O fim supremo da educação é o discernimento especializado em todas as coisas - o poder de diferenciar o bem e o mal, o genuíno do impostor, e de preferir o bem e o genuíno ao mal e ao impostor.
( Samuel Johnson ) Mensagem sobre Filosofia
O ensino da filosofia não precisa ser complexo,intricado. Tem a ver com curiosidade,a mania de fazer perguntas,algo que perdemos na cultura ocidental quando envelhecemos.
( Frases e Pensamentos de Jostein Gaarder) Mensagem sobre Pensamentos
Nada é mais importante do que criar um ambiente no qual as pessoas sintam que fazem uma diferença. Não há como se sentir bem em relação ao que você está fazendo sem acreditar que está fazendo uma diferença.
( Jack Stack ) Mensagem sobre Filosofia
Para mim, estilo é justamente o exterior do conteúdo, e o conteúdo é o interior do estilo, como o interior e exterior do corpo humano - ambos andam juntos, eles não podem ser separados.
( Frases e Pensamentos de Jean-Luc Godard ) Mensagem sobre Filosofia
Às vezes, quando considero a imensas conseqüências que resultam das pequenas coisas - uma palavra casual, um tapa no ombro ou uma moeda na caixa do jornal - sinto-me tentado a pensar... não existem detalhes.
( Ralph Waldo Emerson ) Mensagem sobre Filosofia
Imagino que para lidar com as diferenças entre nós e as outras pessoas, temos que aprender compaixão, autocontrole, piedade, perdão, simpatia e amor - virtudes sem as quais nem nós, nem o mundo, podemos sobreviver.
( Wendell Berry ) Mensagem sobre Filosofia
Mesmo quando não devo seguir o caminho reto porque é reto, opto por segui-lo porque descobri por experiência própria que, quando tudo é dito e feito, em geral, em geral é o caminho mais feliz e mais útil.
( Michel Eyquem de Montaigne ) Mensagem sobre Filosofia
O degrau de uma escada não serve simplesmente para que alguém permaneça em cima dele,destina-se a sustentar o pé de um homem pelo tempo suficiente para que ele coloque o outro um pouco mais alto
( Frases e Pensamentos de Thomas Huxley) Mensagem sobre Filosofia
Se você quiser minha opinião final sobre o mistério da vida e tudo isso, posso resumi-la em poucas palavras. O universo é como um cofre para o qual existe uma combinação. Mas essa combinação está trancada dentro do cofre.
( Peter de Vries ) Mensagem sobre Filosofia
A manifestação consciente do pensamento, por meio da fala ou da ação, com qualquer fim, é Arte... De sua primeira a sua última obra, a Arte é o uso voluntário do espírito e a combinação de coisas para servir a seu fim.
( Ralph Waldo Emerson ) Mensagem sobre Filosofia
Se você é um filósofo que não consegue enxergar o que existe de vivo além dos livros e dos pós das bibliotecas, viva mais a filosofia, talvez um dia quem sabe, ao invés das citações dos mortos, você seja capaz de citar também o que esta dentro de você.
( Beatriz Camelo )
Aquele que propagar esta filosofia secreta - o transcendental conhecimento do Gita - entre Meus devotos, realizará o mais elevado serviço devocional para Mim, e certamente virá até a Mim, e não haverá ninguém sobre a Terra que seja mais querido por Mim (18.68-69).
( Bhagavad Gita )
A humanidade transformou-se em uma grande família, tanto que não podemos garantir a nossa própria prosperidade se não garantirmos a prosperidade de todos. Se você quer ser feliz, precisa resignar-se a ver os outros também felizes.
( Bertrand Russel ) Mensagem sobre Filosofia
A ambição é o puro senso de dever pois a si só não produz frutos realmente importantes para a pessoa humana, pelo contrario os frutos verdadeiros derivam do amor e da dedicação para com as pessoas e as coisas.
( Frases e Pensamentos de Albert Einstein ) Mensagem sobre Filosofia
Fé e amor são propensos a serem espasmódicos nas melhores mentes. Os homens vivem o limite dos mistérios e harmonias nos quais eles nunca entram, e com suas mãos no trinco da porta eles morrem do lado de fora.
( Frases e Pensamentos de Ralph Waldo Emerson ) Mensagem sobre Filosofia
Poucas pessoas já desejaram seriamente ser exclusivamente racionais. A vida que a maioria das pessoas deseja é cercada de paixões e tocada com uma graça cerimonial impossível sem a lealdade dedicada a formas e cerimônias tradicionais.
( Joaeph Wood Krutch ) Mensagem sobre Filosofia
"Trata de saborear a vida; e fica sabendo, que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la." (Frases e Pensamentos de Machado de Assis)
O vôo até a Lua não é tão longo. As distâncias maiores que devemos percorrer estão dentro de nós mesmos. Vencer não é competir com o outro. É derrotar os seus inimigos interiores. É a própria realização do ser.
( Frases e Pensamentos de Autor Desconhecido) Mensagem sobre Filosofia
Para destruir, aniquilar definitivamente um homem, infligir-lhe as punições mais terríveis, diante das quais o assassino mais feroz tremeria de pavor, basta apenas lhe atribuir um trabalho de caráter total e inteiramente inútil e irracional.
( Fiódor Dostoiévski ) Mensagem sobre Filosofia
Tudo é dependente de tudo mais, tudo é conectado, nada é separado. Portanto, tudo está indo pelo único caminho que pode ir. Se as pessoas fossem diferentes, tudo seria diferente. Elas são o que elas são, portanto tudo é como é.
