No mundo, a coisa é determinada, na arte ela o deve ser mais ainda: subtraída a todo o acidente, libertada de toda a penumbra, arrebatada ao tempo e entregue ao espaço, ela se torna permanência, ela atinge a eternidade. (...)
( RAINER MARIA RILKE )
Quero viver como se o meu tempo fosse ilimitado. Quero me recolher, me retirar das ocupações efêmeras. Mas ouço vozes, vozes benevolentes, passos que se aproximam e minhas portas se abrem...
( RAINER MARIA RILKE )
Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite:"Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, a dizer o que vê, vive, ama e perde. (...)
( RAINER MARIA RILKE )
É possível (...) que não se tenha visto, conhecido e dito nada de real e importante? É possível que se tenha tido milénios para olhar, reflectir e anotar e que se tenha deixado passar os milénios como uma pausa escolar, durante a qual se come fatias de pão com manteiga e uma maçã? Sim, é possível. É possível que, apesar das investigações e dos progressos, apesar da cultura, da religião e da filosofia, se tenha ficado na superfície da vida? É possível que até se tenha coberto essa superfície - que, apesar de tudo, seria qualquer coisa - com um pano incrivelmente aborrecido, de tal modo que se assemelhe aos móveis da sala durante as férias de Verão? Sim, é possível. É possível que toda a História Universal tenha sido mal-entendida? É possível que o passado seja falso, precisamente porque sempre se falou das suas multidões, como se dissertasse sobre uma aglomeração de pessoas, em vez de falar de uma única, em torno da qual elas estavam, porque se tratava de um desconhecido que morreu? Sim, é possível. É possível que se tenha julgado ser preciso recuperar o que aconteceu antes de se ter nascido? É possível que se tivesse de lembrar a cada um que ele, de facto é proveniente de todos os antecessores, tendo ele disso conhecimento e não devendo dar ouvidos a outros que soubessem outras coisas? Sim, é possível. É possível que todas estas pessoas conheçam em pormenor um passado que nunca houve? É possível que todas as realidades nada sejam para elas; que a sua vida decorra, desligada de tudo, como um relógio numa sala vazia? Sim, é possível É possível que nada se saiba das raparigas que, no entanto, vivem? É possível que se diga «as mulheres», «as crianças», «os rapazes» e não se faça a mínima ideia (apesar de toda a cultura não se faça a mínima ideia) de que há muito que estas palavras não têm plural, mas apenas inúmeros singulares? Sim, é possível. É possível que haja gente que diga «Deus» e julgue que se trate de algo comum a todos? - E veja-se apenas dois rapazinhos de escola: um compra um canivete, e o seu vizinho compra outro tal qual no mesmo dia. E uma semana depois mostram um ao outro os dois canivetes, e acontece que eles só muito de longe se parecem - tão diferentemente evoluíram em mãos diferentes. (Ora, diz a mãe de um deles a esse respeito: vocês têm sempre por força de desgastar logo tudo!). Ah, pois: é possível acreditar que se possa ter um Deus sem se recorrer a Ele? Sim, é possível. Porém, se tudo isto é possível, se tem mesmo só uma aparência de possibilidade - então, por tudo o que há no mundo, é preciso que aconteça alguma coisa. O primeiro indivíduo, o que teve estes pensamentos inquietantes, deve começar a fazer alguma coisa do que se perdeu; mesmo que seja um qualquer, certamente o menos indicado: mais nenhum há que o possa fazer.
O destino gosta de inventar desenhos e figuras. A sua dificuldade reside no que é complicado. A própria vida, porém, tem a dificuldade da simplicidade. Só tem algumas coisas de uma dimensão que nos excede. O santo, declinando o destino, escolhe estas coisas por amor a Deus. Mas que a mulher, segundo a sua natureza, tenha de fazer a mesma escolha em relação ao homem, isso evoca a fatalidade de todos os laços de amor: decidida e sem destino, como um ser eterno, fica ao lado dele, que se transformará. Sempre a amante ultrapassa o amado, porque a vida é maior do que o destino. A sua entrega quer ser sem medida: esta é a sua felicidade. A dor inominada do seu amor, porém, foi sempre esta: exigirem-lhe que limitasse essa entrega.
