Frases e Pensamentos de Livro

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LIVRO

115 resultados encontrados

O livro é um animal vivo.
( ARISTÓTELES )


Mulher e livro, emprestou, volta estragado.
( Stanislaw Ponte Preta )


O livro é uma extensão da memória e da imaginação
( JORGE LUIS BORGES )


O livro do mundo está escrito em linguagem matemática.
( GALILEU GALILEI )


A leitura de um bom livro é um diálogo incessante: o livro fala e a alma responde.
( Frases e Pensamentos de André Maurois) Mensagem sobre Literatura


A verdadeira educação consiste em pôr a descoberto ou fazer atualizar o melhor de uma pessoa. Que livro melhor que o livro da humanidade?
( MAHATMA GANDHI)Tema: Humanidade


Todas as coisas do mundo conduzem a um encontro ou a um livro
( JORGE LUIS BORGES )


A consciência é o melhor livro de moral e o que menos se consulta
( Blaise Pascal )


Um dia de chuva é bom para a gente comprar livro de poemas... Quem lhe perguntar por quê, de nada lhe adiantará comprar um livro de poemas(Frases e Pensamentos de Mário Quintana)


Escrevi o livro para tirar o pé da lama.
( Frases e Pensamentos de Adriane Galisteu )


Não há melhor fragata que um livro para nos levar a terras distantes.
( Emily Dickinson )


Cada livro queimado ilumina o mundo.
( Frases e Pensamentos de Ralph Waldo Emerson)


Sobre um livro que lhe emprestaram quando era criança...(Frases e Pensamentos de Clarice Lispector)


E cada homem é um livro onde o próprio Deus escreve.
( Frases e Pensamentos de Vitor Hugo )


Oito dias com febre! Poderia ter escrito mais um livro.
( Frases e Pensamentos de Honoré de Balzac)


A verdadeira educação consiste em pôr a descoberto ou fazer atualizar o melhor de uma pessoa. Que livro melhor que o livro da humanidade?
( Frases e Pensamentos de Mahatma Gandhi) Mensagem sobre Humanidade


Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro
( HENRY DAVID THOREAU )


Nunca leias um livro que não tenha um ano de idade.
( Frases e Pensamentos de Ralph Waldo Emerson)


Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante.(Frases e Pensamentos de Clarice Lispector)


A melhor hora para planejar um livro é enquanto lava-se a louça.
( Frases e Pensamentos de Agatha Christie )


A natureza é o único livro que oferece um conteúdo valioso em todas as suas folhas
( JOHANN WOLFGANG VON GOETHE)


A Filosofia está escrita nesse grande livro - o Universo - que permanece continuamente aberto.
( GALILEU GALILEI )


Praça dos Três Poderes: Eu não me preocupava com a opinião de ninguém eu não via livro de arquitetura.
(OSCAR NIEMEYER)


O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado(Frases e Pensamentos de Mário Quintana)


Estou à procura de um livro para ler. É um livro todo especial. Eu o imagino como a um rosto sem traços. Não lhe sei o nome nem o autor. Quem sabe, às vezes penso que estou à procura de um livro que eu mesma escreveria. Não sei. Mas faço tantas fantasias a respeito desse livro desconhecido e já tão profundamente amado. Uma das fantasias é assim. Eu o estaria lendo e de súbito, uma frase lida, com lágrimas nos olhos diria em êxtase de dor e de enfim libertação: Mas é que eu não sabia que se pode tudo, meu Deus! (Frases e Pensamentos de Clarice Lispector)


Não leio nada do que escrevem sobre mim, embora existam 30 ou 40 livros. Prefiro ler um livro de Georges Simenon.
(OSCAR NIEMEYER)


Nenhum outro livro pode satisfazer as indagações da mente e os anseios do coração.
( Frases e Pensamentos de Ellen G. White)


Oito dias com febre! Poderia ter escrito mais um livro.
( Frases e Pensamentos de Honoré de Balzac) Mensagem sobre Morte


O jornal é muito interessante, mas eu acho que jamais substituirá o livro por ser um apoio de porta muito pobre.
( Alfred Hitchcock )


Publicamos para não passar a vida a corrigir rascunhos. Quer dizer, a gente publica um livro para livrar-se dele
( JORGE LUIS BORGES )


Basta ler meia página do livro de certos escritores para perceber que eles estão despontando para o anonimato.
( Stanislaw Ponte Preta )


Quando abro a cada manhã a janela do meu quarto É como se abrisse o mesmo livro Numa página nova(Frases e Pensamentos de Mário Quintana)


Loucura- a Loucura fala em primeira pessoa no livro, defendendo sua imagem e ponto de vista.
( Frases e Pensamentos de Erasmo de Rotterdam )


O livro é a grande memória dos séculos... se os livros desaparecessem, desapareceria a história e, seguramente, o homem
( JORGE LUIS BORGES )


O talento sozinho não consegue fazer um escritor. Deve existir um homem por trás do livro.
( Frases e Pensamentos de Ralph Waldo Emerson)


O Livro ( JORGE LUIS BORGES )

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente,
o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são
extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a
espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma
extensão da memória e da imaginação.
Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria,
diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a
imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que
diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função
que o livro realiza.
(...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu
até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do
livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo
com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo
de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o
abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.


“Para que serve um livro”,pensou Alice,“sem ilustrações ou diálogos?”
( Frases e Pensamentos de Lewis Carrol) Mensagem sobre Literatura


Não há melhor fragata que um livro para nos levar a terras distantes.
( Frases e Pensamentos de Emily Dickinson) Mensagem sobre Literatura


Não há melhor fragata que um livro para nos levar a terras distantes.
( Frases e Pensamentos de Emily Dickinson) Mensagem sobre Pensamentos


Não tenho que "me tornar" amoroso; tenho, isto sim, que me livrar do desamor: quando deste me livro, sou amoroso.
( Frases e Pensamentos de Amor)


Deus nos concede, a cada dia, uma página de vida nova no livro do tempo. Aquilo que colocarmos nela, corre por nossa conta.(Frases e Pensamentos de Chico Xavier)


O escritor está sempre trabalhando em um livro,mesmo quando não está escrevendo.
( Frases e Pensamentos de Antônio Callado) Mensagem sobre Literatura


O casamento é um livro cujo primeiro capítulo é escrito em verso e os demais,em prosa.
( Frases e Pensamentos de Beverly Nichols) Mensagem sobre Casamento


A vida é como um livro que deve ser folheado página por página sem se consultar o índice.
( Frases e Pensamentos de Autor Desconhecido) Mensagem sobre Vida


O melhor livro de moral é a nossa consciência. Temos que consultá-lo muito freqüentemente.
( Frases e Pensamentos de Blaise Pascal) Mensagem sobre Esperança


A vida é como um livro que deve ser folheado página por página sem se consultar o índice.
( Frases e Pensamentos de Autor Desconhecido) Mensagem sobre Sabedoria


Um livro é como uma janela. Quem não o lê, é como alguém que ficou distante da janela e só pode ver uma pequena parte da paisagem.
( Frases e Pensamentos de KAHLIL GIBRAN)


Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês. Quando fechas o livro, eles alçam vôo como de um alçapão. Eles não têm pouso nem porto; alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti(Frases e Pensamentos de Mário Quintana)


Ler um livro é para o bom leitor conhecer a pessoa e o modo de pensar de alguém que lhe é estranho. É procurar compreendê-lo e, sempre que possível, fazer dele um amigo
( HERMANN HESSE )


Eu misturei tudo, eu lia livro, romance para mocinha, livro cor de rosa, misturado com Dostoievski, eu escolhia os livros pelos títulos e não por autores, porque eu não tinha conhecimento...fui ler aos 13 anos Herman Hesse, tomei um choque: O Lobo da Estepe. Aí comecei a escrever um conto que não acabava nunca mais. Terminei rasgando e jogando fora. (Frases e Pensamentos de Clarice Lispector)


Mães judiciosas sempre têm consciência de que são o primeiro livro lido e o último posto de lado, na biblioteca dos filhos.( Frases e Pensamentos de Charles Lenox Remond Mensagem sobre Dia das Mães )


Basta ler meia página do livro de certos escritores para perceber que eles estão despontando para o anonimato.
( Frases e Pensamentos de Stanislaw Ponte Preta) Mensagem sobre Literatura


Deus nos concede,a cada dia,uma página de vida nova no livro do tempo. Aquilo que colocarmos nela,corre por nossa conta.
( Frases e Pensamentos de Chico Xavier) Mensagem sobre Aprendizado


Filmes têm diferentes receitas para grandes sopas,servidas para 300,400 pessoas por vez. Um livro é um jantar solitário.
( Frases e Pensamentos de Michael Ondaatje) Mensagem sobre Palavras


Considero a televisão uma coisa muito educativa, porque cada vez que alguém a liga na sala vou para o meu quarto ler um livro...
( Frases e Pensamentos de Autor desconhecido) Mensagem sobre Tempo


"Lei de Murphy na escola: Se for prova com consulta,você esquecerá seu livro; se for lição de casa,esquecerá onde mora. "
( Frases e Pensamentos de Autor Desconhecido) Mensagem sobre Pessimismo


Os eruditos são aqueles que leram nos livros; mas os pensadores, os génios, os iluminadores do mundo e os promotores do género humano são aqueles que leram diretamente no livro do mundo.
( ARTHUR SCHOPENHAUER )


Nunca entendi como dois homens podem ser juntar para escrever um livro. Para mim,é como precisar de três pessoas para produzir um filho
( Frases e Pensamentos de Evelyn Waugh) Mensagem sobre Literatura


Nunca entendi como dois homens podem ser juntar para escrever um livro. Para mim,é como precisar de três pessoas para produzir um filho.
( Frases e Pensamentos de Evelyn Waugh) Mensagem sobre Literatura


Um livro e como uma janela. Quem não o lê,é como alguém que ficou distante da janela e só pode ver uma pequena parte da paisagem.
( Frases e Pensamentos de Gibran Khalil Gibran) Mensagem sobre Literatura


Nunca entendi como dois homens podem ser juntar para escrever um livro. Para mim,é como precisar de três pessoas para produzir um filho.
( Frases e Pensamentos de Evelyn Waugh) Mensagem sobre Pensamentos


Um livro é como uma janela. Quem não o lê,e como alguém que ficou distante da janela e só pode ver uma pequena parte da paisagem.
( Frases e Pensamentos de Gibran Khalil Gibran) Mensagem sobre Literatura


"Palavra puxa palavra, uma idéia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução, alguns dizem mesmo que assim é que a natureza compôs as suas espécies." (Frases e Pensamentos de Machado de Assis)


Um livro ou um filme é uma aventura que se contesta e que se destrói,ao mesmo tempo que se elabora. É um jogo permanente,do imaginário.
( Frases e Pensamentos de Alain Robbe-Grilet) Mensagem sobre Literatura


O estudo da Bíblia dará vigor ao intelecto. Diz o salmista: "A exposição das Tuas palavras dá luz e dá entendimento aos símplices." Sal. 119:130. Muitas vezes tem-me sido perguntado: Deve a Bíblia tornar-se o livro mais importante em nossas escolas?" Ela é um livro precioso e admirável. É um tesouro que contém jóias de grande valor. É uma história que descerra perante nós os séculos passados. Sem a Bíblia estaríamos entregues a conjeturas e fábulas no tocante às ocorrências dos tempos antigos. Dentre todos os livros que têm inundado o mundo, por mais valiosos que sejam, a Bíblia é o Livro dos livros, e merece o mais profundo estudo e atenção.
( Frases e Pensamentos de Ellen G. White)


De um autor inglês do saudoso século XIX: O verdadeiro gentleman compra sempre três exemplares de cada livro: um para ler, outro para guardar na estante e o último para dar de presente(Frases e Pensamentos de Mário Quintana)


É menor pecado elogiar um mau livro sem o ler, do que depois de o ter lido. Por isso, agradeço imediatamente depois de receber o volume. Não há vida literária plenamente virtuosa.
(FRASES E PENSAMENTOS DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)


Se leio um livro e ele torna o meu corpo tão frio que nenhum fogo seria jamais capaz de me aquecer,eu sei que aquilo é poesia. Se eu sinto,fisicamente,como se o topo de minha cabeça tivesse sido arrancado,eu sei que aquilo é poesia.
( Emily Dickinson )