( Frases e Pensamentos de G. I. Gurdjjeff ) Mensagem sobre Filosofia
Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação,de pele,saliva,lágrima,nuvem,quindim,brisa ou filosofia.
(FRASES E PENSAMENTOS DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)
O olho do observador interfere no objeto observado. Só um fantasma se embrulha no seu passado,explicando a si próprio com autodefinições baseadas numa vida já vivida. Você é aquilo que escolhe ser hoje,não o que escolheu antes.
( Frases e Pensamentos de Autor Desconhecido) Mensagem sobre Filosofia
Estou convencido de que o mundo não é um mero pântano onde homens e mulheres se jogam... e morrem. Algo magnificente está ocorrendo aqui em meio às crueldades e tragédias e o desafio supremo à inteligência é fazer prevalecer o que há de mais nobre e melhor em nossa curiosa herança.
( C. A. Beard ) Mensagem sobre Filosofia
Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação,de pele,saliva,lágrima,nuvem,quindim,brisa ou filosofia.
( Frases e Pensamentos de Carlos Drummond de Andrade) Mensagem sobre Amor
Você será avarento se conviver com homens mesquinhos e avarentos. Será vaidoso se conviver com homens arrogantes. Jamais se livrará da crueldade se compartilhar sua casa com um torturador. Alimentará sua luxúria confraternizando-se com os adúlteros. Se quer se livrar de seus vícios, mantenha-se afastado do exemplo dos viciados.
( Seneca ) Mensagem sobre Filosofia
Acredito que os filósofos voam como as águias e não como pássaros pretos. É bem verdade que as águias, por serem raras, oferecem pouca chance de serem vistas e muito menos de serem ouvidas, e os pássaros pretos, que voam em bando, param em todos os cantos enchendo o céu de gritos e rumores, tirando o sossego do mundo.
( Frases e Pensamentos de Galileu Galilei ) Mensagem sobre Filosofia
Todos os homens buscam a felicidade. E não há exceção. Independentemente dos diversos meios que empregam, o fim é o mesmo. O que leva um homem a lançar-se à guerra e outros a evitá-la é o mesmo desejo, embora revestido de visões diferentes. O desejo só dá o último passo com este fim. É isto que motiva as ações de todos os homens, mesmo dos que tiram a própria vida.
( Blaise Pascal ) Mensagem sobre Filosofia
A economia emergente baseia-se no conhecimento, na imaginação, na curiosidade e no talento. E se pudéssemos aprender a explorar as ricas e maravilhosas diferenças entre as pessoas? Uma empresa capaz de explorar a singularidade de cada um de seus mil funcionários (ou 10 ou 10 mil) seria extremamente poderosa? De forma negativa, uma empresa que não descobre como usar as curiosidades especiais de seu pessoal não estará fada a ter problemas?
( Tom Peters ) Mensagem sobre Filosofia
É propriamente ter os olhos fechados, sem jamais tentar abri-los, viver sem
filosofar; e o prazer de ver todas as coisas que a nossa visão descobre não é
comparável à satisfação proporcionada pelo conhecimento daquelas que encontramos
por meio da filosofia; e, finalmente, esse estudo é mais necessário para regrar
os nossos costumes e conduzir-nos por essa vida do que o uso dos nossos olhos
para orientar os nossos passos.
(...) Se desejamos seriamente ocupar-nos com o estudo da filosofia e com a busca
de todas as verdades que somos capazes de conhecer, tratemos, em primeiro lugar,
de nos libertar dos nossos preconceitos, e estaremos em condições de rejeitar
todas as opiniões que outrora recebemos através da nossa crença até que as
tenhamos examinado novamente; em seguida, passaremos em revista as noções que
estão em nós, e só aceitaremos como verdadeiras as que se apresentarem clara e
distintamente ao nosso entendimento.
Contrate e promova primeiro com base na integridade;
segundo, na motivação; terceiro, na capacidade; quarto, na compreensão;
quinto, no conhecimento; e, por último, como fator menos importante, na experiência.
Sem integridade, a motivação é perigosa; sem motivação, a capacidade é impotente;
sem capacidade, a compreensão é limitada;
sem compreensão, o conhecimento é insignificante;
sem conhecimento, a experiência é cega.
Uma pessoa com todas as outras qualidades,
adquire facilmente e coloca rapidamente em prática a experiência.
( Dee Hock ) Mensagem sobre Filosofia
A maioria dos luxos e muitos dos chamados confortos da vida não só são
dispensáveis como constituem até obstáculos à elevação da humanidade. No que diz
respeito a luxos e confortos, os mais sábios sempre viveram de modo mais simples
e despojado que os pobres. Os antigos filósofos chineses, indianos, persas e
gregos eram uma classe que se notabilizava pela extrama pobreza de bens
exteriores, em contraste com a sua riqueza interior. Embora não saibamos muito a
seu respeito, é de admirar que saibamos tanto quanto sabemos. O mesmo acontece
com reformadores e benfeitores mais recentes, da nacionalidade deles. Ninguém
pode ser um observador imparcial e sábio da raça humana, a não ser da posição
vantajosa a que chamaríamos pobreza voluntária.
