Você precisa de uma alma caótica para deixar nascer um bailarino
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
O casamento põe fim a breves loucuras - sendo uma longa estupidez.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
A vida vai ficando cada vez mais dura perto do topo.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Para a maioria,quão pequena é a porção de prazer que basta para fazer a vida agradável!
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Não há fatos eternos,como não há verdades absolutas.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
A grandeza do homem consiste em que ele é uma ponte e não um fim; o que nos pode agradar no homem é ele ser transição e queda.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
A ideia do suicídio é uma grande consolação: ajuda a suportar muitas noites más.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
A moralidade é a melhor de todas as regras para orientar a humanidade.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
A mulher foi o segundo erro de Deus.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
A música oferece às paixões o meio de obter prazer delas.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
A objecção, o desvio, a desconfiança alegre, a vontade de troçar são sinais de saúde: tudo o que é absoluto pertence à patologia.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
A recompensa final dos mortos é não morrer nunca mais.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
A vida mais doce é não pensar em nada.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
A vontade é impotente perante o que está para trás dela. Não poder destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
As mulheres podem tornar-se facilmente amigas de um homem; mas, para manter essa amizade, torna-se indispensável o concurso de uma pequena antipatia física.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Até Deus tem um inferno: é o seu amor pelos homens.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Começamos a desconfiar das pessoas muito inteligentes quando ficam embaraçadas.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Culpamos as pessoas das quais não gostamos pelas gentilezas que nos demonstram.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Em última análise, amam-se os nossos desejos, e não o objecto desses desejos.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Encontra-se sempre, aqui e ali, algum semi-deus que consegue viver em condições terríveis, e viver vencedor! Quereis ouvir os seus cantos solitários? Escutai a música de Beethoven.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Há uma exuberância na bondade que parece ser maldade.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Logo que comunicamos os nossos conhecimentos, deixamos de gostar deles suficientemente.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Logo que, numa inovação, nos mostram alguma coisa de antigo, ficamos sossegados.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Muitos são os obstinados que se empenham no caminho que escolheram, poucos os que se empenham no objetivo.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Na vingança e no amor a mulher é mais bárbara do que o homem.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
No convívio com sábios e artistas facilmente nos enganamos no sentido oposto: não é raro encontrarmos por detrás dum sábio notável um homem medíocre, e muitas vezes por detrás de um artista medíocre - um homem muito notável.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Não posso acreditar num Deus que quer ser louvado o tempo todo.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Não se odeia quando pouco se preza, odeia-se só o que está à nossa altura ou é superior a nós.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Não é a intensidade dos sentimentos elevados que faz os homens superiores, mas a sua duração.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Nós fazemos acordados o que fazemos nos sonhos: primeiro inventamos e imaginamos o homem com quem convivemos - para nos esquecermos dele em seguida.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
O amor revela as qualidades sublimes e ocultas do que ama, - o que nele há de raro, de excepcional: nesse aspecto facilmente engana quanto ao que nele há de habitual.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
O amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
O castigo foi feito para melhorar aquele que o aplica.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
O esforço dos filósofos tende a compreender o que os contemporâneos se contentam em viver.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
O homem precisa daquilo que em si há de pior se pretende alcançar o que nele existe de melhor.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
O homem é definido como um ser que evolui, como o animal é imaturo por excelência.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
O inimigo mais perigoso que você poderá encontrar será sempre você mesmo.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
O macaco é um animal demasiado simpático para que o homem descenda dele.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
O medo é o pai da moralidade.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
O que o pai calou aparece na boca do filho, e muitas vezes descobri que o filho era o segredo revelado do pai.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer a mulher: o jogo mais perigoso.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Os grandes intelectuais são cépticos.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez! E falsa seja para nós toda a verdade que não tenha sido acompanhada por uma gargalhada!
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Quando se amarra bem o próprio coração e se faz dele um prisioneiro, pode-se permitir ao próprio espírito muitas liberdades.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Quanto mais me elevo, menor fico aos olhos de quem não sabe voar.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Quem, em prol da sua boa reputação, não se sacrificou já uma vez - a si próprio?
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Querer a verdade é confessar-se incapaz de a criar.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Saber é compreendermos as coisas que mais nos convém.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Sem a música, a vida seria um erro.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Sou demasiado orgulhoso para acreditar que um homem me ame: seria supor que ele sabe quem sou eu. Também não acredito que possa amar alguém: pressuporia que eu achasse um homem da minha condição.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Só se pode alcançar um grande êxito quando nos mantemos fiéis a nós mesmos.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Temos a arte para não morrer da verdade.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Todos vós, que amais o trabalho desenfreado (...), o vosso labor é maldição e desejo de esquecerdes quem sois.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Torna-te aquilo que és.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Tudo é precioso para aquele que foi, por muito tempo, privado de tudo.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Uma alma que se sabe amada, mas que por sua vez não ama, denuncia o seu fundo: - vem á superfície o que nela há de mais baixo.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Uma vez tomada a decisão de não dar ouvidos mesmo aos melhores contra-argumentos: sinal do caráter forte. Também uma ocasional vontade de se ser estúpido.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Você vive hoje uma vida que gostaria de viver por toda a eternidade?
