A demasiada atenção que se emprega em observar os defeitos dos outros, faz que se morra sem ter tido tempo de conhecer os próprios
( La Bruyère )
A gentileza faz com que o homem pareça exteriormente, como deveria ser interiormente
( La Bruyère )
A maior parte dos homens utiliza a melhor parte da vida para tornar a outra infeliz
( La Bruyère )
A maioria das mulheres quase não têm princípios: conduzem-se pelo coração e, quanto aos seus costumes, dependem daqueles a quem amam
( La Bruyère )
A modéstia é para o mérito o que as sombras são para um quadro. Dão-lhe forma e relevo
( La Bruyère )
A natureza é apenas para quem vive no campo
( La Bruyère )
A polidez nem sempre inspira a bondade, a equidade, a complacência, a gratidão; mas, pelo menos, dá-lhes a aparência e faz aparecer o homem por fora como deveria ser por dentro
( La Bruyère )
A tortura é uma invenção maravilhosa e absolutamente segura para causar a perda de um inocente
( La Bruyère )
A troça é muitas vezes pobreza de espírito
( La Bruyère )
A verdadeira inteligência consiste em dar valor à dos outros
( La Bruyère )
A vida, quando é miserável, custa a suportar; se é feliz, é horrível perdê-la. Uma coisa equivale à outra
( La Bruyère )
Aqueles que gastam mal o seu tempo são os primeiros a queixar-se da sua brevidade
( La Bruyère )
Arrependemo-nos raramente de falar pouco, e muito frequentemente de falar demais: máxima usada e trivial, que todo o mundo sabe e que ninguém pratica
( La Bruyère )
As coisas maiores só devem ser ditas com simplicidade; a ênfase estraga-as. As menores precisam de ser ditas com solenidade; elas só se sustentam pelo modo de expressão, pela atitude e pelo tom
( La Bruyère )
As crianças não têm passado, nem futuro, e coisa que nunca nos acontece, gozam o presente
( La Bruyère )
As mulheres prendem-se aos homens pelos favores que lhes concedem; os homens curam-se da sua paixão por esses mesmos favores
( La Bruyère )
As mulheres são dos extremos: são melhores ou piores do que os homens
( La Bruyère )
Até mesmo os homens honestos precisam de patifes à sua volta. Existem coisas que não se podem pedir às pessoas honestas para fazerem
( La Bruyère )
Cada virtude apenas requer um homem; apenas a amizade requer dois
( La Bruyère )
De um homem que não ama mais, uma mulher esquece até mesmo os favores que ele lhe fez
( La Bruyère )
Depois do espírito de discernimento, o que há de mais raro no mundo são os diamantes e as pérolas
( La Bruyère )
Desejamos fazer toda a felicidade, ou, não sendo isso possível, toda a infelicidade daqueles a quem amamos
( La Bruyère )
Devemos calar-nos acerca dos poderosos, há quase sempre lisonja em dizer-se bem, há perigo em dizer-se mal enquanto estão vivos e cobardia após a sua morte
( La Bruyère )
Entre todas as expressões diferentes que pode tomar cada um dos nossos pensamentos só há uma que seja boa
( La Bruyère )
Existem pais estranhos, dos quais a vida inteira não parece ocupada senão em preparar razões para os filhos se consolarem pela morte deles
( La Bruyère )
Há apenas duas formas de subir na vida: pelo nosso engenho ou pela estupidez dos outros
( La Bruyère )
Há encontros na vida em que a verdade e a simplicidade são o melhor artifício do mundo
( La Bruyère )
Há uma certa vergonha em sermos felizes perante certas misérias
( La Bruyère )
Não construais estátuas aos vossos heróis, é melhor erguer estátuas ás vossas vítimas
( La Bruyère )
Não existe vício que não tenha uma falsa semelhança com uma virtude e que disso não tire proveito
( La Bruyère )
Não há nada que os homens mais gostem de conversar e que menos poupem do que a sua própria vida
( La Bruyère )
Não há no mundo exagero mais belo que a gratidão
( La Bruyère )
Não poder suportar todos os maus carácteres de que a sociedade está cheia não revela bom carácter: e isso é indispensável no comércio das peças de ouro e da moeda
( La Bruyère )
Não se deve julgar o mérito de um homem pelas suas grandes qualidades, mas pelo uso que sabe fazer delas
( La Bruyère )
Não se pode ir longe na amizade sem se estar disposto a perdoar os pequenos defeitos um ao outro
( La Bruyère )
O aborrecimento entrou no mundo pela mão da preguiça
( La Bruyère )
O amor começa pelo amor; não se pode passar de uma forte amizade senão para um amor fraco
( La Bruyère )
O amor e a amizade excluem-se mutuamente
( La Bruyère )
O avarento gasta mais no dia da sua morte do que gastou em dez anos de vida, e o seu herdeiro mais em dez meses do que ele na vida inteira
( La Bruyère )
O ciúme nunca está isento de certa espécie de inveja, e frequentemente se confundem essas duas paixões
( La Bruyère )
O dever dos juizes é fazer justiça; a sua profissão, a de deferi-la. Alguns conhecem o próprio dever e exercem a profissão
( La Bruyère )
O escravo apenas tem um senhor, o ambicioso tem tantos quantos lhe puderem ser úteis para vencer
( La Bruyère )
O favor coloca o homem acima dos seus iguais, e a sua queda abaixo deles
( La Bruyère )
O homem honrado nunca jura; contenta-se com dizer: isto é ou isto não é. O seu carácter jura por ele
( La Bruyère )
