Frases e Pensamentos de homens

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HOMENS

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O Papel da Ilusão na Nossa Vida ( CHARLES BAUDELAIRE )

«As ilusões», dizia-me o meu amigo, «talvez sejam em tão grande número
quanto as relações dos homens entre si ou entre os homens e as coisas. E, quando
a ilusão desaparece, ou seja, quando vemos o ser ou o facto tal como existe fora
de nós, experimentamos um sentimento bizarro, metade dele complicada pela
lástima da fantasia desaparecida, metade pela surpresa agradável diante da
novidade, diante do facto real».


Os cães são extremamente carinhosos e fiéis. Quando aprenderem a cortar grama e trocar pneu,ganharão de 10 a zero dos homens,principalmente no quesito inteligência...
( Frases e Pensamentos de Autor Desconhecido) Mensagem sobre Feminismo


A omissão de quem pode e não auxilia o povo, é comparável a um crime que se pratica contra a comunidade inteira. Tenho visto muitos espíritos dos que foram homens públicos na Terra em lastimável situação na Vida Espiritual.(Frases e Pensamentos de Chico Xavier)


OS HOMENS OCOS IV ( T.S. Eliot )

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos
Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio
Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.


Segredo(FRASES E PENSAMENTOS DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.
Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.
Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.
Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.


Sentimo-nos sozinhos. Os homens são sozinhos e lutam para evita-lo. Nós não tentamos evita-lo. Sabemos que estamos sós nos acontecimentos mais importantes dos nossos corpos,das nossas vidas.
( Frases e Pensamentos de Jeanne Moreau) Mensagem sobre solidão


Quis Deus que a nova revelação chegasse aos homens por uma via mais rápida e mais autêntica. Eis por que encarregou os Espíritos de a levar de um a outro polo, manifestando-se por toda parte, sem dar a ninguém o privilégio exclusivo de ouvir a sua palavra.
(ALLAN KARDEC)


Não busco recompensa alguma, nem mesmo renascer num paraíso; procuro, porém, o bem dos homens, procuro reconduzir os que saíram do Caminho, alumiar os que vivem nas trevas e no erro, banir do mundo toda pena e sofrimento.
(Buddha Sidharta Gautama / Buda Sakyamuni / Sidarta)


Se queimassem todos os livros, a fonte da doutrina não seria emudecida, por isso que não está na terra: surge por toda a parte e cada um pode aproveitá-la. Em falta de homens para a espalhar, haverá sempre Espíritos que atingem todo o mundo e ninguém os pode atingir.
(ALLAN KARDEC)


Corações trancados... conheci alguns homens essencialmente mata-mata,que saem com uma mulher até conquista-la,fazer sexo com ela e depois desaparecem. Fazem isso por anos a fio,sem o menor sentimento ou intenção de se apegar emocionalmente. Não tenho a menor dúvida que esses homens procuram melhorar a auto estima com isso,mostrando a si mesmos que podem,que são viris,que são sedutores e fortes a ponto de não se envolver. Só que no fundo são fracos,porque têm medo do sentimento. Sentir dá medo.
( Frases e Pensamentos de Léa Waider) Mensagem sobre Autoconhecimento


Fé e amor são propensos a serem espasmódicos nas melhores mentes. Os homens vivem o limite dos mistérios e harmonias nos quais eles nunca entram, e com suas mãos no trinco da porta eles morrem do lado de fora.
( Frases e Pensamentos de Ralph Waldo Emerson ) Mensagem sobre Filosofia


Parece, Meu Caro ..., que as cabeças dos homens mais notáveis minguam quando se reúnem, e que onde há mais sábios, há também menos sabedoria. Os grandes grupos, prendem-se tanto aos momentos e aos vãos costumes, que o essencial não vem senão depois.
( Frases e Pensamentos de Motesquieu)


O que os homens chamam de amizade nada mais é do que uma aliança,uma conciliação de interesses recíprocos,uma troca de favores. Na realidade,é um sistema comercial,no qual o amor de si mesmo espera recolher alguma vantagem.
( Frases e Pensamentos de La Rochefoucauld) Tema: Amizade


Todas as religiões, com seus deuses, semideuses, profetas, messias e santos, são resultado da fantasia e credulidade de homens que ainda não atingiram o total desenvolvimento e personalidade das suas capacidades intelectuais
( Frases e Pensamentos deMikhail Bakunin) Mensagem sobre Religião


Você deve aprender que não pode ser amado por todas as pessoas. Isso é o ideal. No mundo dos homens, isso é raramente encontrado. Pode ser a melhor ameixa do mundo, madura, suculenta, doce, e oferecer-se a todos. Mas deve se lembrar de que existem pessoas que não gostam de ameixas.
( LEO BUSCAGLIA )


"Não gosto de lágrimas, ainda em olhos de mulheres, sejam ou não bonitas; são confissões de fraqueza, e eu nasci com tédio aos fracos. Ao cabo, as mulheres são menos fracas que os homens,ou mais pacientes, mais capazes de sofrer a dor e a adversidade..." (Frases e Pensamentos de Machado de Assis)


O que os homens chamam de amizade nada mais é do que uma aliança,uma conciliação de interesses recíprocos,uma troca de favores. Na realidade,é um sistema comercial,no qual o amor de si mesmo espera recolher alguma vantagem.
( Frases e Pensamentos de La Rochefoucauld) Mensagem sobre Amizade


Todas as religiões, com seus deuses, semideuses, profetas, messias e santos, são resultado da fantasia e credulidade de homens que ainda não atingiram o total desenvolvimento e personalidade das suas capacidades intelectuais.
( Frases e Pensamentos deMikhail Bakunin ) Mensagem sobre Religião


Enquanto o homem continuar a ser o destruidor dos seres animados dos planos inferiores, não conhecerá a saúde nem a paz. Enquanto os homens massacrarem os animais, eles se matarão uns aos outros. Aquele que semeia a morte e o sofrimento não pode colher a alegria e o amor
( Frases e Pensamentos de Pitágoras )


Mantenha-se simples, bom, puro, sério, livre de afetação, amigo da justiça, temente aos deuses, gentil, apaixonado, vigoroso em todas as suas atitudes. Lute para viver como a filosofia gostaria que vivesse. Reverencie os deuses e ajude os homens. A vida é curta.
( Marco Aurélio ) Mensagem sobre Filosofia


Nada beneficiará tanto a saúde humana e aumentará as chances de sobrevivência da vida na terra quanto a evolução para uma dieta vegetariana. A ordem de vida vegetariana, por seus efeitos físicos, influenciará o temperamento dos homens de uma tal maneira que melhorará em muito o destino da humanidade.
(ALBERT EINSTEIN)


Minha missão não se esgota na fraternidade entre os indianos. A minha missão não está simplesmente na libertação da Índia,embora ela absorva,em prática,toda a minha vida e todo o meu tempo. Por meio da libertação da Índia espero atuar e desenvolver a missão da fraternidade dos homens.
( MAHATMA GANDHI)Tema: Liberdade


Estou convencido de que o mundo não é um mero pântano onde homens e mulheres se jogam... e morrem. Algo magnificente está ocorrendo aqui em meio às crueldades e tragédias e o desafio supremo à inteligência é fazer prevalecer o que há de mais nobre e melhor em nossa curiosa herança.
( C. A. Beard ) Mensagem sobre Filosofia


A Bíblia é nosso guia nos caminhos seguros que conduzem à vida eterna. Deus inspirou homens a escreverem aquilo que nos apresentará a verdade, que atrairá e que, sendo praticado, habilitará o recebedor a adquirir força moral para ocupar um lugar entre as mentes mais altamente educadas.
( Frases e Pensamentos de Ellen G. White)


Se eu fosse jovem, em vez de fazer Arquitetura, gostaria de estar na rua protestando contra este mundo de merda em que vivemos. Mas, se isso não é possível, limito-me a reclamar o mundo mais justo que desejamos, com os homens iguais, de mãos dadas, vivendo dignamente esta vida curta e sem perspectivas que o destino lhes impõe.
(OSCAR NIEMEYER)


As que trabalham no 0900. Qual é a diferença entre um bar e um circo? No circo os palhaços não falam. Os cães são extremamente carinhosos e fiéis. Quando aprenderem a cortar grama e trocar pneu, ganharão de 10 a zero dos homens, principalmente no quesito inteligência..
( Frases e Pensamentos de Autor Desconhecido) Mensagem sobre Feminismo


A compulsão dos homens de trair,ou a negação da monogamia é fruto do determinismo genético. Movidos pelo instinto de perpetuar a espécie,alimentado pela incontinência hormonal,os machos humanos têm necessidade de distribuir seus gens entre um grande número de parceiras.
( Frases e Pensamentos de Autor Desconhecido) Mensagem sobre Machismo


Não utilizemos bombas e armas para dominar o mundo. Vamos usar amor e compaixão. A paz começa com um sorriso - sorri cinco vezes por dia para alguém a quem não gostarias realmente de sorrir - faze isso pela paz. Então vamos irradiar a paz de Deus e assim acender a Sua luz e extinguir do mundo e dos corações de todos os homens todo o ódio e amor pelo poder.


Não há Religião sem Rito ( Eça de Queiróz )

Uma religião a que se elimine o ritual desaparece - porque as religiões
para os homens (com excepção dos raros metafísicos, moralistas e místicos) não
passam de um conjunto de ritos, através dos quais cada povo procura estabelecer
uma comunicação íntima com o seu deus e dele obter favores.


Em vão centenas de milhar de homens, amontoados num pequeno espaço, se esforçavam por disfigurar a terra em que viviam; em vão a cobriam de pedras para que nada pudesse germinar; em vão arrancavam as ervas tenras que pugnavam por irromper; em vão impregnavam o ar de fumo de petróleo e de carvão; em vão escorraçavam os animais e os pássaros porque até na cidade a Primavera era Primavera.
( Tolstoi )


Os Crentes e os Fanáticos ( DIDEROT )

A crença num Deus produz e deve produzir quase tantos fanáticos quantos crentes. Por toda a parte em que se admite um Deus, existe um culto; em todo o lugar onde existe um culto, a ordem natural dos deveres morais é derrubada, e a moral corrompida. Cedo ou tarde, chega um momento em que a noção que impediu de roubar um escudo faz degolar cem mil homens.


Em uma época como a nossa, abundante de iniqüidade, e em que o caráter de Deus e Sua lei são igualmente olhados com desdém, especial deve ser o cuidado tomado em ensinar a juventude a estudar, reverenciar e obedecer à vontade divina relevada aos homens. O temor do Senhor está-se extinguindo no espírito de nossos jovens, devido à sua negligência de estudar a Bíblia.
( Frases e Pensamentos de Ellen G. White)


OS HOMENS OCOS III ( T.S. Eliot )

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.
E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.


Sim,o sonho! Sim,a quimera! Sim,a ilusão! Sem os sonhos,sem as quimeras,sem as ilusões,a vida não tem sentido e não oferece interesse. A utopia é o principio de todo progresso. Sem as utopias de outrora,os homens viveriam ainda miseráveis e nus nas cavernas. Foram os utopistas que traçaram as linhas da primeira cidade... Dos sonhos generosos,nascem as realidades benéficas...
( Frases e Pensamentos de Anatole France) Mensagem sobre Sonho


E ao homem é impossível viver quando seus desejos chegam ao fim, tal como quando seus sentidos e imaginação ficam paralisados. A felicidade é um contínuo progresso do desejo, de um objeto para outro, não sendo a obtenção do primeiro outra coisa senão o caminho para conseguir o segundo.......Assinalo assim, em primeiro lugar, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e mais poder, que cessa apenas com a morte.
( THOMAS HOBBES )


Vida Ilusória ( HENRY DAVID THOREAU )

Ao mesmo tempo que a realidade é uma fábula, simulações e enganos são
considerados como as verdades mais sólidas. Se os homens se detivessem a
observar apenas as realidades, e não se permitissem ser enganados, a vida,
comparada com as coisas que conhecemos, seria como um conto de fadas ou as
histórias das Mil e Uma Noites.
Se respeitássemos apenas o que é inevitável e tem direito a ser, a música e a
poesia ressoariam pelas ruas fora. Quando somos calmos e sábios, percebemos que
só as coisas grandes e dignas têm existência permanente e absoluta, que os
pequenos medos e os pequenos prazeres não passam de sombra da realidade, o que é
sempre estimulante e sublime. Por fecharem os olhos e dormirem, por consentirem
ser enganados pelas aparências, os homens em toda a parte estabelecem e confinam
as suas vidas diárias de rotina e hábito em cima de fundações puramente
ilusórias.


Quando o Homem Quer ( ALBERT CAMUS )

Sim, o homem é o seu próprio fim. E é o seu único fim. Se quer ser qualquer
coisa, tem de ser nesta vida. Agora sei, aliás, que embora conquistadores falem
algumas vezes de vencer e de exceder, o que eles querem sempre dizer é
«excederem-se». Suponho que sabem o que isto quer dizer. Em certos momentos,
todos os homens se sentem iguais a um deus. É assim, pelo menos, que se diz. Mas
isto vem do facto de eles terem sentido, num instante, a espantosa grandeza do
espírito humano. Os conquistadores são somente aqueles homens que sentem a sua
força, o bastante para terem a certeza de viver constantemente nessas alturas e
na plena consciência dessa grandeza. É uma questão de aritmética, de mais ou de
menos. Os conquistadores são os que podem mais. Mas não podem mais do que o
próprio homem quando ele o quer. É por isso que eles nunca deixam o crisol
humano, mergulhando no mais ardente da alma das revoluções.


