No mundo, a coisa é determinada, na arte ela o deve ser mais ainda: subtraída a todo o acidente, libertada de toda a penumbra, arrebatada ao tempo e entregue ao espaço, ela se torna permanência, ela atinge a eternidade. (...)
( RAINER MARIA RILKE )
Muito me criticam por ter feito uma reavaliação da arte de vanguarda. Conservadora é a vanguarda,que tem nas mãos todos os prêmios oficiais. A vanguarda ampliou nosso campo de visão,mas chegou ao esgotamento.
( Frases e Pensamentos de Ferreira Gullar)
A massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte,o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto... Nunca vi um gênio com gosto médio.
( Frases e Pensamentos de Ariano Suassuna) Mensagem sobre Artista
A mais bela experiência que podemos ter é a do mistério. É a emoção fundamental existente na origem da verdadeira arte e ciência. Aquele que não a conhece e não pode se maravilhar com ela está praticamente morto e seus olhos estão ofuscados.
(ALBERT EINSTEIN)
Se os bois e os cavalos tivessem mãos e pudessem pintar e produzir obras de arte similares às do homem, os cavalos pintariam os deuses sob forma de cavalos e os bois pitariam os deuses sob forma de bois.
( Frases e Pensamentos deXenófanes ) Mensagem sobre Religião
O verdadeiro artista prefere ver a esposa passar forme,os filhos andarem descalços,a mãe labutar para o próprio sustento aos 70 anos - a trabalhar em qualquer outra coisa que não seja sua arte.
( Frases e Pensamentos de Autor Desconhecido) Mensagem sobre Artista
Na arte,a inspiração tem um toque de magia,porque é uma coisa absoluta,inexplicável. Não creio que venha de fora pra dentro,de forças sobrenaturais. Suponho que emerge do mais profundo eu da pessoa,do inconsciente individual,coletivo e cósmico...(Frases e Pensamentos de Clarice Lispector)
Muito me criticam por ter feito uma reavaliação da arte de vanguarda. Conservadora é a vanguarda,que tem nas mãos todos os prêmios oficiais. A vanguarda ampliou nosso campo de visão,mas chegou ao esgotamento.
( Frases e Pensamentos de Ferreira Gullar) Mensagem sobre Artista
A coisa mais bela que o homem pode experimentar é o mistério. É esta a emoção fundamental que está na raiz de toda ciência e arte. O homem que desconhece esse encanto, incapaz de sentir admiração e estupefação, esse já está, por assim dizer, morto e tem os olhos extintos.
(ALBERT EINSTEIN)
Antigamente, quem quer que tivesse um segredo numa arte corria o risco de passar por bruxo. Toda seita nova era acusada de degolar crianças em seus mistérios. Todo filósofo que se desgarrasse da jíria da escola era criminado de ateísmo pelos fanáticos e espertalhões. E condenado pelos cretinos.
Não há arte patriótica nem ciência patriótica. As duas, tal como tudo o que é bom e elevado, pertencem ao mundo inteiro e não podem progredir a não ser pela livre acção recíproca de todos os contemporâneos e tendo sempre em contra aquilo que nos resta e aquilo que conhecemos do passado
( JOHANN WOLFGANG VON GOETHE)
A verdadeira arte de viajar... A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa, Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo. Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali... Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando(Frases e Pensamentos de Mário Quintana)
"Existem derrotas,mas não existe o sofrimento. Um verdadeiro guerreiro sabe que ao perder uma batalha está melhorando sua arte de manejar a espada. Saberá lutar com mais habilidade no próximo combate." - Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei
( Frases e Pensamentos de Paulo Coelho) Mensagem sobre Guerra e Paz
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.
( Frases e Pensamentos de RUBEM ALVES)
Compreendo a crítica de arte, muitas vezes justa e honesta, mas sou de opinião que o arquiteto deve conduzir seu trabalho de acordo com as próprias tendências e possibilidades, aceitando-a sem revolta ou submissão, sabendo-a não raro justa e construtiva, mas sempre sujeita a uma comprovação que somente o tempo pode estabelecer.
(OSCAR NIEMEYER)
A arte da melodia sagrada era diligentemente cultivada [na Escola dos Profetas]. Não se ouviam valsas frívolas ou canções petulantes que elogiassem o homem e desviassem de Deus a atenção; ouviam-se,porém,sagrados e solenes salmos de louvor ao Criador,que engrandeciam Seu nome e relatavam Suas obras maravilhosas.
( Frases e Pensamentos de Ellen G. White) Mensagem sobre Música
A arte da melodia sagrada era diligentemente cultivada [na Escola dos Profetas]. Não se ouviam valsas frívolas ou canções petulantes que elogiassem o homem e desviassem de Deus a atenção; ouviam-se,porém,sagrados e solenes salmos de louvor ao Criador,que engrandeciam Seu nome e relatavam Suas obras maravilhosas.
( Frases e Pensamentos de Ellen G. White) Mensagem sobre Música
Nunca será de mais insistir no carácter arbitrário da antiga oposição entre
arte e a filosofia. Se quisermos interpretá-la num sentido muito preciso, é
certamente falsa. Se quisermos simplesmente significar que essas duas
disciplinas têm, cada uma delas, o seu clima particular, isso é verdade sem
dúvida, mas muito vago. A única argumentação aceitável residia na contradição
levantada entre o filósofo fechado no meio do seu sistema e o artista colocado
diante da sua obra. Mas isto era válido para uma certa forma de arte e de
filosofia, que aqui consideramos secundária. A ideia de uma arte separada do seu
criador não está somente fora de moda. É falsa. Por oposição ao artista,
dizem-nos que nunca nenhum filósofo fez vários sistemas.
