Morrer,só se morre só. O moribundo se isola numa redoma de vidro,ele e a sua agonia. Nada ajuda nem acompanha.
( Frases e Pensamentos de Rachel de Queiroz) Mensagem sobre Morte
A Gente nasce e morre só. E talvez por isso mesmo é que se precisa tanto de viver acompanhado.
( Frases e Pensamentos de Rachel de Queiroz) Mensagem sobre solidão
Quando a moça da cidade chegou veio morar na fazenda, na casa velha... Tão velha! Quem fez aquela casa foi o bisavô... Deram-lhe para dormir a camarinha, uma alcova sem luzes, tão escura! mergulhada na tristura de sua treva e de sua única portinha... A moça não disse nada, mas mandou buscar na cidade uma telha de vidro... Queria que ficasse iluminada sua camarinha sem claridade... Agora, o quarto onde ela mora é o quarto mais alegre da fazenda, tão claro que, ao meio dia, aparece uma renda de arabesco de sol nos ladrilhos vermelhos, que - coitados - tão velhos só hoje é que conhecem a luz doa dia... A luz branca e fria também se mete às vezes pelo clarão da telha milagrosa... Ou alguma estrela audaciosa careteia no espelho onde a moça se penteia. Que linda camarinha! Era tão feia! - Você me disse um dia que sua vida era toda escuridão cinzenta, fria, sem um luar, sem um clarão... Por que você na experimenta? A moça foi tão vem sucedida... Ponha uma telha de vidro em sua vida!
Eis que temos aqui a Poesia,
a grande Poesia.
Que não oferece signos
nem linguagem específica, não respeita
sequer os limites do idioma. Ela flui, como um rio.
como o sangue nas artérias,
tão espontânea que nem se sabe como foi escrita.
E ao mesmo tempo tão elaborada -
feito uma flor na sua perfeição minuciosa,
um cristal que se arranca da terra
já dentro da geometria impecável
da sua lapidação.
Onde se conta uma história,
onde se vive um delírio; onde a condição humana exacerba,
até à fronteira da loucura,
junto com Vincent e os seus girassóis de fogo,
à sombra de Eva Braun, envolta no mistério ao
mesmo tempo
fácil e insolúvel da sua tragédia.
Sim, é o encontro com a Poesia.
Você começa quando aprende a juntar as letras; faz frases engraçadinhas que seu avô acha gênio e mostra a todo mundo. Então você se convence de que é escritor. Essa convicção representa um compromisso, desde aquela idade remota, "já que é um escritor, é obrigado a escrever". Se os pais são medíocres intelectualmente, o exercício da suposta vocação torna-se fácil. Mas quando os pais são ou literatos ou simples letrados muito mais lhe é exigido. Você tem que apresentar originalidade ao lado da qualidade. Isso quer dizer que você, desde esses inícios, já padece a maldição do escritor: ter estilo e idéias animando esse estilo. Em geral, os pais se embasbacam diante de qualquer manifestação intelectual precoce dos filhotes. Se eles não têm formação intelectual sofisticada, tudo bem. Qualquer paráfrase dos livros da escola já lhes parece excelente. Mas pais sofisticados é fogo. Não precisa nem que eles leiam os modernos, Drummond, Guimarães Rosa, Cecília Meireles, para só citar os mais ilustres e defuntos. Pai letrado quer que o filho faça pequenas frases, emita conceitos, tudo dentro da baixa qualidade que a sua literatice considera excelente. Portanto, para a qualidade da obra do filho, é melhor que os pais não tenham fumaças literárias e deixem que o menino seja o seu próprio juiz. E, se ele tiver talento, pode ir longe, liberto dos padrões da mediocridade domé stica. Esse tipo de condenação não se pode fazer aos pais que realmente ou produzem ou pelo menos sabem apreciar uma boa peça literária. O filho, em geral, esconde deles as suas primícias, receoso do julgamento. E ele se faz censor de si mesmo, olhando com os olhos do pai aquilo que o pai não vê. Existe ainda outra maneira de ver estimulada a vocação literária dos jovens. É uma casa aberta onde todo mundo lê, o bom e o ruim, mas onde igualmente todo mundo tem direito à crítica, a falar o que pensa sobre a produção de pais, irmãos, tios e visitas íntimas, numa espécie de tribunal literário exercido à mesa de jantar. Lembro-me da casa de Aníbal Machado, ponto obrigatório dos principiantes ou recé m-chegados que lá iam (levados por algum "freguês" semanal de Aníbal). Sendo o dono da casa quem era, além de excelente escritor ele próprio, um animador generoso e um fino crítico de letras, a sua casa era uma espécie de fórum literário, referência obrigatória de quem pretendia se apresentar como escritor: "Ainda no domingo, na casa do Aníbal, ouvi o Vinícius dizer ao Conde que o modernismo morreu..." e se desmentindo a si próprio acabava mostrando o seu último poema - fina flor do modernismo, claro. Mas voltando ao assunto da vocação literária: para escrever, tem que haver o dom da