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
É difícil viver com as pessoas porque calar é muito difícil.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
É mais difícil ferir a nossa vaidade justamente quando foi ferido o nosso orgulho.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
É mais fácil lidar com uma má consciência do que com uma má reputação.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
É pelas próprias virtudes que se é mais bem castigado.
( FRIEDRICH NIETZSCHE )
Não é verdade que o homem procure o prazer e fuja da dor. São de tomar em conta os preconceitos contra os quais invisto. O prazer e a dor são consequências, fenómenos concomitantes. O que o homem quer, o que a menor partícula de um organismo vivo quer, é o aumento de poder: é em consequência do esforço em consegui-lo que o prazer e a dor se efectivam; é por causa dessa mesma vontade que a resistência a ela é procurada, o que indica a busca de alguma coisa que manifeste oposição. A dor, sendo entrave à vontade de poder do homem, é portanto um acontecimento normal - a componente normal de qualquer fenómeno orgânico. E o homem não procura evitá-la, pois tem necessidade dela, já que qualquer vitória implica uma resistência vencida. Tome-se como exemplo o mais simples dos casos, o da nutrição de um organismo primário; quando o protoplasma estende os pseudópodes para encontrar resistências, não é impulsionado pela fome, mas pela vontade de poder; acima de tudo, ele intenta vencer, apropriar-se do vencido, incorporá-lo a si. O que se designa por nutrição é pois um fenómeno consecutivo, uma aplicação da vontade original de devir mais forte. Em tudo isto, a dor não só tem por consequência necessária a diminuição da sensação de poder, como até serve, na maioria dos casos, como excitante da mesma sensação de poder, sendo o obstáculo um stimulus dessa vontade de poder.
Nós só sentimos agrado para com os semelhantes - ou seja pelas imagens de nós próprios - quando sentimos comprazimento connosco. E quanto mais estamos contentes connosco, mais detestamos o que nos é estranho: a aversão pelo que nos é estranho está na proporção da estima que temos por nós. É em consequência dessa aversão que nós destruímos tudo o que é estranho, ao qual assim mostramos o nosso distanciamento. Mas o menosprezo por nós próprios pode levar-nos a uma compaixão geral para com a humanidade e pode ser utilizado, intencionalmente, para uma aproximação com os demais. Temos necessidade do próximo para nos esquecermos de nós mesmos: o que leva à sociabilidade com muita gente. Somos dados a supor que também os outros têm desgosto com o que são; quando isto se verifica, então receberemos uma grande alegria: afinal, estamos na mesma situação. E, talqualmente nos vemos forçados a suportar-nos, apesar do desgosto que temos com aquilo que somos, assim nos habituamos a suportar os nossos semelhantes. Assim, nós deixamos de desprezar os outros; a aversão para com eles diminui, e dá-se a reaproximação. Eis porque, em virtude da doutrina do pecado e da condenação universal, o homem se aproxima de si mesmo. E até aqueles que detêm efectivamente o poder são de considerar, agora como dantes, sob este mesmo aspecto: é que, «no fundo, são uns pobres homens
Obedecer aos próprios sentimentos? Arriscar a vida ao ceder a um sentimento generoso ou a um impulso de momento... Isso não caracteriza um homem: todos são capazes de fazê-lo; neste ponto, um criminoso, um bandido, um corso certamente superam um homem honesto. O grau de superioridade é vencer em si esse elã e realizar o acto heróico, não por um impulso, mas friamente, razoavelmente, sem a expansão de prazer que o acompanha. Outro tanto acontece com a piedade: ela há-de ser habitualmente filtrada pela razão; caso contrário, é tão perigosa como qualquer outra emoção. A docilidade cega perante uma emoção - tanto importa que seja generosa ou piedosa como odienta - é causa dos piores males. A grandeza de carácter não consiste em não experimentar emoções; pelo contrário, estas são de ter no mais alto grau; a questão é controlá-las e, ainda assim, havendo prazer em modelá-las, em função de algo mais.