O fruto de uma vida de luxo é também luxo, seja em agricultura, comércio,
literatura ou arte. Hoje em dia há professores de filosofia, mas não há
filósofos. Contudo é admirável ensinar filosofia porque um dia foi admirável
vivê-la. Ser um filósofo não é apenas ter pensamentos subtis, nem sequer fundar
uma escola, mas amar a sabedoria a ponto de viver, segundo os seus ditames, uma
vida de simplicidade, independência, magnanimidade e confiança. É solucionar
alguns problemas da vida não só na teoria mas também na prática.
Nunca será de mais insistir no carácter arbitrário da antiga oposição entre
arte e a filosofia. Se quisermos interpretá-la num sentido muito preciso, é
certamente falsa. Se quisermos simplesmente significar que essas duas
disciplinas têm, cada uma delas, o seu clima particular, isso é verdade sem
dúvida, mas muito vago. A única argumentação aceitável residia na contradição
levantada entre o filósofo fechado no meio do seu sistema e o artista colocado
diante da sua obra. Mas isto era válido para uma certa forma de arte e de
filosofia, que aqui consideramos secundária. A ideia de uma arte separada do seu
criador não está somente fora de moda. É falsa. Por oposição ao artista,
dizem-nos que nunca nenhum filósofo fez vários sistemas.
Mas isto é verdade, na própria medida em que nunca nenhum artista exprimiu mais
de uma só coisa sob rostos diferentes. A perfeição instantânea da arte, a
necessidade da sua renovação, só é verdade por preconceito. Porque a obra de
arte também é uma construção, e todos sabem como os grandes criadores podem ser
monótonos. O artista, tal como o pensador, empenha-se e faz-se na sua obra. Essa
osmose levanta o mais importante dos problemas estéticos. Além disso, nada é
mais vão que essas distinções, segundo os métodos e os objectos, para quem se
persuade da unidade de finalidade do espírito. Não há fronteiras entre as
disciplinas que o homem se propõe, para compreender e amar. Interpenetram-se e
confunde-as a mesma angustia.
Vida É o amor existencial. Razão É o amor que pondera. Estudo É o amor que analisa. Ciência É o amor que investiga. Filosofia É o amor que pensa. Religião É o amor que busca a Deus. Verdade É o amor que eterniza. Ideal É o amor que se eleva. Fé É o amor que transcende. Esperança o amor que sonha.Caridade É o amor que auxilia. Fraternidade É o amor que se expande. Sacrifício É o amor que se esforça. Renúncia É o amor que depura. Simpatia É o amor que sorri. Trabalho É o amor que constrói. Indiferença É o amor que se esconde. Desespero É o amor que se desgoverna. Paixão É o amor que se desequilibra. Ciúme É o amor que se desvaira. Orgulho É o amor que enlouquece. Sensualismo É o amor que se envenena. Finalmente, o ódio, que julgas ser a antítese do amor, não é senão o próprio amor que adoeceu gravemente. (Frases e Pensamentos de Chico Xavier)
Visto que esta ciência (a filosofia) é o objecto das nossas indagações,
examinemos de que causas e de que princípios se ocupa a filosofia como ciência;
questão que se tomará muito mais clara se examinarmos as diversas ideias que
formamos do filósofo. Em primeiro lugar, concebemos o filósofo principalmente
como conhecedor do conjunto das coisas, enquanto é possível, sem contudo possuir
a ciência de cada uma delas em particular. Em seguida, àquele que pode alcançar
o conhecimento de coisas difíceis, aquelas a que só se chega vencendo graves
dificuldades, não lhe chamaremos filósofo? De facto, conhecer pelos sentidos é
uma faculdade comum a todos, e um conhecimento que se adquire sem esforço em
nada tem de filosófico. Finalmente, o que tem as mais rigorosas noções das
causas, e que melhor ensina estas noções, é mais filósofo do que todos os outros
em todas as ciências. E, entre as ciências, aquela que se procura por si mesma,
só pelo anseio do saber, é mais filosófica do que a que se estuda pelos seus
resultados; assim como a que domina as mais é mais filosófica do que a que se
encontra subordinada a qualquer outra. Não, o filósofo não deve receber leis,
mas sim dá-las; nem é necessário que obedeça a outrem, mas deve obedecer-lhe o
que seja menos filósofo.
(...) Pois bem: o filósofo que possuir perfeitamente a ciência do geral tem
necessariamente a ciência de todas as coisas, porque um homem em tais
circunstâncias sabe, de certo modo, tudo quanto está compreendido sob o geral.
Todavia, pode dizer-se também que se toma muito difícil ao homem alçar-se aos
conhecimentos mais gerais; as coisas que são seus objectos como que estão mais
distantes do alcance dos sentidos.
(...) De tudo quanto dissemos sobre a própria ciência resulta a definição da
filosofia que procuramos. É imprescindível que seja a ciência teórica dos
primeiros princípios e das primeiras causas, porque uma das causas é o bem, a
razão final. E que não é uma ciência prática, prova-o o exemplo dos que
primeiramente filosofaram. O que, a princípio, levou os homens a fazerem as
primeiras indagações filosóficas foi, como é hoje, a admiração. Entre os
objectos que admiravam e que não podiam explicar, aplicaram-se primeiro aos que
se encontravam ao seu alcance; depois, passo a passo, quiseram explicar os
fenómenos mais importantes; por exemplo, as diversas fases da Lua, o trajecto do
Sol e dos astros e, finalmente, a formação do universo. Ir à procura duma
explicação e admirar-se é reconhecer que se ignora. (...) Portanto, se os
primeiros filósofos filosofaram para se libertarem da ignorância, é evidente que
se consagraram à ciência para saber, e não com vista à utilidade.