Se alguma coisa divina existe entre os homens, é a justiça. Nisto se compendiam todas as minhas crenças políticas. De todas elas essa é o centro. Mas para que a justiça venha a ser essa força, esse elemento de pureza, esse princípio de estabilidade, é preciso que não se misture com as paixões da rua, ou as paixões dos governos, e seja a justiça isenta, a justiça impassível, a soberana justiça, a congênita em nós, entre os sentimentos sublimes à religião e à verdade.
( Frases e Pensamentos de Rui Barbosa )


Mulheres são como maçãs em árvores. As melhores estão no topo. Os homens não querem alcançar essas boas porque têm medo de cair e se machucar. Preferem pegar as maçãs podres que ficam no chão, que não são boas como as do topo, mas são fáceis de conseguir. Assim, as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade, eles estão errados. Elas têm que esperar um pouco para o homem certo chegar, aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore(Frases e Pensamentos de Mário Quintana)


A Falsa Emancipação da Mulher ( LEON TOLSTOI )

Actualmente, tem-se a pretensão de que a mulher é respeitada. Uns cedem-lhe o
lugar, apanham-lhe o lenço: outros reconhecem-lhe o direito de exercer todas as
funções, de tomar parte na administração, etc.; mas a opinião que têm dela é
sempre a mesma - um instrumento de prazer. E ela sabe-o. Isso em nada difere da
escravatura. A escravatura mais não é do que a exploração por uns do trabalho
forçado da maioria. Assim, para que deixe de haver escravatura é necessário que
os homens cessem de desejar usufruir o trabalho forçado de outrem e considerem
semelhante coisa como um pecado ou vergonha. Entretanto, eles suprimem a forma
exterior da escravatura, depois imaginam, persuadem-se de que a escravatura está
abolida mas não vêem, não querem ver que ela continua a existir porque as
pessoas procedem sempre de maneira idêntica e consideram bom e equitativo
aproveitar o trabalho alheio. E desde que isso é julgado bom, torna-se
inveitável que apareçam homens mais fortes ou mais astutos dispostos a passar à
acção. A escravatura da mulher reside unicamente no facto de os homens desejarem
e julgarem bom utilizá-la como instrumento de prazer. Hoje em dia, emancipam-na
ou concedem-lhe todos os direitos iguais aos do homem, mas continua-se a
considerá-la como um instrumento de prazer, a educá-la nesse sentido desde a
infância e por meio da opinião pública. Por isso ela continua uma escrava,
humilhada, pervertida, e o homem mantém-se um corruptor possuidor de escravos.


"Mulheres são como maçãs em árvores. As melhores estão no topo... Os homens não querem alcançar essas boas, porque eles têm medo de cair e se machucar. Preferem pegar as maçãs podres que ficam no chão, que não são boas como as do topo, mas são fáceis de se conseguir. Assim as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade, ELES estão errados... Elas têm que esperar um pouco para o homem certo chegar, aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore." (Frases e Pensamentos de Machado de Assis)


Moral Divina ( ARISTÓTELES )

Não se deve escutar as pessoas que nos aconselham, sob o pretexto de que
somos homens, de só pensar nas coisas humanas e, sob pretexto de que somos
mortais, de renunciar às coisas imortais. Mas, na medida do possível, devemos
tornar-nos imortais e tudo fazer para viver conforme à parte mais excelente de
nós mesmos, pois o princípio divino, por mais fraco que seja pelas suas
dimensões, prevalece, e muito, sobre qualquer outra coisa pelo seu poder e pelo
seu valor.


À Noite Dissolve os Homens(FRASES E PENSAMENTOS DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.
A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança...
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!
nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.
Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.
O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam
na escuridão
como um sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes
se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão
simples e macio...
Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.


A Falácia do Homem Livre ( ALBERT CAMUS )

Cá entre nós, a servidão, de preferência sorridente, é pois inevitável. Mas
não o devemos reconhecer. Quem não pode fugir a ter escravos, não valerá mais
que os chame homens livres? Por princípio, em primeiro lugar, e depois para os
não desesperar. É-lhes bem devida esta compensação, não acha? Deste modo eles
continuarão a sorrir e nós manter-nos-emos de consciência tranquila. Sem o que,
seríamos forçados a voltar-nos para nós mesmos, ficaríamos loucos de dor, ou até
modestos, tudo é de temer.


Sete bons homens de fino saber Criaram a xoxota, como pode se ver: Chegando na frente, veio um açougueiro Com faca afiada deu talho certeiro. Um bom marceneiro, com dedicação Fez furo no centro com malho e formão. Em terceiro o alfaiate, capaz e moderno Forrou com veludo o lado interno. Um bom caçador, chegando na hora Forrou com raposa, a parte de fora. Em quinto chegou, sagaz pescador Esfregando um peixe, deu-lhe o odor. Em sexto, o bom padre da igreja daqui. Benzeu-a dizendo: É só pra xixi! Por fim o marujo, zarolho e perneta Chupou-a, fodeu-a e chamou-a Buceta(Frases e Pensamentos de Mário Quintana)


DEPOIS DA ORGIA ( AUGUSTO DOS ANJOS )

O prazer que na orgia a hetaíra goza
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma túnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!
Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.
Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,
Semelhante a um cachorro de atalaia
Às decomposiç5es da Natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!


Ser poeta ( FLORBELA ESPANCA )

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
é condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


Da teoria à prática ou de como as ditas polacas entram nesta história (
Gilberto Freyre )

Perdendo em anúncios e tendendo a bunda a um tão bom como tão bom em
práticas de
coito, não é raro, entre brasileiros atuais, a alternativa: o gozo anal tendendo
a alternar, para não poucos homens, com o chamado papai-mamãe, que seria o
encontro do pênis com a vulva.
Por algum tempo foi a bunda o chamariz, da parte de mulheres da vida, do tipo
chamado indistintamente polaco, em ruas de ostensiva prostituição comercial, a
homens ao alcance de suas vozes, que consideravam cansados de coitos conjugais
monotonamente normais. Tais mulheres anunciavam deixarem-se enrabar ou a
praticar o sexo oral.
Assinale-se que, ao começar a haver, em Mangues, tais ofertas, parece ter havido
não pouca repulsa da parte de mulatas mais castiçamente brasileiras, a homens
que lhes propuseram facilitar-lhes tais substitutos de coitos convencionais. Que
fossem se acanalhar com polacas! O que não parece ter impedido de as
alternativas virem sendo adotadas por brasileiras de cor, com as bundas
avantajadas sendo cortejadas por homens inclinados a esse tipo porventura mais
carnal de coito.


É um termo vago, indeterminado, que expressa um princípio desconhecido, porém de efeitos conhecidos que sentimos em nós mesmos. A palavra alma corresponde à animu dos latinos, à palavra que usam todas as nações para expressar o que não compreendem mais que nós. No sentido próprio e literal do latim e das línguas que dele derivam, significa " o que anima". Por isso se diz: A alma dos homens, dos animais e das plantas, para significar seu princípio de vegetação e de vida. Ao pronunciar esta palavra, só nos dá uma idéia confusa, como quando se diz no Gênesis: «Deus soprou no rosto do homem um sopro de vida, e se converteu em alma vivente, a alma dos animais está no sangue, não mateis, pois, sua alma.


Conversar ( Octavio Paz )

Em um poema leio:
Conversar é divino.
Mas os deuses não falam:
fazem, desfazem mundos
enquanto os homens falam.
Os deuses, sem palavras,
jogam jogos terríveis.
O espírito baixa
e desata as línguas
mas não diz palavra:
diz luz. A linguagem
pelo deus acesa,
é uma profecia
de chamas e um desplume
de sílabas queimadas:
cinza sem sentido.
A palavra do homem
é filha da morte.
Falamos porque somos
mortais: as palavras
não são signos, são anos.
Ao dizer o que dizem
os nomes que dizemos
dizem tempo: nos dizem,
somos nomes do tempo.
Conversar é humano.


"Era uma vez um cego de nascença. Nunca tinha visto o sol,e perguntava como era este às pessoas que enxergavam. Alguém lhe disse: O sol é como uma bandeja de latão. O cego bateu na bandeja de latão e ouviu o som. Depois,quando ouviu um sino,pensou que fosse o sol. Outra vez,disse-lhe alguém: o sol é como uma vela. O cego apalpou uma vela,e pensou que assim era o formato do sol. A verdade é mais difícil de descrever que o sol; e quando os homens não a conhecem,são exatamente como o cego. Ainda que façais o possível para esclarecê-la por meio de comparações e exemplos,ela ficará tão confusa como a comparação da bandeja de latão e da vela."
( Frases e Pensamentos de Su Tungp’o) Mensagem sobre Verdade


A diferença entre a maioria dos homens e eu, reside no fato de que em mim as 'paredes divisórias' são transparentes. É uma particularidade minha. Nos outros, elas são muitas vezes tão espessas, que lhes impedem a visão; eles pensam, por isso, que não há nada do outro lado. [...] Quem nada vê não tem segurança, não pode tirar conclusão alguma, ou não confia em suas conclusões. Acho que meus pensamentos giram em torno de Deus como os planetas em torno do Sol, e são da mesma forma irresistivelmente atraídos por ele. Eu me sentiria como o maior pecador querer opor uma resistência a esta força. (...) compreendi que Deus - pelo menos para mim - era uma das experiências mais imediatas.
( Frases e Pensamentos de CARL GUSTAV JUNG)


Oh! júbilo, centelha clara e ardente do divino fulgar, luz essencial! Ébrios de teu clarão onipotente, penetrantes em teu santuário ideal. Une-se ao teu prestígio, novamente, tudo o que separou, na vida o mal. De novo os homens trêmulos se irmanam ao resplendor de tua chama celestial! Aquele a quem os fados concederam um amigo na vida, o que achou de uma doce companheira à sombra apetecida, venha conosco, em júbilo cantar. Sim, todos os que podem chamar sua alma, neste vale de agonia. Mas, o que não logrou essa conquista, fuja, chorando, a nossa companhia pois não nos pode acompanhar! Sorvem júbilo puro os seres todos no seio ultriz da natureza clara, sejam bons, sejam maus, hinos e ápodos todos são filhos seus.
( Ludwig van Beethoven )


Deus sonha ( VICTOR HUGO )

O dia acorda! Deus por uma fresta
das nuvens a espreitar, ri-se. A floresta,
o campo, o inseto, o ninho sussurrante,
a aldeia, o sol que tinge a serrania...
Tudo isso acorda, quando acorda o dia
no fresco banho de ouro de Levante.
Deus sonha! Vasa os olhos d'água; pica
as artérias da terra; o liz fabrica;
e da matéria sonda o fundo ovário,
pinta as rosas de branco e de vermelho
e faz das asas do escaravelho
a surpresa do mundo planetário.
Homens! As férreas naus de velas largas,
monstros revéis, formidolosas cargas
do bruto oceano arfando às insolências;
extenuados os ventos, e nos flancos
longo enxame a arrastar de flocos brancos
de escuma, e raios, e fosforescências...
Os estandartes de arrogantes pregas;
as batalhas, os choques, as refregas;
náuseas de fogo de canhões sangrentos;
feroz carnificina de ferozes
batalhões - bando negro de albatrozes
de asa espalmada e aberta aos quatro ventos...
Comburentes, flamívomas bombardas,
ígnea selva de canos de espingardas,
estampidos, estrépitos, canglores;
e bêbado de pólvora e fumaça,
Napoleão, que galopando passa,
ao ruflar de frenéticos tambores;
a guerra, o saque, as convulsões, o espanto;
Sebastopol em chamas; de Lepanto
o vau de lanças e clarins repleto...
Homens! Tudo isso, enquanto recolhido
Deus sonha, passa e soa ao seu ouvido,
como o rumor das asas de um inseto!


OS HOMENS OCOS V ( T.S. Eliot )

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada
Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa
Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.


A Imortalidade( JORGE LUIS BORGES )

Ser imortal é coisa sem importância. Excepto o homem, todas as criaturas o
são, porque ignoram a morte. O divino, o terrível, o incompreensível, é
considerar-se imortal. Já notei que, embora desagrade às religiões, essa
convicção é raríssima. Israelitas, cristãos e muçulmanos professam a
imortalidade, mas a veneração que dedicam ao primeiro século prova que apenas
crêem nele, e destinam todos os outros, em número infinito, para o premiar ou
para o castigar.
Mais razoável me parece o círculo descrito por certas religiões do Indostão.
Nesse círculo, que não tem princípio nem fim, cada vida é uma consequência da
anterior e engendra a seguinte, mas nenhuma determina o conjunto... Doutrinada
por um exercício de séculos, a república dos homens imortais tinha conseguido a
perfeição da tolerância e quase do desdém. Sabia que num prazo infinito ocorrem
a qualquer homem todas as coisas. Pelas suas passadas ou futuras virtudes,
qualquer homem é credor de toda a bondade, mas também de toda a traição pelas
suas infâmias do passado ou do futuro. Assim como nos jogos de azar as cifras
pares e ímpares permitem o equilíbrio, assim também se anulam e se corrigem o
engenho e a estupidez.
(...) Ninguém é alguém, um único homem imortal é todos os outros homens. Como
Cornelio Agrippa, sou deus, sou herói, sou filósofo, sou demónio e sou o mundo,
o que é uma forma cansativa de dizer que não sou.
(...) A morte (ou a sua alusão) torna os homens delicados e patéticos. Estes
comovem-se pela sua condição de fantasmas. Cada acto que executam pode ser o
último. Não há um rosto que não esteja por se desfigurar como o rosto de um
sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do perdido. Entre
os Imortias, pelo contrário, cada acto (e cada pensamento) é o eco de outros que
no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o claro presságio de outros
que, no futuro, o repetirão até à vertigem. Não há coisa que não esteja perdida
entre infatigáveis espelhos. Nada pode ocorrer uma só vez, nada é primorosamente
gratuito. O elegíaco, o grave, o cerimonial, não contam para os Imortais. Homero
e eu separamo-nos nas portas de Tânger. Creio que não nos despedimos.


