Frases e Pensamentos de Gilberto Freyre

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GILBERTO FREYRE

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Como todo menino de engenho,tive uma iniciação que não teria tido na cidade. No engenho você vê os animais,o touro cobrindo a vaca... E eu fui iniciado no uso de uma vaca. Experimentei o contado pecaminoso com uma vaca!
( Frases e Pensamentos de Gilberto Freyre) Tema: Sexo


Como todo menino de engenho,tive uma iniciação que não teria tido na cidade. No engenho você vê os animais,o touro cobrindo a vaca... E eu fui iniciado no uso de uma vaca. Experimentei o contado pecaminoso com uma vaca!
( Frases e Pensamentos de Gilberto Freyre) Mensagem sobre Sexo


Bunda - Paixão Nacional ( Gilberto Freyre )

De onde vem o encanto do brasileiro pela bunda? O professor Gilberto
Freyre, que
estudou nossas raízes sociológicas em Casa-Grande & Senzala, aceitou o desafio
de investigar as origens dessa magnífica preferência num ensaio. Por motivos de
espaço, transcrevemos os principais trechos e resumimos algumas partes do
estudo, erudito, de 26 páginas. Erudito, mas que nem por isso evita a ressonante
palavra. Lembra alguns sinônimos, principalmente nordestinos, como bagageiro,
balaio, banjo, bomba, bubu, além dos tradicionais rabo, traseiro, popô, rabicó,
bumbum, tralalá e outros.
Objetivo, ele não usa apelidos quando vai à História, anota fatos, faz uma
análise e tira conclusões: o brasileiro tem suas razões para gostar de bunda.
Pode não saber quais, mas tem. Vamos a elas.


Da teoria à prática ou de como as ditas polacas entram nesta história (
Gilberto Freyre )

Perdendo em anúncios e tendendo a bunda a um tão bom como tão bom em
práticas de
coito, não é raro, entre brasileiros atuais, a alternativa: o gozo anal tendendo
a alternar, para não poucos homens, com o chamado papai-mamãe, que seria o
encontro do pênis com a vulva.
Por algum tempo foi a bunda o chamariz, da parte de mulheres da vida, do tipo
chamado indistintamente polaco, em ruas de ostensiva prostituição comercial, a
homens ao alcance de suas vozes, que consideravam cansados de coitos conjugais
monotonamente normais. Tais mulheres anunciavam deixarem-se enrabar ou a
praticar o sexo oral.
Assinale-se que, ao começar a haver, em Mangues, tais ofertas, parece ter havido
não pouca repulsa da parte de mulatas mais castiçamente brasileiras, a homens
que lhes propuseram facilitar-lhes tais substitutos de coitos convencionais. Que
fossem se acanalhar com polacas! O que não parece ter impedido de as
alternativas virem sendo adotadas por brasileiras de cor, com as bundas
avantajadas sendo cortejadas por homens inclinados a esse tipo porventura mais
carnal de coito.


De como a bunda cintila na Literatura e vira anseio no Carnaval de Chico
Buarque ( Gilberto Freyre )

Na literatura brasileira, que autor pode ser destacado como tendo dado
especial
relevo ao liciante assunto? Impõe-se recordar do lúcido modernista de 22, Oswald
de Andrade, que, em página de novela com alguma coisa de autobiográfico,
confessa: "e enrabei Dona Lalá". Em versos, também modernistas, Manuel Bandeira
refere-se a "genipapo na bunda". E em Evocação do Recife dá a entender das
lindas recifenses, que viu, com olhos de menino, nuinhas, a se banharem no então
também lindo e limpo Capibaribe, que entre as partes de seus corpos mais
causadoras do seu alumbramento estavam as bundas.
É curioso que, no seu excelente Ensaios de Antropologia Estrutural (Petrópolis,
1977), o professor Roberto da Matta, ao considerar o Carnaval brasileiro como
"rito de passagem", destaque ser a rainha do carnaval "sempre uma vedete de
formas perfeitas". E sua bunda? É parte ou não dessa perfeição? Se, como recorda
de música de Chico Buarque, o típico brasileiro carnavalesco espera "o Carnaval
chegar" para "pegar em pernas de moças", como não destacar-se seu ensejo maior
de apalpar bundas de mulher?