A volúpia carnal é uma experiência dos sentidos, análoga ao simples olhar ou à simples sensação com que um belo fruto enche a língua. É uma grande experiência sem fim que nos é dada; um conhecimento do mundo, a plenitude e o esplendor de todo o saber. O mal não é que nós a aceitemos; o mal consiste em quase todos abusarem dessa experiência, malbaratando-a, fazendo dela um mero estímulo para os momentos cansados da sua existência.
Que farás tu, meu Deus, se eu perecer? Eu sou o teu vaso - e se me quebro? Eu sou tua água - e se apodreço? Sou tua roupa e teu trabalho Comigo perdes tu o teu sentido. Depois de mim não terás um lugar Onde as palavras ardentes te saúdem. Dos teus pés cansados cairão As sandálias que sou. Perderás tua ampla túnica. Teu olhar que em minhas pálpebras, Como num travesseiro, Ardentemente recebo, Virá me procurar por largo tempo E se deitará, na hora do crepúsculo, No duro chão de pedra. Que farás tu, meu Deus? O medo me domina.
Quem agora chora em algum lugar do mundo, Sem razão chora no mundo, Chora por mim. Quem agora ri em algum lugar na noite, Sem razão ri dentro da noite, Ri-se de mim. Quem agora caminha em algum lugar no mundo, Sem razão caminha no mundo, Vem a mim. Quem agora morre em algum lugar no mundo, Sem razão morre no mundo, Olha para mim.
Estão prontos, ali, como a esperar que um gesto só, ainda que tardio, possa reconciliar com tanto frio os corpos e um ao outro harmonizar; como se algo faltasse para o fim. Que nome no seu bolso já vazio há por achar? Alguém procura, enfim, enxugar dos seus lábios o fastio: em vão; eles só ficam mais polidos. A barba está mais dura, todavia ficou mais limpa ao toque do vigia, para não repugnar o circunstante. Os olhos, sob a pálpebra, invertidos, olham só para dentro, doravante.
No Jardin des Plantes, Paris De tanto olhar as grades seu olhar esmoreceu e nada mais aferra. Como se houvesse só grades na terra: grades, apenas grades para olhar. A onda andante e flexível do seu vulto em círculos concêntricos decresce, dança de força em torno a um ponto oculto no qual um grande impulso se arrefece. De vez em quando o fecho da pupila se abre em silêncio. Uma imagem, então, na tensa paz dos músculos se instila para morrer no coração.
Gazella Dorcas Mágico ser: onde encontrar quem colha duas palavras numa rima igual a essa que pulsa em ti como um sinal? De tua fronte se erguem lira e folha e tudo o que és se move em similar canto de amor cujas palavras, quais pétalas, vão caindo sobre o olhar de quem fechou os olhos, sem ler mais, para te ver: no alerta dos sentidos, em cada perna os saltos reprimidos sem disparar, enquanto só a fronte a prumo, prestes, pára: assim, na fonte, a banhista que um frêmito assustasse: a chispa de água no voltear da face.
Como alguém que jazesse, está de pé, sustentado por sua grande fé. Como mãe que amamenta, a tudo alheia, grinalda que a si mesma se cerceia. E as setas chegam: de espaço em espaço, como se de seu corpo desferidas, tremendo em suas pontas soltas de aço. Mas ele ri, incólume, às feridas. Num só passo a tristeza sobrevém e em seus olhos desnudos se detém, até que a neguem, como bagatela, e como se poupassem com desdém os destrutores de uma coisa bela.
Com um mover da fronte ele descarta tudo o que obriga, tudo o que coarta, pois em seu coração, quando ela o adentra, a eterna Vinda os círculos concentra. O céu com muitas formas Ihe aparece e cada qual demanda: vem, conhece -. Não dês às suas mãos ligeiras nem um só fardo; pois ele, à noite, vem à tua casa conferir teu peso, cheio de ira, e com a mão mais dura, como se fosses sua criatura, te arranca do teu molde com desprezo.