O Caminho da Vida( CHARLES CHAPLIN )

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A
cobiça envenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódios... e
tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e morticínios. Criamos a é
poca da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que
produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos
céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e
sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do
que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida
será de violência e tudo será perdido. (O Último discurso, do filme O Grande
Ditador)


Tudo, portanto, que advém de um tempo de Guerra, onde cada homem é Inimigo de outro homem, igualmente advém do tempo em que os homens vivem sem outra segurança além do que sua própria força e sua própria astúcia conseguem provê-los. Em tal condição, não há lugar para a Indústria; porque seu fruto é incerto; e, conseqüentemente, nenhuma Cultura da Terra; nenhuma Navegação, nem uso algum das mercadorias que podem ser importadas através do Mar; nenhuma Construção confortável; nada de Instrumentos para mover e remover coisas que requerem muita força; nenhum Conhecimento da face da Terra; nenhuma estimativa de Tempo; nada de Artes; nada de Letras; nenhuma Sociedade; e o que é o pior de tudo, medo contínuo e perigo de morte violenta; e a vida do homem, solitária, pobre, sórdida, brutal e curta.
( THOMAS HOBBES )


Os Clássicos da Literatura( JORGE LUIS BORGES )

As emoções que a literatura suscita são talvez eternas, mas os meios devem
variar constantemente, mesmo que lligeiramente, para não perder a sua virtude.
Desgastam-se à medida que o leitor os reconhece. Daí o perigo de afirmar que
existem obras clássicas que o serão para sempre.
Cada qual descrê da sua arte e dos seus artifícios. Eu, que me resignei a pôr em
dúvida a indefinida duração de Voltaire ou de Shakespeare, acredito (nesta tarde
de um dos últimos dias de 1965) na de Schopenhauer e na de Berkeley.
Clássico não é um livro (repito-o) que possui necessariamente tais ou tais mé
ritos. É um livro que as gerações dos homens, motivadas por razões diversas,
lêem com prévio fervor e com uma misteriosa lealdade.


Não há Felicidade Solitária( J. J. ROUSSEAU )

É a fraqueza do homem que o torna sociável; são as nossas mi­sérias comuns que
levam os nossos corações a interessar-se pela humanidade: não lhe deveríamos
nada, se não fôssemos homens. Todos os afectos são indícios de insuficiência: se
cada um de nós não tivesse necessidade dos outros, nunca pensaria em unir-se a
eles. Assim, da nossa própria enfermidade, nasce a nossa frágil fe­licidade. Um
ser verdadeiramente feliz é um ser solitário; só Deus goza de uma felicidade
absoluta; mas qual de nós faz uma ideia do que isso seja? Se algum ser
imperfeito se pudesse bastar a si mes­mo, de que desfrutaria ele, na nossa
opinião? Estaria só, seria mi­serável. Não posso acreditar que aquele que não
precisa de nada possa amar alguma coisa: não acredito que aquele que não ama
na­da se possa sentir feliz.


Trevas (LORD BYRON)

Eu tive um sonho que não era em tudo um sonho
O sol esplêndido extinguira-se, e as estrelas
Vaguejavam escuras pelo espaço eterno,
Sem raios nem roteiro, e a enregelada terra
Girava cega e negrejante no ar sem lua;
Veio e foi-se a manhã - veio e não trouxe o dia;
E os homens esqueceram as paixões, no horror
Dessa desolação; e os corações esfriaram
Numa prece egoísta que implorava luz:
E eles viviam ao redor do fogo; e os tronos,
Os palácios dos reis coroados, as cabanas,
As moradas, enfim, do gênero que fosse,
Em chamas davam luz; cidades consumiam-se
E os homens se juntavam juntos às casas ígneas
Para ainda uma vez olhar o rosto um do outro;
Felizes quanto residiam bem à vista
dos vulcões e de sua tocha montanhosa;
Expectativa apavorada era a do mundo;
queimavam-se as floresta - mas de hora em hora
Tombavam, desfaziam-se - e, estralando, os troncos
Findavam num estrondo - e tudo era negror.
À luz desesperante a fronte dos humanos
Tinha um aspecto não terreno, se espasmódicos
Neles batiam os clarões; alguns, por terra,
Escondiam chorando os olhos,; apoiavam
Outros o queixo às mãos fechadas, e sorriam;
Muitos corriam para cá e para lá,
Alimentando a pira, e a vista levantavam
Com doida inquietação para o trevoso céu
A mortalha de um mundo extinto; e então de novo
Com maldições olhavam a poeira, e uivavam,
Rangendo os dentes; e aves bravas davam gritos
E cheias de terror voejavam junto ao solo,
Batendo asas inúteis; as mais rudes feras
Chegavam mansas e a tremer; rojavam víboras,
E entrelaçavam-se por entre a multidão,
Silvando, mas sem presas - e eram devoradas.
E fartava-se a Guerra que cessara um tempo,
E qualquer refeição comprava-se com sangue;
E cada um sentava-se isolado e torvo,
Empanturrando-se no escuro; o amor findara;
A terra era uma idéia só - e era a de morte
Imediata e inglória; e se cevava o mal
Da fome em todas as entranhas; e morriam
Os homens, insepultos sua carne e ossos;
Os magros pelos magros eram devorados,
Os cães salteavam os seus donos, exceto um,
Que se mantinha fiel a um corpo, e conservava
Em guarda as bestas e aves e os famintos homens,
Até a fome os levar, ou os que caíam mortos
Atraírem seus dentes; ele não comia,
Mas com um gemido comovente e longo, e um grito
Rápido e desolado, e relambendo a mão
Que já não o agradava em paga - ele morreu.
Finou-se a multidão de fome, aos poucos; dois,
Porém, de uma cidade enorme resistiram,
Dois inimigos, que vieram encontrar-se
Junto às brasas agonizantes de um altar
Onde se haviam empilhado coisas santas
Para um uso profano; eles as revolveram
E trêmulos rasparam, com as mão esqueléticas,
As débeis cinzas, e com um débil assoprar
Para viver um nada, ergueram uma chama
Que não passava de um arremedo; então alcançaram
Os olhos quando ela se fez mais viva, e espiaram
O rosto um do outro - ao ver, gritaram e morreram
- Morreram de sua própria e mútua hediondez,
Sem um reconhecer o outro em cuja fronte
Grafara a fome "diabo". O mundo se esvaziara,
O populoso e forte era um informe massa,
Sem estações nem árvore, erva, homem, vida,
Massa informe de morte - um caos de argila dura.
Pararam lagos, rios, oceanos: nada
Mexia em suas profundezas silenciosas;
Sem marujos, no mar as naus apodreciam,
Caindo os mastros aos pedaços; e, ao caírem,
Dormiam nos abismos sem fazer mareta,
Mortas as ondas, e as marés na sepultura,
Que já findara sua lua senhoril.
Os ventos feneceram no ar inerte, e as nuvens
Tiveram fim; a Escuridão não precisava
De seu auxílio - as Trevas eram o Universo.


A Mentira ( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Porque é que, na maior parte das vezes, os homens na vida quotidiana dizem a
verdade? Certamente, não porque um deus proibiu mentir. Mas sim, em primeiro
lugar, porque é mais cómodo, pois a mentira exige invenção, dissimulação e
memória. Por isso Swift diz: «Quem conta uma mentira raramente se apercebe do
pesado fardo que toma sobre si; é que, para manter uma mentira, tem de inventar
outras vinte». Em seguida, porque, em circunstâncias simples, é vantajoso dizer
directamente: quero isto, fiz aquilo, e outras coisas parecidas; portanto,
porque a via da obrigação e da autoridade é mais segura que a do ardil. Se uma
criança, porém, tiver sido educada em circunstâncias domésticas complicadas,
então maneja a mentira com a mesma naturalidade e diz, involuntariamente, sempre
aquilo que corresponde ao seu interesse; um sentido da verdade, uma repugnância
ante a mentira em si, são-lhe completamente estranhos e inacessíveis, e,
portanto, ela mente com toda a inocência.


Desigualdade Natural e Desigualdade Institucional( J. J. ROUSSEAU )

É fácil de ver que, entre as diferenças que distinguem os homens, muitas passam
por naturais, quando são unicamente a obra do hábito e dos diversos géneros de
vida adoptados pelos homens na sociedade. Assim, num temperamento robusto ou
delicado, a força ou a fraqueza que disso dependem, vêm muitas vezes mais da
maneira dura ou efeminada pela qual foi educado do que da constituição primitiva
dos corpos. Acontece o mesmo com as forças do espírito, e a educação não só
estabelece a diferença entre os espíritos cultivados e os que não o são, como
aumenta a que se acha entre os primeiros à proporção da cultura; com efeito,
quando um gigante e um anão marcham na mesma estrada, cada passo representa uma
nova vantagem para o gigante. Ora, se se comparar a diversidade prodigiosa do
estado civil com a simplicidade e a uniformidade da vida animal e selvagem, em
que todos se nutrem dos mesmos alimentos, vivem da mesma maneira e fazem
exactamente as mesmas coisas, compreender-se-á quanto a diferença de homem para
homem deve ser menor no estado de natureza do que no de sociedade; e quanto a
desigualdade natural deve aumentar na espécie humana pela desigualdade de
instituição.
Mas, quando a natureza afectasse, na distribuição dos seus dons, tantas
preferências como se pretende, que vantagem os mais favorecidos tirariam disso,
com prejuízo dos outros, num estado de coisas que não admitiria quase nenhuma
espécie de relações entre eles? Onde não há amor, de que servirá a beleza? De
que serve o espírito a pessoas que não falam, e a astúcia às que não têm
negócios? Ouço sempre repetir que os mais fortes oprimirão os fracos. Mas, que
me expliquem o que querem dizer com a palavra opressão. Uns dominarão com
violência, outros gemerão sujeitos a todos os seus caprichos. Eis, precisamente,
o que se observa entre nós; mas, não vejo como se poderia dizer o mesmo dos
selvagens, a quem seria dificílimo fazer perceber o que é servidão e dominação.
Um homem poderá apoderar-se dos frutos colhidos por outro, da caça que o outro
matou, do antro que lhe servia de asilo; mas, como poderá conseguir fazer-se
obedecer? E quais poderiam ser as cadeias da dependência entre homens que não
possuíam nada? Se me expulsam de uma árvore, estou livre para ir para outra; se
me atormentam num lugar, quem me impedirá de passar para outro? Se encontro um
homem de força muito superior à minha, e, além disso, muito depravado, muito
preguiçoso e muito feroz, para me constranger a prover à sua subsistência
enquanto ele permanece ocioso, é preciso que ele se resolva a não me perder de
vista um só instante, que me deixe amarrado com grande cuidado enquanto dorme,
de medo que eu escape ou que o mate; isto é, fica obrigado a se expor
voluntariamente a um trabalho muito maior do que o que quer evitar, e do que o
que me dá a mim mesmo. Depois de tudo isso, a sua vigilância relaxa-se por um
momento, um barulho imprevisto fá-lo voltar a cabeça: dou vinte passos na
floresta, os meus ferros quebram-se, e nunca mais me tornará a ver.


Um gosto que nasce no madrugador século XVI ( Gilberto Freyre )

"Inclinados a tal, sob que influências vindas de longe? A esse respeito é
bom
recorrer-se à fonte de informação do madrugador século XVI, suprida pela própria
Igreja através de pesquisas realizadas então, como se estivessem concorrendo
para saberes cientificamente sociais pelo santo Ofício em atividades
investigadoras no Brasil. Suponho ter sido, no livro Casa-Grande & Senzala, o
primeiro a utilizar os resultados de tais pesquisas, em obra acessível ao grande
público. Constam essas informações da Primeira Visitação do Santo Ofício a
Partes do Brasil pelo Licenciado Heitor Furtado de Mendonça. Surgem, nessas
indagações secretas, homens casados casando outra vez com mulatas (talvez do
tipo mulher tornada conhecida como "arde-lhe o rabo", decerto por haver se
extremado em furor anal), adultos europeus ou de procedência européia pecando
contra a natureza, em coitos anais ou através de luxúrias de felação, com
efebos, quer da terra, quer da Guiné, participantes, alguns deles, com tal
volúpia desses amplexos, que de um deles se registra a exclamação "quero mais".
A participação nesses coitos da gente da terra parece indicar, de ameríndios,
presentes em contatos madrugadores com europeus, terem sido, eles próprios,
dados à sodomia ou à pederastia, com o abuso de bundas já então praticado, quer
por europeus em não-europeus, quer -- é possível -- em reciprocidades volutuosas
eurotropicais: euro-ameríndias e euro-afronegras. Pode-se concluir de mulheres
indígenas, desde esses dias, terem revelado preferências, para contatos sexuais
com portugueses, por aqueles motivos priápicos já alegados pelo severo
Varnhagen: os portugueses, em confronto com machos indígenas, teriam se
revelado mais ardorosamente potentes. Sabe-se por alguma observações
antropológicas confiáveis, de homens de culturas primitivas precisarem, em
vários casos, para efeitos de procriação tribal, de festas excitantemente
sexuais, que os levem a atos procriadores, é claro que acompanhados de gozos.
Atos e gozos, entretanto, mais provocados que espontâneos, embora as
investigações do Santo Ofício documentem ocorrência de receptividade de
indígenas a práticas, já por indígenas conhecidas, em que o coito anal teria se
verificado.