A mente universal manifesta-se na arte como intuição e imaginação; na religião
manifesta-se como sentimento e pensamento representativo; e na filosofia ocorre
como liberdade pura de pensamento. Na história mundial a mente universal
manifesta-se como actualidade da mente, na sua integridade de internalidade e de
externalidade. A história do mundo é um tribunal porque, na sua absoluta
universalidade, o particular, isto é, as formas de culto, sociedade e espíritos
nacionais em todas as suas diferentes actualidades, está presente apenas como
ideal, e aqui o movimento da mente é a manifestação disto mesmo...
A história do mundo não é o veredicto da força, isto é, de um destino cego
realizando-se a si mesmo numa inevitabilidade abstracta e não-racional. Pelo
contrário, porque a mente é razão implícita e explicitamente, e porque a razão é
explícita para si mesma, na mente, enquanto conhecimento, a história do mundo é
o desenvolvimento necessário, decorrente da liberdade da mente, dos momentos da
razão e, deste modo, da autoconsciência e da liberdade da mente.
A história da mente é a sua acção. A mente é apenas o que faz, e a sua acção faz
dela o objecto da sua própria consciência. Através da história, a sua acção
ganha consciência de si mesma como mente, e apreende-se na sua interpretação de
si mesma para si mesma. Esta apreensão é no seu ser e no seu princípio, e a
realização desta apreensão numa dada fase é simultaneamente a rejeição dessa
fase e a sua elevação a uma fase mais elevada.
De há muito tinha notado que, pelo que respeita à conduta, é necessário
algumas vezes seguir como indubitáveis opiniões que sabemos serem muito
incertas, (...). Mas, agora que resolvera dedicar-me apenas à descoberta da
verdade, pensei que era necessário proceder exactamente ao contrário, e
rejeitar, como absolutamente falso, tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor
dúvida, a fim de ver se, após isso, não ficaria qualquer coisa nas minhas
opiniões que fosse inteiramente indubitável.
Assim, porque os nossos sentidos nos enganam algumas vezes, eu quis supor que
nada há que seja tal como eles o fazem imaginar. E porque há homens que se
enganam ao raciocinar, até nos mais simples temas de geometria, e neles cometem
paralogismos, rejeitei como falsas, visto estar sujeito a enganar-me como
qualquer outro, todas as razões de que até então me servira nas demonstrações.
Finalmente, considerando que os pensamentos que temos quando acordados nos podem
ocorrer também quando dormimos, sem que neste caso nenhum seja verdadeiro,
resolvi supor que tudo o que até então encontrara acolhimento no meu espírito
não era mais verdadeiro que as ilusões dos meus sonhos. Mas, logo em seguida,
notei que, enquanto assim queria pensar que tudo era falso, eu, que assim o
pensava, necessáriamente era alguma coisa. E notando esta verdade: eu penso,
logo existo, era tão firme e tão certa que todas as extravagantes suposições dos
cépticos seriam impotentes para a abalar, julguei que a podia aceitar, sem
escrúpulo, para primeiro princípio da filosofia que procurava.
Devemos estudar os meios de alcançar a felicidade, pois, quando a temos,
possuímos tudo e, quando não a temos, fazemos tudo por alcançá-la. Respeita,
portanto, e aplica os princípios que continuadamente te inculquei,
convencendo-te de que eles são os elementos necessários para bem viver. Pensa
primeiro que o deus é um ser imortal e feliz, como o indica a noção comum de
divindade, e não lhe atribuas jamais carácter algum oposto à sua imortalidade e
à sua beatitude. Habitua-te, em segundo lugar, a pensar que a morte nada é, pois
o bem e o mal só existem na sensação. De onde se segue que um conhecimento
exacto do facto de a morte nada ser nos permite fruir esta vida mortal,
poupando-nos o acréscimo de uma ideia de duração eterna e a pena da
imortalidade. Porque não teme a vida quem compreende que não há nada de temível
no facto de se não viver mais. É, portanto, tolo quem declara ter medo da morte,
não porque seja temível quando chega, mas porque é temível esperar por ela.
É tolice afligirmo-nos com a espera da morte, visto ser ela uma coisa que não
faz mal, uma vez chegada. Por conseguinte, o mais pavoroso de todos os males, a
morte, nada significa para nós, pois enquanto vivemos a morte não existe. E
quando a morte veio, já não existimos nós. A morte não existe, portanto, nem
para os vivos nem para os mortos, pois para uns ela não é, e pois os outros não
são mais.
(...) Deve, em terceiro lugar, compreender-se que, de entre os desejos, uns são
naturais e os outros vãos e que, de entre os naturais, uns são necessários e os
outros somente naturais. Finalmente, de entre os desejos necessários, uns são
necessários à felicidade, outros à tranquilidade do corpo e outros à própria
vida. Uma teoria verídica dos desejos ajustará os desejos e a aversão à saúde do
corpo e à ataraxia da alma, pois é esse o escopo de uma vida feliz, e todas as
nossas acções têm por fim evitar ao mesmo tempo o sofrimento e a inquietação.
Quando o conseguimos, todas as tempestades da alma se desfazem, não tendo já o
ser vivo de dirigir-se para alguma coisa que não possui, nem buscar outra coisa
que possa completar a felicidade da alma e do corpo. Porque nós buscamos o
prazer somente quando a sua ausência causa sofrimento. Quando não sofremos, não
sabemos que fazer do prazer. E por isso dizemos que o prazer é o começo e o fim
de uma vida venturosa. O prazer é, na verdade, considerado por nós como o
primeiro dos bens naturais, é ele que nos leva a aceitar ou a rejeitar as
coisas, a ele vamos parar, tomando a sensibilidade como critério do bem. Ora,
pois que o prazer é o primeiro dos bens naturais, segue-se que não aceitamos o
primeiro prazer que vem, mas em certos casos desdenhamos numerosos prazeres
quando têm por efeito um tormento maior. Por outro lado, há numerosos
sofrimentos que reputamos preferíveis aos prazeres, quando nos trazem um maior
prazer. Todo o prazer, na medida em que se conforma com a nossa natureza, é
portanto um bem, mas nem todo o prazer é entretanto necessariamente apetecível.
Do mesmo modo, se toda a dor é um mal, nem toda é necessariamente de evitar.
Daqui procede que é por uma sábia consideração das vantagens e dissabores que
traz que cada prazer deve ser apreciado. Na verdade, em certos casos, tratamos o
bem como um mal e, noutros, o mal como um bem.
Depender apenas de si mesmo é, em nossa opinião, grande bem, mas não se segue,
por isso, que devamos sempre contentar-nos com pouco. Simplesmente, quando a
abundância nos falece, devemos ser capazes de contentar-nos com pouco, pois
estamos persuadidos de que fruem melhor a riqueza aqueles que menos carecem dela
e que tudo que é natural se alcança facilmente, enquanto é difícil obter o que o
não é. As iguarias mais simples dão tanto prazer como a mesa mais ricamente
servida, quando está ausente o tormento que a carência determina, e o pão e a
água causam o mais vivo prazer quando os tomamos após longa privação. O hábito
da vida simples e modesta é portanto boa maneira de cuidar da saúde e torna, alé
m disso, o homem corajoso para suportar as tarefas que deve necessariamente
realizar na vida. Permite-lhe ainda, eventualmente, apreciar melhor a vida
opulenta e endurece-o contra os reveses da fortuna. Por conseguinte, quando
dizemos que o prazer é o soberano bem, não falamos dos prazeres dos debochados,
nem dos gozos sensuais, como pretendem alguns ignorantes que nos combatem e
desfiguram o nosso pensamento. Falamos da ausência de sofrimento físico e da
ausência da perturbação moral.
Porque não são nem as bebidas e os banquetes contínuos, nem o prazer do trato
com as mulheres, nem o júbilo que dão o peixe e a carne com que se enchem as
mesas sumptuosas que ocasionam uma vida feliz, mas hábitos racionais e sóbrios,
uma razão buscando incessantemente causas legítimas de escolha ou de aversão e
rejeitando as opiniões susceptíveis de trazerem à alma a maior perturbação.
O princípio de tudo isto e, ao mesmo tempo, o maior bem é, portanto, a
prudência. Devemos reputá-la superior à própria filosofia, pois que ela é a
fonte de todas as virtudes que nos ensinam que não se alcança a vida feliz sem a
prudência, a honestidade e a justiça e que a prudência, a honestidade e a
justiça não podem obter-se sem o prazer.
As virtudes, efectivamente, provêm de uma vida feliz, a qual, por sua vez, é
inseparável das virtudes.
Tanto andam agora preocupados em definir o conto que não sei bem se o que vou
contar é conto ou não, sei que é verdade. Minha impressão é que tenho amado
sempre. Depois do amor grande por mim que brotou aos três anos e durou até os
cinco mais ou menos, logo o meu amor se dirigiu para uma espécie de prima
longínqua que freqüentava a nossa casa. Como se vê, jamais sofri do complexo de
Édipo, graças a Deus. Toda a minha vida, mamãe e eu fomos muito bons amigos, sem
nada de amores perigosos.
Maria foi o meu primeiro amor. Não havia nada entre nós, está claro, ela como eu
nos seus cinco anos apenas, mas não sei que divina melancolia nos tomava, se
acaso nos achávamos juntos e sozinhos. A voz baixava de tom, e principalmente as
palavras é que se tornaram mais raras, muito simples. Uma ternura imensa, firme
e reconhecida, não exigindo nenhum gesto. Aquilo aliás durava pouco, porque logo
a criançada chegava. Mas tínhamos então uma raiva impensada dos manos e dos
primos, sempre exteriorizada em palavras ou modos de irritação. Amor apenas
sensível naquele instinto de estarmos sós.
E só mais tarde, já pelos nove ou dez anos, é que lhe dei nosso único beijo, foi
maravilhoso. Se a criançada estava toda junta naquela casa sem jardim da Tia
Velha, era fatal brincarmos de família, porque assim Tia Velha evitava correrias
e estragos. Brinquedo aliás que nos interessava muito, apesar da idade já
avançada para ele. Mas é que na casa de Tia Velha tinha muitos quartos, de forma
que casávamos rápido, só de boca, sem nenhum daqueles cerimoniais de mentira que
dantes nos interessavam tanto, e cada par fugia logo, indo viver no seu quarto.
Os melhores interesses infantis do brinquedo, fazer comidinha, amamentar
bonecas, pagar visitas, isso nós deixávamos com generosidade apressada para os
menores. Íamos para os nossos quartos e ficávamos vivendo lá. O que os outros
faziam, não sei. Eu, isto é, eu com Maria, não fazíamos nada. Eu adorava
principalmente era ficar assim sozinho com ela, sabendo várias safadezas já mas
sem tentar nenhuma. Havia, não havia não, mas sempre como que havia um perigo
iminente que ajuntava o seu crime à intimidade daquela solidão. Era suavíssimo e
assustador.
