Frases e Pensamentos de Brasil

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BRASIL

64 resultados encontrados

O Brasil é uma paisagem.
( Nélson Rodrigues )


O Brasil não é para principiantes.
( Tom Jobim )


No Brasil, o sucesso é ofensa pessoal.
( Tom Jobim )


No Brasil o fundo do poço é apenas uma etapa.
( LUIS FERNANDO VERISSIMO)


No Brasil nem tudo está perdido. Muito coisa ainda há para se perder.
( Autor: Falcão )


Parece mentira, mas foi no Brasil que tomei contato com a arte moderna.
( Tarsila do Amaral )


No Brasil, quando o feriado é religioso, até ateu comemora.
( Frases e Pensamentos de Jô Soares )


Minha obra toda badala assim: Brasileiros, chegou a hora de realizar o Brasil.
( MÁRIO DE ANDRADE)


Nesses dez anos de Fórmula 1 minhas maiores alegrias vieram da torcida. Do Brasil.
( Ayrton Senna )


Quando estamos fora, o Brasil dói na alma; quando estamos dentro, dói na pele.
( Stanislaw Ponte Preta )


Não faça como fez sua mãe na lua de mel me deixou falando sozinho feito a voz do Brasil.
( Autor: Falcão )


No Brasil as coisas acontecem, mas depois, com um simples desmentido, deixam de acontecer.
( Stanislaw Ponte Preta )


Como se chama um homem interessante no Brasil? Turista.
( Frases e Pensamentos de Autor Desconhecido) Mensagem sobre Feminismo


Hino Nacional(FRASES E PENSAMENTOS DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás as florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.
O que faremos importando francesas
muito louras, de pele macia,
alemãs gordas, russas nostálgicas para
garçonettes dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas...
Precisamos educar o Brasil.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites.
Cada brasileiro terá sua casa
com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão para conferências científicas.
E cuidaremos do Estado Técnico.
Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões...
os Amazonas inenarráveis... os incríveis João-Pessoas...
Precisamos adorar o Brasil!
Se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão
de seus sofrimentos.
Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?
Eduardo Alves da Costa
Quanto a mim, sonharei com Portugal
Às vezes, quando
estou triste e há silêncio
nos corredores e nas veias,
vem-me um desejo de voltar
a Portugal. Nunca lá estive,
é certo, como também
é certo meu coração, em dias tais,
ser um deserto.


A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento.
( Stanislaw Ponte Preta )


Acho deprimente que meu voto valha o mesmo que de um analfabeto. Isto é um crime, tanto quanto ter o que temos de analfabetos no Brasil. E ainda se conformar com isso!
( Frases e Pensamentos de Renato Russo )


Sobre a diferença entre as falas de Portugal e do Brasil : Nós demos aos brasileiros a terra,o povo e a língua - e nós é que temos sotaque!
( Frases e Pensamentos de Raul Solnado) Mensagem sobre Palavras


Patriota é quem defende o patrimônio nacional. É lutar pela Amazônia. Os americanos estão voando sobre nossas riquezas porque a Amazônia faz parte do plano deles. Até os militares no Brasil estão contra isso.
(OSCAR NIEMEYER)


Os caminhões de operários vinham de toda parte do Brasil querendo colaborar, pensando que iam encontrar a terra da promissão, e estão lá nas cidades satélites, tão pobres quanto antes. Não basta fazer uma cidade moderna; é preciso mudar a sociedade. Isso é que é importante.
(OSCAR NIEMEYER)


Nosso povo preservará, depois dessa drástica cirurgia, a vitalidade
indispensável para sair do atraso ou estará condenado a afundar cada vez mais no
subdesenvolvimento? Quem está interessado em que o Brasil seja capado e
esterilizado? Serão brasileiros?
( DARCY RIBEIRO )


Projetar um conjunto de prédios é sempre estimulante, apesar de mais complexo, porque as formas de um têm a ver com as de outro, formando a unidade arquitetural. O projeto de Niterói está bem resolvido. É um conjunto que se abre para o mar, com uma vista fantástica e uma praça sem igual no Brasil. É importante fazê-lo.
(OSCAR NIEMEYER)


Por isso mesmo, o Brasil sempre foi, ainda é, um moinho de gastar gentes.
Construímo-nos queimando milhões de índios.Depois, queimamos milhões de negros.
Atualmente, estamos queimando, desgastando milhões de mestiços brasileiros, na
produção não do que eles consomem, mas do que dá lucro às classes empresariais.
( DARCY RIBEIRO )


O Brasil cresceu visivelmente nos últimos 80 anos. Cresceu mal, porém. Cresceu
como um boi mantido, desde bezerro, dentro de uma jaula de ferro. Nossa jaula
são as estruturas sociais medíocres, inscritas nas leis, para compor um país da
pobreza na província mais bela da terra. Sendo assim, no Brasil do futuro, a
maioria da gente nascerá e viverá nas ruas, em fome canina e ignorância figadal,
enquanto a minoria rica, com medo dos pobres, se recolherá em confortáveis
campos de concentração, cercados de arame farpado e eletrificado.
Entretanto, é tão fácil nos livrarmos dessas teias, e tão necessário, que dói em
nós... A nossa conivência culposa.
( DARCY RIBEIRO )


Canudos e o Exército ( ARIANO SUASSUNA )

(in Folha de São Paulo, 30 de Novembro de 1999)
O que houve em Canudos e continua a acontecer hoje, no campo como nas grandes
cidades brasileiras, foi o choque do Brasil "oficial e mais claro" contra o
Brasil "real e mais escuro". Ao Brasil oficial e mais claro que não é somente
"caricato e burlesco", como afirmou um Machado de Assis, momentaneamente
perturbado por sua justa indignação, pertenciam algumas das melhores figuras do
patriciado do tempo de Euclydes da Cunha: civis e políticos como Prudente de
Moraes, ou militares como o general Machado Bittencourt.
Bem-intencionados mas cegos, honestos mas equivocados, estavam convencidos de
que o Brasil real de Antônio Conselheiro era um país inimigo que era necessário
invadir, assolar e destruir. O civil que começou a reparar esse erro doloroso
foi Euclydes da Cunha. O militar foi o major Henrique Severiano, grande herói de
Canudos, do lado do Exército. Através de sua bela morte, acendeu ele uma chama
que, juntamente com a de Euclydes da Cunha, temos todos nós -intelectuais,
políticos, padres, soldados- o dever de levar fraternalmente adiante. Conta-se,
em "Os Sertões", sobre o incêndio dos últimos dias de Canudos: "O comandante do
25º batalhão, major Henrique Severiano, era uma alma belíssima, de valente. Viu
em plena refrega uma criança a debater-se entre as chamas. Afrontou-se com o
incêndio. Tomou-a nos braços; aconchegou-a do peito criando, com um belo gesto
carinhoso, o único traço de heroísmo que houve naquela jornada feroz e salvou-a.
Mas expusera-se. Baqueou mal ferido, falecendo poucas horas depois
A meu ver, tal seria o militar simbólico, emblema do verdadeiro soldado
brasileiro, capaz de apoiar um movimento em favor do povo, também simbolicamente
representado aí por essa criança, iluminada entre as chamas do seu martírio.
Euclydes da Cunha, formado, como todos nós, pelo Brasil oficial, falsificado e
superposto, saiu de São Paulo como seu fiel adepto positivista, urbano e
"modernizante". E, de repente, ao chegar ao sertão, viu-se encandeado e ofuscado
pelo Brasil real de Antônio Conselheiro e seus seguidores. Sua intuição de
escritor de gênio e seu nobre caráter de homem de bem colocaram-no imediatamente
ao lado dele, para honra e glória sua. Mas a revelação era recente demais, dura
demais, espantosa demais. De modo que, entre outros erros e contradições, só lhe
ocorreu, além da corajosa denúncia contra o crime, pregar uma "modernização" que
consistiria, finalmente, em conformar o Brasil real pelos moldes da rua do
Ouvidor e do Brasil oficial. Isto é, uma modernização falsificadora e falsa, e
que, como a que estão tentando fazer agora, é talvez pior do que uma invasão
declarada. Esta apenas destrói e assola, enquanto a falsa modernização, no campo
como na cidade, descaracteriza, assola, destrói e avilta o povo do Brasil real.


Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças
brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer
uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se
autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria
estar no lugar de quem me venceu.
( DARCY RIBEIRO )


E mais uma variação do célebre jogo de palavras: "O amor é eterno enquanto dura". Quem primeiro o disse foi o francês Henry de Régnier: "L'Amour est éternel tant qu'il dure". Repetiu-o no Brasil Vinícius de Moraes: "Mas que seja infinito enquanto dure"; acha-se também nas palavras do humorista Sofocleto: "Amor eterno é o que dura enquanto existe".
( Frases e Pensamentos de Amor)


Porque eles não suportam críticas. Por que Deus criou o homem? Porque vibradores não cortam grama. Exnamorados são como vestidos velhos: você vê um retrato antigo e não diz que um dia teve coragem de sair com aquilo. Como se chama um homem interessante no Brasil? Turista. De que adianta ter barriga de tanquinho se a torneira é pequena?!!
( Frases e Pensamentos de Autor Desconhecido) Mensagem sobre Feminismo


Mocinha ( ARIANO SUASSUNA )

(in Folha de São Paulo, 27/06/00)
Em 1990, quando tomei posse de minha cadeira na Academia Brasileira de Letras,
agi de modo a ligar o mais possível a cerimônia, o uniforme, o colar e a espada
aos rituais de festa do nosso povo. Eu lera, de Gandhi, uma frase que me
impressionou profundamente. Dizia ele que um indiano verdadeiro e sincero, mas
pertencente a uma das classes mais poderosas de seu país, não deveria nunca
vestir uma roupa feita pelos ingleses. Primeiro, porque estaria se acumpliciando
com os invasores. Depois, porque, com isso, tiraria das mulheres pobres da Índia
um dos poucos mercados de trabalho que ainda lhes restavam.
A partir daí, passei a usar somente roupas feitas por uma costureira popular,
Edite Minervina. E também foi ela quem cortou e costurou meu uniforme acadêmico,
bordado por Cicy Ferreira. Isaías Leal fez o colar e a espada, unindo, nesta,
num só emblema, a zona da mata e o sertão.
Naquele ano, era Miguel Arraes quem governava Pernambuco. E, como o Estado que
me adotou como filho se encarregou da doação normalmente feita ao acadêmico pela
terra de seu nascimento, combinei tudo com o governador e fizemos, no palácio do
Campo das Princesas, uma espécie de cerimônia prévia na qual Arraes (que, como
eu, é egresso do Brasil oficial, mas procura se ligar ao real) faria o discurso
de entrega das insígnias; e artistas populares me entregariam os adereços feitos
por eles: Edite e Cicy, o fardão, Isaías Leal, o colar, e mestre Salusitano, a
espada (que, na ABL, meseria entregue por meu mestre Barbosa Lima Sobrinho).
Depois que Isaías Leal me deu o colar, no Recife, pedi à maior cantadora
nordestina, Mocinha de Passira, que o colocasse em meu pescoço - uma vez que, na
Academia, escolhera para isso outra mulher, minha querida Rachel de Queiroz.
Como se vê, em tudo, eu tentava mostrar, do modo canhestro, simbólico e precário
que me é possível, que, apesar de nascido e criado no Brasil oficial, procuro
sempre não esquecer que existe o Brasil real e é a seu lado que me alinho em
todas as circunstâncias da minha vida.
Foi por tudo isso também que, escrevendo aqui em dezembro do ano passado,
escolhi dois personagens simbólicos para representarem o Brasil real. Dizia: -O
primeiro é Chico Ambrósio, cabreiro do sertão da paraíba, homem de sangue
predominantemente indígena e jeito aciganado; a outra é Mocinha de Passira,
violeira dotada de uma voz impressionante”
E concluía: -Na minha opinião, o que devemos fazer é olhar o brasil de Chico e
Mocinha para seguir e aprofundar (no campo social, político e econômico) o
caminho indicado por Antônio Conselheiro - aquele socialismo-de-pobre que, para
nós, foi uma picada aberta em direção ao sol de Deus.
Nos tempos de desprezo que estamos vivendo em relação à cultura brasileira (e em
especial à popular), espero, então, que pelo menos as nossas universidades
percebam a importância dessa cantora e repentista, que, como afirmei em meu
discurso da ABL, significa para mim, para o Brasil e para o nosso povo o mesmo
que Pastora Pavón representava para García Lorca, para a Espanha e para o povo
espanhol.


O surgimento do PT brasileiro é apenas o embrião de uma série de movimentos nesse sentido que vão surgir no Brasil e que já surgiram no mundo, que é a união entre os operários e camponeses, com escritores, jornalistas etc. Então eles procuram denegrir dizendo que intelectual é uma coisa ruim, uma coisa suspeita, que é uma coisa ilegal, o operário estar do lado do intelectual. Então eu descobri uma coisa óbvia: o contrário de intelectual não é operário, o contrário de intelectual é vegetal, logo, todos somos intelectuais, só a pedra não é.
( HENFIL )


Um gosto que nasce no madrugador século XVI ( Gilberto Freyre )