A Busca da Felicidade ou do Sofrimento ( ALBERT CAMUS )

O homem recusa o mundo tal como ele é, sem aceitar o eximir-se a esse mesmo
mundo. Efectivamente os homens gostam do mundo e, na sua imensa maioria, não
querem abandoná-lo. Longe de quererem esquecê-lo, sofrem, sempre, pelo
contrário, por não poderem possuí-lo suficientemente, estranhos cidadãos do
mundo que são, exilados na sua própria pátria. Excepto nos momentos fulgurantes
da plenitude, toda a realidade é para eles imperfeita. Os seus actos
escapam-lhes noutros actos; voltam a julgá-los assumindo feições inesperadas;
fogem, como a água de Tântalo, para um estuário ainda desconhecido. Conhecer o
estuário, dominar o curso do rio, possuir enfim a vida como destino, eis a sua
verdadeira nostalgia, no ponto mais fechado da sua pátria. Mas essa visão que,
ao menos no conhecimento, finalmente os reconciliaria consigo próprios, não pode
surgir; se tal acontecer, será nesse momento fugitivo que é a morte; tudo nela
termina. Para se ser uma vez no mundo, é preciso deixar de ser para sempre.
Neste ponto nasce essa desgraçada inveja que tantos homens sentem da vida dos
outros. Apercebendo-se exteriormente dessas existências, emprestam-lhes uma
coerência e uma unidade que elas não podem ter, na verdade, mas que ao
observador parecem evidentes. Este não vê mais que a linha mais elevada dessas
vidas, sem adquirir consciência do pormenor que as vai minando. Então fazemos
arte sobre essas existências. Romanceamo-las de maneira elementar. Cada um,
nesse sentido, procura fazer da sua vida uma obra de arte. Desejamos que o amor
perdure e sabemos que tal não acontece; e ainda que, por milagre, ele pudesse
durar uma vida inteira, seria ainda assim um amor imperfeito. Talvez que, nesta
insaciável necessidade de subsistir, nós compreendêssemos melhor o sofrimento
terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece que, por vezes, as grandes almas se
sentem menos apavoradas pelo sofrimento do que pelo facto de este não durar. À
falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um
destino. Mas não; as nossas piores torturas terão um dia de acabar. Certa manhã,
após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que
tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade.


O JARDIM ( ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY )

Mas aconteceu que o principezinho, tendo andado muito tempo pelas areias, pelas
rochas e pela neve, descobriu, enfim, uma estrada. E as estradas vão todas na
direção dos homens.
- Bom dia, disse ele.
Era um jardim cheio de rosas.
- Bom dia, disseram as rosas.
O principezinho contemplou-as. Eram todas iguais à sua flor.
- Quem sois? perguntou ele estupefato.
- Somos rosas, disseram as rosas.
- Ah! exclamou o principezinho...
E ele sentiu-se extremamente infeliz. Sua flor lhe havia contado que ela era a
única de sua espécie em todo o universo. E eis que havia cinco mil, iguaizinhas,
num só jardim!
"Ela haveria de ficar bem vermelha, pensou ele, se visse isto... Começaria a
tossir, fingiria morrer, para escapar do ridículo. E eu então teria que fingir
que cuidava dela; porque senão, só para me humilhar, ela era bem capaz de morrer
de verdade..."
Depois, refletiu ainda: "Eu me julgava rico de uma flor sem igual, e é apenas
uma rosa comum que eu possuo. Uma rosa e três vulcões que me dão pelo joelho, um
dos quais extinto para sempre. Isso não faz de mim um príncipe muito grande..."
E, deitado na relva, ele chorou.


Política de Interesse ( Eça de Queiróz )

Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar
oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a
moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações.
A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso,
diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade,
pela frivolidade e pelo interesse.
A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias;
ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da
vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali
há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de
grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros
inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a
miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura;
combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os
desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com
dor e com raiva.
À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos
querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, ávidos de
consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade.


A Nossa Vida é Estilhaçada pelo Pormenor ( HENRY DAVID THOREAU )

Vivemos mesquinhamente, quais formigas, ainda que a fábula nos relate que há
muito tempo atrás fomos transformados em homens; como os pigmeus lutamos com
gruas; e é erro sobre erro, remendo sobre remendo, e a nossa melhor virtude
decorre de uma miséria supérflua e evitável. A nossa vida é estilhaçada pelo
pormenor.
Um homem honesto dificilmente precisa de contar para além dos seus dez dedos das
mãos, acrescentando, em caso extremo, os seus dez dedos dos pés, e o resto que
se amontoe. Simplicidade, simplicidade, simplicidade! Digo: ocupai-vos de dois
ou três afazeres, e não de cem ou mil; contai meia dúzia em vez de um milhão e
tomai nota das receitas e despesas na ponta do polegar. A meio do agitado mar da
vida civilizada, tantas são as nuvens, as tempestades, as areias movediças,
tantos são os mil e um imprevistos a ser levados em conta, que para não se
afundar, para não ir a pique antes de chegar ao porto, um homem tem de ser um
grande calculista para lograr êxito.
Simplificar, simplificar, simplificar. Em vez de três refeições por dia, se
preciso for, comer apenas uma; em vez de cem pratos, cinco; e reduzir
proporcionalmente as outras coisas. A nossa vida é como uma Confederação
Germânica, composta de insignificantes Estados e com as fronteiras sempre a
flutuar, de modo que nem uma alemão sabe, em dado momento, dizer quais são.


A Necessidade do Próximo ( FRIEDRICH NIETZSCHE )

Nós só sentimos agrado para com os semelhantes - ou seja pelas imagens de nós
próprios - quando sentimos comprazimento connosco. E quanto mais estamos
contentes connosco, mais detestamos o que nos é estranho: a aversão pelo que nos
é estranho está na proporção da estima que temos por nós. É em consequência
dessa aversão que nós destruímos tudo o que é estranho, ao qual assim mostramos
o nosso distanciamento.
Mas o menosprezo por nós próprios pode levar-nos a uma compaixão geral para com
a humanidade e pode ser utilizado, intencionalmente, para uma aproximação com os
demais.
Temos necessidade do próximo para nos esquecermos de nós mesmos: o que leva à
sociabilidade com muita gente.
Somos dados a supor que também os outros têm desgosto com o que são; quando isto
se verifica, então receberemos uma grande alegria: afinal, estamos na mesma
situação.
E, talqualmente nos vemos forçados a suportar-nos, apesar do desgosto que temos
com aquilo que somos, assim nos habituamos a suportar os nossos semelhantes.
Assim, nós deixamos de desprezar os outros; a aversão para com eles diminui, e
dá-se a reaproximação.
Eis porque, em virtude da doutrina do pecado e da condenação universal, o homem
se aproxima de si mesmo. E até aqueles que detêm efectivamente o poder são de
considerar, agora como dantes, sob este mesmo aspecto: é que, «no fundo, são uns
pobres homens


O VAIDOSO ( ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY )

O segundo planeta, um vaidoso o habitava.
- Ah! Ah! Um admirador vem visitar-me! exclamou de longe o vaidoso, mal vira o
príncipe.
Porque, para os vaidosos, os outros homens são sempre admiradores.
- Bom dia, disse o principezinho. Você tem um chapéu engraçado.
- É para agradecer, exclamou o vaidoso. Para agradecer quando me aclamam.
Infelizmente não passa ninguém por aqui.
- Sim? disse o principezinho sem compreender.
- Bate as mãos uma na outra, aconselhou o vaidoso.
O principezinho bateu as mãos uma na outra. O vaidoso agradeceu modestamente,
erguendo o chapéu.
- Ah, isso é mais divertido que a visita ao rei, disse consigo mesmo o
principezinho. E recomeçou a bater as mãos uma na outra. O vaidoso recomeçou a
agradecer, tirando o chapéu.
Após cinco minutos de exercício, o principezinho cansou-se com a monotonia do
brinquedo:
- E para o chapéu cair, perguntou ele, que é preciso fazer?
Mas o vaidoso não ouviu. Os vaidosos só ouvem os elogios.
- Não é verdade que tu me admiras muito? perguntou ele ao principezinho.
- Que quer dizer admirar?
- Admirar significa reconhecer que eu sou o homem mais belo, mais rico, mais
inteligente e mais bem vestido de todo o planeta.
- Mas só há você no seu planeta!
- Dá-me esse gosto. Admira-me mesmo assim!
- Eu te admiro, disse o principezinho, dando de ombros. Mas como pode isso
interessar-te?
E o principezinho foi-se embora.
As pessoas grandes são decididamente muito bizarras, ia pensando ele pela viagem
afora.


Penso, logo Existo ( RENÉ DESCARTES )

De há muito tinha notado que, pelo que respeita à conduta, é necessário
algumas vezes seguir como indubitáveis opiniões que sabemos serem muito
incertas, (...). Mas, agora que resolvera dedicar-me apenas à descoberta da
verdade, pensei que era necessário proceder exactamente ao contrário, e
rejeitar, como absolutamente falso, tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor
dúvida, a fim de ver se, após isso, não ficaria qualquer coisa nas minhas
opiniões que fosse inteiramente indubitável.
Assim, porque os nossos sentidos nos enganam algumas vezes, eu quis supor que
nada há que seja tal como eles o fazem imaginar. E porque há homens que se
enganam ao raciocinar, até nos mais simples temas de geometria, e neles cometem
paralogismos, rejeitei como falsas, visto estar sujeito a enganar-me como
qualquer outro, todas as razões de que até então me servira nas demonstrações.
Finalmente, considerando que os pensamentos que temos quando acordados nos podem
ocorrer também quando dormimos, sem que neste caso nenhum seja verdadeiro,
resolvi supor que tudo o que até então encontrara acolhimento no meu espírito
não era mais verdadeiro que as ilusões dos meus sonhos. Mas, logo em seguida,
notei que, enquanto assim queria pensar que tudo era falso, eu, que assim o
pensava, necessáriamente era alguma coisa. E notando esta verdade: eu penso,
logo existo, era tão firme e tão certa que todas as extravagantes suposições dos
cépticos seriam impotentes para a abalar, julguei que a podia aceitar, sem
escrúpulo, para primeiro princípio da filosofia que procurava.


Hino Nacional(FRASES E PENSAMENTOS DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás as florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.
O que faremos importando francesas
muito louras, de pele macia,
alemãs gordas, russas nostálgicas para
garçonettes dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas...
Precisamos educar o Brasil.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites.
Cada brasileiro terá sua casa
com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão para conferências científicas.
E cuidaremos do Estado Técnico.
Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões...
os Amazonas inenarráveis... os incríveis João-Pessoas...
Precisamos adorar o Brasil!
Se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão
de seus sofrimentos.
Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?
Eduardo Alves da Costa
Quanto a mim, sonharei com Portugal
Às vezes, quando
estou triste e há silêncio
nos corredores e nas veias,
vem-me um desejo de voltar
a Portugal. Nunca lá estive,
é certo, como também
é certo meu coração, em dias tais,
ser um deserto.


A Alegoria da Caverna ( PLATÃO )