Mas isto é verdade, na própria medida em que nunca nenhum artista exprimiu mais
de uma só coisa sob rostos diferentes. A perfeição instantânea da arte, a
necessidade da sua renovação, só é verdade por preconceito. Porque a obra de
arte também é uma construção, e todos sabem como os grandes criadores podem ser
monótonos. O artista, tal como o pensador, empenha-se e faz-se na sua obra. Essa
osmose levanta o mais importante dos problemas estéticos. Além disso, nada é
mais vão que essas distinções, segundo os métodos e os objectos, para quem se
persuade da unidade de finalidade do espírito. Não há fronteiras entre as
disciplinas que o homem se propõe, para compreender e amar. Interpenetram-se e
confunde-as a mesma angustia.
A arte oferece-nos a única possibilidade de realizar o mais legítimo desejo
da vida - que é não ser apagada de todo pela morte. Agora que o espírito, tendo
uma consciência mais segura do universo, se recusa a crer na capciosa promessa
das religiões de que ele não acabará inteiramente, e irá ainda, em regiões de
azul ou de fogo, continuar a sua existência pelo êxtase ou pela dor - a única
esperança que nos resta de não morrermos absolutamente como as couves é a fama,
essa imortalidade relativa que só dá a arte.
Só a arte realmente pode dizer aos seus eleitos, com firmeza e certeza: - «Tu
não morrerás inteiramente: e mesmo amortalhado, metido entre as tábuas de um
caixão, regado de água benta, tu poderás continuar por mim a viver. O teu
pensamento, manifestação melhor e mais completa da tua vida, permanecerá
intacto, sem que contra ele prevaleçam todos os vermes da terra; e ainda que,
fixado definitivamente na tua obra, pareça imobilizado nela como uma múmia nas
suas ligaduras, ele terá todavia o supremo sintoma da vida, a renovação e o
movimento, porque fará vibrar outros pensamentos e através das criações deles
estará perpetuamente criando.
Mesmo o teu riso, de um momento, reviverá nos risos que for despertando; e as
tuas lágrimas não secarão porque farão correr outras lágrimas. Ficarás para
sempre vivo, para te misturares perpetuamente à vida dos outros; e as mesmas
linhas do teu rosto, o teu traje, os teus modos, não morrerão, constantemente
rememorados pela curiosidade das gerações. Assim, não desaparecerás nem na tua
forma mortal: e serás desses eternos viventes, mais eternos que os deuses, que
são os contemporâneos de todas as gerações, e vão sempre marchando no meio da
humanidade que marcha, espíritos originais a que se acendem outros espíritos,
para que se não apague o fogo perene da inteligência - iguais a essas quatro ou
cinco lâmpadas que leva a grande caravana de Meca, para que a elas se acendam
lareiras e tochas, e a caravana possa sempre marchar, orando sempre, e segura.
Minha divinatória Arte ultrapassa
os séculos efêmeros e nota
Diminuição dinâmica, derrota
Na atual força, integérrima, da Massa.
É a subversão universal que ameaça
A Natureza, e, em noite aziaga e ignota,
Destrói a ebulição que a água alvorota
E põe todos os astros na desgraça!
São despedaçamentos, derrubadas,
Federações sidéricas quebradas...
E eu só, o último a ser, pelo orbe adeante,
Espião da cataclísmica surpresa
A única luz tragicamente acesa
Na universalidade agonizante!
Todos os pensamentos que renunciam à unidade exaltam a diversidade. E a
diversidade é o local da arte. O único pensamento que liberta o espírito é
aquele que o deixa só, certo dos seus limites e do seu fim próximo. Nenhuma
doutrina o solicita. Ele espera o amadurecimento da obra e da vida. Separada
dele, a primeira fará ouvir, uma vez mais, a voz levemente ensurdecida de uma
alma para todo o sempre liberta da esperança. Ou nada fará ouvir, se o criador,
cansado do seu jogo, pretende afastar-se. Tudo isso se equivale.
Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!
Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!
Tenta chorar e os olhos sente enxutos!...
E como o paralítico que, á mingua
Da própria voz e na que ardente o lavra
Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem á boca uma palavra!
Toda a arte pressupõe regras na base das quais uma produção, se deve
considerar-se artística, é representada, em primeiro lugar, como possível; mas o
conceito das belas-artes não permite derivar o juízo sobre a beleza da produção
de qualquer regra que tenha um conceito como princípio determinante, em virtude
de pôr como fundamento um conceito do modo por que tal é possível. Assim, a arte
do belo não pode inventar ela mesma a regra segundo a qual realizará a sua
produção. Mas, como sem regra anterior um produto não pode ser artístico, é
necessário que a natureza dê a regra de arte ao próprio sujeito (na concordância
das suas faculdades), isto é, as belas-artes só podem ser o produto do génio.
Daí se conclui: 1º Que o génio é o talento de produzir aquilo de que se não pode
dar regra determinada, mas não é a aptidão para o que pode ser apreendido
consoante uma qualquer regra; portanto, a sua primeira característica é a
originalidade. 2º Que as suas produções, visto que o absurdo também pode ser
original, devem simultaneamente ser modelos, isto é, ser exemplares; por
consequência, não sendo obras de imitação, têm de ser propostas à imitação das
outras, isto é, servir-lhes de medida ou de regra critica. 3° Que ele mesmo não
pode indicar cientificamente como leva a cabo a sua obra, mas que dá, enquanto
natureza, a regra; portanto, o autor duma obra devida ao seu génio não sabe de
onde lhe vêm as ideias e não depende dele concebê-las a seu grado ou segundo um
plano, nem comunicá-las a outros em prescrições que os habilitariam a produzir
obras semelhantes. (...)