"Inclinados a tal, sob que influências vindas de longe? A esse respeito é
bom
recorrer-se à fonte de informação do madrugador século XVI, suprida pela própria
Igreja através de pesquisas realizadas então, como se estivessem concorrendo
para saberes cientificamente sociais pelo santo Ofício em atividades
investigadoras no Brasil. Suponho ter sido, no livro Casa-Grande & Senzala, o
primeiro a utilizar os resultados de tais pesquisas, em obra acessível ao grande
público. Constam essas informações da Primeira Visitação do Santo Ofício a
Partes do Brasil pelo Licenciado Heitor Furtado de Mendonça. Surgem, nessas
indagações secretas, homens casados casando outra vez com mulatas (talvez do
tipo mulher tornada conhecida como "arde-lhe o rabo", decerto por haver se
extremado em furor anal), adultos europeus ou de procedência européia pecando
contra a natureza, em coitos anais ou através de luxúrias de felação, com
efebos, quer da terra, quer da Guiné, participantes, alguns deles, com tal
volúpia desses amplexos, que de um deles se registra a exclamação "quero mais".
A participação nesses coitos da gente da terra parece indicar, de ameríndios,
presentes em contatos madrugadores com europeus, terem sido, eles próprios,
dados à sodomia ou à pederastia, com o abuso de bundas já então praticado, quer
por europeus em não-europeus, quer -- é possível -- em reciprocidades volutuosas
eurotropicais: euro-ameríndias e euro-afronegras. Pode-se concluir de mulheres
indígenas, desde esses dias, terem revelado preferências, para contatos sexuais
com portugueses, por aqueles motivos priápicos já alegados pelo severo
Varnhagen: os portugueses, em confronto com machos indígenas, teriam se
revelado mais ardorosamente potentes. Sabe-se por alguma observações
antropológicas confiáveis, de homens de culturas primitivas precisarem, em
vários casos, para efeitos de procriação tribal, de festas excitantemente
sexuais, que os levem a atos procriadores, é claro que acompanhados de gozos.
Atos e gozos, entretanto, mais provocados que espontâneos, embora as
investigações do Santo Ofício documentem ocorrência de receptividade de
indígenas a práticas, já por indígenas conhecidas, em que o coito anal teria se
verificado.


Do andar afrodisíaco das bundas ondulantes à anfíbia Roberta Close (
Gilberto Freyre )

E aqui é preciso que se volte à observação de Havelock Ellis, quanto a uma
das
superioridades da mulher ibérica sobre as ortodoxamente européias estar na
assimilação, pela ibérica, de remota influência africana do andar, como se
dançasse. É um movimento de bundas bastante amplas -- especifique-se -- para
permitirem essa ondulação como que -- sugira-se -- afrodisíaca de andar.
A grande número de mulheres brasileiras, a miscigenação pode-se sugerir ter dado
ritmos de andar e, portanto, de flexões de nádegas, susceptíveis de ser
considerados afrodisíacos. Atente-se nesses ritmos, em cariocas miscigenadas, em
confronto com as beldades argentinas que o observador tenha acabado de admirar.
Os ritmos de andar da miscigenada brasileira chegam a ser musicais, na sua
dependência de bundas moderadamente ondulantes. Para Havelock Ellis, o andar da
mulher mais tipicamente ibérica, em contraste com a da ortodoxamente européia --
em grande número de casos, acrescente-se a Ellis, como que calvinistamente
proibida, em sua maneira de ser femininamente elegante, de ter bunda ostensiva
-- teria alguma coisa de graciosa qualidade de um corpo felino inteiramente
vivo.
O homem médio brasileiro não pode deixar de ser sensível à imensidade de
provocações que o rodeiam. Não tanto ao vivo, como por meio de anúncios de
revistas ilustradas, que se vêm esmerando na utilização de reproduções coloridas
de bundas nuas, como atrativos para uma diversidade de artigos à venda. Há,no
Brasil de hoje, uma enorme comercialização da imagem da bunda de mulher em
anúncios atraentes. Estéticos uns, alguns lúbricos. Também se vem fazendo esse
uso na televisão. E, sonoramente, em músicas apologéticas da beleza da bunda de
mulher. O sexo da mulher vem, através dessa comercialização da bunda em
anúncios, quase perdendo, em publicidade apologética, para esse nada
insignificante rival, no Brasil.
Ainda agora, a propósito da anfíbia Roberta (Close), vem se destacando dela,
como qualidade feminina, ter "bunda grande". À "bunda grande" se contrapõe, no
Brasil, como negativo sexual, e até eugênico e estético, a "bunda murcha", a
"bunda seca", a "bunda magra". Pois o ideal árabe de mulher bonita, ser gorda,
ainda não foi superado de todo, no Brasil, pelo ideal de mulher secamente
elegante, desde a chamada flapper, da década de trinta: mulher delgada e como se
fosse rapaz. Quase sem bunda!


Bahia ( Gilberto Freyre )

Bahia de todos os santos (e de quase todos os pecados)
casas trepadas umas por cima das outras
como um grupo de gente se espremendo
p'ra sair num retrato de revista ou jornal
igrejas gordas (as de Pernambuco são mais magras)
toda a Bahia é uma maternal cidade gorda
como se dos ventres empinados dos seus montes
dos quais saíram tantas cidades do Brasil
inda outras estivessem p'ra sair.
ar mole oleoso com cheiro de comida
automóveis a 30$ a hora
e um "Ford" todo osso sobe qualquer ladeira
saltando, pulando, tilintando
p'ra depois escorrer sobre o asfalto novo
que branqueja como dentadura postiça
entre as casas velhas
gente da Bahia!
preta, parda, roxa, morena
cor de bons jacarandás de engenho
do Brasil
(madeira que cupim não rói)
sem caras cor de fiambre
nem rostos cor de peru frio
sem borrões de manteiga francesa
(cabelo ruivo de inglês e de alemão)
Bahia ardendo de cores quentes
carnes mornas gostos picantes
eu detesto teus oradores, Bahia de todos os santos,
teus ruys barbosas teus otávios mangabeiras
mas gosto dos teus angus e das tuas mulatas
tabuleiros flores de papel candieirinhos
tudo à sombra das tuas igrejas
todas cheias de anjos bochechudos
sãojoões, sãojosés, meninozinhos-Deus
e com senhoras gordas se confessando
a frades mais magros do que eu
(o padre reprimido que há em mim
se exalta diante de ti, Bahia
e perdoa suas superstições
teu comércio de medidas de Nossa Senhora
e de Nossos Senhores do Bonfim)
negras velhas da Bahia
vendendo mingau e vendendo angu
negras velhas de xale encarnado
e de mole peito caído
mães das mulatas mais quentes do Brasil
mulatas do gordo peito em bico
como p'ra dar de mamar
a tudo quanto é menino do Brasil
Bahia de quase todos os pecados
escorrediça lama de carne
ranger de camas de lona
sob corpos ardendo, suando de gozo
moquecas da preta Eva
caruru vatapá azeite de dendê
cachos de gordas bananas
balaios de enormes laranjas
bacharéis de pince-nês
gênios de Sergipe
bonecas de pano
mulatos de fraque
estudantes de medicina
chapéus do Chile
botinas de elástico
mulatinhos de fala fina
literatos que tomam a sério Mário Pinto Serva
requintados que lêem Guilherme de Almeida e Menotti del Picchia
patriotas que dão viva ao sr. Pedro Lago
chegado do Rio pelo Ruy Barbosa
e outros com saudade do doutor Seabra
Bahia
um dia voltarei com vagar ao teu seio brasileiro
ao teu quente seio brasileiro
às tuas igrejas cheirando a incenso
aos teus tabuleiros escancarados em X
(esse X é o futuro do Brasil)
e cheirando a mingau e a angu.