- Imagina agora o estado da natureza humana com respeito à ciência e à
ignorância, conforme o quadro que dele vou esboçar. Imagina uma caverna
subterrânea que tem a toda a sua largura uma abertura por onde entra livremente
a luz e, nessa caverna, homens agrilhoados desde a infância, de tal modo que não
possam mudar de lugar nem volver a cabeça devido às cadeias que lhes prendem as
pernas e o tronco, podendo tão-só ver aquilo que se encontra diante deles. Nas
suas costas, a certa distância e a certa altura, existe um fogo cujo fulgor os
ilumina, e entre esse fogo e os prisioneiros depara-se um caminho dificilmente
acessível. Ao lado desse caminho, imagina uma parede semelhante a esses tapumes
que os charlatães de feita colocam entre si e os espectadores para esconder
destes o jogo e os truques secretos das maravilhas que exibem.
- Estou a imaginar tudo isso.
- Imagina homens que passem para além da parede, carregando objectos de todas as
espécies ou pedra, figuras de homens e animais de madeira ou de pedra, de tal
modo que tudo isso apareça por cima do muro. Os que tal transportam, ou falam
uns com os outros, ou passam em silêncio.
- Estranho quadro e estranhos prisioneiros!
- E, no entanto, são ponto por ponto tal qual como nós. Em primeiro lugar,
julgas que percepcionarão outra coisa, de si mesmos e dos que se encontram a seu
lado, além das sombras que na sua frente se produzem, no fundo da caverna?
- Que outra coisa poderão ver, pois que, desde o nascimento, foram compelidos a
conservar a cabeça permanentemente imóvel?
- Verão, apesar disso, outras coisas além dos objectos que passam à sua
rectaguarda?
- Não.
- Se pudessem conversar uns com os outros, não concordariam em dar às sombras
que vêem os nomes dessas mesmas coisas?
- Sem dúvida.
- E se no fundo da sua prisão houvesse eco que repetisse as palavras daqueles
que passam, não imaginariam que ouviam falar as sombras mesmas que desfilam
diante dos seus olhos?
- Sim.
- E, por fim, não julgariam eles que nada existiria de real além das sombras?
- Não há dúvida.
- Pensa agora naquilo que naturalmente lhes aconteceria se fossem libertados das
suas cadeias e se fossem elucidados acerca do erro em que estavam. Liberte-se um
desses cativos, e que ele seja obrigado a levantar-se imediatamente, a voltar a
cabeça, a andar e a enfrentar a luz: nada disso poderá fazer sem grande esforço;
a luz encandear-lhe-á a vista e o deslumbramento produzido impedi-lo-á de
distinguir os objectos cujas sombras via antes. Que julgas tu que responderia se
lhe dissessem que até então apenas vira fantasmas e que agora tem ante os olhos
objectos mais reais e mais próximos da verdade? Se lhe mostrarem imediatamente
as coisas à medida que se forem apresentando, e se for obrigado, à força de
perguntas, a dizer o que é cada uma delas, não ficará perplexo e não julgará que
aquilo que dantes via era mais real do que aquilo que agora se lhe apresenta?
- Sem dúvida.
- E se o obrigassem a enfrentar o fogo, não adoeceria dos olhos? Não desviaria
os seus olhares, para dirigi-los para a sombra, que enfrenta sem dificuldade?
Não julgaria que essa sombra possui algo de mais claro e distinto do que tudo
quanto se lhe mostra?
- Certamente.
- Se agora o arrancarmos da caverna e o arrastarmos, pela senda áspera e
fragosa, até à claridade do Sol, que suplício o seu por ser assim arrastado!
Como está furioso! E, uma vez chegado à luz livre, os olhos ofuscados com o
fulgor dela, poderia ver alguma coisa da multitude de objectos a que chamamos
seres reais?
- De início ser-lhe-ia impossível.
- Necessitaria de tempo, sem dúvida, para se acostumar a eles. Aquilo que
distinguiria melhor seria, em primeiro lugar, as sombras; e, logo a seguir, as
imagens dos homens e dos mais objectos, reflectidos à superfície das águas; por
fim, os próprios objectos. Daí volveria os olhos para o céu, cuja visão
suportaria com maior facilidade durante a noite, à luz da Lua e das estrelas, do
que durante o dia, à luz do Sol.
- Sem dúvida.
- Por fim, encontrar-se-ia em condições, não só de ver a imagem do Sol nas águas
e em tudo aquilo em que se reflicta, como de olhá-lo e contemplar o verdadeiro
Sol no seu verdadeiro local.
- Sim.
- Depois disto, pondo-se a reflectir, chegaria à conclusão de que o Sol é o que
determina as estações e os anos, e o que rege todo o mundo visível e que, de
certo modo, é causa daquilo que se via na caverna.
- É evidente que chegaria gradualmente a tais reflexões.
- E se, então, se recordasse da sua primeira habitação e da ideia que aí
formavam da sabedoria, ele e os seus companheiros de escravidão, não se
regozijaria com a mudança e não teria compaixão da desgraça daqueles que
permaneciam cativos?
- Certamente.
- Crês tu que agora ele sentisse ciúmes das honras, das vaidades e recompensas
ali outorgadas àquele que mais rapidamente captasse as sombras, àquele que com
maior segurança recordasse as que iam atrás ou juntas e por tal razão seria o
mais hábil em prever a sua aparição, ou que invejasse a condição daqueles que na
prisão eram mais poderosos e mais honrados? Não preferiria, como Aquiles,
segundo Homero, passar a vida ao serviço dum pobre lavrador e sofrê-lo, a voltar
ao seu primeiro estado e às suas primitivas ilusões?
- Não duvido de que preferiria suportar todos os males possíveis a voltar a
viver de tal modo.
- Atenta, pois, nisto: se regressasse novamente à sua prisão, para voltar a
ocupar nela o seu antigo posto, não se acharia como um cego, na súbita passagem
da luz do dia para a obscuridade?
- Sim.
- E se, no entanto, ainda não distinguisse nada e, antes que os seus olhos se
houvessem refeito, o que apenas poderia acontecer depois de muito tempo, tivesse
de discutir com os mais prisioneiros sobre essas sombras, não se tornaria
ridículo aos olhos dos outros, que diriam dele que, por ter subido até lá acima,
perdera a vista, acrescentando que seria uma loucura o eles pretenderem sair do
lugar onde se encontravam, e que, se alguém se lembrasse de tirá-los dali e
levá-los para a região superior, se tornaria necessário prendê-lo e matá-lo?
- Indiscutivelmente.
- Pois, meu querido Glauco, é essa, precisamente, a imagem da condição humana. A
caverna subterrânea é este mundo visível; o fogo que a ilumina, a luz do Sol; o
prisioneiro que ascende à região superior e a contempla é a alma que se eleva at
é à esfera do inteligível. É isto, pelo menos, o que penso, já que o queres
conhecer, mas só Deus sabe se é certo. Pelo que me toca, a coisa afigura-se-me
tal como te vou comunicar. Nos últimos limites do mundo inteligível encontra-se
a ideia do bem, que só com dificuldade se percebe, mas que, todavia, não pode
ser percebida sem que se conclua que ela é a causa primeira de quanto há de bom
e de belo no universo; que ela, neste mundo visível, produz a luz e o astro do
qual a luz irradia directamente; que, no mundo visível, engendra a verdade e a
inteligência; que é preciso, enfim, ter os olhos fitos nessa ideia, se quisermos
conduzir-nos honestamente na vida pública e privada.
- Na medida em que pude compreender a tua ideia, concordo contigo.
- Tens, pois, de admitir e não estranhar que aqueles que alcançaram essa sublime
contemplação desdenhem da intervenção nos assuntos humanos e que as suas almas
aspirem, incessantemente, a fixar-se nesse lugar eminente. Assim deve ser, se
isto está em conformidade com a pintura alegórica que esbocei.
- Assim deve ser.


A Melhor Companhia ( HENRY DAVID THOREAU )

Considero saudável estar só na maior parte do tempo. Estar acompanhado, mesmo
pelos melhores, cedo se torna enfadonho e dispersivo. Adoro estar só. Nunca
encontrei um companheiro tão sociável como a solidão. Estamos geralmente mais
sós quando viajamos com outros homens do que quando permanecemos nos nossos
aposentos. Um homem quando pensa ou trabalha está sempre só, deixai-o pois estar
onde ele deseja. A solidão não é medida pelas milhas de espaço que separam um
homem e os seus congéneres.
O estudante verdadeiramente diligente de um dos enxames da Universidade de
Cambridge está tão solitário como um derviche no deserto. O agricultor pode
trabalhar sozinho no campo ou nos bosques durante todo o dia, mondando ou
podando, e não se sentir solitário porque está ocupado; mas quando chega a casa,
à noite, não consegue sentar-se numa sala sozinho, à mercê dos seus pensamentos.
Tem que ir onde possa «estar com as pessoas», distrair-se e ser compensado pela
solidão do seu dia; e, assim, interroga-se como pode o estudante estar só em
casa durante toda a noite e grande parte do dia sem se aborrecer ou sentir-se
deprimido. Mas ele não entende que o estudante, se bem que em casa, ainda está a
trabalhar no seu campo, a podar os seus bosques, tal como o agricultor o faz nos
seus e que, por seu turno, procura a mesma diversão e companhia que este, embora
eventualmente de uma forma mais condensada.
Ouvi falar de um homem perdido na floresta e a morrer de fome e de exaustão ao p
é de uma árvore e cuja solidão era aliviada pelas visões grotescas com que,
devido à fraqueza física, a sua imaginação doente o rodeava, e que ele
acreditava serem reais. Assim também, graças à saúde e à força física e mental,
podemos sentir-nos continuamente animados por uma companhia semelhante, se bem
que mais normal e natural, e chegarmos à conclusão de que nunca estamos sós.


O Juízo Final ( Millôr Fernandes - em "Pif-Paf" )

Chegou o miserável milionário no céu e, impacientemente, esperou a sua vez de
ser julgado. Introduziram-no numa sala, noutra sala, noutra sala, até que se viu
frente a uma luz ofuscante, na qual pouco a pouco foi dintinguindo a figura
santa do pai dos Homens. Em voz tonitroante este, tendo à direita, Pedro, e, à
esquerda, uma figura que ele não conhecia, julgou sumariamente dois outros
pecadores que estavam à sua frente. E, afinal, dirigiu-se a ele:
- Que fez você de bom na sua vida ?
- Bem, eu nasci, cresci, amei, casei, tive filhos, vivi.
- Ora - disse o Senhor - isso são actos sociais e biológicos a que você estava
destinado. Quero saber que bondade específica e determinada você teve para com o
seu semelhante.
- Bem - disse o milionário - eu criei indústrias, comprei fazendas, dei emprego
a muita gente, melhorei as condições sociais de muita gente.
- Não, isso não serve - disse o Todo-Poderoso - essas acções estavam implícitas
ao acto de você enriquecer. Você as praticou porque precisava viver melhor. Não
foram intrinsecamente boas acções, desprendidas, não servem.
O milionário escarafunchou o cérebro e não encontrou nada. Em verdade, passara
uma vida egoísta, pensando apenas em si mesmo. Nunca o preocupara seu
semelhante, nunca olhara para o ser humano a seu lado senão como uma fonte de
lucro para as suas indústrias. Mas, de repente, lemboru-se das obras de
filantropia.
- Ah - disse, puxando uma caderneta - aqui está. Uma vez dei cem cruzeiros para
uma velhinha da Casa dos Artistas, outra vez contribuí com duzentos cruzeiros
para o Hospital dos Alienados e outra vez contribuí com quinhentos cruzeiros
para a Fundação das Operárias de Jesus.
- Só ? - perguntou Deus.
- Só - disse o milionário contrafeito.
- Josué! - gritou o Todo-Poderoso -, dê oitocentos cruzeiros ao cavalheiro aqui
e que vá para o Inferno.
Moral: Amor com amor se paga e o dinheiro com dinheiro também.


A Tempestade (KAHLIL GIBRAN)

O pássaro e o homem tem essências diferentes.
O homem vive à sombra de leis e tradições por ele inventadas;
o pássaro vive segundo a lei universal que faz girar os mundos.
Acreditar é uma coisa; viver conforme o que se acredita é outra.
Muitos falam como o mar, mas vivem como os pântanos.
Muitos levantam a cabeça acima dos montes;
mas sua alma jaz nas trevas das cavernas.
A civilização é uma arvore idosa e carcomida,
cujas flores são a cobiça e o engano e cujas frutas
são a infelicidade e o desassossego.
Deus criou os corpos para serem os templos das almas.
Devemos cuidar desses templos para que sejam
dignos da divindade que neles mora.
Procurei a solidão para fugir dos homens, de suas leis,
de suas tradições e de seu barulho.
Os endinheirados pensam que o sol e a lua e as estrelas se levantam
dos seus cofres e se deitam nos seus bolsos.
Os políticos enchem os olhos dos povos com poeira
dourada e seus ouvidos com falsas promessas.
Os sacerdotes aconselham os outros,
mas não aconselham a si mesmos,
e exigem dos outros o que não exigem de si mesmos.
Vã é a civilização. E tudo o que está nela é vão.
As descobertas e invenções nada são senão brinquedos
com a mente se diverte no seu tédio.
Cortar as distâncias, nivelar as montanhas,
vencer os mares, tudo isso não passa de
aparências enganadoras, que não alimentam o
coração e nem elevam a alma.
Quanto a esses quebra-cabeças, chamados ciências e artes,
nada são senão cadeias douradas com os quais o homem
se acorrenta, deslumbrados com seu brilho e tilintar.
São os fios da tela que o homem tece desde o inicio
do tempo sem saber que, quando terminar sua obra,
terá construído a prisão dentro da qual ficará preso.
Uma coisa só merece nosso amor e nossa dedicação, uma coisa só...
É o despertar de algo no fundo dos fundos da alma.
Quem o sente não o pode expressar em palavras.
E quem não o sente, não poderá nunca conhecê-lo através de palavras.
Faço votos para que aprendas a amar as tempestades em vez de fugir delas.


A Indagação das Causas e dos Princípios ( ARISTÓTELES )

Visto que esta ciência (a filosofia) é o objecto das nossas indagações,
examinemos de que causas e de que princípios se ocupa a filosofia como ciência;
questão que se tomará muito mais clara se examinarmos as diversas ideias que
formamos do filósofo. Em primeiro lugar, concebemos o filósofo principalmente
como conhecedor do conjunto das coisas, enquanto é possível, sem contudo possuir
a ciência de cada uma delas em particular. Em seguida, àquele que pode alcançar
o conhecimento de coisas difíceis, aquelas a que só se chega vencendo graves
dificuldades, não lhe chamaremos filósofo? De facto, conhecer pelos sentidos é
uma faculdade comum a todos, e um conhecimento que se adquire sem esforço em
nada tem de filosófico. Finalmente, o que tem as mais rigorosas noções das
causas, e que melhor ensina estas noções, é mais filósofo do que todos os outros
em todas as ciências. E, entre as ciências, aquela que se procura por si mesma,
só pelo anseio do saber, é mais filosófica do que a que se estuda pelos seus
resultados; assim como a que domina as mais é mais filosófica do que a que se
encontra subordinada a qualquer outra. Não, o filósofo não deve receber leis,
mas sim dá-las; nem é necessário que obedeça a outrem, mas deve obedecer-lhe o
que seja menos filósofo.
(...) Pois bem: o filósofo que possuir perfeitamente a ciência do geral tem
necessariamente a ciência de todas as coisas, porque um homem em tais
circunstâncias sabe, de certo modo, tudo quanto está compreendido sob o geral.
Todavia, pode dizer-se também que se toma muito difícil ao homem alçar-se aos
conhecimentos mais gerais; as coisas que são seus objectos como que estão mais
distantes do alcance dos sentidos.
(...) De tudo quanto dissemos sobre a própria ciência resulta a definição da
filosofia que procuramos. É imprescindível que seja a ciência teórica dos
primeiros princípios e das primeiras causas, porque uma das causas é o bem, a
razão final. E que não é uma ciência prática, prova-o o exemplo dos que
primeiramente filosofaram. O que, a princípio, levou os homens a fazerem as
primeiras indagações filosóficas foi, como é hoje, a admiração. Entre os
objectos que admiravam e que não podiam explicar, aplicaram-se primeiro aos que
se encontravam ao seu alcance; depois, passo a passo, quiseram explicar os
fenómenos mais importantes; por exemplo, as diversas fases da Lua, o trajecto do
Sol e dos astros e, finalmente, a formação do universo. Ir à procura duma
explicação e admirar-se é reconhecer que se ignora. (...) Portanto, se os
primeiros filósofos filosofaram para se libertarem da ignorância, é evidente que
se consagraram à ciência para saber, e não com vista à utilidade.


