Frases e Pensamentos de Lua

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LUA

32 resultados encontrados

Não desfrute somente o sol, aprecie também a lua.
(ROBERTO SHINYASHIKI)


Amor, dinheiro e lua, parando de crescer começam logo a diminuir.
( Stanislaw Ponte Preta )


Não faça como fez sua mãe na lua de mel me deixou falando sozinho feito a voz do Brasil.
( Autor: Falcão )


Fui à rua,olhei pra lua,lembrar,quem dera.
( Frases e Pensamentos de Iuri Storch) Mensagem sobre Poesia


Mas que haverá com a lua que sempre que a gente olha é com um novo espanto?(Frases e Pensamentos de Mário Quintana)


Epigrama
Ó lua cheia,
ocular de um longo telescópio branco
que devassa o pais dos amores platônicos...


Que haverá com a lua que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez?(Frases e Pensamentos de Mário Quintana)


Para sêr grande, sêr inteiro; nada teu exagera ou exclui; sêr todo em cada coisa; põe quanto és no mínimo que fazes; assim em cada lago, a lua toda brilha porque alta vive.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )


Pessoas dotadas de amor são aquelas que não chegam a perder sua relação com a terra,o sol,a lua,o vento,com o toque,a alegria,o prazer de viver...
( Frases e Pensamentos de Autor Desconhecido) Mensagem sobre Vida


( FLORBELA ESPANCA )

Eu tenho pena da Lua!
Tanta pena, coitadinha,
Quando tão branca, na rua

A vejo chorar sozinha!...
As rosas nas alamedas,
E os lilases cor da neve
Confidenciam de leve
E lembram arfar de sedas
Só a triste, coitadinha...
Tão triste na minha rua
Lá anda a chorar sozinha ...
Eu chego então à janela:
E fico a olhar para a lua...
E fico a chorar com ela! ...


Luar( GUIMARÃES ROSA )

De brejo em brejo,
os sapos avisam:
--A lua surgiu!...
No alto da noite as estrelinhas piscam,
puxando fios,
e dançam nos fios
cachos de poetas.
A lua madura
Rola,desprendida,
por entre os musgos
das nuvens brancas...
Quem a colheu,
quem a arrancou
do caule longo
da via-láctea?...
Desliza solta...
Se lhe estenderes
tuas mãos brancas,
tla cairá...


Tenho fases, como a lua. Fases de andar escondida fases de vir para a rua... Perdição da minha vida! Tenho fases de ser tua tenho outras de ser sozinha.
( Frases e Pensamentos de Cecilia Meireles) Mensagem sobre Poesia


Você sabe que a lua-de-mel terminou quando você liga para casa para dizer que vai chegar tarde e a secretária eletrônica responde que o jantar está no micro-ondas.
( Frases e Pensamentos de Autor Desconhecido) Mensagem sobre Casamento


Uma noite,quando vires a lua pousada numa amendoeira em flor,pensa por um minuto no poeta cuja tristeza foi tão grande que viajou para um país de onde nunca,nunca se volta.
( Frases e Pensamentos de A Flauta de Jade) Mensagem sobre Poesia


Ngo Gay Ngy
Como a lua no céu azul,
estou sozinha no meu quarto.
Apaguei a lâmpada.
Choro.
Choro porque estás longe de mim
e nunca saberás quanto te amo.
( Frases e Pensamentos de A Flauta de Jade) Mensagem sobre Poesia


O vôo até a Lua não é tão longo. As distâncias maiores que devemos percorrer estão dentro de nós mesmos. Vencer não é competir com o outro. É derrotar os seus inimigos interiores. É a própria realização do ser.
( Frases e Pensamentos de Autor Desconhecido) Mensagem sobre Filosofia