Maria fez uns gestos, disse algumas palavras. Era o aniversário de alguém, não
lembro mais, o quarto em que estávamos fora convertido em dispensa, cômodas e
armários cheios de pratos de doces para o chá que vinha logo. Mas quem se
lembrasse de tocar naqueles doces, no geral secos, fáceis de disfarçar qualquer
roubo! estávamos longe disso. O que nos deliciava era mesmo a grave solidão.
Nisto os olhos de Maria caíram sobre o travesseiro sem fronha que estava sobre
uma cesta de roupa suja a um canto. E a minha esposa teve uma invenção que eu
também estava longe de não ter. Desde a entrada no quarto eu concentrara todos
os meus instintos na existência daquele travesseiro, o travesseiro cresceu como
um danado dentro de mim e virou crime. Crime não, "pecado" que é como se dizia
naqueles tempos cristãos... E por causa disso eu conseguira não pensar até ali,
no travesseiro.
- Já é tarde, vamos dormir - Maria falou.
Fiquei estarrecido, olhando com uns fabulosos olhos de imploração para o
travesseiro quentinho, mas quem disse travesseiro ter piedade de mim. Maria,
essa estava simples demais para me olhar e surpreender os efeitos do convite:
olhou em torno e afinal, vasculhando na cesta de roupa suja, tirou de lá uma
toalha de banho muito quentinha que estendeu sobre o assoalho. Pôs o travesseiro
no lugar da cabeceira, cerrou as venezianas da janela sobre a tarde, e depois
deitou, arranjando o vestido pra não amassar.
Mas eu é que nunca havia de pôr a cabeça naquele restico de travesseiro que ela
deixou pra mim, me dando as costas. Restico sim, apesar do travesseiro ser
grande. Mas imaginem numa cabeleira explodindo, os famosos cabelos assustados de
Maria, citação obrigatória e orgulho de família. Tia Velha, muito ciumenta por
causa duma neta preferida que ela imaginava deusa, era a única a pôr defeito nos
cabelos de Maria.
- Você não vem dormir também? - ela perguntou com fragor, interrompendo o meu
silêncio trágico.
- Já vou - que eu disse - estou conferindo a conta do armazém.
Fui me aproximando incomparavelmente sem vontade, sentei no chão tomando cuidado
em sequer tocar no vestido, puxa! também o vestido dela estava completamente
assustado, que dificuldade! Pus a cara no travesseiro sem a menor intenção de.
Mas os cabelos de Maria, assim era pior, tocavam de leve no meu nariz, eu podia
espirrar, marido não espirra. Senti, pressenti que espirrar seria muito
ridículo, havia de ser um espirrão enorme, os outros escutavam lá da
sala-de-visita longínqua, e daí é que o nosso segredo se desvendava todinho.
Fui afundando o rosto naquela cabeleira e veio a noite, senão os cabelos (mas
juro que eram cabelos macios) me machucavam os olhos. Depois que não vi nada,
ficou fácil continuar enterrando a cara, a cara toda, a alma, a vida, naqueles
cabelos, que maravilha! até que o meu nariz tocou num pescocinho roliço. Então
fui empurrando os meus lábios, tinha uns bonitos lábios grossos, nem eram
lábios, era beiço, minha boca foi ficando encanudada até que encontrou o
pescocinho roliço. Será que ela dorme de verdade?... Me ajeitei muito sem-cerimô
nia, mulherzinha! e então beijei. Quem falou que este mundo é ruim! só
recordar... Beijei Maria, rapazes! eu nem sabia beijar, está claro, só beijava
mamães, boca fazendo bulha, contato sem nenhum calor sensual.
Maria, só um leve entregar-se, uma levíssima inclinação pra trás me fez sentir
que Maria estava comigo em nosso amor. Nada mais houve. Não, nada mais houve.
Durasse aquilo uma noite grande, nada mais haveria porque é engraçado como a
perfeição fixa a gente. O beijo me deixara completamente puro, sem minhas
curiosidades nem desejos de mais nada, adeus pecado e adeus escuridão! Se fizera
em meu cérebro uma enorme luz branca, meu ombro bem que doía no chão, mas a luz
era violentamente branca, proibindo pensar, imaginar, agir. Beijando.
Tia Velha, nunca eu gostei de Tia Velha, abriu a porta com um espanto
barulhento. Percebi muito bem, pelos olhos dela, que o que estávamos fazendo era
completamente feio.
- Levantem!... Vou contar pra sua mãe, Juca!
Mas eu, levantando com a lealdade mais cínica deste mundo!
- Tia Velha me dá um doce?
Tia Velha - eu sempre detestei Tia Velha, o tipo da bondade Berlitz, injusta,
sem método - pois Tia Velha teve a malvadeza de escorrer por mim todo um olhar
que só alguns anos mais tarde pude compreender inteiramente. Naquele instante,
eu estava só pensando em disfarçar, fingindo uma inocência que poucos segundos
antes era real.
- Vamos! saiam do quarto!
Fomos saindo muito mudos, numa bruta vergonha, acompanhados de Tia Velha e os
pratos que ela viera buscar para a mesa de chá.
O estranhíssimo é que principiou, nesse acordar à força provocado por Tia Velha,
uma indiferença inexplicável de Maria por mim. Mais que indiferença, frieza
viva, quase antipatia. Nesse mesmo chá inda achou jeito de me maltratar diante
de todos, fiquei zonzo.