Um gosto que nasce no madrugador século XVI ( Gilberto Freyre )

"Inclinados a tal, sob que influências vindas de longe? A esse respeito é
bom
recorrer-se à fonte de informação do madrugador século XVI, suprida pela própria
Igreja através de pesquisas realizadas então, como se estivessem concorrendo
para saberes cientificamente sociais pelo santo Ofício em atividades
investigadoras no Brasil. Suponho ter sido, no livro Casa-Grande & Senzala, o
primeiro a utilizar os resultados de tais pesquisas, em obra acessível ao grande
público. Constam essas informações da Primeira Visitação do Santo Ofício a
Partes do Brasil pelo Licenciado Heitor Furtado de Mendonça. Surgem, nessas
indagações secretas, homens casados casando outra vez com mulatas (talvez do
tipo mulher tornada conhecida como "arde-lhe o rabo", decerto por haver se
extremado em furor anal), adultos europeus ou de procedência européia pecando
contra a natureza, em coitos anais ou através de luxúrias de felação, com
efebos, quer da terra, quer da Guiné, participantes, alguns deles, com tal
volúpia desses amplexos, que de um deles se registra a exclamação "quero mais".
A participação nesses coitos da gente da terra parece indicar, de ameríndios,
presentes em contatos madrugadores com europeus, terem sido, eles próprios,
dados à sodomia ou à pederastia, com o abuso de bundas já então praticado, quer
por europeus em não-europeus, quer -- é possível -- em reciprocidades volutuosas
eurotropicais: euro-ameríndias e euro-afronegras. Pode-se concluir de mulheres
indígenas, desde esses dias, terem revelado preferências, para contatos sexuais
com portugueses, por aqueles motivos priápicos já alegados pelo severo
Varnhagen: os portugueses, em confronto com machos indígenas, teriam se
revelado mais ardorosamente potentes. Sabe-se por alguma observações
antropológicas confiáveis, de homens de culturas primitivas precisarem, em
vários casos, para efeitos de procriação tribal, de festas excitantemente
sexuais, que os levem a atos procriadores, é claro que acompanhados de gozos.
Atos e gozos, entretanto, mais provocados que espontâneos, embora as
investigações do Santo Ofício documentem ocorrência de receptividade de
indígenas a práticas, já por indígenas conhecidas, em que o coito anal teria se
verificado.


Da bunda como inspiração estética nas artes plásticas ( Gilberto Freyre
)

Ouvi, em Sussex, do escultor Henry Moore, que os olhos do artista, para
criarem
esculturas, precisavam não só de ver, como, pelo olhar, apalpar o que viam com
vontades de esculpir. O que evidentemente reforça a sensualidade das esculturas,
quando de mulheres nuas, dando-lhes maior apelo sexual: o de uma intensidade que
não chega a ser lúbrica para ser sexy. Impressionista, Moore? Para lá desse
ismo. Mais expressionista que impressionista. Mas na verdade, também, além desse
outro ismo.
Para o arquiteto finlandês Eliel Saarinem, em Search for Form, (N.Y., 1948),
nenhum desses ismos pioneiramente destruidores de convenções das chamadas
naturalistas deixou de representar impulsos de criatividade diferentes em
artistas inovadores. Diferença, inclusive, de perspectivas do nu de mulher, como
desafio, quer de forma, quer de cor. O que inevitavelmente veio a tocar em
morenidades ecológicas, condicionadas por sóis e calores tropicais. E a produzir
pintores especializados em dar destaque a bundas de mulheres morenas. Um deles,
de modo notável, Emiliano di Cavalcanti.
Bundas, porque, mais do que faces ou partes superiores de corpos, elas permitem
ao pintor dar ênfase estética a curvas femininas. É em nádegas que esses curvas
esplendem, irradiando suas maiores provocações, além de estéticas, sensuais. Foi
pioneiro em fixá-las o exotista ou tropicalista Gauguin. De onde outros ismos em
criações pictóricas em torno de corpos de mulheres, isto é, de formas diferentes
das olimpicamente, apolineamente, estaticamente clássicas. Inclusive o muito
dionisíaco primitivismo, pretendendo juntar, à apresentação de bundas como
partes aliciantemente belas de corpos de mulher, uma perspectiva como que --
paradoxo -- maliciosamente inocente.
As bundas de mulatas célebres de Di Cavalcanti não estão nesse caso. Nem elas
nem as das pinturas criativamente inclassificáveis como istas de Cícero dias, de
que emergem mulheres nuas ostentando mais bundas desacompanhadas de pêlos do que
sexos com pentelhos ramalhudos. Aliás, a miscigenação brasileira tornou-se tão
vasta, que as bundas de mulheres do Brasil constituem, talvez, a mais variada
expressão antropológica de uma moderna variedade de formas e nádegas, com as
protuberantes é possível que avantajando-se às menos ostensivas.