No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar: um estribilho antigo um carinho no momento preciso o folhear de um livro de poemas o cheiro que tinha um dia o próprio vento(Frases e Pensamentos de Mário Quintana)


Existem todas as possibilidade, a mais absoluta liberdade de escolha. Como em um livro, onde cada letra permanece para sempre na página, mas o que muda é a própria consciência que escolhe o que ler e o que deixar de lado.
( Frases e Pensamentos de Richard Bach )


O que o vento não levou...: No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar: um estribilho antigo, um carinho no momento preciso, o folhear de um livro de poemas, o cheiro que tinha um dia o próprio vento(Frases e Pensamentos de Mário Quintana)


Tanto adultos como jovens negligenciam a Bíblia. Não fazem dela seu estudo, a regra de sua vida. Os jovens, especialmente, são culpados dessa negligência. A maioria deles encontra tempo para ler outros livros, mas aquele que indica o caminho da vida eterna não é diariamente estudado. Histórias ociosas são lidas atentamente, ao passo que a Bíblia é negligenciada. Esse Livro é nosso guia para uma vida mais elevada e santa. Os jovens o declarariam o mais interessante livro que já leram, não estivesse sua imaginação pervertida pela leitura de histórias fictícias.
( Frases e Pensamentos de Ellen G. White)


Se leio um livro e ele torna o meu corpo tão frio que nenhum fogo seria jamais capaz de me aquecer,eu sei que aquilo é poesia. Se eu sinto,fisicamente,como se o topo de minha cabeça tivesse sido arrancado,eu sei que aquilo é poesia.
( Frases e Pensamentos de Emily Dickinson) Mensagem sobre Literatura


Homem que pensa, que estuda, que trabalha, sob influência tenaz de uma idéia, que cisma na imortalidade que lhe pode dar a ciência, ou no dinheiro que lhe pode dar um livro, tal homem só serve para marido depois que o reumatismo lhe faz ver o celibato à luz da higiene
( Frases e Pensamentos de Camilo Castelo Branco )


O fato de viver numa casa em que havia livros e o livro era uma coisa importante. Determinou o meu gosto pela leitura e, eventualmente, meu trabalho. A escola teve pouco a ver com isso. Eu era um péssimo aluno e aproveitei muito pouco da escola. Era ótimo em geometria e nunca mais precisei da geometria na vida.
( LUIS FERNANDO VERISSIMO)


Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida, Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria... Eu tenho um medo Horrível A essas marés montantes do passado, Com suas quilhas afundadas, com Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas... Ai de mim, Ai de ti, ó velho mar profundo, Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios(Frases e Pensamentos de Mário Quintana)


Os Clássicos da Literatura( JORGE LUIS BORGES )

As emoções que a literatura suscita são talvez eternas, mas os meios devem
variar constantemente, mesmo que lligeiramente, para não perder a sua virtude.
Desgastam-se à medida que o leitor os reconhece. Daí o perigo de afirmar que
existem obras clássicas que o serão para sempre.
Cada qual descrê da sua arte e dos seus artifícios. Eu, que me resignei a pôr em
dúvida a indefinida duração de Voltaire ou de Shakespeare, acredito (nesta tarde
de um dos últimos dias de 1965) na de Schopenhauer e na de Berkeley.
Clássico não é um livro (repito-o) que possui necessariamente tais ou tais mé
ritos. É um livro que as gerações dos homens, motivadas por razões diversas,
lêem com prévio fervor e com uma misteriosa lealdade.


Em uma outra vida que tive, aos 15 anos, entrei numa livraria, que me pareceu o mundo que gostaria de morar. De repente, um dos livros que abri continha frases tão diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo. Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu! Só depois vim a saber que a autora era considerada um dos melhores escritores de sua época: Katherine Mansfield. (Frases e Pensamentos de Clarice Lispector)


Exercícios ao Piano ( RAINER MARIA RILKE )

O calor cola. A tarde arde e arqueja.
Ela arfa, sem querer, nas leves vestes
e num étude enérgico despeja
a impaciência por algo que está prestes
a acontecer: hoje, amanhã, quem sabe
agora mesmo, oculto, do seu lado;
da janela, onde um mundo inteiro cabe,
ela percebe o parque arrebicado.
Desiste, enfim, o olhar distante; cruza
as mãos; desejaria um livro; sente
o aroma dos jasmins, mas o recusa
num gesto brusco. Acha que á faz doente.


Silêncio!... ( FLORBELA ESPANCA )

No fadário que é meu, neste penar,
Noite alta, noite escura, noite morta,
Sou o vento que geme e quer entrar,
Sou o vento que vai bater-te à porta...
Vivo longe de ti, mas que me importa?
Se eu já não vivo em mim! Ando a vaguear
Em roda à tua casa, a procurar
Beber-te a voz, apaixonada, absorta!
Estou junto de ti, e não me vês...
Quantas vezes no livro que tu lês
Meu olhar se pousou e se perdeu!
Trago-te como um filho nos meus braços!
E na tua casa... Escuta!... Uns leves passos...
Silêncio, meu Amor!... Abre! Sou eu!...


Entre partir e ficar ( Octavio Paz )

Entre partir e ficar hesita o dia,
enamorado de sua transparência.
A tarde circular é uma baía:
em seu quieto vai e vem se move o mundo.
Tudo é visível e tudo é ilusório,
tudo está perto e tudo é intocável.
Os papéis, o livro, o vaso, o lápis
repousam à sombra de seus nomes.
Pulsar do tempo que em minha têmpora repete
a mesma e insistente sílaba de sangue.
A luz faz do muro indiferente
Um espectral teatro de reflexos.
No centro de um olho me descubro;
Não me vê, não me vejo em seu olhar.
Dissipa-se o instante. Sem mover-me,
eu permaneço e parto: sou uma pausa


Louvor ao Estudo ( BERTOLD BRECHT )

Estuda o elementar: para aqueles
cuja hora chegou
não é nunca demasiado tarde.
Estuda o abc. Não basta, mas
Estuda. Não te canses.
Começa. Tens de saber tudo.
Estás chamado a ser um dirigente.
Freqüente a escola, desamparado!
Persegue o saber, morto de frio!
Empunha o livro, faminto! É uma arma!
Estás chamado á ser um dirigente.
Não temas perguntar, companheiro!
Não te deixes convencer!
Compreende tudo por ti mesmo.
O que não sabes por ti, não o sabes.
Confere a conta. Tens de pagá-la.
Aponta com teu dedo a cada coisa
e pergunta: "Que é isto? e como é?"
Estás chamado a ser um dirigente.


