É preciso sofrer depois de ter sofrido,e amar,e mais amar,depois de ter amado
( Frases e Pensamentos de Guimarães Rosa) Mensagem sobre Amor
Se todo animal inspira ternura,o que houve,então,com os homens?
( Frases e Pensamentos de Guimarães Rosa) Mensagem sobre Poesia
Bem abaixo das colinas de ondas verdes, onde o sol se refrata em agulhas frias, descem todas as sereias dos mares e dos rios, irreais e lentas , como espectros de vidro, para os palácios de madrépora de Anfitrite, em vale côncavo, transparente e verde, num recanto abissal, como uma taça cheia, entre bosques e sargaços, espumosos, e rígidos jardins geométricos de coral... Por entre os delfins , sentinelas de Possêidon, afundam, suspensas , soltas, como grandes algas, carregando os jovens afogados: Ondinas das praias , flexosas, Nixes da água furtacor do Elba , Havefrus do Sund e Russalkas do Don ... Loreley traz no esmalte doce dos olhos duas gotas do Reno... E danaides Laboriosas se desviam dos cardumes De Nereidas, que imergem, ondulando as caudas palhetadas dos seus vestidos justos de lamé... Mas a Iara não veio!... Mas a Iara não vem!... Porque Iara tem sangue, porque a Iara tem carne, sangue de mulher moça da terra vermelha, carne de peixe da água gorda do rio... Iara de olhos verdes de muiraquitã, cintura pra cima de cunhantã cintura pra baixo de tucunaré... que veio, dormindo , Purus abaixo, filha do filho do rei dos peixes como uma índia branca cuchinauá... Lá bem pra trás da boca aberta do rio, onde solta seus diabos o bicho feroz da pororoca, ela ficou, cheia de medo, brasiliana , tapuia , morena, Tão orgulhosa, Que não quer ser desprezada pelas outras... E a Iara é preguiçosa, tão preguiçosa, que não canta mais as trovas lentas em nhheengatu : -- Iquê , ianê retama icu, Paraná inhana tumassaua quitó... Nem mais se esforça em seduzir o canoeiro mura ou o seringueiro, meio vestida com gaze das águas , na renda trançada dos igarapés... E eu tenho de chorar: -- Enfeitiça-me ó Iara, que eu vim aqui pra me deixar vencer... Mas custa-me encontrá-la, e só à noite sem bordas dessas terras grandes, quando a lua e as ninféias desabrocham soltas, posso beijá-la , nua , dormida, esguia, bronzeada, oleosa, na concha carmesim de uma vitória-régia , tomando o banho longo de perfume e luar...
Veio ao meu quarto um besouro de asas verdes e ouro, e fez do meu quarto uma joalharia...
Distância sentimental Mesmo ao sonhar contigo, só consigo que me ames noutro sonho dentro do meu sonho primitivo...
Pudor estóico Acuado entre brasas um escorpião volve o dardo e faz o hara-kiri...
Encorajmento Meu corre a ti com velas enfunadas... Podes dar-lhe um porto, sem nenhum receio: ele não traz âncora...
Medo da felicidade Estremecemos juntos... Que Potêcia má será a soberana desse vento frio que passou?...
Mal-entendido Na boda de um camarão com uma lagosta, levantaram um brinde ao transatlântico que passou por cima para os cumprimentar...
Definição O cigarro de fumaça impalpável e brasa colorida, que se afunda a si mesmo num cinzeiro, será um poeta?...
Epigrama Ó lua cheia, ocular de um longo telescópio branco que devassa o pais dos amores platônicos...
Madrigal gravado em laca Quando a borboleta coroou a flor amarela os lírios , em ângulo reto com seus caules, fizeram uma profunda saudação...
Para os almanaques No meu relógio, de uma para outra hora, quando o ponteiro menor sai a levar lembranças , passa-lhe a frente o grande, transportando intrigas...
Falta de armas Dois caracóis chocaram, de leve, as suas casas, e mexeram tentáculos , um dia inteiro, pedindo-se mil desculpas...
Oração O louva-deus, ereto, num caule de junquilho, reza , de mãos postas, com punhais cruzados, como um bandido calabrês...
Justificação Ponham o Amazonas ao pé do Himalaia , e ali nascerá, depressa, uma raça de homens pequeninos...
Paisagem A cascavel chocalha na moita, anunciando grátis, um destino certo...
Já não preciso de rir. Os dedos longos do medo largaram minha fronte. E as vagas do sofrimento me arrastaram para o centro do remoinho da grande força, que agora flui, feroz, dentro e fora de mim... Já não tenho medo de escalar os cimos onde o ar limpo e fino pesa para fora, e nem deixar escorrer a força de dos meus músculos, e deitar-me na lama, o pensamento opiado... Deixo que o inevitável dance, ao meu redor, a dança das espadas de todos os momentos. e deveria rir , se me retasse o riso, das tormentas que poupam as furnas da minha alma, dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...
