Oh,noite,meiga irmã da poesia.
( Frases e Pensamentos de Narcisa Amália) Mensagem sobre Poesia
Suponho ter sido eu, no Brasil, quem primeiro ergueu a voz clamante contra o estado de ignorância e de abatimento em que jazíamos, em artigos que denominei - ‘A mulher no séc. XIX’ e ‘A emancipação da mulher’
A essa voz, antes - magoado queixume de vítima em hora de desfalecimento profundo, que alarmante brado de revolta, responderam-me menos delicadamente alguns cavalheiros da imprensa paulista (...), recearam, porventura, que, a um meu aceno, suas esposas abandonassem o pot au feu e, tomando o bordão de peregrinas, marchassem em demanda da terra da emancipação (...)
Ao exemplo dos banhistas, no mar, ao vir a onda, mergulhei para deixar passar o vagalhão dos protestos (...) Mas... colheu-me de surpresa a nevrose cardíaca, enfraquecendo-me a energia, inutilizando-me absolutamente para as rudes lutas da inteligência, para as pugnas incruentas, mas extenuantes, da imprensa...
Still visit thus my nights, for you reserved, And mount my soaring soul thougts like yours. (James Thomson) XX Meu anjo inspirador não tem nas faces As tintas coralíneas da manhã,; Nem tem nos lábios as canções vivaces Da cabocla pagã! Não lhe pesa na fronte deslumbrante Coroa de esplendor e maravilhas, Nem rouba ao nevoeiro flutuante As nítidas mantilhas. Meu anjo inspirador é frio e triste Como o sol que enrubesce o céu polar! Trai-lhe o semblante pálido - do antiste O acerbo meditar! Traz na cabeça estema de saudades, Tem no lânguido olhar a morbideza; Veste a clâmide eril das tempestades, E chama-se - Tristeza!...
No silêncio das noites perfumosas, Quando a vaga chorando beija a praia, Aos trêmulos rutilos das estrelas, Inclino a triste fronte que desmaia. E vejo o perpassar das sombras castas Dos delírios da leda mocidade; Comprimo o coração despedaçado Pela garra cruenta da saudade. Como é doce a lembrança desse tempo Em que o chão da existência era de flores, Quando entoava o múrmur das esferas A copla tentadora dos amores! Eu voava feliz nos ínvios serros Empós das borboletas matizadas... Era tão pura a abóbada do elísio Pendida sobre as veigas rociadas!... Hoje escalda-me os lábios riso insano, É febre o brilho ardente de meus olhos: Minha voz só retumba em ai plangente, Só juncam minha senda agros abrolhos. Mas que importa esta dor que me acabrunha, Que separa-me dos cânticos ruidosos, Se nas asas gentis da poesia Eleva-me a outros mundos mais formosos?!... Do céu azul, da flor, da névoa errante, De fantásticos seres, de perfumes, Criou-me regiões cheias de encanto, Que a luz doura de suaves lumes! No silêncio das noites perfumosas Quando a vaga chorando beija a praia, Ela ensina-me a orar, tímida e crente, Aquece-me a esperança que desmaia. Oh! Bendita esta dor que me acabrunha, Que separa-me dos cânticos ruidosos, De longe vejo as turbas que deliram, E perdem-se em desvios tortuosos!...
a Ezequiel Freire Dirás que é falso. Não. É certo. Desço Ao fundo d’alma toda vez que hesito... Cada vez que uma lágrima ou que um grito Trai-me a angústia - ao sentir que desfaleço... E toda assombro, toda amor, confesso, O limiar desse país bendito Cruzo: - aguardam-me as festas do infinito! O horror da vida, deslumbrada, esqueço! É que há dentro vales, céus, alturas, Que o olhar do mundo não macula, a terna Lua, flores, queridas criaturas, E soa em cada moita, em cada gruta, A sinfonia da paixão eterna!... - E eis-me de novo forte para a luta.