Das afronegras notáveis por suas bundas e dos ardores patriarcais (
Gilberto Freyre )

(...) Não há evidência alguma de mulheres indígenas terem se feito notar,
como
aconteceria com mulheres de origem afronegra, introduzidas na colônia, desde o s
éculo XVI, por nádegas notavelmente protuberantes ou por bundas salientemente
grandes. E, por essas saliências, sexualmente provocantes do seu uso, e até do
seu abuso, em coitos de intenções mais voluptuosas. Ao tamanho das nádegas,
desenvolveu-se, é de supor, a tendência, quase folclórica, entre brasileiros, de
associarem-se os chamados cus de pimenta ou rabos ardorosos, já presentes em
referências em registros das investigações do Santo Ofício.
Entretanto, é preciso não resvalar-se na simplificação de atribuir-se a
presença, entre mulheres brasileiras, de bundas grandes, com ou sem essas
conexões, à presença de afronegras notáveis por tais protuberâncias de nádegas.
Mas é preciso atentar-se no fato de mulheres tipicamente ibéricas, inclusive
portuguesas, presentes na colonização do Brasil, terem quase rivalizado, por
vezes, com afronegras, em tais protuberâncias de nádegas. Num livro notável,
(...) The Soul of Sham (Londres, 1908), o mestre em sexologia, Havelock Ellis,
lembra dos por Deniken classificados como do tipo antropológico iberóide serem
em geral morenos de uma pigmentação de um encanto estético chamado por Gauthier,
referindo-se especificamente às telas espanholas de Málaga, de um "dourado
pálido" (...)
E as mulheres? De modo geral, superiores aos homens, afirma Ellis.O que viria
sendo confirmado pela sua maior autenticidade como expressões de tipos
nacionalmente ibéricos. E especificando seus característicos antropologicamente
físicos à base dos sociais: quando jovens, tendentes a delgadas, embora com
bustos e ancas -- bundas, portanto -- já desenvolvidos. Protuberâncias
acentuadas com a idade madura. A idade, em mulher bonita, a associar-se a
gordura. E à gordura, juntar-se, segundo Ellis, "maior amplitude e acentuação de
ancas em relação com as demais partes do corpo".
Para o ideal feminino predominante no Brasil patriarcal, de "gorda e
bonita", é de se supor ter concorrido influência árabe, contra a qual teriam se
oposto, no século XIX, influências romanticamente européias. (...) Um ideal, o
de sinhazinha adolescente, quase menina e, de tão delgada, quase sem bunda e de
seios virginalmente discretíssimos, mãos e pés ostensivamente pequenos. Outro
ideal, o de sinhadona de meia -idade, gorda, ostensivamente bem nutrida,
dignamente bunduda, apta ao desempenho de mulher, mãe de sucessivos filhos e a
cujo físico não faltavam bundas mais dignamente maternas que provocantemente
sexuais. Pois para a satisfação de ardores sexuais o macho patriarcal
brasileiro tinha, aa seu dispor -- por vezes defrontando-se com ciúmes de
esposas ciosas de seus direitos conjugais --, escravas, mucamas, morenidades em
vários graus de mulheres. Isto, dentro da reciprocidade casa grande-senzala.
Miscigenadas, como se a miscigenação se fizesse através de experimentos
antropologicamente eugênicos e estéticos. Experimentos que permitissem que
fossem com que graduadas saliências de bundas, evitando-se os exageros
africanóides.


Da bunda como inspiração estética nas artes plásticas ( Gilberto Freyre
)

Ouvi, em Sussex, do escultor Henry Moore, que os olhos do artista, para
criarem
esculturas, precisavam não só de ver, como, pelo olhar, apalpar o que viam com
vontades de esculpir. O que evidentemente reforça a sensualidade das esculturas,
quando de mulheres nuas, dando-lhes maior apelo sexual: o de uma intensidade que
não chega a ser lúbrica para ser sexy. Impressionista, Moore? Para lá desse
ismo. Mais expressionista que impressionista. Mas na verdade, também, além desse
outro ismo.
Para o arquiteto finlandês Eliel Saarinem, em Search for Form, (N.Y., 1948),
nenhum desses ismos pioneiramente destruidores de convenções das chamadas
naturalistas deixou de representar impulsos de criatividade diferentes em
artistas inovadores. Diferença, inclusive, de perspectivas do nu de mulher, como
desafio, quer de forma, quer de cor. O que inevitavelmente veio a tocar em
morenidades ecológicas, condicionadas por sóis e calores tropicais. E a produzir
pintores especializados em dar destaque a bundas de mulheres morenas. Um deles,
de modo notável, Emiliano di Cavalcanti.
Bundas, porque, mais do que faces ou partes superiores de corpos, elas permitem
ao pintor dar ênfase estética a curvas femininas. É em nádegas que esses curvas
esplendem, irradiando suas maiores provocações, além de estéticas, sensuais. Foi
pioneiro em fixá-las o exotista ou tropicalista Gauguin. De onde outros ismos em
criações pictóricas em torno de corpos de mulheres, isto é, de formas diferentes
das olimpicamente, apolineamente, estaticamente clássicas. Inclusive o muito
dionisíaco primitivismo, pretendendo juntar, à apresentação de bundas como
partes aliciantemente belas de corpos de mulher, uma perspectiva como que --
paradoxo -- maliciosamente inocente.
As bundas de mulatas célebres de Di Cavalcanti não estão nesse caso. Nem elas
nem as das pinturas criativamente inclassificáveis como istas de Cícero dias, de
que emergem mulheres nuas ostentando mais bundas desacompanhadas de pêlos do que
sexos com pentelhos ramalhudos. Aliás, a miscigenação brasileira tornou-se tão
vasta, que as bundas de mulheres do Brasil constituem, talvez, a mais variada
expressão antropológica de uma moderna variedade de formas e nádegas, com as
protuberantes é possível que avantajando-se às menos ostensivas.


Deus e o capitalismo ( ARIANO SUASSUNA )