Liberdade (Fernando Pessoa )

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer !
Ler é maçada,
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não !
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...


Simplesmente não há palavras.(Frases e Pensamentos de Clarice Lispector)

O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo. Acho que o som da
música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e
escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino
dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também. Sim, mas é a sorte às
vezes.
Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse ao mesmo tempo sem
moeda e que fosse e transmitisse tranqüilidade ou simplesmente a verdade mais
profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com
menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu
tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento
que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.
Simplesmente as palavras do homem.


ESTE É O PRÓLOGO ( Frederico Garcia Lorca )

Deixaria neste livro
toda a minha alma.
este livro que viu
as paisagens comigo
e viveu horas santas.
Que pena dos livros
que nos enchem as mãos
de rosas e de estrelas
e lentamente passam !
Que tristeza tão funda
é olhar os retábulos
de dores e de penas
que um coração levanta !
Ver passar os espectros
de vida que se apagam,
ver o homem desnudo
em Pégaso sem asas,
ver a vida e a morte,
a síntese do mundo,
que em espaços profundos
se olham e se abraçam.
Um livro de poesias
é o outono morto:
os versos são as folhas
negras em terras brancas,
e a voz que os lê
é o sopro do vento
que lhes incute nos peitos
- entranháveis distâncias.
O poeta é uma árvore
com frutos de tristeza
e com folhas murchas
de chorar o que ama.
O poeta é o médium
da Natureza
que explica sua grandeza
por meio de palavras.
O poeta compreende
todo o incompreensível
e as coisas que se odeiam,
ele, amigas as chamas.
Sabe que as veredas
são todas impossíveis,
e por isso de noite
vai por elas com calma.
Nos livros de versos,
entre rosas de sangue,
vão passando as tristes
e eternas caravanas
que fizeram ao poeta
quando chora nas tardes,
rodeado e cingido
por seus próprios fantasmas.
Poesia é amargura,
mel celeste que emana
de um favo invisível
que as almas fabricam.
Poesia é o impossível
feito possível. Harpa
que tem em vez de cordas
corações e chamas.
Poesia é a vida
que cruzamos com ânsia,
esperando o que leva
sem rumo a nossa barca.
Livros doces de versos
sãos os astros que passam
pelo silêncio mudo
para o reino do Nada,
escrevendo no céu
suas estrofes de prata.
Oh ! que penas tão fundas
e nunca remediadas,
as vozes dolorosas
que os poetas cantam !
Deixaria neste livro
toda a minha alma...


Os Filhos - (Do Livro "O Profeta") (KAHLIL GIBRAN)

Uma mulher que carregava o filho nos braços disse: "Fala-nos dos filhos."
E ele falou:

Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável.


A maior Tortura ( FLORBELA ESPANCA )

Na vida, para mim, não há deleite.
Ando a chorar convulsa noite e dia ...
E não tenho uma sombra fugidia
Onde poise a cabeça, onde me deite !
E nem flor de lilás tenho que enfeite
A minha atroz, imensa nostalgia ! ...
A minha pobre Mãe tão branca e fria
Deu-me a beber a Mágoa no seu leite !
Poeta, eu sou um cardo desprezado,
A urze que se pisa sob os pés.
Sou, como tu, um riso desgraçado !
Mas a minha tortura inda é maior:
Não ser poeta assim como tu és
Para gritar num verso a minha Dor ! ...
Fanatismo
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !
Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !
"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !
E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."
Os versos que te fiz
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder ...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda ...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !
Amo-te tanto ! E nunca te beijei ...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!
Os versos que te fiz
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder ...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda ...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !
Amo-te tanto ! E nunca te beijei ...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!
Ambiciosa
Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
O voo dum gesto para os alcançar ...
Se as minhas mãos em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar ...
__Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar !
Minh’ alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos céus !
O amor dum homem ? __Terra tão pisada,
Gota de chuva ao vento baloiçada ...
Um homem ? __Quando eu sonho o amor de um Deus ! ...
Versos de orgulho
O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho ! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.
Porque o meu Reino fica para além ...
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus !
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém !
O mundo ? O que é o mundo, ó meu Amor ?
__O jardim dos meus versos todo em flor ...
A seara dos teus beijos, pão bendito ...
Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços ...
__São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.
Cantigas leva-as o vento...
A lembrança dos teus beijos
Inda na minh'alma existe,
Como um perfume perdido,
Nas folhas dum livro triste.
Perfume tão esquisito
E de tal suavidade,
Que mesmo desapar'cido
Revive numa saudade!


Um gosto que nasce no madrugador século XVI ( Gilberto Freyre )

"Inclinados a tal, sob que influências vindas de longe? A esse respeito é
bom
recorrer-se à fonte de informação do madrugador século XVI, suprida pela própria
Igreja através de pesquisas realizadas então, como se estivessem concorrendo
para saberes cientificamente sociais pelo santo Ofício em atividades
investigadoras no Brasil. Suponho ter sido, no livro Casa-Grande & Senzala, o
primeiro a utilizar os resultados de tais pesquisas, em obra acessível ao grande
público. Constam essas informações da Primeira Visitação do Santo Ofício a
Partes do Brasil pelo Licenciado Heitor Furtado de Mendonça. Surgem, nessas
indagações secretas, homens casados casando outra vez com mulatas (talvez do
tipo mulher tornada conhecida como "arde-lhe o rabo", decerto por haver se
extremado em furor anal), adultos europeus ou de procedência européia pecando
contra a natureza, em coitos anais ou através de luxúrias de felação, com
efebos, quer da terra, quer da Guiné, participantes, alguns deles, com tal
volúpia desses amplexos, que de um deles se registra a exclamação "quero mais".
A participação nesses coitos da gente da terra parece indicar, de ameríndios,
presentes em contatos madrugadores com europeus, terem sido, eles próprios,
dados à sodomia ou à pederastia, com o abuso de bundas já então praticado, quer
por europeus em não-europeus, quer -- é possível -- em reciprocidades volutuosas
eurotropicais: euro-ameríndias e euro-afronegras. Pode-se concluir de mulheres
indígenas, desde esses dias, terem revelado preferências, para contatos sexuais
com portugueses, por aqueles motivos priápicos já alegados pelo severo
Varnhagen: os portugueses, em confronto com machos indígenas, teriam se
revelado mais ardorosamente potentes. Sabe-se por alguma observações
antropológicas confiáveis, de homens de culturas primitivas precisarem, em
vários casos, para efeitos de procriação tribal, de festas excitantemente
sexuais, que os levem a atos procriadores, é claro que acompanhados de gozos.
Atos e gozos, entretanto, mais provocados que espontâneos, embora as
investigações do Santo Ofício documentem ocorrência de receptividade de
indígenas a práticas, já por indígenas conhecidas, em que o coito anal teria se
verificado.