Dez, treze, quatorze anos... Quinze anos. Foi então o insulto que julguei
definitivo. Eu estava fazendo um ginásio sem gosto, muito arrastado, cheio de
revoltas íntimas, detestava estudar. Só no desenho e nas composições de
português tirava as melhores notas. Vivia nisso: dez nestas matérias, um, zero
em todas as outras. E todos os anos era aquela já esperada fatalidade: uma, duas
bombas (principalmente em matemáticas) que eu tomava apenas o cuidado de apagar
nos exames de segunda época.
Gostar, eu continuava gostando muito de Maria, cada vez mais, conscientemente
agora. Mas tinha uma quase certeza que ela não podia gostar de mim, quem gostava
de mim!... Minha mãe... Sim, mamãe gostava de mim, mas naquele tempo eu chegava
a imaginar que era só por obrigação. Papai, esse foi sempre insuportável,
incapaz de uma carícia. Como incapaz de uma repreensão também. Nem mesmo comigo,
a tara da família, ele jamais ralhou. Mas isto é caso pra outro dia. O certo é
que, decidido em minha desesperada revolta contra o mundo que me rodeava,
sentindo um orgulho de mim que jamais buscava esclarecer, tão absurdo o
pressentia, o certo é que eu já principiava me aceitando por um caso perdido,
que não adiantava melhorar.
Esse ano até fora uma bomba só. Eu entrava da aula do professor particular,
quando enxerguei a saparia na varanda e Maria entre os demais. Passei bastante
encabulado, todos em férias, e os livros que eu trazia na mão me denunciando,
lembrando a bomba, me achincalhando em minha imperfeição de caso perdido.
Esbocei um gesto falsamente alegre de bom-dia, e fui no escritório pegado,
esconder os livros na escrivaninha de meu pai. Ia já voltar para o meio de
todos, mas Matilde, a peste, a implicante, a deusa estúpida que Tia Velha perdia
com suas preferências:
- Passou seu namorado, Maria.
- Não caso com bombeado - ela respondeu imediato, numa voz tão feia, mas tão
feia, que parei estarrecido. Era a decisão final, não tinha dúvida nenhuma.
Maria não gostava mais de mim. Bobo de assim parado, sem fazer um gesto, mal
podendo respirar.
Aliás um caso recente vinha se ajuntar ao insulto pra decidir de minha sorte.
Nós seríamos até pobretões, comparando com a família de Maria, gente que até
viajava na Europa. Pois pouco antes, os pais tinham feito um papel bem
indecente, se opondo ao casamento duma filha com um rapaz diz-que pobre mas
ótimo. Houvera um rompimento de amizade, mal-estar na parentagem toda, o caso
virara escândalo mastigado e remastigado nos comentários de hora de jantar. Tudo
por causa do dinheiro.
Se eu insistisse em gostar de Maria, casar não casava mesmo, que a família dela
não havia de me querer. Me passou pela cabeça comprar um bilhete de loteria.
"Não caso com bombeado"... Fui abraçando os livros de mansinho, acariciei-os
junto ao rosto, pousei a minha boca numa capa, suja de pó suado, retirei a boca
sem desgosto. Naquele instante eu não sabia, hoje sei: era o segundo beijo que
eu dava em Maria, último beijo, beijo de despedida, que o cheiro desagradável do
papelão confirmou. Estava tudo acabado entre nós dois.
Não tive mais coragem pra voltar à varanda e conversar com... os outros. Estava
com uma raiva desprezadora de todos, principalmente de Matilde. Não, me parecia
que já não tinha raiva de ninguém, não valia a pena, nem de Matilde, o insulto
partira dela, fora por causa dela, mas eu não tinha raiva dela não, só tristeza,
só vazio, não sei... creio que uma vontade de ajoelhar. Ajoelhar sem mais nada,
ajoelhar ali junto da escrivaninha e ficar assim, ajoelhar. Afinal das contas eu
era um perdido mesmo, Maria tinha razão, tinha razão, tinha razão, que tristeza!
Foi o fim? Agora é que vem o mais esquisito de tudo, ajuntando anos pulados.
Acho que até não consigo contar bem claro tudo o que sucedeu. Vamos por ordem:
Pus tal firmeza em não amar Maria mais, que nem meus pensamentos me traíram. De
resto a mocidade raiava e eu tinha tudo a aprender. Foi espantoso o que se
passou em mim. Sem abandonar o meu jeito de "perdido", o cultivando mesmo,
ginásio acabado, eu principiara gostando de estudar. Me batera, súbito, aquela
vontade irritada de saber, me tornara estudiosíssimo. Era mesmo uma impaciência
raivosa, que me fazia devorar bibliotecas, sem nenhuma orientação. Mas brilhava,
fazia conferências empoladas em sociedadinhas de rapazes, tinha idéias que
assustavam todo o mundo. E todos principiavam maldando que eu era muito
inteligente mas perigoso.
Maria, por seu lado, parecia uma doida. Namorava com Deus e todo o mundo, aos
vinte anos fica noiva de um rapaz bastante rico, noivado que durou três meses e
se desfez de repente, pra dias depois ela ficar noiva de outro, um diplomata
riquíssimo, casar em duas semanas com alegria desmedida, rindo muito no altar e
partir em busca duma embaixada européia com o secretário chique seu marido.