Glória é Vaidade ( ARTHUR SCHOPENHAUER )

A glória repousa propriamente sobre aquilo que alguém é em comparação com os
outros. Portanto, ela é essencialmente relativa; por isso, só pode ter valor
relativo. Desapareceria inteiramente se os outros se tornassem o que o glorioso
é. Uma coisa só pode ter valor absoluto se o mantiver sob todas as
circunstâncias; aqui, contudo, trata-se daquilo que alguém é imediatamente e por
si mesmo. Consequentemente, é nisso que tem de residir o valor e a felicidade do
grande coração e do grande espírito. Logo, valiosa não é a glória, mas aquilo
que faz com que alguém a mereça, pois isso, por assim dizer, é a substância, e a
glória é apenas o acidente. Ela age sobre quem é célebre, sobretudo como um
sintoma exterior pelo qual ele adquire a confirmação da opinião elevada de si
mesmo. Desse modo, poder-se-ia dizer que, assim como a luz não é visível se não
for reflectida por um corpo, toda a excelência só adquire total consciência de
si própria pela glória. Mas o sintoma não é sempre infalível, visto que também
há glória sem mérito e mérito sem glória. Eis a justificativa para a frase tão
distinta de Lessing: Algumas pessoas são famosas, outras merecem sê-lo. Em
verdade, seria uma existência miserável aquela cujo valor ou desvalor dependesse
de como aparecesse aos olhos dos outros. Tal existência, entretanto, seria a
vida do herói e a do génio se o seu valor consistisse na glória, isto é, na
aprovação dos outros. Mas, antes, todo o ser vive e existe por conta própria,
logo, primariamente em si e para si.
O que alguém é, de qualquer maneira, é antes de mais nada e acima de tudo para
si mesmo; e se sob esse aspecto não é de muito valor, então não o é também em
geral. Pelo contrário, a imagem do nosso ser na cabeça dos outros é algo
secundário, derivado e submetido ao acaso, e só se relaciona muito
indirectamente com o próprio ser. Além do mais, as cabeças dos outros são um
cenário deveras miserável para que nele a verdadeira felicidade possa ter sede.
Antes, nelas só se pode encontrar uma felicidade quimérica. Que sociedade
heterogénea se reúne nesse templo da glória universal! Generais, ministros,
charlatães, saltimbancos, dançarinos, cantores, milionários e judeus. Sim, nesse
templo, os méritos de todas essas pessoas são bem mais sinceramente apreciados,
encontram bem mais estime sentie (estima sincera) do que os méritos espirituais,
sobretudo os de tipo superior, que obtêm da maioria apenas uma estime sur parole
(estima de ouvir dizer). Em sentido eudemonológico, portanto, a glória nada mais
é senão o pedaço mais raro e saboroso para o nosso orgulho e a nossa vaidade.
Estes, todavia, existem em excesso na maioria dos homens, embora eles os
dissimulem; talvez até de modo mais forte naqueles que, de alguma maneira, estão
aptos a adquirir glória e, portanto, têm muitas vezes de suportar em si mesmos,
por muito tempo, a consciência incerta do seu valor proeminente, antes que
chegue a oportunidade de o comprovar e então experimentar o reconhecimento. Até
lá, têm o sentimento de sofrer uma injustiça secreta.


Das afronegras notáveis por suas bundas e dos ardores patriarcais (
Gilberto Freyre )

(...) Não há evidência alguma de mulheres indígenas terem se feito notar,
como
aconteceria com mulheres de origem afronegra, introduzidas na colônia, desde o s
éculo XVI, por nádegas notavelmente protuberantes ou por bundas salientemente
grandes. E, por essas saliências, sexualmente provocantes do seu uso, e até do
seu abuso, em coitos de intenções mais voluptuosas. Ao tamanho das nádegas,
desenvolveu-se, é de supor, a tendência, quase folclórica, entre brasileiros, de
associarem-se os chamados cus de pimenta ou rabos ardorosos, já presentes em
referências em registros das investigações do Santo Ofício.
Entretanto, é preciso não resvalar-se na simplificação de atribuir-se a
presença, entre mulheres brasileiras, de bundas grandes, com ou sem essas
conexões, à presença de afronegras notáveis por tais protuberâncias de nádegas.
Mas é preciso atentar-se no fato de mulheres tipicamente ibéricas, inclusive
portuguesas, presentes na colonização do Brasil, terem quase rivalizado, por
vezes, com afronegras, em tais protuberâncias de nádegas. Num livro notável,
(...) The Soul of Sham (Londres, 1908), o mestre em sexologia, Havelock Ellis,
lembra dos por Deniken classificados como do tipo antropológico iberóide serem
em geral morenos de uma pigmentação de um encanto estético chamado por Gauthier,
referindo-se especificamente às telas espanholas de Málaga, de um "dourado
pálido" (...)
E as mulheres? De modo geral, superiores aos homens, afirma Ellis.O que viria
sendo confirmado pela sua maior autenticidade como expressões de tipos
nacionalmente ibéricos. E especificando seus característicos antropologicamente
físicos à base dos sociais: quando jovens, tendentes a delgadas, embora com
bustos e ancas -- bundas, portanto -- já desenvolvidos. Protuberâncias
acentuadas com a idade madura. A idade, em mulher bonita, a associar-se a
gordura. E à gordura, juntar-se, segundo Ellis, "maior amplitude e acentuação de
ancas em relação com as demais partes do corpo".
Para o ideal feminino predominante no Brasil patriarcal, de "gorda e
bonita", é de se supor ter concorrido influência árabe, contra a qual teriam se
oposto, no século XIX, influências romanticamente européias. (...) Um ideal, o
de sinhazinha adolescente, quase menina e, de tão delgada, quase sem bunda e de
seios virginalmente discretíssimos, mãos e pés ostensivamente pequenos. Outro
ideal, o de sinhadona de meia -idade, gorda, ostensivamente bem nutrida,
dignamente bunduda, apta ao desempenho de mulher, mãe de sucessivos filhos e a
cujo físico não faltavam bundas mais dignamente maternas que provocantemente
sexuais. Pois para a satisfação de ardores sexuais o macho patriarcal
brasileiro tinha, aa seu dispor -- por vezes defrontando-se com ciúmes de
esposas ciosas de seus direitos conjugais --, escravas, mucamas, morenidades em
vários graus de mulheres. Isto, dentro da reciprocidade casa grande-senzala.
Miscigenadas, como se a miscigenação se fizesse através de experimentos
antropologicamente eugênicos e estéticos. Experimentos que permitissem que
fossem com que graduadas saliências de bundas, evitando-se os exageros
africanóides.


Receita de mulher ( VINÍCIUS DE MORAES )

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República [Popular
Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Qu tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da [aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-e dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) e também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem [saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de 5 velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de [coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima [penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca [inferior
A 37° centígrados podendo eventualmente provocar queimaduras
Do 1° grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer [beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ele não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.


Discurso nas comemorações do Dia do Trabalho em 1º de maio de 1940 ( GETÚLIO VARGAS )

Trabalhadores do Brasil: Aqui estou, como de outras vezes, para compartilhar as
vossas comemorações e testemunhar o apreço em que tenho o homem de trabalho como
colaborador direto da obra de reconstrução política e econômica da Pátria. Não
distingo, na valorização do esforço construtivo, o operário fabril do técnico de
direção, do engenheiro especializado, do médico, do advogado, do industrial ou
do agricultor. O salário, ou outra forma de remuneração, não constitui mais do
que um meio próprio a um fim, e esse fim é, objetivamente, a criação da riqueza
nacional e o surto de maiores possibilidades à nossa civilização.
A despeito da vastidão territorial, da abundância de recursos naturais e da
variedade de elementos de vida, o futuro do país repousa, inteiramente, em nossa
capacidade de realização. Todo trabalhador, qualquer que seja a sua profissão é,
a este respeito, um patriota que conjuga o seu esforço individual à ação
coletiva, em prol da independência econômica da nacionalidade. O nosso progresso
não pode ser obra exclusiva do Governo, sim de toda a Nação, de todas as
classes, de todos os homens e mulheres, que se enobrecem pelo trabalho,
valorizando a terra em que nasceram.
Constitui preocupação constante do regime que adotamos difundir entre os
elementos laboriosos a noção da responsabilidade que lhe cabe no desenvolvimento
do país, pois o trabalho bem feito é uma alta forma de patriotismo, como a
ociosidade uma atitude nociva e reprovável. Nas minhas recentes excursões aos
Estados do Centro e do Sul, em conta to com as mais diversas camadas da
população, recebi caloroso acolhimento e manifestações que testemunham, de modo
inequívoco, a confiança que os brasileiros, desde os simples operários aos
expoentes das atividades produtoras, depositam na ação governamental.
Falando em momento como este, diante de uma multidão que vibra de Exaltação
patriótica, não posso deixar de pensar como os nossos governantes permaneceram,
durante tanto tempo, indiferentes à cooperação construtiva das classes
trabalhadoras. Relegados a existência vegetativa, privados de direitos e
afastados dos benefícios da civilização, da cultura e do conforto, os
trabalhadores brasileiros nunca obtiveram, sob os governos eleitorais, a menor
proteção, o mais elementar amparo. Para arrancar-lhes os votos, os políticos
profissionais tinham de mantê-los desorganizados e sujeitos à vassalagem dos
cabos eleitorais.
A obra de reparação e justiça realizada pelo Estado Novo distancia-nos,
imensamente, desse passado condenável, que comprometia aos nossos sentimentos
cristãos e se tornara obstáculo insuperável à solidariedade nacional. Naquela é
poca, ao aproximar-se o Primeiro de Maio, o ambiente era bem diverso.
Generalizavam-se as apreensões e abria-se um período de buscas policiais no
núcleos associativos, pondo-se em custódia os suspeitos, dando a todos uma
sensação de insegurança e exibindo um luxo de força nas ruas e locais de
reunião, que, não raro, redundavam em choques e conflitos sangrentos.
Atualmente, a data comemorativa dos homens de trabalho é festiva e de
confraternização.
Os benefícios da política trabalhista, empreendida nestes últimos anos, alcançam
profundamente todos os grupos sociais, promovendo o melhoramento das condições
de vida nas várias regiões do país e elevando o nível de saúde e de bem-estar
geral. A ação tutelar e providente do Estado patenteia-se, de modo constante, na
solicitude com que cria os serviços de proteção ao lar operário, de assistência
à infância, de alimentação saudável e barata, de postos de saúde, de creches e
maternidades, instituído o ensino profissional junto às fábricas e, ultimamente,
voltando as suas vistas para a construção de vilas operárias e casas populares.
Na continuação desse programa renovador, que encontrou no atual ministro do
Trabalho um eficiente e devotado orientador, assinamos, hoje, um ato de
incalculável alcance social e econômico: a lei que fixa o salário mínimo para
todo o país. Trata-se de antiga aspiração popular, promessa do movimento
revolucionário de 1930. Agora transformada em realidade, depois de longos e
acurados estados. Procuramos, por esse meio, assegurar ao trabalhador
remuneração eqüitativa, capaz de proporcionar-lhe o indispensável para o
sustento próprio e da família. O estabelecimento de um padrão mínimo de vida
para a grande maioria da população, aumentando, no decorrer do tempo, os índices
de saúde e produtividade, auxiliará a solução de importantes problemas que
retardam a marcha do nosso progresso.
À primeira vista, poderão pensar os menos avisados que a medida é prematura e
unilateral, visto beneficiar, apenas, os trabalhadores assalariados. Tal, porém,
não ocorre no plano do Governo. A elevação do nível de vida eleva, igualmente, a
capacidade aquisitiva das populações e incrementa, por conseguinte, as
indústrias, a agricultura e o comércio, que verão crescer o consumo geral e o
volume da produção.
As bases da nossa legislação social já estão solidamente lançadas nas leis que
regulam a duração do trabalho, a higiene industrial, a ocupação das mulheres e
menores, as aposentadorias e indenizações de acidentes, as associações
profissionais, os convênios coletivos e a arbitragem. Ultima-se, agora, a
organização da Justiça do Trabalho, cuja regulamentação está na fase final de
estudos e deverá ser posta em vigor dentro de pouco. É uma legislação que tende
a ampliar-se e a cobrir com a sua proteção os diversos ramos da economia
nacional, da fábrica aos campos, das oficinas aos estabelecimentos comerciais,
empresas de transportes e todos os empregos e ocupações. As sugestões da
experiência e as imposições da necessidade irão, naturalmente, indicando
modificações e ampliações cuidadosas. Chegaremos, assim, a consolidar esse corpo
de leis num Código do Trabalho adequando às condições do nosso progresso. Não é
de mais observar, a propósito das nossas conquistas de ordem social, que povos
de civilização mais velha, apontados como modelos a copiar, ainda não
conseguiram resolver satisfatoriamente as relações de trabalho, que continuam
sendo, para eles, causa de perturbações para o bem comum.
Embora deixados ao abandono, os nossos trabalhadores souberam resistir às
influências malsãs dos semeadores de ódios, a serviços de velhas e novas
ambições de poderio político, consagrados a envenenar o sentimento brasileiro de
fraternidade com o exotismo das lutas de classes. O ambiente nacional tem
reagido sadiamente contra esses agentes de perturbações e desordem. A propaganda
insidiosa e dissolvente, apenas, impressionou os pobres de espírito e ser viu
para agitar os mal intencionados.
Quem quer que observe a história e a dura lição sofrida por outros povos verá
que os extremismos, mesmo quando logram uma vitória efêmera, caem logo vítimas
dos próprios erros e das paixões que desencadearam, sacrificando muitas
aspirações justas e legítimas, que poderiam ser alcançadas pacificamente. A
sociedade brasileira, felizmente, repele, por índole, as soluções. Corrigidos os
abusos e imprevidências do passado, podermos encarar o futuro com serenidade,
certos de que as utopias ideológicas, na prática, verdadeiras calamidades
sociais, não conseguirão afastar-nos das normas de equilíbrio e bom senso em que
se pro cessa a evolução da nacionalidade.
Só o trabalho fecundo, dentro da ordem legal que as segura a todos patrões e
operários, chefes de indústrias e proletários, lavradores, artesãos,
intelectuais - um regime de justiça e de paz, poderá fazer a felicidade da
pátria brasileira.