Existe, definitivamente, algo extraordinário no avançar e no recuo da maré, no levantar e no descer da lua, e nas mudanças das estações Algo incomum acontece também quando uma pessoa comum atinge o Estado de Buda Indubitavelmente, com o aparecimento dos três obstáculos e quatro maldades, o sábio alegrar-se-á, e o tolo se acovardará.
(Nitiren Daishonin)


- Se existe um Deus, ele não só é um ás em deixar vestígios, mas, sobretudo, um mestre em se esconder. E o mundo não é dos que falam além da conta. O firmamento continua calado. Não há muito mexerico entre as estrelas. Mas ninguém ainda se esqueceu da grande explosão. Desde então, o silêncio reinou ininterruptamente, e tudo o que existe se afasta de tudo. Ainda é possível topar com a Lua. Ou com um cometa. Não espere que o recebam com amáveis clamores. No céu não se imprimem cartões de visita.
( JOSTEIN GAARDER )


Venho de Tempos Antigos ( Hilda Hilst )

Deus pode ser a grande noite escura
E de sobremesa
O flambante sorvete de cereja.
Deus: Uma superfície de gelo ancorada no riso.
Venho de tempos antigos. Nomes extensos:
Vaz Cardoso, Almeida Prado
Dubayelle Hilst... eventos.
Venho de tuas raízes, sopros de ti.
E amo-te lassa agora, sangue, vinho
Taças irreais corroídas de tempo.
Amo-te como se houvesse o mais e o descaminho.
Como se pisássemos em avencas
E elas gritassem, vítimas de nós dois:
Intemporais, veementes.
Amo-te mínima como quem quer MAIS
Como quem tudo adivinha:
Lobo, lua, raposa e ancestrais.
Dize de mim: És minha.


Eles Verão (Sady Bianchin)

O sonho suado transbordante
que arrasta a realidade
Eles têm medo
dos poetas que incomodam

Eles têm medo
da alegria que somos capazes
de arrancar do futuro

Eles têm medo
daqueles que inventam o mar
na pia do banheiro
e as estrelas no céu da boca

Eles têm medo
dos que andam com a cabeça-madura
enquanto os pés estão numa verde-aventura

Eles têm medo
do jogo transparente onde o goleiro
é um doido de pedra embaixo
de uma trave de arco-íris
Eles têm medo
de uma arte diferente
que ilumina o cotidiano
com a fúria que nos amanhece
de uma lua quebrada da paixão
ou feito um lingote incandescente
retirado dos fornos profundos
das usinas metalúrgicas

Recomecemos o mundo!


Mente ou Pedra ( HENRY DAVID THOREAU )

Esta cidade é conhecida em todos os arredores por possuir as maiores estrebarias
para bois, vacas e cavalos, construções que não ficam a dever nada nem sequer
aos edifícios públicos; por outro lado contam-se aqui pelos dedos os locais onde
se pode rezar ou discursar com total liberdade.
Em vez de se autocelebrarem por meio da arquitectura, não deveriam as nações
fazê-lo pelo poder do seu pensamento abstracto? O Bagavad-Gita é muito mais
admirável do que todas as ruínas do oriente. Torres e templos são luxo de
príncipes. A mente simples e livre não moureja sob as ordens de nenhum príncipe.
O espírito não é privilégio de nenhum imperador, nem são exclusivos deste, a não
ser em insignificante medida, a prata, o ouro e o mármore. Com que finalidade,
digam-me lá, se talha tanta pedra?
Quando estive na Arcádia, não vi pedras a serem lavradas. As nações são
possuídas pela louca ambição de perpetuarem a sua memória com a soma das
esculturas que deixam. Que tal se esforços semelhantes fossem despendidos no
sentido de aperfeiçoar e polir a sua conduta? Uma obra de bom senso seria mais
memorável que um momumento da altura da Lua. Prefiro contemplar as pedras no seu
local de origem.


Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.
( Júlio Cortazar )


CÂNTICO dos cânticos VI( Salomão )

PARA onde foi o teu amado, ó mais formosa entre as mulheres? Para onde se
retirou o teu amado, para que o busquemos contigo?
O meu amado desceu ao seu jardim, aos canteiros de bálsamo, para apascentar nos
jardins e para colher os lírios.
Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu; ele apascenta entre os lírios.
Formosa és, meu amor, como Tirza, aprazível como Jerusalém, terrível como um exé
rcito com bandeiras.
Desvia de mim os teus olhos, porque eles me dominam. O teu cabelo é como o
rebanho das cabras que aparecem em Gileade.
Os teus dentes são como o rebanho de ovelhas que sobem do lavadouro, e das quais
todas produzem gêmeos, e não há estéril entre elas.
Como um pedaço de romã, assim são as tuas faces entre os teus cabelos.
Sessenta são as rainhas, e oitenta as concubinas, e as virgens sem número.
Porém uma é a minha pomba, a minha imaculada, a única de sua mãe, e a mais
querida daquela que a deu à luz; viram-na as filhas e chamaram-na
bem-aventurada, as rainhas e as concubinas louvaram-na.
Quem é esta que aparece como a alva do dia, formosa como a lua, brilhante como o
sol, terrível como um exército com bandeiras?
Desci ao jardim das nogueiras, para ver os frutos do vale, a ver se floresciam
as vides e brotavam as romãzeiras.
Antes de eu o sentir, me pôs a minha alma nos carros do meu nobre povo.
Volta, volta, ó Sulamita, volta, volta, para que nós te vejamos. Por que olhas
para a Sulamita como para as fileiras de dois exércitos?


Trevas (LORD BYRON)

Eu tive um sonho que não era em tudo um sonho
O sol esplêndido extinguira-se, e as estrelas
Vaguejavam escuras pelo espaço eterno,
Sem raios nem roteiro, e a enregelada terra
Girava cega e negrejante no ar sem lua;
Veio e foi-se a manhã - veio e não trouxe o dia;
E os homens esqueceram as paixões, no horror
Dessa desolação; e os corações esfriaram
Numa prece egoísta que implorava luz:
E eles viviam ao redor do fogo; e os tronos,
Os palácios dos reis coroados, as cabanas,
As moradas, enfim, do gênero que fosse,
Em chamas davam luz; cidades consumiam-se
E os homens se juntavam juntos às casas ígneas
Para ainda uma vez olhar o rosto um do outro;
Felizes quanto residiam bem à vista
dos vulcões e de sua tocha montanhosa;
Expectativa apavorada era a do mundo;
queimavam-se as floresta - mas de hora em hora
Tombavam, desfaziam-se - e, estralando, os troncos
Findavam num estrondo - e tudo era negror.
À luz desesperante a fronte dos humanos
Tinha um aspecto não terreno, se espasmódicos
Neles batiam os clarões; alguns, por terra,
Escondiam chorando os olhos,; apoiavam
Outros o queixo às mãos fechadas, e sorriam;
Muitos corriam para cá e para lá,
Alimentando a pira, e a vista levantavam
Com doida inquietação para o trevoso céu
A mortalha de um mundo extinto; e então de novo
Com maldições olhavam a poeira, e uivavam,
Rangendo os dentes; e aves bravas davam gritos
E cheias de terror voejavam junto ao solo,
Batendo asas inúteis; as mais rudes feras
Chegavam mansas e a tremer; rojavam víboras,
E entrelaçavam-se por entre a multidão,
Silvando, mas sem presas - e eram devoradas.
E fartava-se a Guerra que cessara um tempo,
E qualquer refeição comprava-se com sangue;
E cada um sentava-se isolado e torvo,
Empanturrando-se no escuro; o amor findara;
A terra era uma idéia só - e era a de morte
Imediata e inglória; e se cevava o mal
Da fome em todas as entranhas; e morriam
Os homens, insepultos sua carne e ossos;
Os magros pelos magros eram devorados,
Os cães salteavam os seus donos, exceto um,
Que se mantinha fiel a um corpo, e conservava
Em guarda as bestas e aves e os famintos homens,
Até a fome os levar, ou os que caíam mortos
Atraírem seus dentes; ele não comia,
Mas com um gemido comovente e longo, e um grito
Rápido e desolado, e relambendo a mão
Que já não o agradava em paga - ele morreu.
Finou-se a multidão de fome, aos poucos; dois,
Porém, de uma cidade enorme resistiram,
Dois inimigos, que vieram encontrar-se
Junto às brasas agonizantes de um altar
Onde se haviam empilhado coisas santas
Para um uso profano; eles as revolveram
E trêmulos rasparam, com as mão esqueléticas,
As débeis cinzas, e com um débil assoprar
Para viver um nada, ergueram uma chama
Que não passava de um arremedo; então alcançaram
Os olhos quando ela se fez mais viva, e espiaram
O rosto um do outro - ao ver, gritaram e morreram
- Morreram de sua própria e mútua hediondez,
Sem um reconhecer o outro em cuja fronte
Grafara a fome "diabo". O mundo se esvaziara,
O populoso e forte era um informe massa,
Sem estações nem árvore, erva, homem, vida,
Massa informe de morte - um caos de argila dura.
Pararam lagos, rios, oceanos: nada
Mexia em suas profundezas silenciosas;
Sem marujos, no mar as naus apodreciam,
Caindo os mastros aos pedaços; e, ao caírem,
Dormiam nos abismos sem fazer mareta,
Mortas as ondas, e as marés na sepultura,
Que já findara sua lua senhoril.
Os ventos feneceram no ar inerte, e as nuvens
Tiveram fim; a Escuridão não precisava
De seu auxílio - as Trevas eram o Universo.