Às vezes meio tonto com estes acontecimentos fortes, acompanhados meio de longe,
eu me recordava do passado, mas era só pra sorrir da nossa infantilidade e
devorar numa tarde um livro incompreensível de filosofia. De mais a mais, havia
Rose pra de-noite, e uma linda namoradinha oficial, a Violeta. Meus amigos me
chamavam de "jardineiro", e eu punha na coincidência daqueles duas flores uma
força de destinação fatalizada. Tamanha mesmo que topando numa livraria com The
Gardener de Tagore, comprei o livro e comecei estudando o inglês com loucura.
Mário de Andrade conta num dos seus livros que estudou o alemão por causa dum
emboaba tordilha... eu também: meu inglês nasceu duma Violeta e duma Rose.
Não, nasceu de Maria. Foi quando uns cinco anos depois, Maria estava pra voltar
pela primeira vez ao Brasil, a mãe dela, queixosa de tamanha ausência,
conversando com mamãe na minha frente, arrancou naquele seu jeito de gorda
desabrida:
- Pois é, Maria gostou tanto de você, você não quis!... e agora ela vive longe
de nós.
Pela terceira vez fiquei estarrecido neste conto. Percebi tudo num tiro de
canhão. Percebi ela doidejando, noivando com um, casando com outro, se
atordoando com dinheiro e brilho. Percebi que eu fora uma besta, sim agora que
principiava sendo alguém, estudando por mim fora dos ginásios, vibrando em
versos que muita gente já considerava. E percebi horrorizado, que Rose! nem
Violeta, nem nada! era Maria que eu amava como louco! Maria é que amara sempre,
como louco: ôh como eu vinha sofrendo a vida inteira, desgraçadíssimo,
aprendendo a vencer só de raiva, me impondo ao mundo por despique, me
superiorizando em mim só por vingança de desesperado. Como é que eu pudera me
imaginar feliz, pior: ser feliz, sofrendo daquele jeito! Eu? eu não! era Maria,
era exclusivamente Maria toda aquela superioridade que estava aparecendo em
mim... E tudo aquilo era uma desgraça muito cachorra mesma. Pois não andavam
falando muito de Maria? Contavam que pintava o sete, ficara célebre com as
extravagâncias e aventuras. Estivera pouco antes às portas do divórcio, com um
caso escandaloso por demais, com um pintor de nomeada que só pintava efeitos de
luz. Maria falada, Maria bêbeda, Maria passada de mão em mão, Maria pintada
nua...
Se dera como que uma transposição de destinos... E tive um pensamento que ao
menos me salvou no instante: se o que tinha de útil agora em mim era Maria, se
ela estava se transformando no Juca imperfeitíssimo que eu fora, se eu era
apenas uma projeção dela, como ela agora apenas uma projeção de mim, se nos
trocáramos por um estúpido engano de amor: mas ao menos que eu ficasse bem ruim,
mas bem ruim mesmo outra vez pra me igualar a ela de novo. Foi a razão da briga
com Violeta, impiedosa, e a farra dessa noite - bebedeira tamanha que acabei
ficando desacordado, numa série de vertigens, com médico, escândalo, e choro
largo de mamãe com minha irmã.
Bom, tinha que visitar Maria, está claro, éramos "gente grande" agora. Quando
soube que ela devia ir a um banquete, pensei comigo: "ótimo, vou hoje logo
depois de jantar, não encontro ela e deixo o cartão". Mas fui cedo demais.
Cheguei na casa dos pais dela, seriam nove horas, todos aqueles requififes de
gente ricaça, criado que leva cartão numa salva de prata etc. Os da casa estavam
ainda jantando. Me introduziram na saletinha da esquerda, uma espécie de
luís-quinze muito sem-vergonha, dourado por inteiro, dando pro hol central. Que
fizesse o favor de esperar, já vinham.
Contemplando a gravura cor-de-rosa, senti de supetão que tinha mais alguém na
saleta, virei. Maria estava na porta, olhando pra mim, se rindo, toda vestida de
preto. Olhem: eu sei que a gente exagera em amor, não insisto. Mas se eu já tive
a sensação da vontade de Deus, foi ver Maria assim, toda de preto vestida,
fantasticamente mulher. Meu corpo soluçou todinho e tornei a ficar estarrecido.
- Ao menos diga boa-noite, Juca...
"Boa-noite, Maria, eu vou-me embora"... meu desejo era fugir, era ficar e ela
ficar mas, sim, sem que nos tocássemos sequer. Eu sei, eu juro que sei que ela
estava se entregando a mim, me prometendo tudo, me cedendo tudo quanto eu
queria, naquele se deixar olhar, sorrindo leve, mãos unidas caindo na frente do
corpo, toda vestida de preto. Um segundo, me passou na visão devorá-la numa hora
estilhaçada de quarto de hotel, foi horrível. Porém, não havia dúvida: Maria
despertava em mim os instintos da perfeição. Balbuciei afinal um boa-noite muito
indiferente, e as vozes amontoadas vinham do hol, dos outros que chegavam.
Foi este o primeiro dos quatro amores eternos que fazem de minha vida uma grave
condensação interior. Sou falsamente um solitário. Quatro amores me acompanham,
cuidam de mim, vêm conversar comigo. Nunca mais vi Maria, que ficou pelas
Europas, divorciada afinal, hoje dizem que vivendo com um austríaco interessado
em feiras internacionais. Um aventureiro qualquer. Mas dentro de mim, Maria...
bom: acho que vou falar banalidade.