O dia da criação ( VINÍCIUS DE MORAES )

Macho e fêmea os criou.
Gênese, 1, 27

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado

III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens,
ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como
as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas
em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda
e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das
águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em [cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e [sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.


Será o Benedito! Mário de Andrade ( MÁRIO DE ANDRADE )

A primeira vez que me encontrei com Benedito, foi no dia mesmo da minha chegada
na Fazenda Larga, que tirava o nome das suas enormes pastagens. O negrinho era
quase só pernas, nos seus treze anos de carreiras livres pelo campo, e enquanto
eu conversava com os campeiros, ficara ali, de lado, imóvel, me olhando com
admiração. Achando graça nele, de repente o encarei fixamente, voltando-me para
o lado em que ele se guardava do excesso de minha presença. Isso, Benedito
estremeceu, ainda quis me olhar, mas não pôde agüentar a comoção. Mistura de
malícia e de entusiasmo no olhar, ainda levou a mão à boca, na esperança talvez
de esconder as palavras que lhe escapavam sem querer:
- O hôme da cidade, chi!...
Deu uma risada quase histérica, estalada insopitavelmente dos seus sonhos
insatisfeitos, desatou a correr pelo caminho, macaco-aranha, num mexe-mexe
aflito de pernas, seis, oito pernas, nem sei quantas, até desaparecer por detrás
das mangueiras grossas do pomar.
Nos primeiros dias Benedito fugiu de mim. Só lá pelas horas da tarde, quando eu
me deixava ficar na varanda da casa-grande, gozando essa tristeza sem motivo das
nossas tardes paulistas, o negrinho trepava na cerca do mangueirão que
defrontava o terraço, uns trinta passos além, e ficava, só pernas, me olhando
sempre, decorando os meus gestos, às vezes sorrindo para mim. Uma feita, em que
eu me esforçava por prender a rédea do meu cavalo numa das argolas do mangueirão
com o laço tradicional, o negrinho saiu não sei de onde, me olhou nas minhas
ignorâncias de praceano, e não se conteve:
- Mas será o Benedito! Não é assim, moço!
Pegou na rédea e deu o laço com uma presteza serelepe. Depois me olhou irônico e
superior. Pedi para ele me ensinar o laço, fabriquei um desajeitamento muito
grande, e assim principiou uma camaradagem que durou meu mês de férias.
Pouco aprendi com o Benedito, embora ele fosse muito sabido das coisas rurais. O
que guardei mais dele foi essa curiosa exclamação, "Será o Benedito!", com que
ele arrematava todas as suas surpresas diante do que eu lhe contava da cidade.
Porque o negrinho não me deixava aprender com ele, ele é que aprendia comigo
todas as coisas da cidade, a cidade que era a única obsessão da sua vida.
Tamanho entusiasmo, tamanho ardor ele punha em devorar meus contos, que às vezes
eu me surpreendia exagerando um bocado, para não dizer que mentindo. Então eu me
envergonhava de mim, voltava às mais perfeitas realidades, e metia a boca na
cidade, mostrava o quanto ela era ruim e devorava os homens. "Qual, Benedito, a
cidade não presta, não. E depois tem a tuberculose que..."
- O que é isso?...
- É uma doença, Benedito, uma doença horrível, que vai comendo o peito da gente
por dentro, a gente não pode mais respirar e morre em três tempos.
- Será o Benedito...
E ele recuava um pouco, talvez imaginando que eu fosse a própria tuberculose que
o ia matar. Mas logo se esquecia da tuberculose, só alguns minutos de mutismo e
melancolia, e voltava a perguntar coisas sobre os arranha-céus, os "chauffeurs"
(queria ser "chauffeur"...), os cantores de rádio (queria ser cantor de
rádio...), e o presidente da República (não sei se queria ser presidente da
República). Em troca disso, Benedito me mostrava os dentes do seu riso
extasiado, uns dentes escandalosos, grandes e perfeitos, onde as violentas
nuvens de setembro se refletiam, numa brancura sem par.
Nas vésperas de minha partida, Benedito veio numa corrida e me pôs nas mãos um
chumaço de papéis velhos. Eram cartões postais usados, recortes de jornais, tudo
fotografias de São Paulo e do Rio, que ele colecionava. Pela sujeira e amassado
em que estavam, era fácil perceber que aquelas imagens eram a única Bíblia, a
exclusiva cartilha do negrinho. Então ele me pediu que o levasse comigo para a
enorme cidade. Lembrei-lhe os pais, não se amolou; lembrei-lhe as brincadeiras
livres da roça, não se amolou; lembrei-lhe a tuberculose, ficou muito sério. Ele
que reparasse, era forte mas magrinho e a tuberculose se metia principalmente
com os meninos magrinhos. Ele precisava ficar no campo, que assim a tuberculose
não o mataria. Benedito pensou, pensou. Murmurou muito baixinho:
- Morrer não quero, não sinhô... Eu fico.
E seus olhos enevoados numa profunda melancolia se estenderam pelo plano aberto
dos pastos, foram dizer um adeus à cidade invisível, lá longe, com seus
"chauffeurs", seus cantores de rádio, e o presidente da República. Desistiu da
cidade e eu parti. Uns quinze dias depois, na obrigatória carta de resposta à
minha obrigatória carta de agradecimentos, o dono da fazenda me contava que
Benedito tinha morrido de um coice de burro bravo que o pegara pela nuca. Não
pude me conter: "Mas será o Benedito!... E é o remorso comovido que me faz
celebrá-lo aqui.


PRIMEIRA ELEGIA ( RAINER MARIA RILKE )

Quem se eu gritasse, me ouviria pois entre as ordens
Dos anjos? E dado mesmo que me tomasse
Um deles de repente em seu coração, eu sucumbiria
Ante sua existência mais forte. Pois o belo não é
Senão o início do terrível, que já a custo suportamos,
E o admiramos tanto porque ele tranqüilamente desdenha
Destruir-nos. Cada anjo é terrível.
E assim me contenho pois, e reprimo o apelo
De obscuro soluço. Ah! A quem podemos
Recorrer então? Nem aos anjos nem aos homens,
E os animais sagazes logo percebem
Que não estamos muito seguros
No mundo interpretado. Resta-nos talvez
Alguma árvore na encosta que diariamente
Possamos rever. Resta-nos a rua de ontem
E a mimada fidelidade de um hábito,
Que se compraz conosco e assim fica e não nos abandona.
Ó e a noite, a noite, quando o vento cheio dos espaços
Do mundo desgasta-nos o rosto -, para quem ela não é /sempre a desejada,
Levemente decepcionante, que para o solitário coração
Se impõe penosamente. Ela é mais leve para os amantes?
Ah! Eles escondem apenas um com o outro a própria sorte.
Não o sabes ainda? Atira dos braços o vazio
Para os espaços que respiramos; talvez que os pássaros
Sintam o ar mais vasto num vôo mais íntimo.
Sim, as primaveras precisavam de ti.Muitas estrelas
Esperavam que tu as percebesses. Do passado
Erguia-se uma vaga aproximando-se, ou
Ao passares sob uma janela aberta,
Um violino se entregava. Tudo isso era missão.
Mas a levaste ao fim? Não estavas sempre
Distraído pela espera, como se tudo te ansiasse
A bem amada? (onde queres abrigá-la
Então, se os grandes e estranhos pensamentos entram
E saem em ti e muitas vezes ficam pela noite.)
Se a nostalgia te dominar, porém, cantas as amantes; muito
Ainda falta para ser bastante imortal seu celebrado sentimento.
Aquelas que tu quase invejaste, as desprezadas, que tu
Achaste muito mais amorosas que as apaziguadas. Começa
Sempre de novo o louvor jamais acessível;
Pensa: o herói se conserva, mesmo a queda lhe foi
Apenas um pretexto para ser : o seu derradeiro nascimento.
As amantes, porém, a natureza exausta as toma
Novamente em si, como se não houvesse duas vezes forças para realizá-las.
Já pensaste pois em Gaspara Stampa
O bastante para que alguma jovem,
A quem o amante abandonou, diante do elevado exemplo
Dessa apaixonada, sinta o desejo de tornar-se como ela?
Essas velhíssimas dores afinal não se devem tornar
Mais fecundas para nós? Não é tempo de nos libertarmos,
Amando, do objeto amado e a ele tremendo resistirmos Como a flecha suporta à
corda, para, concentrando-se no salto Ser mais do que ela mesma?
Pois parada não há em /parte alguma.
Vozes, vozes.Escuta, coração como outrora somente
os santos escutavam: até que o gigantesco apelo
levantava-os do chão; mas eles continuavam ajoelhados,
inabaláveis, sem desviarem a atenção:
eles assim escutavam. Não que tu pudesses suportar
a voz de Deus, de modo algum. Mas escuta o sopro,
a incessante mensagem que nasce do silêncio.
Daqueles jovens mortos sobe agora um murmúrio em direção /a ti.
Onde quer que penetraste, nas igrejas
De Roma ou de Nápoles, seu destino não falou a ti, /tranqüilamente?
Ou uma augusta inscrição não se impôs a ti
Como recentemente a lousa em Santa Maria Formosa.
Que eles querem de mim? Lentamente devo dissipar
A aparência de injustiça que às vezes dificulta um pouco
O puro movimento de seus espíritos.
Certo, é estranho não habitar mais terra,
Não mais praticar hábitos ainda mal adquiridos,
Às rosas e outras coisas especialmente cheias de promessas
Não dar sentido do futuro humano;
O que se era, entre mãos infinitamente cheias de medo
Não ser mais, e até o próprio nome
Deixar de lado como um brinquedo quebrado.
Estranho, não desejar mais os desejos. Estranho,
Ver tudo o que se encadeava esvoaçar solto
No espaço. E estar morto é penoso
E cheio de recuperações, até que lentamente se divise
Um pouco da eternidade. - Mas os vivos
Cometem todos o erro de muito profundamente distinguir.
Os anjos (dizem) não saberiam muitas vezes
Se caminham entre vivos ou mortos. A correnteza eterna
Arrebata através de ambos os reinos todas as idades
Sempre consigo e seu rumor as sobrepuja em ambos.
Finalmente não precisam mais de nós os que partiram cedo,
Perde-se docemente o hábito do que é terrestre, como o /seio materno
suavemente se deixa, ao crescer.Mas nós que de tão grandes
mistérios precisamos, para quem do luto tantas vezes
o abençoado progresso se origina - : poderíamos passar /sem eles?
É vã a lenda de que outrora, lamentando Linos,
A primeira música ousando atravessou o árido letargo,
Que então no sobressaltado espaço, do qual um quase /divino adolescente
escapou de súbito e para sempre, o vazio entrou
naquela vibração que agora nos arrebata e consola e ajuda?