escrita, tal como para o cantor é preciso o dom da voz. Todos conhecemos pessoas inteligentes, até brilhantes na sua especialidade - medicina, arquitetura, engenharia, economia e, na verdade, por mais sabedores que sejam no seu ofício, não conseguem exprimir na palavra escrita essa sabedoria. Deus sempre é parco na concessão de dotes: os que acumulam são sempre contados. Por que as boas cantoras líricas geralmente têm tendência a engordar? E por que as de bela silhueta quase sempre só dispõem de um fio mal afinado de voz? Os grandes oradores dificilmente são bons escritores. Parece que eles necessitam do estímulo de uma audiência cativa para suas frases de efeito. O que desencadeia o seu talento não é uma página de papel em branco, mas uma audiência presente. E, pensando bem, isso está certo: por que um único indivíduo pode receber juntos os dons da escrita e da eloqüência? Eu, por mim, sempre espero descobrir nos outros os dons ocultos pela modéstia ou timidez. Verdade que nem sempre tenho êxito; Nosso Senhor parece que só distribui tais dotes com a mão esquerda...
Quarenta anos, quarenta e cinco. Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem suas alegrias, as sua compensações - todos dizem isso, embora você pessoalmente, ainda não as tenha descoberto - mas acredita. Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade. Não de amores nem de paixão; a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas, que hoje são seus filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento e prestações, você não encontra de modo algum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres - não são mais aqueles que você recorda. E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis - nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino que se lhe é "devolvido". E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito sobre ele, ou pelo menos o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo ou decepção, se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração. Sim, tenho a certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes, que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis. Aliás, desconfio muito de que netos são melhores que namorados, pois que as violências da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos. Se o Doutor Fausto fosse avô, trocaria calmamente dez Margaridas por um neto... No entanto! Nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave maior, a grande rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não deixa por isso de ser a mãe do neto. Não importa que ela hipocritamente, ensine a criança a lhe dar beijos e a lhe chamar de "vovozinha" e lhe conte que de noite, às vezes, ele de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da amante nos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com ele, dá-lhe banho, veste-o, embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar e o ô nus de castigar. Já a avó não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, "não ralha nunca". Deixa lambuzar de pirulito. Não tem a menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso dos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer croquetes, tomar café, mexer na louça, fazer trem com as cadeiras na sala, destruir revistas, derramar água no gato, acender e apagar a luz elé trica mil vezes se quiser - e até fingir que está discando o telefone. Riscar a parede com lápis dizendo que foi sem querer - e ser acreditado! Fazer má-criação aos gritos e em vez de apanhar ir para os braços do avô, e lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação moderna... Sabe-se que, no reino dos céus, o cristão defunto desfruta os mais requintados prazeres da alma. Porém não estarão muito acima da alegria de sair de mãos dadas com o seu neto, numa manhã de sol. E olhe que aqui embaixo você ainda tem o direito de sentir orgulho, que aos bem-aventurados será defeso. Meu Deus, o olhar das outras avós com seus filhotes magricelas ou obesos, a morrerem de inveja do seu maravilhoso neto! E quando você vai embalar o neto e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe reconhece, sorri e diz "Vó", seu coração estala de felicidade, como pão ao forno. E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe castiga, e ele olha para você, sabendo que, se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade. Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menino - involuntariamente! - bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beicinho pronto para o choro; e depois o sorriso malandro e aliviado porque "ninguém" se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, vó? Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague.