu progresso dos nossos conhecimentos; porque só
podemos desejar ou temer coisas segundo as ideias que temos delas, ou pelo
simples impulso da natureza; e o homem selvagem, privado de toda a sorte de
luzes, só experimenta as paixões dessa última espécie; os únicos bens que
conhece no universo são a sua nutrição, uma fêmea e o repouso; os únicos males
que teme são a dor e a fome. Digo a dor, e não a morte; porque jamais o animal
saberá o que é morrer; e o conhecimento da morte e dos seus terrores foi uma das
primeiras aquisições que o homem fez afastando-se da condição animal.
Como, ao que parece, há muitos fins e podemos buscar alguns em vista de
outros: por exemplo, a riqueza, a música, a arte da flauta e, em geral, todos
aqueles fins que podem denominar-se instrumentos, é evidente que nenhum desses
fins é perfeito e definitivo por si mesmo. Mas o sumo bem deve ser coisa
perfeita e definitiva. Por conseguinte, se existe uma só e única coisa que seja
definitiva e perfeita, ela é precisamente o bem que procuramos; e se há muitas
coisas deste género, a mais definitiva entre elas será o bem. Mas, em nosso
entender, o bem que apenas deve buscar-se por si mesmo é mais definitivo que
aquele que se procura em vista de outro bem; e o bem que não deve buscar-se
nunca com vista noutro bem é mais definitivo que os bens que se buscam ao mesmo
tempo por si mesmos e por causa desse bem superior; numa palavra, o perfeito, o
definitivo, o completo, é o que é eternamente apetecível em si, e que nunca o é
em vista de um objecto distinto dele.
Eis aí precisamente o carácter que parece ter a felicidade; buscamo-la por ela e
só por ela, e nunca com mira em outra coisa. Pelo contrário, quando buscamos as
honras, o prazer, a ciência, a virtude, sob qualquer forma que seja, desejamos,
indubitavelmente, todas essas vantagens por si mesmas; pois que,
independentemente de toda outra consequência, desejaríamos cada uma delas;
todavia, desejamo-las também com mira na felicidade, porque cremos que todas
essas diversas vantagens no-la podem assegurar; enquanto ninguém pode desejar a
felicidade, nem com mira nestas vantagens, nem, de maneira geral, com vista em
algo, seja o que for, distinto da felicidade mesma.
(...) Todavia, ainda convindo connosco em que a felicidade é, sem contradita, o
maior dos bens, o bem supremo, talvez haja quem deseje conhecer melhor a sua
natureza.
O meio mais seguro de alcançar esta completa noção é saber qual é a obra própria
do homem. (...) Viver é uma função comum ao homem e às plantas, e aqui apenas se
busca o que é exclusivamente especial ao homem; é por isso necessário pôr de
lado a vida de nutrição e de desenvolvimento. Em seguida vem a vida da
sensibilidade, mas esta, por sua vez, mostra-se igualmente comum a todos os
seres - o cavalo, o boi, e em geral a todos os animais, tal como ao homem.
Resta, portanto, a vida activa do ser dotado de razão. Mas neste ser deve
distinguir-se a parte que não possui directamente a razão e se serve dela para
pensar. Além disso, como esta mesma faculdade da razão se pode compreender num
duplo sentido, devemos não esquecer que se trata aqui, sobretudo, da faculdade
em acção, a qual merece mais particularmente o nome que a ambas convém. E assim
o próprio do homem será o acto da alma em conformidade com a razão, ou, pelo
menos, o acto da alma que não pode realizar-se sem a razão. (...) Mas o bem, a
perfeição para cada coisa, varia segundo a virtude especial dessa coisa. Por
conseguinte, o bem próprio do homem é a actividade da alma dirigida pela
virtude; e, como há muitas virtudes, será a actividade dirigida pela mais alta e
a mais perfeita de todas. Acrescente-se também que estas condições devem ser
realizadas durante uma vida inteira e completa, porque uma só andorinha não faz
a Primavera, nem um só dia formoso; e não pode tão-pouco dizer-se que um só dia
de felicidade, nem mesmo uma temporada, bastam para fazer um homem ditoso e
afortunado.