Do andar afrodisíaco das bundas ondulantes à anfíbia Roberta Close (
Gilberto Freyre )

E aqui é preciso que se volte à observação de Havelock Ellis, quanto a uma
das
superioridades da mulher ibérica sobre as ortodoxamente européias estar na
assimilação, pela ibérica, de remota influência africana do andar, como se
dançasse. É um movimento de bundas bastante amplas -- especifique-se -- para
permitirem essa ondulação como que -- sugira-se -- afrodisíaca de andar.
A grande número de mulheres brasileiras, a miscigenação pode-se sugerir ter dado
ritmos de andar e, portanto, de flexões de nádegas, susceptíveis de ser
considerados afrodisíacos. Atente-se nesses ritmos, em cariocas miscigenadas, em
confronto com as beldades argentinas que o observador tenha acabado de admirar.
Os ritmos de andar da miscigenada brasileira chegam a ser musicais, na sua
dependência de bundas moderadamente ondulantes. Para Havelock Ellis, o andar da
mulher mais tipicamente ibérica, em contraste com a da ortodoxamente européia --
em grande número de casos, acrescente-se a Ellis, como que calvinistamente
proibida, em sua maneira de ser femininamente elegante, de ter bunda ostensiva
-- teria alguma coisa de graciosa qualidade de um corpo felino inteiramente
vivo.
O homem médio brasileiro não pode deixar de ser sensível à imensidade de
provocações que o rodeiam. Não tanto ao vivo, como por meio de anúncios de
revistas ilustradas, que se vêm esmerando na utilização de reproduções coloridas
de bundas nuas, como atrativos para uma diversidade de artigos à venda. Há,no
Brasil de hoje, uma enorme comercialização da imagem da bunda de mulher em
anúncios atraentes. Estéticos uns, alguns lúbricos. Também se vem fazendo esse
uso na televisão. E, sonoramente, em músicas apologéticas da beleza da bunda de
mulher. O sexo da mulher vem, através dessa comercialização da bunda em
anúncios, quase perdendo, em publicidade apologética, para esse nada
insignificante rival, no Brasil.
Ainda agora, a propósito da anfíbia Roberta (Close), vem se destacando dela,
como qualidade feminina, ter "bunda grande". À "bunda grande" se contrapõe, no
Brasil, como negativo sexual, e até eugênico e estético, a "bunda murcha", a
"bunda seca", a "bunda magra". Pois o ideal árabe de mulher bonita, ser gorda,
ainda não foi superado de todo, no Brasil, pelo ideal de mulher secamente
elegante, desde a chamada flapper, da década de trinta: mulher delgada e como se
fosse rapaz. Quase sem bunda!


Bahia ( Gilberto Freyre )

Bahia de todos os santos (e de quase todos os pecados)
casas trepadas umas por cima das outras
como um grupo de gente se espremendo
p'ra sair num retrato de revista ou jornal
igrejas gordas (as de Pernambuco são mais magras)
toda a Bahia é uma maternal cidade gorda
como se dos ventres empinados dos seus montes
dos quais saíram tantas cidades do Brasil
inda outras estivessem p'ra sair.
ar mole oleoso com cheiro de comida
automóveis a 30$ a hora
e um "Ford" todo osso sobe qualquer ladeira
saltando, pulando, tilintando
p'ra depois escorrer sobre o asfalto novo
que branqueja como dentadura postiça
entre as casas velhas
gente da Bahia!
preta, parda, roxa, morena
cor de bons jacarandás de engenho
do Brasil
(madeira que cupim não rói)
sem caras cor de fiambre
nem rostos cor de peru frio
sem borrões de manteiga francesa
(cabelo ruivo de inglês e de alemão)
Bahia ardendo de cores quentes
carnes mornas gostos picantes
eu detesto teus oradores, Bahia de todos os santos,
teus ruys barbosas teus otávios mangabeiras
mas gosto dos teus angus e das tuas mulatas
tabuleiros flores de papel candieirinhos
tudo à sombra das tuas igrejas
todas cheias de anjos bochechudos
sãojoões, sãojosés, meninozinhos-Deus
e com senhoras gordas se confessando
a frades mais magros do que eu
(o padre reprimido que há em mim
se exalta diante de ti, Bahia
e perdoa suas superstições
teu comércio de medidas de Nossa Senhora
e de Nossos Senhores do Bonfim)
negras velhas da Bahia
vendendo mingau e vendendo angu
negras velhas de xale encarnado
e de mole peito caído
mães das mulatas mais quentes do Brasil
mulatas do gordo peito em bico
como p'ra dar de mamar
a tudo quanto é menino do Brasil
Bahia de quase todos os pecados
escorrediça lama de carne
ranger de camas de lona
sob corpos ardendo, suando de gozo
moquecas da preta Eva
caruru vatapá azeite de dendê
cachos de gordas bananas
balaios de enormes laranjas
bacharéis de pince-nês
gênios de Sergipe
bonecas de pano
mulatos de fraque
estudantes de medicina
chapéus do Chile
botinas de elástico
mulatinhos de fala fina
literatos que tomam a sério Mário Pinto Serva
requintados que lêem Guilherme de Almeida e Menotti del Picchia
patriotas que dão viva ao sr. Pedro Lago
chegado do Rio pelo Ruy Barbosa
e outros com saudade do doutor Seabra
Bahia
um dia voltarei com vagar ao teu seio brasileiro
ao teu quente seio brasileiro
às tuas igrejas cheirando a incenso
aos teus tabuleiros escancarados em X
(esse X é o futuro do Brasil)
e cheirando a mingau e a angu.