Duas velhas bacias sobrepondo suas bordas de mármore redondo. Do alto a água fluindo, devagar, sobre a água, mais em baixo, a esperar, muda, ao murmúrio, em diálogo secreto, como que só no côncavo da mão, entremostrando um singular objeto: o céu, atrás da verde escuridão; ela mesma a escorrer na bela pia, em círculos e círculos, constante- mente, impassível e sem nostalgia, descendo pelo musgo circundante ao espelho da última bacia que faz sorrir, fechando a travessia.
Como um fósforo a arder antes que cresça a flama, distendendo em raios brancos suas línguas de luz, assim começa e se alastra ao redor, ágil e ardente, a dança em arco aos trêmulos arrancos. E logo ela é só flama, inteiramente. Com um olhar põe fogo nos cabelos e com a arte sutil dos tornozelos incendeia também os seus vestidos de onde, serpentes doidas, a rompê-los, saltam os braços nus com estalidos. Então, como se fosse um feixe aceso, colhe o fogo num gesto de desprezo, atira-o bruscamente no tablado e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado, a sustentar ainda a chama viva. Mas ela, do alto, num leve sorriso de saudação, erguendo a fronte altiva, pisa-o com seu pequeno pé preciso.
Ele caminha e interrompe a cidade, que não existe em sua cela escura, como uma escura rachadura numa taça atravessa a claridade. Sombras das coisas, como numa folha, nele se riscam sem que ele as acolha: só sensações de tato, como sondas, captam o mundo em diminutas ondas: serenidade; resistência - como se à espera de escolher alguém, atento, ele soergue, quase em reverência, a mão, como num casamento.
O calor cola. A tarde arde e arqueja. Ela arfa, sem querer, nas leves vestes e num étude enérgico despeja a impaciência por algo que está prestes a acontecer: hoje, amanhã, quem sabe agora mesmo, oculto, do seu lado; da janela, onde um mundo inteiro cabe, ela percebe o parque arrebicado. Desiste, enfim, o olhar distante; cruza as mãos; desejaria um livro; sente o aroma dos jasmins, mas o recusa num gesto brusco. Acha que á faz doente.
Não: uma torre se erguerá do fundo do coração e eu estarei à borda: onde não há mais nada, ainda acorda o indizível, a dor, de novo o mundo. Ainda uma coisa, só, no imenso mar das coisas, e uma luz depois do escuro, um rosto extremo do desejo obscuro exilado em um nunca-apaziguar, ainda um rosto de pedra, que só sente a gravidade interna, de tão denso: as distâncias que o extinguem lentamente tornam seu júbilo ainda mais intenso.
Subia, algo subia, ali, do chão, quieto, no caule calmo, algo subia, até que se fez flama em floração clara e calou sua harmonia. Floresceu, sem cessar, todo um verão na árvore obstinada, noite e dia, e se soube futura doação diante do espaço que o acolhia. E quando, enfim, se arredondou, oval, na plenitude de sua alegria, dentro da mesma casca que o encobria volveu ao centro original.
O mundo estava no rosto da amada - e logo converteu-se em nada, em mundo fora do alcance, mundo-além. Por que não o bebi quando o encontrei no rosto amado, um mundo à mão, ali, aroma em minha boca, eu só seu rei? Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi. Mas eu também estava pleno de mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.