O homem que diz não ter nascido feliz, podia ao menos vir a sê-lo mediante a felicidade dos amigos e parentes. A inveja priva-o deste ultimo recurso
( La Bruyère )
O interior das famílias é muitas vezes perturbado por desconfianças, ciúmes e antipatias, e enganam-nos as aparências de satisfação, calma e cordialidade, fazendo-nos supor uma paz que não existe; poucas há que ganham em ser aprofundadas
( La Bruyère )
O prazer de criticar priva-nos de sermos profundamente tocados por coisas bonitas
( La Bruyère )
O prazer mais delicado é o de dar prazer a alguém
( La Bruyère )
O tempo, que fortalece as amizades, enfraquece o amor
( La Bruyère )
Os filhos seriam, talvez, mais caros a seus pais e, reciprocamente, os pais aos filhos, sem o título de herdeiros
( La Bruyère )
Os homens desejam ser escravos em qualquer parte e colher aí a força para dominar noutro sítio
( La Bruyère )
Os que fazem bem são os únicos que mereceriam ser invejados, se não houvesse ainda uma mais vantajosa solução, que é fazer melhor que eles
( La Bruyère )
Para mandar muito tempo e absolutamente sem alguém é indispensável ter a mão leve e, nunca lhe fazer sentir, por pouco que seja, a sua dependência
( La Bruyère )
Para o homem, apenas há três acontecimentos: nascer, viver e morrer. Ele não sente o nascer, sofre ao morrer e esquece-se de viver
( La Bruyère )
Pensar só em si e no presente é uma fonte de erro em política
( La Bruyère )
Quase ninguém se apercebe, por si próprio, do mérito de outra pessoa
( La Bruyère )
Quem afirma que não é feliz, poderia sê-lo com a felicidade do próximo, se a inveja lhe não tirasse esse último recurso
( La Bruyère )
Se a pobreza é a mãe dos crimes, a falta de espírito é o seu pai
( La Bruyère )
Se queremos ser estimados, devemos viver com pessoas estimadas
( La Bruyère )
Ser-se livre não é nada fazer, é ser-se o único árbitro daquilo que se faz ou daquilo que se não faz
( La Bruyère )
Somos tão responsáveis por amar sempre como o somos por nunca amar
( La Bruyère )
Tememos a velhice, à qual não temos a certeza de poder chegar
( La Bruyère )
Todo o espírito que existe no mundo é inútil para quem não o tem; ele não tem perspectivas sobre nada e é incapaz de aproveitar as dos outros
( La Bruyère )
Todo o nosso mal provém de não podermos estar sozinhos: daí o jogo, o luxo, a dissipação, o vinho, as mulheres, a ignorância, a desconfiança, o esquecimento de nós mesmos e de Deus
( La Bruyère )
Um devoto é aquele que, sob um rei ateu, seria ateu
( La Bruyère )
Um homem que acaba de arranjar um emprego já não faz uso do espírito e da razão para regrar a sua conduta e as suas atitudes perante os outros: toma de empréstimo a regra do seu posto e da sua situação; donde o esquecimento, a altivez, a arrogância, a dureza e a ingratidão
( La Bruyère )
Uma coisa essencial à justiça que se deve aos outros é fazê-la, prontamente e sem adiamentos; demorá-la é injustiça
( La Bruyère )
Uma mulher insensível é aquela que ainda não encontrou aquele a quem deve amar
( La Bruyère )
É a profunda ignorância que inspira o tom dogmático
( La Bruyère )
É alcançar muito de um amigo se, tendo subido ao poder, ainda se recorda de nós
( La Bruyère )
É das dificuldades que nascem os milagres
( La Bruyère )
É mais vulgar ver um amor absoluto do que uma amizade perfeita
( La Bruyère )
É por fraqueza que odiamos um inimigo e pensamos em nos vingar; é por preguiça que nos acalmamos, desistindo da vingança
( La Bruyère )
É preciso que um autor receba com igual modéstia os elogios e as críticas que se fazem às suas obras
( La Bruyère )
É preciso rirmos antes de sermos felizes, sob pena de morrermos antes de ter rido
( La Bruyère )
É preciso um espírito especial para se fazer fortuna, sobretudo uma grande fortuna; não se trata nem do espírito bom nem do belo, nem do grande nem do sublime, nem do forte nem do delicado; não sei precisamente de qual se trata, e espero que alguém me possa esclarecer a tal respeito
( La Bruyère )
Entre todas as diferentes expressões que podem reproduzir um único dos nossos pensamentos só há uma que seja a boa. Nem sempre a encontramos ao falar ou escrever; entretanto, o facto é que ela existe, que tudo o que não é ela é fraco e não satisfaz a um homem de espírito que deseja fazer-se entender
( La Bruyère )
Do ódio à amizade a distância é menor que do ódio à antipatia
( La Bruyère )
No amor, o logro vai quase mais longe do que a desconfiança
( La Bruyère )
No mundo, apenas há duas maneiras de subirmos, ou graças à nossa habilidade, ou mediante a imbecilidade dos outros
( La Bruyère )
O homem que vive na indiferença, é aquele que ainda não viu a mulher que deve amar
( La Bruyère )
Os lugares de chefia fazem maiores os grandes homens, e mais pequenos os homens pequenos
( La Bruyère )
À força de fazermos novos contratos e de vermos o dinheiro crescer nos nossos cofres, acabamos por nos julgarmos inteligentes e quase capazes de governar
( La Bruyère )
Enquanto os homens estiverem sujeitos a morrer, gostando de viver, os médicos serão metidos a ridículo e bem pagos
( La Bruyère )