A Tempestade (KAHLIL GIBRAN)

O pássaro e o homem tem essências diferentes.
O homem vive à sombra de leis e tradições por ele inventadas;
o pássaro vive segundo a lei universal que faz girar os mundos.
Acreditar é uma coisa; viver conforme o que se acredita é outra.
Muitos falam como o mar, mas vivem como os pântanos.
Muitos levantam a cabeça acima dos montes;
mas sua alma jaz nas trevas das cavernas.
A civilização é uma arvore idosa e carcomida,
cujas flores são a cobiça e o engano e cujas frutas
são a infelicidade e o desassossego.
Deus criou os corpos para serem os templos das almas.
Devemos cuidar desses templos para que sejam
dignos da divindade que neles mora.
Procurei a solidão para fugir dos homens, de suas leis,
de suas tradições e de seu barulho.
Os endinheirados pensam que o sol e a lua e as estrelas se levantam
dos seus cofres e se deitam nos seus bolsos.
Os políticos enchem os olhos dos povos com poeira
dourada e seus ouvidos com falsas promessas.
Os sacerdotes aconselham os outros,
mas não aconselham a si mesmos,
e exigem dos outros o que não exigem de si mesmos.
Vã é a civilização. E tudo o que está nela é vão.
As descobertas e invenções nada são senão brinquedos
com a mente se diverte no seu tédio.
Cortar as distâncias, nivelar as montanhas,
vencer os mares, tudo isso não passa de
aparências enganadoras, que não alimentam o
coração e nem elevam a alma.
Quanto a esses quebra-cabeças, chamados ciências e artes,
nada são senão cadeias douradas com os quais o homem
se acorrenta, deslumbrados com seu brilho e tilintar.
São os fios da tela que o homem tece desde o inicio
do tempo sem saber que, quando terminar sua obra,
terá construído a prisão dentro da qual ficará preso.
Uma coisa só merece nosso amor e nossa dedicação, uma coisa só...
É o despertar de algo no fundo dos fundos da alma.
Quem o sente não o pode expressar em palavras.
E quem não o sente, não poderá nunca conhecê-lo através de palavras.
Faço votos para que aprendas a amar as tempestades em vez de fugir delas.