Quem se eu gritasse, me ouviria pois entre as ordens Dos anjos? E dado mesmo que me tomasse Um deles de repente em seu coração, eu sucumbiria Ante sua existência mais forte. Pois o belo não é Senão o início do terrível, que já a custo suportamos, E o admiramos tanto porque ele tranqüilamente desdenha Destruir-nos. Cada anjo é terrível. E assim me contenho pois, e reprimo o apelo De obscuro soluço. Ah! A quem podemos Recorrer então? Nem aos anjos nem aos homens, E os animais sagazes logo percebem Que não estamos muito seguros No mundo interpretado. Resta-nos talvez Alguma árvore na encosta que diariamente Possamos rever. Resta-nos a rua de ontem E a mimada fidelidade de um hábito, Que se compraz conosco e assim fica e não nos abandona. Ó e a noite, a noite, quando o vento cheio dos espaços Do mundo desgasta-nos o rosto -, para quem ela não é /sempre a desejada, Levemente decepcionante, que para o solitário coração Se impõe penosamente. Ela é mais leve para os amantes? Ah! Eles escondem apenas um com o outro a própria sorte. Não o sabes ainda? Atira dos braços o vazio Para os espaços que respiramos; talvez que os pássaros Sintam o ar mais vasto num vôo mais íntimo. Sim, as primaveras precisavam de ti.Muitas estrelas Esperavam que tu as percebesses. Do passado Erguia-se uma vaga aproximando-se, ou Ao passares sob uma janela aberta, Um violino se entregava. Tudo isso era missão. Mas a levaste ao fim? Não estavas sempre Distraído pela espera, como se tudo te ansiasse A bem amada? (onde queres abrigá-la Então, se os grandes e estranhos pensamentos entram E saem em ti e muitas vezes ficam pela noite.) Se a nostalgia te dominar, porém, cantas as amantes; muito Ainda falta para ser bastante imortal seu celebrado sentimento. Aquelas que tu quase invejaste, as desprezadas, que tu Achaste muito mais amorosas que as apaziguadas. Começa Sempre de novo o louvor jamais acessível; Pensa: o herói se conserva, mesmo a queda lhe foi Apenas um pretexto para ser : o seu derradeiro nascimento. As amantes, porém, a natureza exausta as toma Novamente em si, como se não houvesse duas vezes forças para realizá-las. Já pensaste pois em Gaspara Stampa O bastante para que alguma jovem, A quem o amante abandonou, diante do elevado exemplo Dessa apaixonada, sinta o desejo de tornar-se como ela? Essas velhíssimas dores afinal não se devem tornar Mais fecundas para nós? Não é tempo de nos libertarmos, Amando, do objeto amado e a ele tremendo resistirmos Como a flecha suporta à corda, para, concentrando-se no salto Ser mais do que ela mesma? Pois parada não há em /parte alguma. Vozes, vozes.Escuta, coração como outrora somente os santos escutavam: até que o gigantesco apelo levantava-os do chão; mas eles continuavam ajoelhados, inabaláveis, sem desviarem a atenção: eles assim escutavam. Não que tu pudesses suportar a voz de Deus, de modo algum. Mas escuta o sopro, a incessante mensagem que nasce do silêncio. Daqueles jovens mortos sobe agora um murmúrio em direção /a ti. Onde quer que penetraste, nas igrejas De Roma ou de Nápoles, seu destino não falou a ti, /tranqüilamente? Ou uma augusta inscrição não se impôs a ti Como recentemente a lousa em Santa Maria Formosa. Que eles querem de mim? Lentamente devo dissipar A aparência de injustiça que às vezes dificulta um pouco O puro movimento de seus espíritos. Certo, é estranho não habitar mais terra, Não mais praticar hábitos ainda mal adquiridos, Às rosas e outras coisas especialmente cheias de promessas Não dar sentido do futuro humano; O que se era, entre mãos infinitamente cheias de medo Não ser mais, e até o próprio nome Deixar de lado como um brinquedo quebrado. Estranho, não desejar mais os desejos. Estranho, Ver tudo o que se encadeava esvoaçar solto No espaço. E estar morto é penoso E cheio de recuperações, até que lentamente se divise Um pouco da eternidade. - Mas os vivos Cometem todos o erro de muito profundamente distinguir. Os anjos (dizem) não saberiam muitas vezes Se caminham entre vivos ou mortos. A correnteza eterna Arrebata através de ambos os reinos todas as idades Sempre consigo e seu rumor as sobrepuja em ambos. Finalmente não precisam mais de nós os que partiram cedo, Perde-se docemente o hábito do que é terrestre, como o /seio materno suavemente se deixa, ao crescer.Mas nós que de tão grandes mistérios precisamos, para quem do luto tantas vezes o abençoado progresso se origina - : poderíamos passar /sem eles? É vã a lenda de que outrora, lamentando Linos, A primeira música ousando atravessou o árido letargo, Que então no sobressaltado espaço, do qual um quase /divino adolescente escapou de súbito e para sempre, o vazio entrou naquela vibração que agora nos arrebata e consola e ajuda?