De brejo em brejo, os sapos avisam: --A lua surgiu!... No alto da noite as estrelinhas piscam, puxando fios, e dançam nos fios cachos de poetas. A lua madura Rola,desprendida, por entre os musgos das nuvens brancas... Quem a colheu, quem a arrancou do caule longo da via-láctea?... Desliza solta... Se lhe estenderes tuas mãos brancas, tla cairá...
No lombo de pedra da cachoeira clara as águas se ensaboam antes de saltar. E lá embaixo, piratingas, pacus e dourados dão pulos de prata, de ouro e de cobre, querendo voltar, com medo do poço da quarta volta do rio, largo, tranqüilo, tão chato e brilhante, deitado a meio bote como uma boipeva branca. Na água parada, entre as moitas de sarãs e canaranas, o puraquê tem pensamentos de dois mil volts. À sombra dos mangues, que despetalam placas vermelhas, dois botos zarpam, resfolengando, com quatro jorros, a todo vapor. E os jacarés cumpridos, de olhos esbugalhados, soltam latidos , e vão fugindo, estabanados, às rabanadas, espadanando, porque do fundo do grande remanso, onde ninguém acha o fundo, vem um rugido , vem um gemido, tão rouco e feio, que as ariranhas pegam no choro, como meninos. O canoeiro que vem no remo, desprevenido, ouve o gemido e fica a tremer. É o caboclo d’água, todo peludo, todo oleoso, que vem subindo lá das profundas, e a mão enorme,preta e palmada, de garras longas, pega o rebordo da canoinha quase a virar. E o canoeiro, de facão pronto, fica parado, rezando baixo, sempre a tremer Crescendo d’água ,lá vem a máscara, negra e medonha, de um gorila de olhar humano, o Caboclo d’água ameaçador. E o canoeiro já não tem medo, porque o Caboclo o olhou de frente, todo molhado, com olhos tristonhos,rosto choroso, quase falando, quase perguntando pela ingrata Iara, que, já faz tempo, se foi embora, que há tantos anos o abandonou...
O trem estacou, na manhã fria, num lugar deserto, sem casa de estação: a parada do Leprosário... Um homem saltou, sem despedidas, deixou o baú à beira da linha, e foi andando. Ninguém lhe acenou... Todos os passageiros olharam ao redor, com medo de que o homem que saltara tivesse viajado ao lado deles... Gravado no dorso do bauzinho humilde, não havia nome ou etiqueta de hotel: só uma estampa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro... O trem se pôs logo em marcha apressada, e no apito rouco da locomotiva gritava o impudor de uma nota de alívio... Eu quis chamar o homem, para lhe dar um sorriso, mas ele ia já longe, sem se voltar nunca, como quem não tem frente, como quem só tem costas...
No tronco do jequitibá, que estavas abraçando, colando-lhe o corpo, do rostinho aos pés, vejo os arranhões fundo, onde o canguçu, quase de pé, afia as garras, e, mais embaixo, a casca estraçalhada, onde os caititus vêm acerar os dentes...
No campo seco, a crepitar em brasas, dançar as últimas chamas da queimada, tão quente que o sol pende no ocaso, bicado, pelos sanhaços das nuvens, para cair, redondo e pesado, como uma tengerina temporã madura...
Cheiro salgado de um cavalo suado. Quem galopa no mar?...
No cinzeiro cheio de cigarros fumados, os restos de uma carta...
Bem na frente de um retrato empoeirado, uma aliança esquecida...
Se fosse só eu a chorar de amor, sorriria...
O albatroz prepara breve passeio de Pólo a Pólo...
Ó múmia longa, ante os teus séculos, eu durmo ainda...
Lagosta púrpura: uma galera a remos conduzindo um César...
Viajei toda a Ásia ao alisar o dorso da minha gata angorá...
O vento experimenta o que irá fazer com sua liberdade...
Quando me disseste que não mais me amavas, e que ias partir, dura, precisa, bela e inabalável, com a impassibilidade de um executor, dilatou-se em mim o pavor das cavernas vazias... Mas olhei-te bem nos olhos, belos como o veludo das lagartas verdes, e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos, tive pena de ti, de mim, de todos, e me ri da inutilidade das torturas predestinadas, guardadas para nós, desde a treva das épocas, quando a inexperiência dos Deuses ainda não criara o mundo...
Já não é preciso de rir. Os dedos longos do medo largaram minha fronte. E as vagas do sofrimento me arrastaram para o centro remoinho da grande força, que agora flui, feroz, dentro e fora de mim... Já não tenho medo de escalar os cimos onde o ar limpo e fino pesa para fora, e nem de deixar escorrer a força dos meus músculos, e deitar-me na lama, o pensamento opiado... Deixo que o inevitável dance, ao meu redor, a dança das espadas de todos os momentos. E deveria rir, se me restasse o riso, das tormentas que pouparam as furnas da minha alma, dos desastres que erraram o alvo de meu corpo...