Tal mestria é incomunicável, é propiciada directamente a cada qual por intermé
dio da natureza, desaparece, pois, com cada um até que a natureza confira a
outro os mesmos dons; e a este mais não resta que ter um modelo para deixar
manifestar-se de tal modo o talento de que tem consciência.
Visto que o dom da natureza deve estabelecer a regra da arte (belas-artes), qual
é, pois, tal regra? Não é possível formulá-la para servir de preceito, pois que
nesse caso o juízo sobre o belo seria determinado por conceitos, mas a regra
deve ser extraída do acto mesmo, isto é, do produto, deve servir aos outros de
pedra de toque para o seu próprio talento, como um modelo para uma imitação que
não deve ser servil. Como é tal coisa possível? Eis o que é difícil esclarecer.
As ideias do artista despertam no discípulo ideias semelhantes, se a natureza
dotou este de faculdades equivalentes. Os modelos da arte são, pois, os únicos
guias que podem perpetuá-los.
Estamos habituados, perante tudo o que é perfeito, a omitir a questão do seu
processo evolutivo, regozijando-nos antes com a sua presença, como se ele
tivesse saído do chão por artes mágicas. Provavelmente, estamos ainda, neste
caso, sob o efeito residual de um antiquíssimo sentimento mitológico. Quase nos
sentimos ainda (por exemplo, num templo grego como o de Pesto) como se, numa
manhã, um deus, brincando, tivesse construído a sua morada com tão gigantescos
fardos. Outras vezes, como se um espírito tivesse subitamente sido metido por
encanto dentro duma pedra e quisesse, agora, falar através dela. O artista sabe
que a sua obra só produz pleno efeito, se fizer crer numa improvisação, numa
miraculosa instantaneidade da sua criação; e, assim, ele ajuda mesmo a essa
ilusão, introduzindo na arte, ao começo da sua criação, aqueles elementos de
entusiástica inquietação, de desordem que tacteia às cegas, de sonho atento,
como forma de iludir, a fim de dispor o espírito do espectador ou do ouvinte de
modo a que ele creia no súbito brotar da perfeição.
A ciência da arte, como é evidente, tem de contradizer essa ilusão da maneira
mais determinada e apontar as conclusões erróneas e os maus hábitos do
intelecto, graças aos quais este cai na rede do artista.
As emoções que a literatura suscita são talvez eternas, mas os meios devem
variar constantemente, mesmo que lligeiramente, para não perder a sua virtude.
Desgastam-se à medida que o leitor os reconhece. Daí o perigo de afirmar que
existem obras clássicas que o serão para sempre.
Cada qual descrê da sua arte e dos seus artifícios. Eu, que me resignei a pôr em
dúvida a indefinida duração de Voltaire ou de Shakespeare, acredito (nesta tarde
de um dos últimos dias de 1965) na de Schopenhauer e na de Berkeley.
Clássico não é um livro (repito-o) que possui necessariamente tais ou tais mé
ritos. É um livro que as gerações dos homens, motivadas por razões diversas,
lêem com prévio fervor e com uma misteriosa lealdade.
Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.
E logo ela é só flama, inteiramente.
Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com a arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.
Então, como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.
O sonho suado transbordante
que arrasta a realidade
Eles têm medo
dos poetas que incomodam
Eles têm medo
da alegria que somos capazes
de arrancar do futuro
Eles têm medo
daqueles que inventam o mar
na pia do banheiro
e as estrelas no céu da boca
Eles têm medo
dos que andam com a cabeça-madura
enquanto os pés estão numa verde-aventura
Eles têm medo
do jogo transparente onde o goleiro
é um doido de pedra embaixo
de uma trave de arco-íris
Eles têm medo
de uma arte diferente
que ilumina o cotidiano
com a fúria que nos amanhece
de uma lua quebrada da paixão
ou feito um lingote incandescente
retirado dos fornos profundos
das usinas metalúrgicas
Recomecemos o mundo!
O amor por nós mesmos, que só a nós diz respeito, sente-se satisfeito quando as
nossas verdadeiras necessidades ficam satisfeitas; mas o amor-próprio - que se
pretende comparar com ele - nunca se sente satisfeito nem o poderia estar,
porque esse sentimento, que nos leva a preferirmo-nos aos outros, também exige
que os outros nos prefiram a eles próprios; ora isso é impossível. Eis como as
paixões suaves e afectuosas têm origem no amor por si próprio, e como as
paixões de ódio e de ira provêm do amor-próprio. Assim, o que torna o homem
essencialmente bom é o facto de ter poucas necessidades e de pouco se comparar
com os outros; o que o torna essencialmente mau é ter muitas necessidades e
preocupar-se muito com a opinião. Sobre este princípio, é fácil ver como se
podem dirigir - para o bem ou para o mal - todas as paixões das crianças e dos
homens. É verdade que, como não podem viver sempre sós, dificilmente poderão
viver sempre bons: e esta dificuldade aumentará, necessariamente, com o
alargamento das suas relações; e é nisso, sobretudo, que os perigos da sociedade
nos tornam a arte e os cuidados mais indispensáveis para prevenir - no coração
humano - a depravação originada pelas suas novas necessidades.