Mesa redonda no melhor hotel de N... Contra as paredes de mármore da alta e clara sala de jantar ondula o rumor humano e o barulho dos talheres. Apressados, como sombras mudas, os criados de casaca preta andam de cá para lá com as bandejas de prata. Nos baldes com gelo brilham garrafas de champanhe. Tudo cintila à luz das lâmpadas eléctricas: as taças, os olhos e as jóias das mulheres, os crânios luzidios dos cavalheiros e até mesmo as palavras que saltam como faúlhas. Quando são espirituosas, estala, mais perto ou mais longe, o chamejar agudo dum riso breve numa garganta feminina. Depois as senhoras comem a sopa fumegante em finas taças translúcidas, enquanto os jovens ajustam o monóculo e percorrem com um olhar crítico a mesa multicor. Eram todos eles frequentadores que se conheciam já. Mas, nesse dia, um desconhecido sentara-se numa das extremidades da mesa. Os homens deitaram-lhe um olhar rápido, porque o traje desse homem pálido e grave não era da última moda. Subia-lhe até ao queixo um alto colarinho branco e apertava-lhe o pescoço a grande gravata negra que se usava no começo do século. O casaco preto assentava-lhe nos ombros largos. O mais surpreendente eram os grandes olhos cinzentos do recém-chegado, que com olhar solene e poderoso parecia trespassar de lado a lado toda a assistência, e que brilhava como se algum longínquo desígnio nele incessantemente se reflectisse. Aquele olhar atraía os olhos das mulheres curiosas que o interrogavam em segredo. Murmuraram toda a espécie de suposições, tocaram-se com o pé, interrogaram-se, encolheram os ombros e, apesar de tudo, não conseguia explicar-se aquela presença. A baronesa polaca Vilovsky, jovem e espirituosa Witib, estava ao centro dos conservadores. Também ela parecia interessar-se pelo taciturno desconhecido. Os seus grandes olhos negros suspendiam-se com estranha insistência nos traços cavados do estrangeiro. A sua mão fina tamborilava nervosamente na toalha adamascada, fazendo brilhar a magnífica jóia que ornava um dos seus anéis. Com uma pressa impaciente e pueril, ora falava de um assunto, ora doutro, para depois se interromper bruscamente ao notar que o estrangeiro não tomava parte na conversação. Julgava-o um artista com muita habilidade e levava a conversa para os temas de arte mais diversos. Em vão. O desconhecido vestido de preto conservava o olhar perdido no vago. Mas a baronesa Vilovsky não abandonava a partida. - Já ouviu falar do terrível incêndio na aldeia de B...?- perguntou ela ao seu vizinho. E como lhe respondesse afirmativamente, acrescentou: - Proponho formarmos uma comissão para organizar um peditório e uma obra de beneficência em favor das vítimas desse incêndio. Lançou em volta olhares interrogadores. Vivas aprovações acolheram a proposta. Um sorriso sarcástico iluminou o rosto do desconhecido. A baronesa sentiu esse sorriso sem o ver. Uma grande cólera a agitava. - Está toda a gente de acordo? - observou ela num tom imperioso, que não admitia réplicas. E ouviu-se então um coro de vozes: - Sim, de acordo! Naturalmente! O conviva que me ficava defronte, um banqueiro de Colónia, com gesto eloquente, ia já a meter a mão no bolso que continha a sua carteira cheia de notas do banco. - Podemos contar consigo, senhor? - perguntou a baronesa ao estrangeiro. A sua voz tremia. O desconhecido pôs-se de pé e, em voz alta, sem olhar, num tom brutal, disse: - Não! A baronesa estremeceu. Sorriu contrafeita. Todos os olhos estavam fitos no estrangeiro. Este dirigiu o seu olhar à baronesa e prosseguiu: - A senhora comete um acto inspirado pelo amor; eu, pela minha parte, ando através do