Delicatessen ( Hilda Hilst )

Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais
imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema.
Outro dia apareceu uma moça aqui. Esguia, graciosa, pedindo que eu autografasse
meu livro de poesia, "tá quentinho, comprei agora". Conversamos uns quinze
minutos, era a hora do almoço, parecia tão meiga, convidei-a para almoçar,
agradeceu muito, disse-me que eu era sua "ídala", mas ia almoçar com alguém e
não podia perder esse almoço. Alguém especial?, perguntei. Respondeu nítida: "pé
-de-porco". Não entendi. Como? "Adoro pé-de-porco, pé-de-boi também". Ahn...
interessante, respondi. E ela se foi apressada no seu Fusquinha. Não sei por que
não perguntei se ela gostava também de cu de leão. Enfim, fiquei pasma.
Surpresas logo de manhã.
Olga, uma querida amiga passando alguns dias aqui conosco, me diz: pois você
sabe que me trouxeram uma noite um pé-perna de porco, todo recheado de
inverossímeis, como uma delicadeza para o jantar? Parecia uma bota. Do demo,
naturalmente. E lendo uma entrevista com W. H. Auden, um inglês muito
sofisticado, o entrevistador pergunta-lhe: "O que aconteceu com seus gatos?"
Resposta: "Tivemos que matá-los, pois nossa governanta faleceu". Auden também
gostava de miolo, língua, dobradinha, chouriços e achava que "bife" era uma
coisa para as classes mais baixas, "de um mau gosto terrível", ele enfatiza. E
um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também
gostava de poesia... Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas... Perguntei:
"E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?" Resposta: "Tive de matá-los".
"Mas por quê?!" Resposta: "Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou
minha casa não queria os gatos". "Você não podia soltá-los em algum lugar,
tentar dar alguns?" Olhou-me aparvalhado: "Mas onde? Pra quem?" "E como você os
matou?" "A pauladas", respondeu tranqüilo, como se tivesse dado uma morte feliz
a todos eles. E por aí a gente pode ir, ao infinito. Aqueles alemães não ouviam
Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin(?????) à noite, e de
dia não trabalhavam em Auschwitz? A gente nunca sabe nada sobre o outro. E
aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante
sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e
juntá-las? Oscar, traga os meus sais.


Das afronegras notáveis por suas bundas e dos ardores patriarcais (
Gilberto Freyre )

(...) Não há evidência alguma de mulheres indígenas terem se feito notar,
como
aconteceria com mulheres de origem afronegra, introduzidas na colônia, desde o s
éculo XVI, por nádegas notavelmente protuberantes ou por bundas salientemente
grandes. E, por essas saliências, sexualmente provocantes do seu uso, e até do
seu abuso, em coitos de intenções mais voluptuosas. Ao tamanho das nádegas,
desenvolveu-se, é de supor, a tendência, quase folclórica, entre brasileiros, de
associarem-se os chamados cus de pimenta ou rabos ardorosos, já presentes em
referências em registros das investigações do Santo Ofício.
Entretanto, é preciso não resvalar-se na simplificação de atribuir-se a
presença, entre mulheres brasileiras, de bundas grandes, com ou sem essas
conexões, à presença de afronegras notáveis por tais protuberâncias de nádegas.
Mas é preciso atentar-se no fato de mulheres tipicamente ibéricas, inclusive
portuguesas, presentes na colonização do Brasil, terem quase rivalizado, por
vezes, com afronegras, em tais protuberâncias de nádegas. Num livro notável,
(...) The Soul of Sham (Londres, 1908), o mestre em sexologia, Havelock Ellis,
lembra dos por Deniken classificados como do tipo antropológico iberóide serem
em geral morenos de uma pigmentação de um encanto estético chamado por Gauthier,
referindo-se especificamente às telas espanholas de Málaga, de um "dourado
pálido" (...)
E as mulheres? De modo geral, superiores aos homens, afirma Ellis.O que viria
sendo confirmado pela sua maior autenticidade como expressões de tipos
nacionalmente ibéricos. E especificando seus característicos antropologicamente
físicos à base dos sociais: quando jovens, tendentes a delgadas, embora com
bustos e ancas -- bundas, portanto -- já desenvolvidos. Protuberâncias
acentuadas com a idade madura. A idade, em mulher bonita, a associar-se a
gordura. E à gordura, juntar-se, segundo Ellis, "maior amplitude e acentuação de
ancas em relação com as demais partes do corpo".
Para o ideal feminino predominante no Brasil patriarcal, de "gorda e
bonita", é de se supor ter concorrido influência árabe, contra a qual teriam se
oposto, no século XIX, influências romanticamente européias. (...) Um ideal, o
de sinhazinha adolescente, quase menina e, de tão delgada, quase sem bunda e de
seios virginalmente discretíssimos, mãos e pés ostensivamente pequenos. Outro
ideal, o de sinhadona de meia -idade, gorda, ostensivamente bem nutrida,
dignamente bunduda, apta ao desempenho de mulher, mãe de sucessivos filhos e a
cujo físico não faltavam bundas mais dignamente maternas que provocantemente
sexuais. Pois para a satisfação de ardores sexuais o macho patriarcal
brasileiro tinha, aa seu dispor -- por vezes defrontando-se com ciúmes de
esposas ciosas de seus direitos conjugais --, escravas, mucamas, morenidades em
vários graus de mulheres. Isto, dentro da reciprocidade casa grande-senzala.
Miscigenadas, como se a miscigenação se fizesse através de experimentos
antropologicamente eugênicos e estéticos. Experimentos que permitissem que
fossem com que graduadas saliências de bundas, evitando-se os exageros
africanóides.