A arte de ser avó ( RAQUEL DE QUEIROZ )

Quarenta anos, quarenta e cinco. Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o
tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é
claro. A velhice tem suas alegrias, as sua compensações - todos dizem isso,
embora você pessoalmente, ainda não as tenha descoberto - mas acredita.
Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá
aquela nostalgia da mocidade.
Não de amores nem de paixão; a doçura da meia-idade não lhe exige essas
efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu
sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de
criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram
as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas, que hoje são seus
filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento e prestações, você
não encontra de modo algum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres -
não são mais aqueles que você recorda.
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação
ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis - nisso
é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua raça, da
qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela
criancinha, longe de ser um estranho, é um menino que se lhe é "devolvido". E o
espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito sobre ele, ou pelo menos o
seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo ou
decepção, se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor que há anos
se acumulava, desdenhado, no seu coração.
Sim, tenho a certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas
as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes, que
vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis.
Aliás, desconfio muito de que netos são melhores que namorados, pois que as
violências da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos. Se o Doutor Fausto
fosse avô, trocaria calmamente dez Margaridas por um neto...
No entanto! Nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave
maior, a grande rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não
deixa por isso de ser a mãe do neto. Não importa que ela hipocritamente, ensine
a criança a lhe dar beijos e a lhe chamar de "vovozinha" e lhe conte que de
noite, às vezes, ele de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada
mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas posições respectivas,
a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da
esposa e da amante nos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da
domesticidade e da presença constante. Dorme com ele, dá-lhe banho, veste-o,
embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar e o ô
nus de castigar.
Já a avó não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do
imprevisto. Mora em outra casa. Traz presentes. Faz coisas não programadas. Leva
a passear, "não ralha nunca". Deixa lambuzar de pirulito. Não tem a menor
pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último
recurso dos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma
noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os encantos
de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes
uma maravilhosa subversão da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a
sopa e comer croquetes, tomar café, mexer na louça, fazer trem com as cadeiras
na sala, destruir revistas, derramar água no gato, acender e apagar a luz elé
trica mil vezes se quiser - e até fingir que está discando o telefone. Riscar a
parede com lápis dizendo que foi sem querer - e ser acreditado!
Fazer má-criação aos gritos e em vez de apanhar ir para os braços do avô, e lá
escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação moderna...
Sabe-se que, no reino dos céus, o cristão defunto desfruta os mais requintados
prazeres da alma. Porém não estarão muito acima da alegria de sair de mãos dadas
com o seu neto, numa manhã de sol. E olhe que aqui embaixo você ainda tem o
direito de sentir orgulho, que aos bem-aventurados será defeso. Meu Deus, o
olhar das outras avós com seus filhotes magricelas ou obesos, a morrerem de
inveja do seu maravilhoso neto!
E quando você vai embalar o neto e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe
reconhece, sorri e diz "Vó", seu coração estala de felicidade, como pão ao
forno.
E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe
castiga, e ele olha para você, sabendo que, se você não ousa intervir
abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade.
Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e
neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menino - involuntariamente!
- bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com
preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beicinho
pronto para o choro; e depois o sorriso malandro e aliviado porque "ninguém" se
zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, vó? Era um simples boneco que
custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague.


O Apóstolo ( RAINER MARIA RILKE )

Mesa redonda no melhor hotel de N... Contra as paredes de mármore da alta e
clara sala de jantar ondula o rumor humano e o barulho dos talheres.
Apressados, como sombras mudas, os criados de casaca preta andam de cá
para lá com as bandejas de prata. Nos baldes com gelo brilham garrafas de
champanhe. Tudo cintila à luz das lâmpadas eléctricas: as taças, os olhos e as
jóias das mulheres, os crânios luzidios dos cavalheiros e até mesmo as
palavras que saltam como faúlhas. Quando são espirituosas, estala, mais perto
ou mais longe, o chamejar agudo dum riso breve numa garganta feminina.
Depois as senhoras comem a sopa fumegante em finas taças translúcidas,
enquanto os jovens ajustam o monóculo e percorrem com um olhar crítico a
mesa multicor.
Eram todos eles frequentadores que se conheciam já. Mas, nesse dia, um
desconhecido sentara-se numa das extremidades da mesa. Os homens
deitaram-lhe um olhar rápido, porque o traje desse homem pálido e grave não
era da última moda. Subia-lhe até ao queixo um alto colarinho branco e
apertava-lhe o pescoço a grande gravata negra que se usava no começo do
século. O casaco preto assentava-lhe nos ombros largos. O mais surpreendente
eram os grandes olhos cinzentos do recém-chegado, que com olhar solene e
poderoso parecia trespassar de lado a lado toda a assistência, e que brilhava
como se algum longínquo desígnio nele incessantemente se reflectisse.
Aquele olhar atraía os olhos das mulheres curiosas que o interrogavam em
segredo. Murmuraram toda a espécie de suposições, tocaram-se com o pé,
interrogaram-se, encolheram os ombros e, apesar de tudo, não conseguia
explicar-se aquela presença.
A baronesa polaca Vilovsky, jovem e espirituosa Witib, estava ao centro dos
conservadores. Também ela parecia interessar-se pelo taciturno desconhecido.
Os seus grandes olhos negros suspendiam-se com estranha insistência nos
traços cavados do estrangeiro. A sua mão fina tamborilava nervosamente na
toalha adamascada, fazendo brilhar a magnífica jóia que ornava um dos seus
anéis. Com uma pressa impaciente e pueril, ora falava de um assunto, ora
doutro, para depois se interromper bruscamente ao notar que o estrangeiro não
tomava parte na conversação. Julgava-o um artista com muita habilidade e
levava a conversa para os temas de arte mais diversos. Em vão. O
desconhecido vestido de preto conservava o olhar perdido no vago. Mas a
baronesa Vilovsky não abandonava a partida.
- Já ouviu falar do terrível incêndio na aldeia de B...?- perguntou ela ao seu
vizinho.
E como lhe respondesse afirmativamente, acrescentou: - Proponho formarmos
uma comissão para organizar um peditório e uma obra de beneficência em
favor das vítimas desse incêndio.
Lançou em volta olhares interrogadores. Vivas aprovações acolheram a
proposta. Um sorriso sarcástico iluminou o rosto do desconhecido. A baronesa
sentiu esse sorriso sem o ver. Uma grande cólera a agitava.
- Está toda a gente de acordo? - observou ela num tom imperioso, que não
admitia réplicas. E ouviu-se então um coro de vozes:
- Sim, de acordo! Naturalmente!
O conviva que me ficava defronte, um banqueiro de Colónia, com gesto
eloquente, ia já a meter a mão no bolso que continha a sua carteira cheia de
notas do banco.
- Podemos contar consigo, senhor? - perguntou a baronesa ao estrangeiro. A
sua voz tremia. O desconhecido pôs-se de pé e, em voz alta, sem olhar, num
tom brutal, disse:
- Não!
A baronesa estremeceu. Sorriu contrafeita. Todos os olhos estavam fitos no

estrangeiro. Este dirigiu o seu olhar à baronesa e prosseguiu:
- A senhora comete um acto inspirado pelo amor; eu, pela minha parte, ando
através do mundo com o propósito de matar o mesmo amor. Seja onde for que
o encontre, assassino-o. E encontro-o muitas vezes em choupanas, nos
castelos, nas igrejas e na natureza. Mas persigo-o impiedosamente. E da
mesma maneira que na Primavera os ventos quebram a rosa que demasiado
cedo desabrochou, assim também a minha grande e obstinada vontade a
destrói: porque penso que a lei do amor nos foi prematuramente imposta.
A sua voz ressoou cavernosa como o eco do som do sino às Ave-Marias. A
baronesa fez menção de responder, mas o homem continuou: - Não me
compreendeu ainda. Escute-me. Os homens não se encontravam amadurecidos
quando o Nazareno veio até eles e lhes trouxe o amor. Na sua generosidade
pueril e ridícula, julgava ele fazer-lhes bem. Para uma raça de gigantes, o
amor teria sido um confortável travesseiro na brancura do qual poderiam com
volúpia sonhar novos feitos. Mas para homens fracos é a extrema decadência.
Um sacerdote católico que se encontrava presente levou a mão ao colarinho
como se sentisse faltar-lhe o fôlego.
- A extrema decadência!... - exclamava o estrangeiro. - Não falo do amor entre
os sexos. Falo do amor do próximo, da caridade e da piedade, da graça e da
indulgência. Não há piores venenos para a nossa alma!
Um som indistinto se ouviu entre os espessos lábios do sacerdote.
- Dize-me tu, ó Cristo: que fizeste? Parece-me que fomos educados como
aqueles animais ferozes que se procuram desabituar dos seus mais profundos
instintos, no propósito de lhes bater impunemente com um látego de domador
quando eles se tornarem meigos. Da mesma maneira nos limaram os dentes e
as garras e nos pregaram o amor do próximo. Arrancaram-nos das mãos o
brilhante dardo da nossa vontade altiva e pregaram-nos o amor do próximo! E
foi assim que nos entregaram nus à tempestade da vida, na qual
incessantemente sobre nós caem as marretadas do destino, ao mesmo tempo
que, por outro lado, se nos prega o amor do próximo!
Todos, sustendo a respiração, escutavam. Os criados não se atreviam a mexer-
se e mantinham-se firmes perto da mesa segurando nas mãos as bandejas de
prata. As palavras do desconhecido, como um sopro violento de tempestade,
rompiam o abafado silêncio.
- E nós obedecemos - continuou ele. - Obedecemos cega e estupidamente a
essa ordem insensata. Partimos em procura daqueles que tinham sede, dos que
tinham fome, dos doentes, dos leprosos, dos fracos e nós próprios somos
doentes e miseráveis. Sacrificamos a nossa vida para erguer aqueles que
caíam, animar os que duvidavam, consolar os que estavam tristes, e nos
próprios desesperamos. Aos que tinham assassinado as nossas mulheres e os
nossos filhos, tinham lançado a discórdia nos nossos lares, não destruímos as
suas próprias casas, e eles puderam esperar nelas calmamente o fim dos seus
dias.
Um terrível acento de zombaria fez-lhe tremer a voz, e continuou:
- Aquele que celebram como Messias transformou o mundo inteiro num
enorme hospício de doentes incuráveis. Os fracos, os miseráveis e os inválidos
são seus filhos e seus favoritos. Então os fortes viriam ao mundo apenas para
proteger, servir e velar por esses inermes seres? E se eu sinto em mim um
fogoso entusiasmo, um entusiasmo intenso e celeste para a luz, se subo com
firmeza o caminho escarpado e pedregoso, devo acaso, quando vejo já
flamejar o divino fim, inclinar-me para o inválido caído à beira do caminho?
Devo anima-lo, erguê-lo, arrasta-lo comigo e gastar a minha força ardente a
tratar desse cadáver impotente que, alguns passos adiante, cairá de novo,
prostrado? Como havemos nós de subir, se todas as nossas forças forem
aplicadas em proteger e erguer os miseráveis, os oprimidos e até mesmo os
preguiçosos hipócritas que não têm medula nem alma?
Elevou-se um murmúrio.
- Silêncio! - exclamou o estrangeiro numa voz de estentor. - Sois demasiado
fracos para confessardes que é assim mesmo como eu digo. Desejais enterrar-
vos eternamente no pântano. Julgais ver o céu porque vedes o reflexo dele no
regato. Ora, compreendei-me bem. Ligaram a nossa força à terra. É preciso
que ela se apague miseravelmente nos braseiros da misericórdia. Deve servir
apenas para acender o incenso da piedade, para produzir os vapores que nos
entorpecem os sentidos. Ela, essa força que poderia elevar-se para o céu como
uma grande chama livre e jubilosa!
Todos se calaram. Sorridente, o estranho desconhecido prosseguiu:
- E se os nossos antepassados fossem macacos, animais selváticos movidos
por poderosos instintos naturais, e se um Messias lhes tivesse pregado o amor
do próximo, obedecendo à sua palavra eles ter-se-iam impedido de realizar
todo e qualquer desenvolvimento das suas possibilidades. Nunca a massa
múltipla e estúpida pode determinar o progresso; só o «único», o grande, que
odeia a populaça, obscuramente consciente da sua baixeza, pode caminhar
sem receios na estrada da vontade, com uma força divina e um sorriso
vitorioso nos lábios. A nossa geração também não esta no cume da pirâmide
infinita do devir. Também nós não significamos um termo. Também nós não
estamos ainda demasiado amadurecidos como vós presunçosamente acreditais.
Portanto, para a frente! Não havemos de elevar-nos pelo conhecimento, pela
vontade e pelo poder? Não devem os fortes conseguir escapar da atmosfera de
constrangimento e de inveja das massas para seguirem em direcção à luz?
«Ouçam-me todos! Encontramo-nos em pleno combate! À direita e à esquerda
de nós caem os nossos companheiros; caem vítimas de fraqueza, de doença, de
vício e de loucura... e de todos os outros projécteis que sobre eles vomita o
destino terrível. Deixem-nos cair, deixem-nos morrer abandonados,
miseráveis! Sejam duros, sejam terríveis, sejam impiedosos! É preciso
avançar. Para a frente!
«Para que são esses olhares de temor? Sois acaso cobardes? Receais, vós
também, ficar para trás? Pois então deixai-vos para estoirar como cães! Sou
forte, tenho direito de viver. O forte segue sempre em frente!... As fileiras
cerradas abrir-se-lhe-ão. Mas são pouco numerosos os grandes, os poderosos,
os divinos que, com os olhos cheios de sol, esperam a nova terra sagrada.
Talvez que isso ocorra dentro de milhares de anos. Talvez que então, com os
seus braços fortes, musculosos e imperiosos construam um templo sobre os
corpos dos doentes, dos fracos e dos enfezados... Um império eterno...»
Os olhos brilhavam-lhe. Levantara-se. A sua silhueta erguia-se com grandeza
sobrenatural. Parecia aureolado de luz. Tinha o aspecto de um deus.
O olhar pareceu demorar-se-lhe um momento na visão maravilhosa; depois
regressando, subitamente, à realidade concluiu:
- Vou através do mundo para matar o amor. Que a força seja convosco! Vou-
me através do mundo para pregar aos fortes: ódio, ódio e ainda ódio!
Todos se olharam, mudos. A baronesa, dominada por viva emoção, calcava o
lenço contra as pálpebras.
Quando ela levantou os olhos, o lugar ao canto da mesa estava vazio.
Percorreu-os a todos um frémito. Ninguém proferiu palavra. Os criados,
trémulos ainda, retomaram o serviço.
O gordo banqueiro, sentado em frente de mim, foi o primeiro a retomar o uso
da palavra.
Disse entre dentes:- Era um louco ou...
Não ouvi o resto da frase, porque o homem mastigava com a boca muito cheia
um pedaço de empadão de lagosta.



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