Uma vez admitidos dois factos: que o devir não tem fim e que não é dirigido por qualquer grande unidade na qual o indivíduo possa mergulhar totalmente como num elemento de valor supremo, resta só uma escapatória possível: condenar todo esse mundo do devir como ilusório e inventar um mundo situado no além, que seria o mundo verdadeiro. Mas, logo que o homem descobre que este mundo não é senão construído sobre as suas próprias necessidades psicológicas e que ele não é de nenhum modo obrigado a acreditar nele, vemos aparecer a última forma do niilismo, que implica a negação do mundo metafísico e que a si mesma se proíbe de crer num mundo verdadeiro. Alcançado este estado, reconhecemos que a realidade do devir é a única realidade e abstemo-nos de todos os caminhos afastados que conduziriam à crença em outros mundos e em falsos deuses - mas não suportamos este mundo que não temos já a vontade de negar. (...) Que se passou portanto? Chegámos ao sentimento do não valor da existência quando compreendemos que ela não pode interpretar-se, no seu conjunto, nem com a ajuda do conceito de fim, nem com a do conceito de unidade, nem com a do conceito de verdade. Não chegamos a nada, não logramos coisa nenhuma dessa espé cie; a unidade global não aparece na pluralidade do devir: o carácter da existência não é o de ser verdadeira, mas o de ser falsa (...) não há razão alguma para nos persuadirmos de que existe um mundo verdadeiro. (...) Em suma, as categorias de fim, de unidade, de ser, graças às quais demos um valor ao mundo, retiramos-lhas e o mundo parece ter perdido todo o valor.
A alternância de amor e ódio caracteriza, durante muito tempo, a condição íntima de uma pessoa que quer ser livre no seu juízo acerca da vida; ela não esquece e guarda rancor às coisas por tudo, pelo bom e pelo mau. Por fim, quando, à força de anotar as suas experiências, todo o quadro da sua alma estiver completamente escrito, já não desprezará nem odiará a existência, mas tão-pouco a amará, antes permanecerá por cima dela, ora com o olhar da alegria, ora com o da tristeza, e, tal como a Natureza, a sua disposição ora será estival, ora outunal. (...) Quem quiser seriamente ser livre perderá de mais a mais, sem qualquer constrangimento, a propensão para os erros e vícios; também a irritação e o aborrecimento o acometerão cada vez mais raramente. É que a sua vontade não quer nada mais instantaneamente do que conhecer e o meio para tanto, ou seja, a condição permanente em que ele está mais apto para o conhecimento.
Os poetas, na medida em que também querem tornar mais leve a vida das pessoas, ou desviam o olhar do trabalhoso presente ou ajudam o presente a adquirir novas cores, graças a uma luz vinda do passado que fazem irradiar sobre ele. Para poderem fazê-lo, têm eles próprios de ser, em muitos aspectos, seres voltados para trás: de maneira que se os pode utilizar como pontes para chegar a tempos e concepções muito distantes, a religiões e civilizações em vias de extinção ou já extintas. (...) É certo que há algumas coisas desfavoráveis a dizer quanto aos meios de que eles se servem para aligeirar a vida: apenas sossegam e curam provisoriamente, só de momento; até impedem as pessoas de trabalhar na realidade por uma melhoria da sua situação, precisamente enquanto suprimem e descarregam, por meio de paliativos, a paixão dos insatisfeitos, que incitam à acção.
Temos o primeiro sinal de que o animal se tornou homem, quando a sua actuação já não se relaciona com o bem-estar momentâneo, mas com o duradouro, prova de que o homem adquire o sentido do útil, do adequado: é então que, pela primeira vez, irrompe o livre senhorio da razão. Um estádio ainda mais elevado é alcançado, quando ele age consoante o princípio da honra; graças ao mesmo, ele adapta-se, submete-se a sentimentos comuns, e isso ergue-o muito acima da fase, em que só a utilidade entendida em termos pessoais o guiava: ele respeita e quer ser respeitado, isto é, entende o proveito como dependente do que ele opina acerca dos outros, do que os outros opinam acerca dele. Finalmente, na fase mais elevada da moralidade em uso até agora, ele age segundo o seu critério quanto às coisas e às pessoas, ele próprio determina para si e para outros o que é honroso, o que é útil; tornou-se o legislador das opiniões, em conformidade com o conceito cada vez mais desenvolvido do útil e do honroso. O conhecimento habilita-o a preferir o mais útil, ou seja, a colocar o proveito geral e duradouro à frente do pessoal, a respeitosa estima de valia geral e duradoura à frente da momentânea; ele vive e actua como indivíduo colectivo.
Porque é que se sobrestima o amor em detrimento da justiça e se diz dele as coisas mais lindas, como se ele fosse uma entidade muito superior àquela? Pois não é ele visivelmente mais estúpido que aquela? Por certo, mas, precisamente por isso, tanto mais agradável para todos. Ele é estúpido e possui uma rica cornucópia; tira desta os seus presentes e distribui-os a qualquer pessoa, mesmo que esta não os mereça e até nem sequer lhe agradeça por isso. É imparcial como a chuva, a qual, segundo a Bíblia e a experiência, não só encharca o injusto até aos ossos, mas também, em determinadas circunstâncias, o justo.