A maioria dos luxos e muitos dos chamados confortos da vida não só são
dispensáveis como constituem até obstáculos à elevação da humanidade. No que diz
respeito a luxos e confortos, os mais sábios sempre viveram de modo mais simples
e despojado que os pobres. Os antigos filósofos chineses, indianos, persas e
gregos eram uma classe que se notabilizava pela extrama pobreza de bens
exteriores, em contraste com a sua riqueza interior. Embora não saibamos muito a
seu respeito, é de admirar que saibamos tanto quanto sabemos. O mesmo acontece
com reformadores e benfeitores mais recentes, da nacionalidade deles. Ninguém
pode ser um observador imparcial e sábio da raça humana, a não ser da posição
vantajosa a que chamaríamos pobreza voluntária.
O fruto de uma vida de luxo é também luxo, seja em agricultura, comércio,
literatura ou arte. Hoje em dia há professores de filosofia, mas não há
filósofos. Contudo é admirável ensinar filosofia porque um dia foi admirável
vivê-la. Ser um filósofo não é apenas ter pensamentos subtis, nem sequer fundar
uma escola, mas amar a sabedoria a ponto de viver, segundo os seus ditames, uma
vida de simplicidade, independência, magnanimidade e confiança. É solucionar
alguns problemas da vida não só na teoria mas também na prática.
A mente universal manifesta-se na arte como intuição e imaginação; na religião
manifesta-se como sentimento e pensamento representativo; e na filosofia ocorre
como liberdade pura de pensamento. Na história mundial a mente universal
manifesta-se como actualidade da mente, na sua integridade de internalidade e de
externalidade. A história do mundo é um tribunal porque, na sua absoluta
universalidade, o particular, isto é, as formas de culto, sociedade e espíritos
nacionais em todas as suas diferentes actualidades, está presente apenas como
ideal, e aqui o movimento da mente é a manifestação disto mesmo...
A história do mundo não é o veredicto da força, isto é, de um destino cego
realizando-se a si mesmo numa inevitabilidade abstracta e não-racional. Pelo
contrário, porque a mente é razão implícita e explicitamente, e porque a razão é
explícita para si mesma, na mente, enquanto conhecimento, a história do mundo é
o desenvolvimento necessário, decorrente da liberdade da mente, dos momentos da
razão e, deste modo, da autoconsciência e da liberdade da mente.
A história da mente é a sua acção. A mente é apenas o que faz, e a sua acção faz
dela o objecto da sua própria consciência. Através da história, a sua acção
ganha consciência de si mesma como mente, e apreende-se na sua interpretação de
si mesma para si mesma. Esta apreensão é no seu ser e no seu princípio, e a
realização desta apreensão numa dada fase é simultaneamente a rejeição dessa
fase e a sua elevação a uma fase mais elevada.
Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas... Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade. Nasci no rigor do inverno, temperatura: um grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não astava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro - o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu... Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros? Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma - não da fôrma -, a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Érico Veríssimo - que bem sabem - ou souberam - o que é a luta amorosa com as palavras. No céu é sempre domingo. E a gente não tem outra coisa a fazer senão ouvir os chatos. E lá é ainda pior que aqui, pois se trata dos chatos de todas as épocas do mundo(Frases e Pensamentos de Mário Quintana)
O homem recusa o mundo tal como ele é, sem aceitar o eximir-se a esse mesmo
mundo. Efectivamente os homens gostam do mundo e, na sua imensa maioria, não
querem abandoná-lo. Longe de quererem esquecê-lo, sofrem, sempre, pelo
contrário, por não poderem possuí-lo suficientemente, estranhos cidadãos do
mundo que são, exilados na sua própria pátria. Excepto nos momentos fulgurantes
da plenitude, toda a realidade é para eles imperfeita. Os seus actos
escapam-lhes noutros actos; voltam a julgá-los assumindo feições inesperadas;
fogem, como a água de Tântalo, para um estuário ainda desconhecido. Conhecer o
estuário, dominar o curso do rio, possuir enfim a vida como destino, eis a sua
verdadeira nostalgia, no ponto mais fechado da sua pátria. Mas essa visão que,
ao menos no conhecimento, finalmente os reconciliaria consigo próprios, não pode
surgir; se tal acontecer, será nesse momento fugitivo que é a morte; tudo nela
termina. Para se ser uma vez no mundo, é preciso deixar de ser para sempre.
Neste ponto nasce essa desgraçada inveja que tantos homens sentem da vida dos
outros. Apercebendo-se exteriormente dessas existências, emprestam-lhes uma
coerência e uma unidade que elas não podem ter, na verdade, mas que ao
observador parecem evidentes. Este não vê mais que a linha mais elevada dessas
vidas, sem adquirir consciência do pormenor que as vai minando. Então fazemos
arte sobre essas existências. Romanceamo-las de maneira elementar. Cada um,
nesse sentido, procura fazer da sua vida uma obra de arte. Desejamos que o amor
perdure e sabemos que tal não acontece; e ainda que, por milagre, ele pudesse
durar uma vida inteira, seria ainda assim um amor imperfeito. Talvez que, nesta
insaciável necessidade de subsistir, nós compreendêssemos melhor o sofrimento
terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece que, por vezes, as grandes almas se
sentem menos apavoradas pelo sofrimento do que pelo facto de este não durar. À
falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um
destino. Mas não; as nossas piores torturas terão um dia de acabar. Certa manhã,
após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que
tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade.