(in Folha de São Paulo, 01/02/00)
Escreve-me um jovem físico de São Paulo. Chama-se Júlio, tem 26 anos e elogia as
posições que venho tomando nesta coluna em favor do povo pobre do Brasil. Diz
que, a princípio, ficou mesmo admirado por ver a Folha acolhê-las e publicá-las.
Mas depois, refletindo melhor, chegou à conclusão de que, tendo eu uma visão
religiosa do mundo e do homem, aquelas posições ficam todas invalidadas, porque
a idéia de Deus é o principal sustentáculo do castelo de privilégios da elite
econômica política, que dela se serve para manter o povo resignado diante de
todas as desigualdades e injustiças.
Na carta, o jovem físico não colocou seu sobrenome, e é por isso que não o
transcrevo aqui. Se, por acaso, estas linhas vierem a cair sob seus olhos,
peço-lhe que me mande um bilhete com seu telefone: gostaria muito de conversar
um pouco com ele, para agradecer pessoalmente os termos amistosos com os quais,
na carta, até as discordâncias foram formuladas.
Mas aqui, logo de entrada, gostaria de dizer-lhe que o Deus de quem me considero
filho não é capitalista e anti-socialista como declarou o economista Roberto
Campos em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras. Não se deixe
Júlio impressionar por nossos erros e pecados. Olhe somente o Cristo e ouça o
que ele dizia. Leia os "Atos dos Apóstolos" e veja como os primitivos cristãos
procuravam organizar a sociedade: "A multidão dos fiéis era um só coração e uma
só alma. Ninguém considerava seu o que possuía, mas tudo era comum entre eles
(...). Não havia entre eles indigente algum; (...) e distribuía-se a cada um
segundo a sua necessidade". Num ponto, porém, Júlio tem razão em sua crítica ao
cristianismo: depois que o imperador Constantino romanizou temporalmente a
Igreja, esta passou a dotar as desigualdades e injustiças do Império Romano.
Mesmo assim, mesmo governada por mapas como Alexandre 6º, a Igreja continuou
condenando a usura e a ganância. De modo que, como Max Weber demonstrou de modo
irrespondível, foi o pensamento protestante que procurou legitimar a injustiça
social e a desigualdade: segundo os ideólogos "brancos, anglo-saxões e
protestantes", a riqueza era um sinal de predileção de Deus. E, juntando-se isso
à "sobrevivência do mais apto" de Darwin e Spencer, o capitalismo seria, mesmo,
preferido por Deus.
Entretanto - e graças sejam dadas a Ele por isso! - no século 20 os papas João
23 e Paulo 6º afastaram a Igreja de tal visão anticristã. De maneira que eu,
católico, posso dizer a Júlio que Deus, segundo visto por João 23 e por outros
que pensam como eu, é cristão, católico e socialista. O Deus que é capitalista
(e que, portanto, pode ser colocado a serviço da injustiça e da desigualdade) é
o do presidente Clinton, de Roberto Campos e do bispo Edir Macedo.


Discurso nas comemorações do Dia do Trabalho em 1º de maio de 1940 ( GETÚLIO VARGAS )

Trabalhadores do Brasil: Aqui estou, como de outras vezes, para compartilhar as
vossas comemorações e testemunhar o apreço em que tenho o homem de trabalho como
colaborador direto da obra de reconstrução política e econômica da Pátria. Não
distingo, na valorização do esforço construtivo, o operário fabril do técnico de
direção, do engenheiro especializado, do médico, do advogado, do industrial ou
do agricultor. O salário, ou outra forma de remuneração, não constitui mais do
que um meio próprio a um fim, e esse fim é, objetivamente, a criação da riqueza
nacional e o surto de maiores possibilidades à nossa civilização.
A despeito da vastidão territorial, da abundância de recursos naturais e da
variedade de elementos de vida, o futuro do país repousa, inteiramente, em nossa
capacidade de realização. Todo trabalhador, qualquer que seja a sua profissão é,
a este respeito, um patriota que conjuga o seu esforço individual à ação
coletiva, em prol da independência econômica da nacionalidade. O nosso progresso
não pode ser obra exclusiva do Governo, sim de toda a Nação, de todas as
classes, de todos os homens e mulheres, que se enobrecem pelo trabalho,
valorizando a terra em que nasceram.
Constitui preocupação constante do regime que adotamos difundir entre os
elementos laboriosos a noção da responsabilidade que lhe cabe no desenvolvimento
do país, pois o trabalho bem feito é uma alta forma de patriotismo, como a
ociosidade uma atitude nociva e reprovável. Nas minhas recentes excursões aos
Estados do Centro e do Sul, em conta to com as mais diversas camadas da
população, recebi caloroso acolhimento e manifestações que testemunham, de modo
inequívoco, a confiança que os brasileiros, desde os simples operários aos
expoentes das atividades produtoras, depositam na ação governamental.
Falando em momento como este, diante de uma multidão que vibra de Exaltação
patriótica, não posso deixar de pensar como os nossos governantes permaneceram,
durante tanto tempo, indiferentes à cooperação construtiva das classes
trabalhadoras. Relegados a existência vegetativa, privados de direitos e
afastados dos benefícios da civilização, da cultura e do conforto, os
trabalhadores brasileiros nunca obtiveram, sob os governos eleitorais, a menor
proteção, o mais elementar amparo. Para arrancar-lhes os votos, os políticos
profissionais tinham de mantê-los desorganizados e sujeitos à vassalagem dos
cabos eleitorais.
A obra de reparação e justiça realizada pelo Estado Novo distancia-nos,
imensamente, desse passado condenável, que comprometia aos nossos sentimentos
cristãos e se tornara obstáculo insuperável à solidariedade nacional. Naquela é
poca, ao aproximar-se o Primeiro de Maio, o ambiente era bem diverso.
Generalizavam-se as apreensões e abria-se um período de buscas policiais no
núcleos associativos, pondo-se em custódia os suspeitos, dando a todos uma
sensação de insegurança e exibindo um luxo de força nas ruas e locais de
reunião, que, não raro, redundavam em choques e conflitos sangrentos.
Atualmente, a data comemorativa dos homens de trabalho é festiva e de
confraternização.
Os benefícios da política trabalhista, empreendida nestes últimos anos, alcançam
profundamente todos os grupos sociais, promovendo o melhoramento das condições
de vida nas várias regiões do país e elevando o nível de saúde e de bem-estar
geral. A ação tutelar e providente do Estado patenteia-se, de modo constante, na
solicitude com que cria os serviços de proteção ao lar operário, de assistência
à infância, de alimentação saudável e barata, de postos de saúde, de creches e
maternidades, instituído o ensino profissional junto às fábricas e, ultimamente,
voltando as suas vistas para a construção de vilas operárias e casas populares.
Na continuação desse programa renovador, que encontrou no atual ministro do
Trabalho um eficiente e devotado orientador, assinamos, hoje, um ato de
incalculável alcance social e econômico: a lei que fixa o salário mínimo para
todo o país. Trata-se de antiga aspiração popular, promessa do movimento
revolucionário de 1930. Agora transformada em realidade, depois de longos e
acurados estados. Procuramos, por esse meio, assegurar ao trabalhador
remuneração eqüitativa, capaz de proporcionar-lhe o indispensável para o
sustento próprio e da família. O estabelecimento de um padrão mínimo de vida
para a grande maioria da população, aumentando, no decorrer do tempo, os índices
de saúde e produtividade, auxiliará a solução de importantes problemas que
retardam a marcha do nosso progresso.
À primeira vista, poderão pensar os menos avisados que a medida é prematura e
unilateral, visto beneficiar, apenas, os trabalhadores assalariados. Tal, porém,
não ocorre no plano do Governo. A elevação do nível de vida eleva, igualmente, a
capacidade aquisitiva das populações e incrementa, por conseguinte, as
indústrias, a agricultura e o comércio, que verão crescer o consumo geral e o
volume da produção.
As bases da nossa legislação social já estão solidamente lançadas nas leis que
regulam a duração do trabalho, a higiene industrial, a ocupação das mulheres e
menores, as aposentadorias e indenizações de acidentes, as associações
profissionais, os convênios coletivos e a arbitragem. Ultima-se, agora, a
organização da Justiça do Trabalho, cuja regulamentação está na fase final de
estudos e deverá ser posta em vigor dentro de pouco. É uma legislação que tende
a ampliar-se e a cobrir com a sua proteção os diversos ramos da economia
nacional, da fábrica aos campos, das oficinas aos estabelecimentos comerciais,
empresas de transportes e todos os empregos e ocupações. As sugestões da
experiência e as imposições da necessidade irão, naturalmente, indicando
modificações e ampliações cuidadosas. Chegaremos, assim, a consolidar esse corpo
de leis num Código do Trabalho adequando às condições do nosso progresso. Não é
de mais observar, a propósito das nossas conquistas de ordem social, que povos
de civilização mais velha, apontados como modelos a copiar, ainda não
conseguiram resolver satisfatoriamente as relações de trabalho, que continuam
sendo, para eles, causa de perturbações para o bem comum.
Embora deixados ao abandono, os nossos trabalhadores souberam resistir às
influências malsãs dos semeadores de ódios, a serviços de velhas e novas
ambições de poderio político, consagrados a envenenar o sentimento brasileiro de
fraternidade com o exotismo das lutas de classes. O ambiente nacional tem
reagido sadiamente contra esses agentes de perturbações e desordem. A propaganda
insidiosa e dissolvente, apenas, impressionou os pobres de espírito e ser viu
para agitar os mal intencionados.
Quem quer que observe a história e a dura lição sofrida por outros povos verá
que os extremismos, mesmo quando logram uma vitória efêmera, caem logo vítimas
dos próprios erros e das paixões que desencadearam, sacrificando muitas
aspirações justas e legítimas, que poderiam ser alcançadas pacificamente. A
sociedade brasileira, felizmente, repele, por índole, as soluções. Corrigidos os
abusos e imprevidências do passado, podermos encarar o futuro com serenidade,
certos de que as utopias ideológicas, na prática, verdadeiras calamidades
sociais, não conseguirão afastar-nos das normas de equilíbrio e bom senso em que
se pro cessa a evolução da nacionalidade.
Só o trabalho fecundo, dentro da ordem legal que as segura a todos patrões e
operários, chefes de indústrias e proletários, lavradores, artesãos,
intelectuais - um regime de justiça e de paz, poderá fazer a felicidade da
pátria brasileira.