O dia da criação ( VINÍCIUS DE MORAES )

Macho e fêmea os criou.
Gênese, 1, 27

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado

III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens,
ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como
as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas
em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda
e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das
águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em [cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e [sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.


Vestida de Preto Mário de Andrade ( MÁRIO DE ANDRADE )

Tanto andam agora preocupados em definir o conto que não sei bem se o que vou
contar é conto ou não, sei que é verdade. Minha impressão é que tenho amado
sempre. Depois do amor grande por mim que brotou aos três anos e durou até os
cinco mais ou menos, logo o meu amor se dirigiu para uma espécie de prima
longínqua que freqüentava a nossa casa. Como se vê, jamais sofri do complexo de
Édipo, graças a Deus. Toda a minha vida, mamãe e eu fomos muito bons amigos, sem
nada de amores perigosos.
Maria foi o meu primeiro amor. Não havia nada entre nós, está claro, ela como eu
nos seus cinco anos apenas, mas não sei que divina melancolia nos tomava, se
acaso nos achávamos juntos e sozinhos. A voz baixava de tom, e principalmente as
palavras é que se tornaram mais raras, muito simples. Uma ternura imensa, firme
e reconhecida, não exigindo nenhum gesto. Aquilo aliás durava pouco, porque logo
a criançada chegava. Mas tínhamos então uma raiva impensada dos manos e dos
primos, sempre exteriorizada em palavras ou modos de irritação. Amor apenas
sensível naquele instinto de estarmos sós.
E só mais tarde, já pelos nove ou dez anos, é que lhe dei nosso único beijo, foi
maravilhoso. Se a criançada estava toda junta naquela casa sem jardim da Tia
Velha, era fatal brincarmos de família, porque assim Tia Velha evitava correrias
e estragos. Brinquedo aliás que nos interessava muito, apesar da idade já
avançada para ele. Mas é que na casa de Tia Velha tinha muitos quartos, de forma
que casávamos rápido, só de boca, sem nenhum daqueles cerimoniais de mentira que
dantes nos interessavam tanto, e cada par fugia logo, indo viver no seu quarto.
Os melhores interesses infantis do brinquedo, fazer comidinha, amamentar
bonecas, pagar visitas, isso nós deixávamos com generosidade apressada para os
menores. Íamos para os nossos quartos e ficávamos vivendo lá. O que os outros
faziam, não sei. Eu, isto é, eu com Maria, não fazíamos nada. Eu adorava
principalmente era ficar assim sozinho com ela, sabendo várias safadezas já mas
sem tentar nenhuma. Havia, não havia não, mas sempre como que havia um perigo
iminente que ajuntava o seu crime à intimidade daquela solidão. Era suavíssimo e
assustador.
Maria fez uns gestos, disse algumas palavras. Era o aniversário de alguém, não
lembro mais, o quarto em que estávamos fora convertido em dispensa, cômodas e
armários cheios de pratos de doces para o chá que vinha logo. Mas quem se
lembrasse de tocar naqueles doces, no geral secos, fáceis de disfarçar qualquer
roubo! estávamos longe disso. O que nos deliciava era mesmo a grave solidão.
Nisto os olhos de Maria caíram sobre o travesseiro sem fronha que estava sobre
uma cesta de roupa suja a um canto. E a minha esposa teve uma invenção que eu
também estava longe de não ter. Desde a entrada no quarto eu concentrara todos
os meus instintos na existência daquele travesseiro, o travesseiro cresceu como
um danado dentro de mim e virou crime. Crime não, "pecado" que é como se dizia
naqueles tempos cristãos... E por causa disso eu conseguira não pensar até ali,
no travesseiro.
- Já é tarde, vamos dormir - Maria falou.
Fiquei estarrecido, olhando com uns fabulosos olhos de imploração para o
travesseiro quentinho, mas quem disse travesseiro ter piedade de mim. Maria,
essa estava simples demais para me olhar e surpreender os efeitos do convite:
olhou em torno e afinal, vasculhando na cesta de roupa suja, tirou de lá uma
toalha de banho muito quentinha que estendeu sobre o assoalho. Pôs o travesseiro
no lugar da cabeceira, cerrou as venezianas da janela sobre a tarde, e depois
deitou, arranjando o vestido pra não amassar.
Mas eu é que nunca havia de pôr a cabeça naquele restico de travesseiro que ela
deixou pra mim, me dando as costas. Restico sim, apesar do travesseiro ser
grande. Mas imaginem numa cabeleira explodindo, os famosos cabelos assustados de
Maria, citação obrigatória e orgulho de família. Tia Velha, muito ciumenta por
causa duma neta preferida que ela imaginava deusa, era a única a pôr defeito nos
cabelos de Maria.
- Você não vem dormir também? - ela perguntou com fragor, interrompendo o meu
silêncio trágico.
- Já vou - que eu disse - estou conferindo a conta do armazém.
Fui me aproximando incomparavelmente sem vontade, sentei no chão tomando cuidado
em sequer tocar no vestido, puxa! também o vestido dela estava completamente
assustado, que dificuldade! Pus a cara no travesseiro sem a menor intenção de.
Mas os cabelos de Maria, assim era pior, tocavam de leve no meu nariz, eu podia
espirrar, marido não espirra. Senti, pressenti que espirrar seria muito
ridículo, havia de ser um espirrão enorme, os outros escutavam lá da
sala-de-visita longínqua, e daí é que o nosso segredo se desvendava todinho.
Fui afundando o rosto naquela cabeleira e veio a noite, senão os cabelos (mas
juro que eram cabelos macios) me machucavam os olhos. Depois que não vi nada,
ficou fácil continuar enterrando a cara, a cara toda, a alma, a vida, naqueles
cabelos, que maravilha! até que o meu nariz tocou num pescocinho roliço. Então
fui empurrando os meus lábios, tinha uns bonitos lábios grossos, nem eram
lábios, era beiço, minha boca foi ficando encanudada até que encontrou o