Como, ao que parece, há muitos fins e podemos buscar alguns em vista de
outros: por exemplo, a riqueza, a música, a arte da flauta e, em geral, todos
aqueles fins que podem denominar-se instrumentos, é evidente que nenhum desses
fins é perfeito e definitivo por si mesmo. Mas o sumo bem deve ser coisa
perfeita e definitiva. Por conseguinte, se existe uma só e única coisa que seja
definitiva e perfeita, ela é precisamente o bem que procuramos; e se há muitas
coisas deste género, a mais definitiva entre elas será o bem. Mas, em nosso
entender, o bem que apenas deve buscar-se por si mesmo é mais definitivo que
aquele que se procura em vista de outro bem; e o bem que não deve buscar-se
nunca com vista noutro bem é mais definitivo que os bens que se buscam ao mesmo
tempo por si mesmos e por causa desse bem superior; numa palavra, o perfeito, o
definitivo, o completo, é o que é eternamente apetecível em si, e que nunca o é
em vista de um objecto distinto dele.
Eis aí precisamente o carácter que parece ter a felicidade; buscamo-la por ela e
só por ela, e nunca com mira em outra coisa. Pelo contrário, quando buscamos as
honras, o prazer, a ciência, a virtude, sob qualquer forma que seja, desejamos,
indubitavelmente, todas essas vantagens por si mesmas; pois que,
independentemente de toda outra consequência, desejaríamos cada uma delas;
todavia, desejamo-las também com mira na felicidade, porque cremos que todas
essas diversas vantagens no-la podem assegurar; enquanto ninguém pode desejar a
felicidade, nem com mira nestas vantagens, nem, de maneira geral, com vista em
algo, seja o que for, distinto da felicidade mesma.
(...) Todavia, ainda convindo connosco em que a felicidade é, sem contradita, o
maior dos bens, o bem supremo, talvez haja quem deseje conhecer melhor a sua
natureza.
O meio mais seguro de alcançar esta completa noção é saber qual é a obra própria
do homem. (...) Viver é uma função comum ao homem e às plantas, e aqui apenas se
busca o que é exclusivamente especial ao homem; é por isso necessário pôr de
lado a vida de nutrição e de desenvolvimento. Em seguida vem a vida da
sensibilidade, mas esta, por sua vez, mostra-se igualmente comum a todos os
seres - o cavalo, o boi, e em geral a todos os animais, tal como ao homem.
Resta, portanto, a vida activa do ser dotado de razão. Mas neste ser deve
distinguir-se a parte que não possui directamente a razão e se serve dela para
pensar. Além disso, como esta mesma faculdade da razão se pode compreender num
duplo sentido, devemos não esquecer que se trata aqui, sobretudo, da faculdade
em acção, a qual merece mais particularmente o nome que a ambas convém. E assim
o próprio do homem será o acto da alma em conformidade com a razão, ou, pelo
menos, o acto da alma que não pode realizar-se sem a razão. (...) Mas o bem, a
perfeição para cada coisa, varia segundo a virtude especial dessa coisa. Por
conseguinte, o bem próprio do homem é a actividade da alma dirigida pela
virtude; e, como há muitas virtudes, será a actividade dirigida pela mais alta e
a mais perfeita de todas. Acrescente-se também que estas condições devem ser
realizadas durante uma vida inteira e completa, porque uma só andorinha não faz
a Primavera, nem um só dia formoso; e não pode tão-pouco dizer-se que um só dia
de felicidade, nem mesmo uma temporada, bastam para fazer um homem ditoso e
afortunado.
Quarenta anos, quarenta e cinco. Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o
tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é
claro. A velhice tem suas alegrias, as sua compensações - todos dizem isso,
embora você pessoalmente, ainda não as tenha descoberto - mas acredita.
Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá
aquela nostalgia da mocidade.
Não de amores nem de paixão; a doçura da meia-idade não lhe exige essas
efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu
sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de
criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram
as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas, que hoje são seus
filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento e prestações, você
não encontra de modo algum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres -
não são mais aqueles que você recorda.
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação
ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis - nisso
é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua raça, da
qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela
criancinha, longe de ser um estranho, é um menino que se lhe é "devolvido". E o
espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito sobre ele, ou pelo menos o
seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo ou
decepção, se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor que há anos
se acumulava, desdenhado, no seu coração.
Sim, tenho a certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas
as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes, que
vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis.
Aliás, desconfio muito de que netos são melhores que namorados, pois que as
violências da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos. Se o Doutor Fausto
fosse avô, trocaria calmamente dez Margaridas por um neto...
No entanto! Nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave
maior, a grande rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não
deixa por isso de ser a mãe do neto. Não importa que ela hipocritamente, ensine
a criança a lhe dar beijos e a lhe chamar de "vovozinha" e lhe conte que de
noite, às vezes, ele de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada
mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas posições respectivas,
a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da
esposa e da amante nos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da
domesticidade e da presença constante. Dorme com ele, dá-lhe banho, veste-o,
embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar e o ô
nus de castigar.
Já a avó não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do
imprevisto. Mora em outra casa. Traz presentes. Faz coisas não programadas. Leva
a passear, "não ralha nunca". Deixa lambuzar de pirulito. Não tem a menor
pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último
recurso dos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma
noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os encantos
de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes
uma maravilhosa subversão da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a
sopa e comer croquetes, tomar café, mexer na louça, fazer trem com as cadeiras
na sala, destruir revistas, derramar água no gato, acender e apagar a luz elé
trica mil vezes se quiser - e até fingir que está discando o telefone. Riscar a
parede com lápis dizendo que foi sem querer - e ser acreditado!
Fazer má-criação aos gritos e em vez de apanhar ir para os braços do avô, e lá
escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação moderna...