Vestida de Preto Mário de Andrade ( MÁRIO DE ANDRADE )

Tanto andam agora preocupados em definir o conto que não sei bem se o que vou
contar é conto ou não, sei que é verdade. Minha impressão é que tenho amado
sempre. Depois do amor grande por mim que brotou aos três anos e durou até os
cinco mais ou menos, logo o meu amor se dirigiu para uma espécie de prima
longínqua que freqüentava a nossa casa. Como se vê, jamais sofri do complexo de
Édipo, graças a Deus. Toda a minha vida, mamãe e eu fomos muito bons amigos, sem
nada de amores perigosos.
Maria foi o meu primeiro amor. Não havia nada entre nós, está claro, ela como eu
nos seus cinco anos apenas, mas não sei que divina melancolia nos tomava, se
acaso nos achávamos juntos e sozinhos. A voz baixava de tom, e principalmente as
palavras é que se tornaram mais raras, muito simples. Uma ternura imensa, firme
e reconhecida, não exigindo nenhum gesto. Aquilo aliás durava pouco, porque logo
a criançada chegava. Mas tínhamos então uma raiva impensada dos manos e dos
primos, sempre exteriorizada em palavras ou modos de irritação. Amor apenas
sensível naquele instinto de estarmos sós.
E só mais tarde, já pelos nove ou dez anos, é que lhe dei nosso único beijo, foi
maravilhoso. Se a criançada estava toda junta naquela casa sem jardim da Tia
Velha, era fatal brincarmos de família, porque assim Tia Velha evitava correrias
e estragos. Brinquedo aliás que nos interessava muito, apesar da idade já
avançada para ele. Mas é que na casa de Tia Velha tinha muitos quartos, de forma
que casávamos rápido, só de boca, sem nenhum daqueles cerimoniais de mentira que
dantes nos interessavam tanto, e cada par fugia logo, indo viver no seu quarto.
Os melhores interesses infantis do brinquedo, fazer comidinha, amamentar
bonecas, pagar visitas, isso nós deixávamos com generosidade apressada para os
menores. Íamos para os nossos quartos e ficávamos vivendo lá. O que os outros
faziam, não sei. Eu, isto é, eu com Maria, não fazíamos nada. Eu adorava
principalmente era ficar assim sozinho com ela, sabendo várias safadezas já mas
sem tentar nenhuma. Havia, não havia não, mas sempre como que havia um perigo
iminente que ajuntava o seu crime à intimidade daquela solidão. Era suavíssimo e
assustador.
Maria fez uns gestos, disse algumas palavras. Era o aniversário de alguém, não
lembro mais, o quarto em que estávamos fora convertido em dispensa, cômodas e
armários cheios de pratos de doces para o chá que vinha logo. Mas quem se
lembrasse de tocar naqueles doces, no geral secos, fáceis de disfarçar qualquer
roubo! estávamos longe disso. O que nos deliciava era mesmo a grave solidão.
Nisto os olhos de Maria caíram sobre o travesseiro sem fronha que estava sobre
uma cesta de roupa suja a um canto. E a minha esposa teve uma invenção que eu
também estava longe de não ter. Desde a entrada no quarto eu concentrara todos
os meus instintos na existência daquele travesseiro, o travesseiro cresceu como
um danado dentro de mim e virou crime. Crime não, "pecado" que é como se dizia
naqueles tempos cristãos... E por causa disso eu conseguira não pensar até ali,
no travesseiro.
- Já é tarde, vamos dormir - Maria falou.
Fiquei estarrecido, olhando com uns fabulosos olhos de imploração para o
travesseiro quentinho, mas quem disse travesseiro ter piedade de mim. Maria,
essa estava simples demais para me olhar e surpreender os efeitos do convite:
olhou em torno e afinal, vasculhando na cesta de roupa suja, tirou de lá uma
toalha de banho muito quentinha que estendeu sobre o assoalho. Pôs o travesseiro
no lugar da cabeceira, cerrou as venezianas da janela sobre a tarde, e depois
deitou, arranjando o vestido pra não amassar.
Mas eu é que nunca havia de pôr a cabeça naquele restico de travesseiro que ela
deixou pra mim, me dando as costas. Restico sim, apesar do travesseiro ser
grande. Mas imaginem numa cabeleira explodindo, os famosos cabelos assustados de
Maria, citação obrigatória e orgulho de família. Tia Velha, muito ciumenta por
causa duma neta preferida que ela imaginava deusa, era a única a pôr defeito nos
cabelos de Maria.
- Você não vem dormir também? - ela perguntou com fragor, interrompendo o meu
silêncio trágico.
- Já vou - que eu disse - estou conferindo a conta do armazém.
Fui me aproximando incomparavelmente sem vontade, sentei no chão tomando cuidado
em sequer tocar no vestido, puxa! também o vestido dela estava completamente
assustado, que dificuldade! Pus a cara no travesseiro sem a menor intenção de.
Mas os cabelos de Maria, assim era pior, tocavam de leve no meu nariz, eu podia
espirrar, marido não espirra. Senti, pressenti que espirrar seria muito
ridículo, havia de ser um espirrão enorme, os outros escutavam lá da
sala-de-visita longínqua, e daí é que o nosso segredo se desvendava todinho.
Fui afundando o rosto naquela cabeleira e veio a noite, senão os cabelos (mas
juro que eram cabelos macios) me machucavam os olhos. Depois que não vi nada,
ficou fácil continuar enterrando a cara, a cara toda, a alma, a vida, naqueles
cabelos, que maravilha! até que o meu nariz tocou num pescocinho roliço. Então
fui empurrando os meus lábios, tinha uns bonitos lábios grossos, nem eram
lábios, era beiço, minha boca foi ficando encanudada até que encontrou o
pescocinho roliço. Será que ela dorme de verdade?... Me ajeitei muito sem-cerimô
nia, mulherzinha! e então beijei. Quem falou que este mundo é ruim! só
recordar... Beijei Maria, rapazes! eu nem sabia beijar, está claro, só beijava
mamães, boca fazendo bulha, contato sem nenhum calor sensual.
Maria, só um leve entregar-se, uma levíssima inclinação pra trás me fez sentir