mundo com o propósito de matar o mesmo amor. Seja onde for que o encontre, assassino-o. E encontro-o muitas vezes em choupanas, nos castelos, nas igrejas e na natureza. Mas persigo-o impiedosamente. E da mesma maneira que na Primavera os ventos quebram a rosa que demasiado cedo desabrochou, assim também a minha grande e obstinada vontade a destrói: porque penso que a lei do amor nos foi prematuramente imposta. A sua voz ressoou cavernosa como o eco do som do sino às Ave-Marias. A baronesa fez menção de responder, mas o homem continuou: - Não me compreendeu ainda. Escute-me. Os homens não se encontravam amadurecidos quando o Nazareno veio até eles e lhes trouxe o amor. Na sua generosidade pueril e ridícula, julgava ele fazer-lhes bem. Para uma raça de gigantes, o amor teria sido um confortável travesseiro na brancura do qual poderiam com volúpia sonhar novos feitos. Mas para homens fracos é a extrema decadência. Um sacerdote católico que se encontrava presente levou a mão ao colarinho como se sentisse faltar-lhe o fôlego. - A extrema decadência!... - exclamava o estrangeiro. - Não falo do amor entre os sexos. Falo do amor do próximo, da caridade e da piedade, da graça e da indulgência. Não há piores venenos para a nossa alma! Um som indistinto se ouviu entre os espessos lábios do sacerdote. - Dize-me tu, ó Cristo: que fizeste? Parece-me que fomos educados como aqueles animais ferozes que se procuram desabituar dos seus mais profundos instintos, no propósito de lhes bater impunemente com um látego de domador quando eles se tornarem meigos. Da mesma maneira nos limaram os dentes e as garras e nos pregaram o amor do próximo. Arrancaram-nos das mãos o brilhante dardo da nossa vontade altiva e pregaram-nos o amor do próximo! E foi assim que nos entregaram nus à tempestade da vida, na qual incessantemente sobre nós caem as marretadas do destino, ao mesmo tempo que, por outro lado, se nos prega o amor do próximo! Todos, sustendo a respiração, escutavam. Os criados não se atreviam a mexer- se e mantinham-se firmes perto da mesa segurando nas mãos as bandejas de prata. As palavras do desconhecido, como um sopro violento de tempestade, rompiam o abafado silêncio. - E nós obedecemos - continuou ele. - Obedecemos cega e estupidamente a essa ordem insensata. Partimos em procura daqueles que tinham sede, dos que tinham fome, dos doentes, dos leprosos, dos fracos e nós próprios somos doentes e miseráveis. Sacrificamos a nossa vida para erguer aqueles que caíam, animar os que duvidavam, consolar os que estavam tristes, e nos próprios desesperamos. Aos que tinham assassinado as nossas mulheres e os nossos filhos, tinham lançado a discórdia nos nossos lares, não destruímos as suas próprias casas, e eles puderam esperar nelas calmamente o fim dos seus dias. Um terrível acento de zombaria fez-lhe tremer a voz, e continuou: - Aquele que celebram como Messias transformou o mundo inteiro num enorme hospício de doentes incuráveis. Os fracos, os miseráveis e os inválidos são seus filhos e seus favoritos. Então os fortes viriam ao mundo apenas para proteger, servir e velar por esses inermes seres? E se eu sinto em mim um fogoso entusiasmo, um entusiasmo intenso e celeste para a luz, se subo com firmeza o caminho escarpado e pedregoso, devo acaso, quando vejo já flamejar o divino fim, inclinar-me para o inválido caído à beira do caminho? Devo anima-lo, erguê-lo, arrasta-lo comigo e gastar a minha força ardente a tratar desse cadáver impotente que, alguns passos adiante, cairá de novo, prostrado? Como havemos nós de subir, se todas as nossas forças forem aplicadas em proteger e