Sabe-se que, no reino dos céus, o cristão defunto desfruta os mais requintados
prazeres da alma. Porém não estarão muito acima da alegria de sair de mãos dadas
com o seu neto, numa manhã de sol. E olhe que aqui embaixo você ainda tem o
direito de sentir orgulho, que aos bem-aventurados será defeso. Meu Deus, o
olhar das outras avós com seus filhotes magricelas ou obesos, a morrerem de
inveja do seu maravilhoso neto!
E quando você vai embalar o neto e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe
reconhece, sorri e diz "Vó", seu coração estala de felicidade, como pão ao
forno.
E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe
castiga, e ele olha para você, sabendo que, se você não ousa intervir
abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade.
Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e
neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menino - involuntariamente!
- bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com
preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beicinho
pronto para o choro; e depois o sorriso malandro e aliviado porque "ninguém" se
zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, vó? Era um simples boneco que
custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague.
Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!
A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!
Pairando acima dos mundanos tectos,
Não conheço o acidente da Senectus
- Esta universitária sanguessuga ,
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!
Na existência social, possuo uma arma
- O metafisicismo de Abidarma -
E trago, sem bramânicas tesouras,
Como um dorso de azêmola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.
Com um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho...
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
E com certeza meu irmão mais velho!
Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Amarguradamente se me antolha,
À luz do americano plenilúnio,
Na alma crepuscular de minha raça
Como uma vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o Infortúnio.
Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,
Trazendo no deserto das idéias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!
Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem...
E apenas encontrou na idéia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as cousas se reduzem!
E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mostrar, já nos últimos momentos,
Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luz danada,
espólio dos seus dedos peçonhentos.
Tal a finalidade dos estames!
Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,
Nas eterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!
Será calor, causa úbiqua de gozo,
Raio X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!
E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
- Engrenagem de vísceras vulgares -
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares!
A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.
É uma trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece ...
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.
E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,
À guisa de um faquir, pelos cenóbios?! ...
Num suicídio graduado, consumir-se,
E após tantas vigílias, reduzir-se
A herança miserável de micróbios!
Estoutro agora é o sátiro peralta
Que o sensualismo sodomista exalta,
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo.
Como que, em suas células vilíssimas,
Há estratificações requintadíssimas
De uma animalidade sem castigo.
Brancas bacantes bêbedas o beijam.
Suas artérias hírcicas latejam,
Sentindo o odor das carnações abstêmias,
E à noite, vai gozar, ébrio de vício,
No sombrio bazar do meretrício,
O cuspo afrodisíaco das fêmeas.
No horror de sua anômala nevrose,
Toda a sensualidade da simbiose,
Uivando, à noite, em lúbricos arroubos,
Como no babilônico sansara,
Lembra a fome incoercível que escancara
A mucosa carnívora dos lobos.
Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.
Negra paixão congênita, bastarda,
Do seu zooplasma ofídico resulta...
E explode, igual à luz que o ar acomete,
Com a veemência mavórtica do ariete
E os arremessos de uma catapulta.
Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Hirto, observa através a tênue trança
Dos filamentos fluídicos de um halo
A destra descarnada de um duende,
Que, tateando nas tênebras, se estende
Dentro da noite má, para agarrá-lo!
Cresce-lhe a intracefálica tortura,
E de su'alma na caverna escura,
Fazendo ultra-epilépticos esforços,
Acorda, com os candieiros apagados,
Numa coreografia de danados,
A família alarmada dos remorsos.
E o despertar de um povo subterrâneo!
É a fauna cavernícola do crânio
- Macbeths da patológica vigília,
Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
As incestuosidades sanguinárias
Que ele tem praticado na família.
As alucinações tácteis pululam.
Sente que megatérios o estrangulam...
A asa negra das moscas o horroriza;
E autopsiando a amaríssirna existência
Encontra um cancro assíduo na consciência
E três manchas de sangue na camisa!
Míngua-se o combustível da lanterna
E a consciência do sátiro se inferna,
Reconhecendo, bêbedo de sono,
Na própria ânsia dionísica do gozo,
Essa necessidade de horroroso,
Que é talvez propriedade do carbono!
Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca...
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de uma esfera opaca.
Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
A condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!
Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria.
Continua o martírio das criaturas:
- O homicídio nas vielas mais escuras,
- O ferido que a hostil gleba atra escarva,
- O último solilóquio dos suicidas -
E eu sinto a dor de todas essas vidas
Em minha vida anônima de larva!"
Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,
Da luz da lua aos pálidos venábulos,
Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo,
julgava ouvir monótonas corujas,
Executando, entre caveiras sujas,
A orquestra arrepiadura do sarcasmo!
Era a elegia panteísta do Universo,
Na podridão do sangue humano imerso,
Prostituído talvez, em suas bases...
Era a canção da Natureza exausta,
Chorando e rindo na ironia infausta
Da incoerência infernal daquelas frases.
E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandíloquos massacres,
Há-de ferir-me as auditivas portas,
Até que minha efêmera cabeça
Reverta à quietação da treva espessa
E à palidez das fotosferas mortas!
Mesa redonda no melhor hotel de N... Contra as paredes de mármore da alta e
clara sala de jantar ondula o rumor humano e o barulho dos talheres.
Apressados, como sombras mudas, os criados de casaca preta andam de cá
para lá com as bandejas de prata. Nos baldes com gelo brilham garrafas de
champanhe. Tudo cintila à luz das lâmpadas eléctricas: as taças, os olhos e as
jóias das mulheres, os crânios luzidios dos cavalheiros e até mesmo as
palavras que saltam como faúlhas. Quando são espirituosas, estala, mais perto
ou mais longe, o chamejar agudo dum riso breve numa garganta feminina.