Das afronegras notáveis por suas bundas e dos ardores patriarcais (
Gilberto Freyre )

(...) Não há evidência alguma de mulheres indígenas terem se feito notar,
como
aconteceria com mulheres de origem afronegra, introduzidas na colônia, desde o s
éculo XVI, por nádegas notavelmente protuberantes ou por bundas salientemente
grandes. E, por essas saliências, sexualmente provocantes do seu uso, e até do
seu abuso, em coitos de intenções mais voluptuosas. Ao tamanho das nádegas,
desenvolveu-se, é de supor, a tendência, quase folclórica, entre brasileiros, de
associarem-se os chamados cus de pimenta ou rabos ardorosos, já presentes em
referências em registros das investigações do Santo Ofício.
Entretanto, é preciso não resvalar-se na simplificação de atribuir-se a
presença, entre mulheres brasileiras, de bundas grandes, com ou sem essas
conexões, à presença de afronegras notáveis por tais protuberâncias de nádegas.
Mas é preciso atentar-se no fato de mulheres tipicamente ibéricas, inclusive
portuguesas, presentes na colonização do Brasil, terem quase rivalizado, por
vezes, com afronegras, em tais protuberâncias de nádegas. Num livro notável,
(...) The Soul of Sham (Londres, 1908), o mestre em sexologia, Havelock Ellis,
lembra dos por Deniken classificados como do tipo antropológico iberóide serem
em geral morenos de uma pigmentação de um encanto estético chamado por Gauthier,
referindo-se especificamente às telas espanholas de Málaga, de um "dourado
pálido" (...)
E as mulheres? De modo geral, superiores aos homens, afirma Ellis.O que viria
sendo confirmado pela sua maior autenticidade como expressões de tipos
nacionalmente ibéricos. E especificando seus característicos antropologicamente
físicos à base dos sociais: quando jovens, tendentes a delgadas, embora com
bustos e ancas -- bundas, portanto -- já desenvolvidos. Protuberâncias
acentuadas com a idade madura. A idade, em mulher bonita, a associar-se a
gordura. E à gordura, juntar-se, segundo Ellis, "maior amplitude e acentuação de
ancas em relação com as demais partes do corpo".
Para o ideal feminino predominante no Brasil patriarcal, de "gorda e
bonita", é de se supor ter concorrido influência árabe, contra a qual teriam se
oposto, no século XIX, influências romanticamente européias. (...) Um ideal, o
de sinhazinha adolescente, quase menina e, de tão delgada, quase sem bunda e de
seios virginalmente discretíssimos, mãos e pés ostensivamente pequenos. Outro
ideal, o de sinhadona de meia -idade, gorda, ostensivamente bem nutrida,
dignamente bunduda, apta ao desempenho de mulher, mãe de sucessivos filhos e a
cujo físico não faltavam bundas mais dignamente maternas que provocantemente
sexuais. Pois para a satisfação de ardores sexuais o macho patriarcal
brasileiro tinha, aa seu dispor -- por vezes defrontando-se com ciúmes de
esposas ciosas de seus direitos conjugais --, escravas, mucamas, morenidades em
vários graus de mulheres. Isto, dentro da reciprocidade casa grande-senzala.
Miscigenadas, como se a miscigenação se fizesse através de experimentos
antropologicamente eugênicos e estéticos. Experimentos que permitissem que
fossem com que graduadas saliências de bundas, evitando-se os exageros
africanóides.