que Maria estava comigo em nosso amor. Nada mais houve. Não, nada mais houve.
Durasse aquilo uma noite grande, nada mais haveria porque é engraçado como a
perfeição fixa a gente. O beijo me deixara completamente puro, sem minhas
curiosidades nem desejos de mais nada, adeus pecado e adeus escuridão! Se fizera
em meu cérebro uma enorme luz branca, meu ombro bem que doía no chão, mas a luz
era violentamente branca, proibindo pensar, imaginar, agir. Beijando.
Tia Velha, nunca eu gostei de Tia Velha, abriu a porta com um espanto
barulhento. Percebi muito bem, pelos olhos dela, que o que estávamos fazendo era
completamente feio.
- Levantem!... Vou contar pra sua mãe, Juca!
Mas eu, levantando com a lealdade mais cínica deste mundo!
- Tia Velha me dá um doce?
Tia Velha - eu sempre detestei Tia Velha, o tipo da bondade Berlitz, injusta,
sem método - pois Tia Velha teve a malvadeza de escorrer por mim todo um olhar
que só alguns anos mais tarde pude compreender inteiramente. Naquele instante,
eu estava só pensando em disfarçar, fingindo uma inocência que poucos segundos
antes era real.
- Vamos! saiam do quarto!
Fomos saindo muito mudos, numa bruta vergonha, acompanhados de Tia Velha e os
pratos que ela viera buscar para a mesa de chá.
O estranhíssimo é que principiou, nesse acordar à força provocado por Tia Velha,
uma indiferença inexplicável de Maria por mim. Mais que indiferença, frieza
viva, quase antipatia. Nesse mesmo chá inda achou jeito de me maltratar diante
de todos, fiquei zonzo.
Dez, treze, quatorze anos... Quinze anos. Foi então o insulto que julguei
definitivo. Eu estava fazendo um ginásio sem gosto, muito arrastado, cheio de
revoltas íntimas, detestava estudar. Só no desenho e nas composições de
português tirava as melhores notas. Vivia nisso: dez nestas matérias, um, zero
em todas as outras. E todos os anos era aquela já esperada fatalidade: uma, duas
bombas (principalmente em matemáticas) que eu tomava apenas o cuidado de apagar
nos exames de segunda época.
Gostar, eu continuava gostando muito de Maria, cada vez mais, conscientemente
agora. Mas tinha uma quase certeza que ela não podia gostar de mim, quem gostava
de mim!... Minha mãe... Sim, mamãe gostava de mim, mas naquele tempo eu chegava
a imaginar que era só por obrigação. Papai, esse foi sempre insuportável,
incapaz de uma carícia. Como incapaz de uma repreensão também. Nem mesmo comigo,
a tara da família, ele jamais ralhou. Mas isto é caso pra outro dia. O certo é
que, decidido em minha desesperada revolta contra o mundo que me rodeava,
sentindo um orgulho de mim que jamais buscava esclarecer, tão absurdo o
pressentia, o certo é que eu já principiava me aceitando por um caso perdido,
que não adiantava melhorar.
Esse ano até fora uma bomba só. Eu entrava da aula do professor particular,
quando enxerguei a saparia na varanda e Maria entre os demais. Passei bastante
encabulado, todos em férias, e os livros que eu trazia na mão me denunciando,
lembrando a bomba, me achincalhando em minha imperfeição de caso perdido.
Esbocei um gesto falsamente alegre de bom-dia, e fui no escritório pegado,
esconder os livros na escrivaninha de meu pai. Ia já voltar para o meio de
todos, mas Matilde, a peste, a implicante, a deusa estúpida que Tia Velha perdia
com suas preferências:
- Passou seu namorado, Maria.
- Não caso com bombeado - ela respondeu imediato, numa voz tão feia, mas tão
feia, que parei estarrecido. Era a decisão final, não tinha dúvida nenhuma.
Maria não gostava mais de mim. Bobo de assim parado, sem fazer um gesto, mal
podendo respirar.
Aliás um caso recente vinha se ajuntar ao insulto pra decidir de minha sorte.
Nós seríamos até pobretões, comparando com a família de Maria, gente que até
viajava na Europa. Pois pouco antes, os pais tinham feito um papel bem
indecente, se opondo ao casamento duma filha com um rapaz diz-que pobre mas
ótimo. Houvera um rompimento de amizade, mal-estar na parentagem toda, o caso
virara escândalo mastigado e remastigado nos comentários de hora de jantar. Tudo
por causa do dinheiro.
Se eu insistisse em gostar de Maria, casar não casava mesmo, que a família dela
não havia de me querer. Me passou pela cabeça comprar um bilhete de loteria.
"Não caso com bombeado"... Fui abraçando os livros de mansinho, acariciei-os
junto ao rosto, pousei a minha boca numa capa, suja de pó suado, retirei a boca
sem desgosto. Naquele instante eu não sabia, hoje sei: era o segundo beijo que
eu dava em Maria, último beijo, beijo de despedida, que o cheiro desagradável do
papelão confirmou. Estava tudo acabado entre nós dois.
Não tive mais coragem pra voltar à varanda e conversar com... os outros. Estava
com uma raiva desprezadora de todos, principalmente de Matilde. Não, me parecia
que já não tinha raiva de ninguém, não valia a pena, nem de Matilde, o insulto
partira dela, fora por causa dela, mas eu não tinha raiva dela não, só tristeza,
só vazio, não sei... creio que uma vontade de ajoelhar. Ajoelhar sem mais nada,
ajoelhar ali junto da escrivaninha e ficar assim, ajoelhar. Afinal das contas eu
era um perdido mesmo, Maria tinha razão, tinha razão, tinha razão, que tristeza!
Foi o fim? Agora é que vem o mais esquisito de tudo, ajuntando anos pulados.
Acho que até não consigo contar bem claro tudo o que sucedeu. Vamos por ordem:
Pus tal firmeza em não amar Maria mais, que nem meus pensamentos me traíram. De
resto a mocidade raiava e eu tinha tudo a aprender. Foi espantoso o que se
passou em mim. Sem abandonar o meu jeito de "perdido", o cultivando mesmo,
ginásio acabado, eu principiara gostando de estudar. Me batera, súbito, aquela
vontade irritada de saber, me tornara estudiosíssimo. Era mesmo uma impaciência