Depois as senhoras comem a sopa fumegante em finas taças translúcidas,
enquanto os jovens ajustam o monóculo e percorrem com um olhar crítico a
mesa multicor.
Eram todos eles frequentadores que se conheciam já. Mas, nesse dia, um
desconhecido sentara-se numa das extremidades da mesa. Os homens
deitaram-lhe um olhar rápido, porque o traje desse homem pálido e grave não
era da última moda. Subia-lhe até ao queixo um alto colarinho branco e
apertava-lhe o pescoço a grande gravata negra que se usava no começo do
século. O casaco preto assentava-lhe nos ombros largos. O mais surpreendente
eram os grandes olhos cinzentos do recém-chegado, que com olhar solene e
poderoso parecia trespassar de lado a lado toda a assistência, e que brilhava
como se algum longínquo desígnio nele incessantemente se reflectisse.
Aquele olhar atraía os olhos das mulheres curiosas que o interrogavam em
segredo. Murmuraram toda a espécie de suposições, tocaram-se com o pé,
interrogaram-se, encolheram os ombros e, apesar de tudo, não conseguia
explicar-se aquela presença.
A baronesa polaca Vilovsky, jovem e espirituosa Witib, estava ao centro dos
conservadores. Também ela parecia interessar-se pelo taciturno desconhecido.
Os seus grandes olhos negros suspendiam-se com estranha insistência nos
traços cavados do estrangeiro. A sua mão fina tamborilava nervosamente na
toalha adamascada, fazendo brilhar a magnífica jóia que ornava um dos seus
anéis. Com uma pressa impaciente e pueril, ora falava de um assunto, ora
doutro, para depois se interromper bruscamente ao notar que o estrangeiro não
tomava parte na conversação. Julgava-o um artista com muita habilidade e
levava a conversa para os temas de arte mais diversos. Em vão. O
desconhecido vestido de preto conservava o olhar perdido no vago. Mas a
baronesa Vilovsky não abandonava a partida.
- Já ouviu falar do terrível incêndio na aldeia de B...?- perguntou ela ao seu
vizinho.
E como lhe respondesse afirmativamente, acrescentou: - Proponho formarmos
uma comissão para organizar um peditório e uma obra de beneficência em
favor das vítimas desse incêndio.
Lançou em volta olhares interrogadores. Vivas aprovações acolheram a
proposta. Um sorriso sarcástico iluminou o rosto do desconhecido. A baronesa
sentiu esse sorriso sem o ver. Uma grande cólera a agitava.
- Está toda a gente de acordo? - observou ela num tom imperioso, que não
admitia réplicas. E ouviu-se então um coro de vozes:
- Sim, de acordo! Naturalmente!
O conviva que me ficava defronte, um banqueiro de Colónia, com gesto
eloquente, ia já a meter a mão no bolso que continha a sua carteira cheia de
notas do banco.
- Podemos contar consigo, senhor? - perguntou a baronesa ao estrangeiro. A
sua voz tremia. O desconhecido pôs-se de pé e, em voz alta, sem olhar, num
tom brutal, disse:
- Não!
A baronesa estremeceu. Sorriu contrafeita. Todos os olhos estavam fitos no
estrangeiro. Este dirigiu o seu olhar à baronesa e prosseguiu:
- A senhora comete um acto inspirado pelo amor; eu, pela minha parte, ando
através do mundo com o propósito de matar o mesmo amor. Seja onde for que
o encontre, assassino-o. E encontro-o muitas vezes em choupanas, nos
castelos, nas igrejas e na natureza. Mas persigo-o impiedosamente. E da
mesma maneira que na Primavera os ventos quebram a rosa que demasiado
cedo desabrochou, assim também a minha grande e obstinada vontade a
destrói: porque penso que a lei do amor nos foi prematuramente imposta.
A sua voz ressoou cavernosa como o eco do som do sino às Ave-Marias. A
baronesa fez menção de responder, mas o homem continuou: - Não me
compreendeu ainda. Escute-me. Os homens não se encontravam amadurecidos
quando o Nazareno veio até eles e lhes trouxe o amor. Na sua generosidade
pueril e ridícula, julgava ele fazer-lhes bem. Para uma raça de gigantes, o
amor teria sido um confortável travesseiro na brancura do qual poderiam com
volúpia sonhar novos feitos. Mas para homens fracos é a extrema decadência.
Um sacerdote católico que se encontrava presente levou a mão ao colarinho
como se sentisse faltar-lhe o fôlego.
- A extrema decadência!... - exclamava o estrangeiro. - Não falo do amor entre
os sexos. Falo do amor do próximo, da caridade e da piedade, da graça e da
indulgência. Não há piores venenos para a nossa alma!
Um som indistinto se ouviu entre os espessos lábios do sacerdote.
- Dize-me tu, ó Cristo: que fizeste? Parece-me que fomos educados como
aqueles animais ferozes que se procuram desabituar dos seus mais profundos
instintos, no propósito de lhes bater impunemente com um látego de domador
quando eles se tornarem meigos. Da mesma maneira nos limaram os dentes e
as garras e nos pregaram o amor do próximo. Arrancaram-nos das mãos o
brilhante dardo da nossa vontade altiva e pregaram-nos o amor do próximo! E
foi assim que nos entregaram nus à tempestade da vida, na qual
incessantemente sobre nós caem as marretadas do destino, ao mesmo tempo
que, por outro lado, se nos prega o amor do próximo!
Todos, sustendo a respiração, escutavam. Os criados não se atreviam a mexer-
se e mantinham-se firmes perto da mesa segurando nas mãos as bandejas de
prata. As palavras do desconhecido, como um sopro violento de tempestade,
rompiam o abafado silêncio.