pescocinho roliço. Será que ela dorme de verdade?... Me ajeitei muito sem-cerimô
nia, mulherzinha! e então beijei. Quem falou que este mundo é ruim! só
recordar... Beijei Maria, rapazes! eu nem sabia beijar, está claro, só beijava
mamães, boca fazendo bulha, contato sem nenhum calor sensual.
Maria, só um leve entregar-se, uma levíssima inclinação pra trás me fez sentir
que Maria estava comigo em nosso amor. Nada mais houve. Não, nada mais houve.
Durasse aquilo uma noite grande, nada mais haveria porque é engraçado como a
perfeição fixa a gente. O beijo me deixara completamente puro, sem minhas
curiosidades nem desejos de mais nada, adeus pecado e adeus escuridão! Se fizera
em meu cérebro uma enorme luz branca, meu ombro bem que doía no chão, mas a luz
era violentamente branca, proibindo pensar, imaginar, agir. Beijando.
Tia Velha, nunca eu gostei de Tia Velha, abriu a porta com um espanto
barulhento. Percebi muito bem, pelos olhos dela, que o que estávamos fazendo era
completamente feio.
- Levantem!... Vou contar pra sua mãe, Juca!
Mas eu, levantando com a lealdade mais cínica deste mundo!
- Tia Velha me dá um doce?
Tia Velha - eu sempre detestei Tia Velha, o tipo da bondade Berlitz, injusta,
sem método - pois Tia Velha teve a malvadeza de escorrer por mim todo um olhar
que só alguns anos mais tarde pude compreender inteiramente. Naquele instante,
eu estava só pensando em disfarçar, fingindo uma inocência que poucos segundos
antes era real.
- Vamos! saiam do quarto!
Fomos saindo muito mudos, numa bruta vergonha, acompanhados de Tia Velha e os
pratos que ela viera buscar para a mesa de chá.
O estranhíssimo é que principiou, nesse acordar à força provocado por Tia Velha,
uma indiferença inexplicável de Maria por mim. Mais que indiferença, frieza
viva, quase antipatia. Nesse mesmo chá inda achou jeito de me maltratar diante
de todos, fiquei zonzo.
Dez, treze, quatorze anos... Quinze anos. Foi então o insulto que julguei
definitivo. Eu estava fazendo um ginásio sem gosto, muito arrastado, cheio de
revoltas íntimas, detestava estudar. Só no desenho e nas composições de
português tirava as melhores notas. Vivia nisso: dez nestas matérias, um, zero
em todas as outras. E todos os anos era aquela já esperada fatalidade: uma, duas
bombas (principalmente em matemáticas) que eu tomava apenas o cuidado de apagar
nos exames de segunda época.
Gostar, eu continuava gostando muito de Maria, cada vez mais, conscientemente
agora. Mas tinha uma quase certeza que ela não podia gostar de mim, quem gostava
de mim!... Minha mãe... Sim, mamãe gostava de mim, mas naquele tempo eu chegava
a imaginar que era só por obrigação. Papai, esse foi sempre insuportável,
incapaz de uma carícia. Como incapaz de uma repreensão também. Nem mesmo comigo,
a tara da família, ele jamais ralhou. Mas isto é caso pra outro dia. O certo é
que, decidido em minha desesperada revolta contra o mundo que me rodeava,
sentindo um orgulho de mim que jamais buscava esclarecer, tão absurdo o
pressentia, o certo é que eu já principiava me aceitando por um caso perdido,
que não adiantava melhorar.
Esse ano até fora uma bomba só. Eu entrava da aula do professor particular,
quando enxerguei a saparia na varanda e Maria entre os demais. Passei bastante
encabulado, todos em férias, e os livros que eu trazia na mão me denunciando,
lembrando a bomba, me achincalhando em minha imperfeição de caso perdido.
Esbocei um gesto falsamente alegre de bom-dia, e fui no escritório pegado,
esconder os livros na escrivaninha de meu pai. Ia já voltar para o meio de
todos, mas Matilde, a peste, a implicante, a deusa estúpida que Tia Velha perdia
com suas preferências:
- Passou seu namorado, Maria.
- Não caso com bombeado - ela respondeu imediato, numa voz tão feia, mas tão
feia, que parei estarrecido. Era a decisão final, não tinha dúvida nenhuma.
Maria não gostava mais de mim. Bobo de assim parado, sem fazer um gesto, mal
podendo respirar.
Aliás um caso recente vinha se ajuntar ao insulto pra decidir de minha sorte.
Nós seríamos até pobretões, comparando com a família de Maria, gente que até
viajava na Europa. Pois pouco antes, os pais tinham feito um papel bem
indecente, se opondo ao casamento duma filha com um rapaz diz-que pobre mas
ótimo. Houvera um rompimento de amizade, mal-estar na parentagem toda, o caso
virara escândalo mastigado e remastigado nos comentários de hora de jantar. Tudo
por causa do dinheiro.
Se eu insistisse em gostar de Maria, casar não casava mesmo, que a família dela
não havia de me querer. Me passou pela cabeça comprar um bilhete de loteria.
"Não caso com bombeado"... Fui abraçando os livros de mansinho, acariciei-os
junto ao rosto, pousei a minha boca numa capa, suja de pó suado, retirei a boca
sem desgosto. Naquele instante eu não sabia, hoje sei: era o segundo beijo que
eu dava em Maria, último beijo, beijo de despedida, que o cheiro desagradável do
papelão confirmou. Estava tudo acabado entre nós dois.
Não tive mais coragem pra voltar à varanda e conversar com... os outros. Estava
com uma raiva desprezadora de todos, principalmente de Matilde. Não, me parecia
que já não tinha raiva de ninguém, não valia a pena, nem de Matilde, o insulto
partira dela, fora por causa dela, mas eu não tinha raiva dela não, só tristeza,
só vazio, não sei... creio que uma vontade de ajoelhar. Ajoelhar sem mais nada,
ajoelhar ali junto da escrivaninha e ficar assim, ajoelhar. Afinal das contas eu
era um perdido mesmo, Maria tinha razão, tinha razão, tinha razão, que tristeza!
Foi o fim? Agora é que vem o mais esquisito de tudo, ajuntando anos pulados.
Acho que até não consigo contar bem claro tudo o que sucedeu. Vamos por ordem:
Pus tal firmeza em não amar Maria mais, que nem meus pensamentos me traíram. De
resto a mocidade raiava e eu tinha tudo a aprender. Foi espantoso o que se