raivosa, que me fazia devorar bibliotecas, sem nenhuma orientação. Mas brilhava,
fazia conferências empoladas em sociedadinhas de rapazes, tinha idéias que
assustavam todo o mundo. E todos principiavam maldando que eu era muito
inteligente mas perigoso.
Maria, por seu lado, parecia uma doida. Namorava com Deus e todo o mundo, aos
vinte anos fica noiva de um rapaz bastante rico, noivado que durou três meses e
se desfez de repente, pra dias depois ela ficar noiva de outro, um diplomata
riquíssimo, casar em duas semanas com alegria desmedida, rindo muito no altar e
partir em busca duma embaixada européia com o secretário chique seu marido.
Às vezes meio tonto com estes acontecimentos fortes, acompanhados meio de longe,
eu me recordava do passado, mas era só pra sorrir da nossa infantilidade e
devorar numa tarde um livro incompreensível de filosofia. De mais a mais, havia
Rose pra de-noite, e uma linda namoradinha oficial, a Violeta. Meus amigos me
chamavam de "jardineiro", e eu punha na coincidência daqueles duas flores uma
força de destinação fatalizada. Tamanha mesmo que topando numa livraria com The
Gardener de Tagore, comprei o livro e comecei estudando o inglês com loucura.
Mário de Andrade conta num dos seus livros que estudou o alemão por causa dum
emboaba tordilha... eu também: meu inglês nasceu duma Violeta e duma Rose.
Não, nasceu de Maria. Foi quando uns cinco anos depois, Maria estava pra voltar
pela primeira vez ao Brasil, a mãe dela, queixosa de tamanha ausência,
conversando com mamãe na minha frente, arrancou naquele seu jeito de gorda
desabrida:
- Pois é, Maria gostou tanto de você, você não quis!... e agora ela vive longe
de nós.
Pela terceira vez fiquei estarrecido neste conto. Percebi tudo num tiro de
canhão. Percebi ela doidejando, noivando com um, casando com outro, se
atordoando com dinheiro e brilho. Percebi que eu fora uma besta, sim agora que
principiava sendo alguém, estudando por mim fora dos ginásios, vibrando em
versos que muita gente já considerava. E percebi horrorizado, que Rose! nem
Violeta, nem nada! era Maria que eu amava como louco! Maria é que amara sempre,
como louco: ôh como eu vinha sofrendo a vida inteira, desgraçadíssimo,
aprendendo a vencer só de raiva, me impondo ao mundo por despique, me
superiorizando em mim só por vingança de desesperado. Como é que eu pudera me
imaginar feliz, pior: ser feliz, sofrendo daquele jeito! Eu? eu não! era Maria,
era exclusivamente Maria toda aquela superioridade que estava aparecendo em
mim... E tudo aquilo era uma desgraça muito cachorra mesma. Pois não andavam
falando muito de Maria? Contavam que pintava o sete, ficara célebre com as
extravagâncias e aventuras. Estivera pouco antes às portas do divórcio, com um
caso escandaloso por demais, com um pintor de nomeada que só pintava efeitos de
luz. Maria falada, Maria bêbeda, Maria passada de mão em mão, Maria pintada
nua...
Se dera como que uma transposição de destinos... E tive um pensamento que ao
menos me salvou no instante: se o que tinha de útil agora em mim era Maria, se
ela estava se transformando no Juca imperfeitíssimo que eu fora, se eu era
apenas uma projeção dela, como ela agora apenas uma projeção de mim, se nos
trocáramos por um estúpido engano de amor: mas ao menos que eu ficasse bem ruim,
mas bem ruim mesmo outra vez pra me igualar a ela de novo. Foi a razão da briga
com Violeta, impiedosa, e a farra dessa noite - bebedeira tamanha que acabei
ficando desacordado, numa série de vertigens, com médico, escândalo, e choro
largo de mamãe com minha irmã.
Bom, tinha que visitar Maria, está claro, éramos "gente grande" agora. Quando
soube que ela devia ir a um banquete, pensei comigo: "ótimo, vou hoje logo
depois de jantar, não encontro ela e deixo o cartão". Mas fui cedo demais.
Cheguei na casa dos pais dela, seriam nove horas, todos aqueles requififes de
gente ricaça, criado que leva cartão numa salva de prata etc. Os da casa estavam
ainda jantando. Me introduziram na saletinha da esquerda, uma espécie de
luís-quinze muito sem-vergonha, dourado por inteiro, dando pro hol central. Que
fizesse o favor de esperar, já vinham.
Contemplando a gravura cor-de-rosa, senti de supetão que tinha mais alguém na
saleta, virei. Maria estava na porta, olhando pra mim, se rindo, toda vestida de
preto. Olhem: eu sei que a gente exagera em amor, não insisto. Mas se eu já tive
a sensação da vontade de Deus, foi ver Maria assim, toda de preto vestida,
fantasticamente mulher. Meu corpo soluçou todinho e tornei a ficar estarrecido.
- Ao menos diga boa-noite, Juca...
"Boa-noite, Maria, eu vou-me embora"... meu desejo era fugir, era ficar e ela
ficar mas, sim, sem que nos tocássemos sequer. Eu sei, eu juro que sei que ela
estava se entregando a mim, me prometendo tudo, me cedendo tudo quanto eu
queria, naquele se deixar olhar, sorrindo leve, mãos unidas caindo na frente do
corpo, toda vestida de preto. Um segundo, me passou na visão devorá-la numa hora
estilhaçada de quarto de hotel, foi horrível. Porém, não havia dúvida: Maria
despertava em mim os instintos da perfeição. Balbuciei afinal um boa-noite muito
indiferente, e as vozes amontoadas vinham do hol, dos outros que chegavam.
Foi este o primeiro dos quatro amores eternos que fazem de minha vida uma grave
condensação interior. Sou falsamente um solitário. Quatro amores me acompanham,
cuidam de mim, vêm conversar comigo. Nunca mais vi Maria, que ficou pelas
Europas, divorciada afinal, hoje dizem que vivendo com um austríaco interessado
em feiras internacionais. Um aventureiro qualquer. Mas dentro de mim, Maria...
bom: acho que vou falar banalidade.