- E nós obedecemos - continuou ele. - Obedecemos cega e estupidamente a
essa ordem insensata. Partimos em procura daqueles que tinham sede, dos que
tinham fome, dos doentes, dos leprosos, dos fracos e nós próprios somos
doentes e miseráveis. Sacrificamos a nossa vida para erguer aqueles que
caíam, animar os que duvidavam, consolar os que estavam tristes, e nos
próprios desesperamos. Aos que tinham assassinado as nossas mulheres e os
nossos filhos, tinham lançado a discórdia nos nossos lares, não destruímos as
suas próprias casas, e eles puderam esperar nelas calmamente o fim dos seus
dias.
Um terrível acento de zombaria fez-lhe tremer a voz, e continuou:
- Aquele que celebram como Messias transformou o mundo inteiro num
enorme hospício de doentes incuráveis. Os fracos, os miseráveis e os inválidos
são seus filhos e seus favoritos. Então os fortes viriam ao mundo apenas para
proteger, servir e velar por esses inermes seres? E se eu sinto em mim um
fogoso entusiasmo, um entusiasmo intenso e celeste para a luz, se subo com
firmeza o caminho escarpado e pedregoso, devo acaso, quando vejo já
flamejar o divino fim, inclinar-me para o inválido caído à beira do caminho?
Devo anima-lo, erguê-lo, arrasta-lo comigo e gastar a minha força ardente a
tratar desse cadáver impotente que, alguns passos adiante, cairá de novo,
prostrado? Como havemos nós de subir, se todas as nossas forças forem
aplicadas em proteger e erguer os miseráveis, os oprimidos e até mesmo os
preguiçosos hipócritas que não têm medula nem alma?
Elevou-se um murmúrio.
- Silêncio! - exclamou o estrangeiro numa voz de estentor. - Sois demasiado
fracos para confessardes que é assim mesmo como eu digo. Desejais enterrar-
vos eternamente no pântano. Julgais ver o céu porque vedes o reflexo dele no
regato. Ora, compreendei-me bem. Ligaram a nossa força à terra. É preciso
que ela se apague miseravelmente nos braseiros da misericórdia. Deve servir
apenas para acender o incenso da piedade, para produzir os vapores que nos
entorpecem os sentidos. Ela, essa força que poderia elevar-se para o céu como
uma grande chama livre e jubilosa!
Todos se calaram. Sorridente, o estranho desconhecido prosseguiu:
- E se os nossos antepassados fossem macacos, animais selváticos movidos
por poderosos instintos naturais, e se um Messias lhes tivesse pregado o amor
do próximo, obedecendo à sua palavra eles ter-se-iam impedido de realizar
todo e qualquer desenvolvimento das suas possibilidades. Nunca a massa
múltipla e estúpida pode determinar o progresso; só o «único», o grande, que
odeia a populaça, obscuramente consciente da sua baixeza, pode caminhar
sem receios na estrada da vontade, com uma força divina e um sorriso
vitorioso nos lábios. A nossa geração também não esta no cume da pirâmide
infinita do devir. Também nós não significamos um termo. Também nós não
estamos ainda demasiado amadurecidos como vós presunçosamente acreditais.
Portanto, para a frente! Não havemos de elevar-nos pelo conhecimento, pela
vontade e pelo poder? Não devem os fortes conseguir escapar da atmosfera de
constrangimento e de inveja das massas para seguirem em direcção à luz?
«Ouçam-me todos! Encontramo-nos em pleno combate! À direita e à esquerda
de nós caem os nossos companheiros; caem vítimas de fraqueza, de doença, de
vício e de loucura... e de todos os outros projécteis que sobre eles vomita o
destino terrível. Deixem-nos cair, deixem-nos morrer abandonados,
miseráveis! Sejam duros, sejam terríveis, sejam impiedosos! É preciso
avançar. Para a frente!
«Para que são esses olhares de temor? Sois acaso cobardes? Receais, vós
também, ficar para trás? Pois então deixai-vos para estoirar como cães! Sou
forte, tenho direito de viver. O forte segue sempre em frente!... As fileiras
cerradas abrir-se-lhe-ão. Mas são pouco numerosos os grandes, os poderosos,
os divinos que, com os olhos cheios de sol, esperam a nova terra sagrada.
Talvez que isso ocorra dentro de milhares de anos. Talvez que então, com os
seus braços fortes, musculosos e imperiosos construam um templo sobre os
corpos dos doentes, dos fracos e dos enfezados... Um império eterno...»
Os olhos brilhavam-lhe. Levantara-se. A sua silhueta erguia-se com grandeza
sobrenatural. Parecia aureolado de luz. Tinha o aspecto de um deus.
O olhar pareceu demorar-se-lhe um momento na visão maravilhosa; depois
regressando, subitamente, à realidade concluiu:
- Vou através do mundo para matar o amor. Que a força seja convosco! Vou-
me através do mundo para pregar aos fortes: ódio, ódio e ainda ódio!
Todos se olharam, mudos. A baronesa, dominada por viva emoção, calcava o
lenço contra as pálpebras.
Quando ela levantou os olhos, o lugar ao canto da mesa estava vazio.
Percorreu-os a todos um frémito. Ninguém proferiu palavra. Os criados,
trémulos ainda, retomaram o serviço.
O gordo banqueiro, sentado em frente de mim, foi o primeiro a retomar o uso
da palavra.
Disse entre dentes:- Era um louco ou...
Não ouvi o resto da frase, porque o homem mastigava com a boca muito cheia
um pedaço de empadão de lagosta.