A Indagação das Causas e dos Princípios ( ARISTÓTELES )

Visto que esta ciência (a filosofia) é o objecto das nossas indagações,
examinemos de que causas e de que princípios se ocupa a filosofia como ciência;
questão que se tomará muito mais clara se examinarmos as diversas ideias que
formamos do filósofo. Em primeiro lugar, concebemos o filósofo principalmente
como conhecedor do conjunto das coisas, enquanto é possível, sem contudo possuir
a ciência de cada uma delas em particular. Em seguida, àquele que pode alcançar
o conhecimento de coisas difíceis, aquelas a que só se chega vencendo graves
dificuldades, não lhe chamaremos filósofo? De facto, conhecer pelos sentidos é
uma faculdade comum a todos, e um conhecimento que se adquire sem esforço em
nada tem de filosófico. Finalmente, o que tem as mais rigorosas noções das
causas, e que melhor ensina estas noções, é mais filósofo do que todos os outros
em todas as ciências. E, entre as ciências, aquela que se procura por si mesma,
só pelo anseio do saber, é mais filosófica do que a que se estuda pelos seus
resultados; assim como a que domina as mais é mais filosófica do que a que se
encontra subordinada a qualquer outra. Não, o filósofo não deve receber leis,
mas sim dá-las; nem é necessário que obedeça a outrem, mas deve obedecer-lhe o
que seja menos filósofo.
(...) Pois bem: o filósofo que possuir perfeitamente a ciência do geral tem
necessariamente a ciência de todas as coisas, porque um homem em tais
circunstâncias sabe, de certo modo, tudo quanto está compreendido sob o geral.
Todavia, pode dizer-se também que se toma muito difícil ao homem alçar-se aos
conhecimentos mais gerais; as coisas que são seus objectos como que estão mais
distantes do alcance dos sentidos.
(...) De tudo quanto dissemos sobre a própria ciência resulta a definição da
filosofia que procuramos. É imprescindível que seja a ciência teórica dos
primeiros princípios e das primeiras causas, porque uma das causas é o bem, a
razão final. E que não é uma ciência prática, prova-o o exemplo dos que
primeiramente filosofaram. O que, a princípio, levou os homens a fazerem as
primeiras indagações filosóficas foi, como é hoje, a admiração. Entre os
objectos que admiravam e que não podiam explicar, aplicaram-se primeiro aos que
se encontravam ao seu alcance; depois, passo a passo, quiseram explicar os
fenómenos mais importantes; por exemplo, as diversas fases da Lua, o trajecto do
Sol e dos astros e, finalmente, a formação do universo. Ir à procura duma
explicação e admirar-se é reconhecer que se ignora. (...) Portanto, se os
primeiros filósofos filosofaram para se libertarem da ignorância, é evidente que
se consagraram à ciência para saber, e não com vista à utilidade.


O dia da criação ( VINÍCIUS DE MORAES )

Macho e fêmea os criou.
Gênese, 1, 27

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado

III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens,
ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como
as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas
em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda
e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das
águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em [cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e [sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.


OMONÓLOGO DE UMA SOMBRA ( AUGUSTO DOS ANJOS )

Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!
A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!
Pairando acima dos mundanos tectos,
Não conheço o acidente da Senectus
- Esta universitária sanguessuga ,
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!
Na existência social, possuo uma arma
- O metafisicismo de Abidarma -
E trago, sem bramânicas tesouras,
Como um dorso de azêmola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.
Com um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho...
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
E com certeza meu irmão mais velho!
Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Amarguradamente se me antolha,
À luz do americano plenilúnio,
Na alma crepuscular de minha raça
Como uma vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o Infortúnio.
Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,
Trazendo no deserto das idéias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!
Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem...
E apenas encontrou na idéia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as cousas se reduzem!
E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mostrar, já nos últimos momentos,
Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luz danada,
espólio dos seus dedos peçonhentos.
Tal a finalidade dos estames!
Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,
Nas eterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!
Será calor, causa úbiqua de gozo,
Raio X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!
E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
- Engrenagem de vísceras vulgares -
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares!
A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.
É uma trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece ...
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.
E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,
À guisa de um faquir, pelos cenóbios?! ...
Num suicídio graduado, consumir-se,
E após tantas vigílias, reduzir-se
A herança miserável de micróbios!
Estoutro agora é o sátiro peralta
Que o sensualismo sodomista exalta,
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo.
Como que, em suas células vilíssimas,
Há estratificações requintadíssimas
De uma animalidade sem castigo.
Brancas bacantes bêbedas o beijam.
Suas artérias hírcicas latejam,
Sentindo o odor das carnações abstêmias,
E à noite, vai gozar, ébrio de vício,
No sombrio bazar do meretrício,
O cuspo afrodisíaco das fêmeas.
No horror de sua anômala nevrose,
Toda a sensualidade da simbiose,
Uivando, à noite, em lúbricos arroubos,
Como no babilônico sansara,
Lembra a fome incoercível que escancara
A mucosa carnívora dos lobos.
Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.
Negra paixão congênita, bastarda,
Do seu zooplasma ofídico resulta...
E explode, igual à luz que o ar acomete,
Com a veemência mavórtica do ariete
E os arremessos de uma catapulta.
Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Hirto, observa através a tênue trança
Dos filamentos fluídicos de um halo
A destra descarnada de um duende,
Que, tateando nas tênebras, se estende
Dentro da noite má, para agarrá-lo!
Cresce-lhe a intracefálica tortura,
E de su'alma na caverna escura,
Fazendo ultra-epilépticos esforços,
Acorda, com os candieiros apagados,
Numa coreografia de danados,
A família alarmada dos remorsos.
E o despertar de um povo subterrâneo!
É a fauna cavernícola do crânio
- Macbeths da patológica vigília,
Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
As incestuosidades sanguinárias
Que ele tem praticado na família.
As alucinações tácteis pululam.
Sente que megatérios o estrangulam...
A asa negra das moscas o horroriza;
E autopsiando a amaríssirna existência
Encontra um cancro assíduo na consciência
E três manchas de sangue na camisa!
Míngua-se o combustível da lanterna
E a consciência do sátiro se inferna,
Reconhecendo, bêbedo de sono,
Na própria ânsia dionísica do gozo,
Essa necessidade de horroroso,
Que é talvez propriedade do carbono!
Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca...
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de uma esfera opaca.
Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
A condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!
Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria.
Continua o martírio das criaturas:
- O homicídio nas vielas mais escuras,
- O ferido que a hostil gleba atra escarva,
- O último solilóquio dos suicidas -
E eu sinto a dor de todas essas vidas
Em minha vida anônima de larva!"
Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,
Da luz da lua aos pálidos venábulos,
Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo,
julgava ouvir monótonas corujas,
Executando, entre caveiras sujas,
A orquestra arrepiadura do sarcasmo!
Era a elegia panteísta do Universo,
Na podridão do sangue humano imerso,
Prostituído talvez, em suas bases...
Era a canção da Natureza exausta,
Chorando e rindo na ironia infausta
Da incoerência infernal daquelas frases.
E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandíloquos massacres,
Há-de ferir-me as auditivas portas,
Até que minha efêmera cabeça
Reverta à quietação da treva espessa
E à palidez das fotosferas mortas!