passou em mim. Sem abandonar o meu jeito de "perdido", o cultivando mesmo,
ginásio acabado, eu principiara gostando de estudar. Me batera, súbito, aquela
vontade irritada de saber, me tornara estudiosíssimo. Era mesmo uma impaciência
raivosa, que me fazia devorar bibliotecas, sem nenhuma orientação. Mas brilhava,
fazia conferências empoladas em sociedadinhas de rapazes, tinha idéias que
assustavam todo o mundo. E todos principiavam maldando que eu era muito
inteligente mas perigoso.
Maria, por seu lado, parecia uma doida. Namorava com Deus e todo o mundo, aos
vinte anos fica noiva de um rapaz bastante rico, noivado que durou três meses e
se desfez de repente, pra dias depois ela ficar noiva de outro, um diplomata
riquíssimo, casar em duas semanas com alegria desmedida, rindo muito no altar e
partir em busca duma embaixada européia com o secretário chique seu marido.
Às vezes meio tonto com estes acontecimentos fortes, acompanhados meio de longe,
eu me recordava do passado, mas era só pra sorrir da nossa infantilidade e
devorar numa tarde um livro incompreensível de filosofia. De mais a mais, havia
Rose pra de-noite, e uma linda namoradinha oficial, a Violeta. Meus amigos me
chamavam de "jardineiro", e eu punha na coincidência daqueles duas flores uma
força de destinação fatalizada. Tamanha mesmo que topando numa livraria com The
Gardener de Tagore, comprei o livro e comecei estudando o inglês com loucura.
Mário de Andrade conta num dos seus livros que estudou o alemão por causa dum
emboaba tordilha... eu também: meu inglês nasceu duma Violeta e duma Rose.
Não, nasceu de Maria. Foi quando uns cinco anos depois, Maria estava pra voltar
pela primeira vez ao Brasil, a mãe dela, queixosa de tamanha ausência,
conversando com mamãe na minha frente, arrancou naquele seu jeito de gorda
desabrida:
- Pois é, Maria gostou tanto de você, você não quis!... e agora ela vive longe
de nós.
Pela terceira vez fiquei estarrecido neste conto. Percebi tudo num tiro de
canhão. Percebi ela doidejando, noivando com um, casando com outro, se
atordoando com dinheiro e brilho. Percebi que eu fora uma besta, sim agora que
principiava sendo alguém, estudando por mim fora dos ginásios, vibrando em
versos que muita gente já considerava. E percebi horrorizado, que Rose! nem
Violeta, nem nada! era Maria que eu amava como louco! Maria é que amara sempre,
como louco: ôh como eu vinha sofrendo a vida inteira, desgraçadíssimo,
aprendendo a vencer só de raiva, me impondo ao mundo por despique, me
superiorizando em mim só por vingança de desesperado. Como é que eu pudera me
imaginar feliz, pior: ser feliz, sofrendo daquele jeito! Eu? eu não! era Maria,
era exclusivamente Maria toda aquela superioridade que estava aparecendo em
mim... E tudo aquilo era uma desgraça muito cachorra mesma. Pois não andavam
falando muito de Maria? Contavam que pintava o sete, ficara célebre com as
extravagâncias e aventuras. Estivera pouco antes às portas do divórcio, com um
caso escandaloso por demais, com um pintor de nomeada que só pintava efeitos de
luz. Maria falada, Maria bêbeda, Maria passada de mão em mão, Maria pintada
nua...
Se dera como que uma transposição de destinos... E tive um pensamento que ao
menos me salvou no instante: se o que tinha de útil agora em mim era Maria, se
ela estava se transformando no Juca imperfeitíssimo que eu fora, se eu era
apenas uma projeção dela, como ela agora apenas uma projeção de mim, se nos
trocáramos por um estúpido engano de amor: mas ao menos que eu ficasse bem ruim,
mas bem ruim mesmo outra vez pra me igualar a ela de novo. Foi a razão da briga
com Violeta, impiedosa, e a farra dessa noite - bebedeira tamanha que acabei
ficando desacordado, numa série de vertigens, com médico, escândalo, e choro
largo de mamãe com minha irmã.
Bom, tinha que visitar Maria, está claro, éramos "gente grande" agora. Quando
soube que ela devia ir a um banquete, pensei comigo: "ótimo, vou hoje logo
depois de jantar, não encontro ela e deixo o cartão". Mas fui cedo demais.
Cheguei na casa dos pais dela, seriam nove horas, todos aqueles requififes de
gente ricaça, criado que leva cartão numa salva de prata etc. Os da casa estavam
ainda jantando. Me introduziram na saletinha da esquerda, uma espécie de
luís-quinze muito sem-vergonha, dourado por inteiro, dando pro hol central. Que
fizesse o favor de esperar, já vinham.
Contemplando a gravura cor-de-rosa, senti de supetão que tinha mais alguém na
saleta, virei. Maria estava na porta, olhando pra mim, se rindo, toda vestida de
preto. Olhem: eu sei que a gente exagera em amor, não insisto. Mas se eu já tive
a sensação da vontade de Deus, foi ver Maria assim, toda de preto vestida,
fantasticamente mulher. Meu corpo soluçou todinho e tornei a ficar estarrecido.
- Ao menos diga boa-noite, Juca...
"Boa-noite, Maria, eu vou-me embora"... meu desejo era fugir, era ficar e ela
ficar mas, sim, sem que nos tocássemos sequer. Eu sei, eu juro que sei que ela
estava se entregando a mim, me prometendo tudo, me cedendo tudo quanto eu
queria, naquele se deixar olhar, sorrindo leve, mãos unidas caindo na frente do
corpo, toda vestida de preto. Um segundo, me passou na visão devorá-la numa hora
estilhaçada de quarto de hotel, foi horrível. Porém, não havia dúvida: Maria
despertava em mim os instintos da perfeição. Balbuciei afinal um boa-noite muito
indiferente, e as vozes amontoadas vinham do hol, dos outros que chegavam.
Foi este o primeiro dos quatro amores eternos que fazem de minha vida uma grave
condensação interior. Sou falsamente um solitário. Quatro amores me acompanham,
cuidam de mim, vêm conversar comigo. Nunca mais vi Maria, que ficou pelas
Europas, divorciada afinal, hoje dizem que vivendo com um austríaco interessado
em feiras internacionais. Um aventureiro qualquer. Mas dentro de mim, Maria...
bom: acho que vou falar banalidade.