erguer os miseráveis, os oprimidos e até mesmo os preguiçosos hipócritas que não têm medula nem alma? Elevou-se um murmúrio. - Silêncio! - exclamou o estrangeiro numa voz de estentor. - Sois demasiado fracos para confessardes que é assim mesmo como eu digo. Desejais enterrar- vos eternamente no pântano. Julgais ver o céu porque vedes o reflexo dele no regato. Ora, compreendei-me bem. Ligaram a nossa força à terra. É preciso que ela se apague miseravelmente nos braseiros da misericórdia. Deve servir apenas para acender o incenso da piedade, para produzir os vapores que nos entorpecem os sentidos. Ela, essa força que poderia elevar-se para o céu como uma grande chama livre e jubilosa! Todos se calaram. Sorridente, o estranho desconhecido prosseguiu: - E se os nossos antepassados fossem macacos, animais selváticos movidos por poderosos instintos naturais, e se um Messias lhes tivesse pregado o amor do próximo, obedecendo à sua palavra eles ter-se-iam impedido de realizar todo e qualquer desenvolvimento das suas possibilidades. Nunca a massa múltipla e estúpida pode determinar o progresso; só o «único», o grande, que odeia a populaça, obscuramente consciente da sua baixeza, pode caminhar sem receios na estrada da vontade, com uma força divina e um sorriso vitorioso nos lábios. A nossa geração também não esta no cume da pirâmide infinita do devir. Também nós não significamos um termo. Também nós não estamos ainda demasiado amadurecidos como vós presunçosamente acreditais. Portanto, para a frente! Não havemos de elevar-nos pelo conhecimento, pela vontade e pelo poder? Não devem os fortes conseguir escapar da atmosfera de constrangimento e de inveja das massas para seguirem em direcção à luz? «Ouçam-me todos! Encontramo-nos em pleno combate! À direita e à esquerda de nós caem os nossos companheiros; caem vítimas de fraqueza, de doença, de vício e de loucura... e de todos os outros projécteis que sobre eles vomita o destino terrível. Deixem-nos cair, deixem-nos morrer abandonados, miseráveis! Sejam duros, sejam terríveis, sejam impiedosos! É preciso avançar. Para a frente! «Para que são esses olhares de temor? Sois acaso cobardes? Receais, vós também, ficar para trás? Pois então deixai-vos para estoirar como cães! Sou forte, tenho direito de viver. O forte segue sempre em frente!... As fileiras cerradas abrir-se-lhe-ão. Mas são pouco numerosos os grandes, os poderosos, os divinos que, com os olhos cheios de sol, esperam a nova terra sagrada. Talvez que isso ocorra dentro de milhares de anos. Talvez que então, com os seus braços fortes, musculosos e imperiosos construam um templo sobre os corpos dos doentes, dos fracos e dos enfezados... Um império eterno...» Os olhos brilhavam-lhe. Levantara-se. A sua silhueta erguia-se com grandeza sobrenatural. Parecia aureolado de luz. Tinha o aspecto de um deus. O olhar pareceu demorar-se-lhe um momento na visão maravilhosa; depois regressando, subitamente, à realidade concluiu: - Vou através do mundo para matar o amor. Que a força seja convosco! Vou- me através do mundo para pregar aos fortes: ódio, ódio e ainda ódio! Todos se olharam, mudos. A baronesa, dominada por viva emoção, calcava o lenço contra as pálpebras. Quando ela levantou os olhos, o lugar ao canto da mesa estava vazio. Percorreu-os a todos um frémito. Ninguém proferiu palavra. Os criados, trémulos ainda, retomaram o serviço. O gordo banqueiro, sentado em frente de mim, foi o primeiro a retomar o uso da palavra. Disse entre dentes:- Era um louco ou... Não ouvi o resto da frase, porque o homem mastigava com a boca muito cheia um pedaço de empadão de lagosta.