A Alegoria da Caverna ( PLATÃO )

- Imagina agora o estado da natureza humana com respeito à ciência e à
ignorância, conforme o quadro que dele vou esboçar. Imagina uma caverna
subterrânea que tem a toda a sua largura uma abertura por onde entra livremente
a luz e, nessa caverna, homens agrilhoados desde a infância, de tal modo que não
possam mudar de lugar nem volver a cabeça devido às cadeias que lhes prendem as
pernas e o tronco, podendo tão-só ver aquilo que se encontra diante deles. Nas
suas costas, a certa distância e a certa altura, existe um fogo cujo fulgor os
ilumina, e entre esse fogo e os prisioneiros depara-se um caminho dificilmente
acessível. Ao lado desse caminho, imagina uma parede semelhante a esses tapumes
que os charlatães de feita colocam entre si e os espectadores para esconder
destes o jogo e os truques secretos das maravilhas que exibem.
- Estou a imaginar tudo isso.
- Imagina homens que passem para além da parede, carregando objectos de todas as
espécies ou pedra, figuras de homens e animais de madeira ou de pedra, de tal
modo que tudo isso apareça por cima do muro. Os que tal transportam, ou falam
uns com os outros, ou passam em silêncio.
- Estranho quadro e estranhos prisioneiros!
- E, no entanto, são ponto por ponto tal qual como nós. Em primeiro lugar,
julgas que percepcionarão outra coisa, de si mesmos e dos que se encontram a seu
lado, além das sombras que na sua frente se produzem, no fundo da caverna?
- Que outra coisa poderão ver, pois que, desde o nascimento, foram compelidos a
conservar a cabeça permanentemente imóvel?
- Verão, apesar disso, outras coisas além dos objectos que passam à sua
rectaguarda?
- Não.
- Se pudessem conversar uns com os outros, não concordariam em dar às sombras
que vêem os nomes dessas mesmas coisas?
- Sem dúvida.
- E se no fundo da sua prisão houvesse eco que repetisse as palavras daqueles
que passam, não imaginariam que ouviam falar as sombras mesmas que desfilam
diante dos seus olhos?
- Sim.
- E, por fim, não julgariam eles que nada existiria de real além das sombras?
- Não há dúvida.
- Pensa agora naquilo que naturalmente lhes aconteceria se fossem libertados das
suas cadeias e se fossem elucidados acerca do erro em que estavam. Liberte-se um
desses cativos, e que ele seja obrigado a levantar-se imediatamente, a voltar a
cabeça, a andar e a enfrentar a luz: nada disso poderá fazer sem grande esforço;
a luz encandear-lhe-á a vista e o deslumbramento produzido impedi-lo-á de
distinguir os objectos cujas sombras via antes. Que julgas tu que responderia se
lhe dissessem que até então apenas vira fantasmas e que agora tem ante os olhos
objectos mais reais e mais próximos da verdade? Se lhe mostrarem imediatamente
as coisas à medida que se forem apresentando, e se for obrigado, à força de
perguntas, a dizer o que é cada uma delas, não ficará perplexo e não julgará que
aquilo que dantes via era mais real do que aquilo que agora se lhe apresenta?
- Sem dúvida.
- E se o obrigassem a enfrentar o fogo, não adoeceria dos olhos? Não desviaria
os seus olhares, para dirigi-los para a sombra, que enfrenta sem dificuldade?
Não julgaria que essa sombra possui algo de mais claro e distinto do que tudo
quanto se lhe mostra?
- Certamente.
- Se agora o arrancarmos da caverna e o arrastarmos, pela senda áspera e
fragosa, até à claridade do Sol, que suplício o seu por ser assim arrastado!
Como está furioso! E, uma vez chegado à luz livre, os olhos ofuscados com o
fulgor dela, poderia ver alguma coisa da multitude de objectos a que chamamos
seres reais?
- De início ser-lhe-ia impossível.
- Necessitaria de tempo, sem dúvida, para se acostumar a eles. Aquilo que
distinguiria melhor seria, em primeiro lugar, as sombras; e, logo a seguir, as
imagens dos homens e dos mais objectos, reflectidos à superfície das águas; por
fim, os próprios objectos. Daí volveria os olhos para o céu, cuja visão
suportaria com maior facilidade durante a noite, à luz da Lua e das estrelas, do
que durante o dia, à luz do Sol.
- Sem dúvida.
- Por fim, encontrar-se-ia em condições, não só de ver a imagem do Sol nas águas
e em tudo aquilo em que se reflicta, como de olhá-lo e contemplar o verdadeiro
Sol no seu verdadeiro local.
- Sim.
- Depois disto, pondo-se a reflectir, chegaria à conclusão de que o Sol é o que
determina as estações e os anos, e o que rege todo o mundo visível e que, de
certo modo, é causa daquilo que se via na caverna.
- É evidente que chegaria gradualmente a tais reflexões.
- E se, então, se recordasse da sua primeira habitação e da ideia que aí
formavam da sabedoria, ele e os seus companheiros de escravidão, não se
regozijaria com a mudança e não teria compaixão da desgraça daqueles que
permaneciam cativos?
- Certamente.
- Crês tu que agora ele sentisse ciúmes das honras, das vaidades e recompensas
ali outorgadas àquele que mais rapidamente captasse as sombras, àquele que com
maior segurança recordasse as que iam atrás ou juntas e por tal razão seria o
mais hábil em prever a sua aparição, ou que invejasse a condição daqueles que na
prisão eram mais poderosos e mais honrados? Não preferiria, como Aquiles,
segundo Homero, passar a vida ao serviço dum pobre lavrador e sofrê-lo, a voltar
ao seu primeiro estado e às suas primitivas ilusões?
- Não duvido de que preferiria suportar todos os males possíveis a voltar a
viver de tal modo.
- Atenta, pois, nisto: se regressasse novamente à sua prisão, para voltar a
ocupar nela o seu antigo posto, não se acharia como um cego, na súbita passagem
da luz do dia para a obscuridade?
- Sim.
- E se, no entanto, ainda não distinguisse nada e, antes que os seus olhos se
houvessem refeito, o que apenas poderia acontecer depois de muito tempo, tivesse
de discutir com os mais prisioneiros sobre essas sombras, não se tornaria
ridículo aos olhos dos outros, que diriam dele que, por ter subido até lá acima,
perdera a vista, acrescentando que seria uma loucura o eles pretenderem sair do
lugar onde se encontravam, e que, se alguém se lembrasse de tirá-los dali e
levá-los para a região superior, se tornaria necessário prendê-lo e matá-lo?
- Indiscutivelmente.
- Pois, meu querido Glauco, é essa, precisamente, a imagem da condição humana. A
caverna subterrânea é este mundo visível; o fogo que a ilumina, a luz do Sol; o
prisioneiro que ascende à região superior e a contempla é a alma que se eleva at
é à esfera do inteligível. É isto, pelo menos, o que penso, já que o queres
conhecer, mas só Deus sabe se é certo. Pelo que me toca, a coisa afigura-se-me
tal como te vou comunicar. Nos últimos limites do mundo inteligível encontra-se
a ideia do bem, que só com dificuldade se percebe, mas que, todavia, não pode
ser percebida sem que se conclua que ela é a causa primeira de quanto há de bom
e de belo no universo; que ela, neste mundo visível, produz a luz e o astro do
qual a luz irradia directamente; que, no mundo visível, engendra a verdade e a
inteligência; que é preciso, enfim, ter os olhos fitos nessa ideia, se quisermos
conduzir-nos honestamente na vida pública e privada.
- Na medida em que pude compreender a tua ideia, concordo contigo.
- Tens, pois, de admitir e não estranhar que aqueles que alcançaram essa sublime
contemplação desdenhem da intervenção nos assuntos humanos e que as suas almas
aspirem, incessantemente, a fixar-se nesse lugar eminente. Assim deve ser, se
isto está em conformidade com a pintura alegórica que esbocei.
- Assim deve ser.