Estamos habituados, perante tudo o que é perfeito, a omitir a questão do seu processo evolutivo, regozijando-nos antes com a sua presença, como se ele tivesse saído do chão por artes mágicas. Provavelmente, estamos ainda, neste caso, sob o efeito residual de um antiquíssimo sentimento mitológico. Quase nos sentimos ainda (por exemplo, num templo grego como o de Pesto) como se, numa manhã, um deus, brincando, tivesse construído a sua morada com tão gigantescos fardos. Outras vezes, como se um espírito tivesse subitamente sido metido por encanto dentro duma pedra e quisesse, agora, falar através dela. O artista sabe que a sua obra só produz pleno efeito, se fizer crer numa improvisação, numa miraculosa instantaneidade da sua criação; e, assim, ele ajuda mesmo a essa ilusão, introduzindo na arte, ao começo da sua criação, aqueles elementos de entusiástica inquietação, de desordem que tacteia às cegas, de sonho atento, como forma de iludir, a fim de dispor o espírito do espectador ou do ouvinte de modo a que ele creia no súbito brotar da perfeição. A ciência da arte, como é evidente, tem de contradizer essa ilusão da maneira mais determinada e apontar as conclusões erróneas e os maus hábitos do intelecto, graças aos quais este cai na rede do artista.
Proclama-se com um ar de triunfo que «a ciência começa a dominar a vida». Pode ser que chegue a isso, mas é certo que a vida assim dominada não tem mais grande valor, porque é muito menos uma vida, e garante para o futuro muito menos vida que essa mesma vida fazia em outros tempos, dominada não pela ciência, mas pelos instintos e por algumas grandes ilusões.
Não são só os espectadores de um acto que, amiúde, medem o que é moral ou imoral no mesmo, consoante o êxito: não, o próprio autor também o faz. Pois os motivos e as intenções raramente são suficientemente claros e simples, e, às vezes, a própria memória parece perturbada pelo efeito do acto, de modo que a pessoa atribui ao seu próprio acto motivos falsos ou trata como essenciais os motivos secundários. O êxito dá, muitas vezes, a um acto todo o honesto brilho da boa consciência, um malogro coloca a sombra do remorso sobre a acção mais respeitável. Daí resulta a conhecida prática do político, que pensa: «Dai-me simplesmente o êxito! Com ele, também terei posto do meu lado todas as almas honestas... e ter-me-ei tornado honesto, perante mim próprio». De maneira análoga, o êxito é suposto substituir a melhor fundamentação.
Porque é que, na maior parte das vezes, os homens na vida quotidiana dizem a verdade? Certamente, não porque um deus proibiu mentir. Mas sim, em primeiro lugar, porque é mais cómodo, pois a mentira exige invenção, dissimulação e memória. Por isso Swift diz: «Quem conta uma mentira raramente se apercebe do pesado fardo que toma sobre si; é que, para manter uma mentira, tem de inventar outras vinte». Em seguida, porque, em circunstâncias simples, é vantajoso dizer directamente: quero isto, fiz aquilo, e outras coisas parecidas; portanto, porque a via da obrigação e da autoridade é mais segura que a do ardil. Se uma criança, porém, tiver sido educada em circunstâncias domésticas complicadas, então maneja a mentira com a mesma naturalidade e diz, involuntariamente, sempre aquilo que corresponde ao seu interesse; um sentido da verdade, uma repugnância ante a mentira em si, são-lhe completamente estranhos e inacessíveis, e, portanto, ela mente com toda a inocência.
Meu irmão, és feliz se só tens uma virtude e não várias: pois passarás mais facilmente a ponte. É uma distinção ter muitas virtudes, mas é sorte bem dura; e não são poucos os que se têm ido matar ao deserto, cansados de serem combate e campo de batalha das suas próprias virtudes. Meu irmão, serão um mal a guerra e as batalhas? Mas são males necessários, e é necessário que as tuas virtudes tenham ciúmes umas das outras e estejam desconfiadas umas das outras e se caluniem entre si. Vê, cada uma das tuas virtudes é ávida de tudo possuir, cada uma quer que a totalidade da tua alma lhe sirva de arauto, quer toda a tua força na cólera, no ódio e no amor. Cada uma das tuas virtudes é ciosa das outras, e o ciúme é uma coisa terrível. As próprias virtudes podem morrer de ciúme. O que está cercado pela chama do ciúme acaba, como o escorpião, por voltar contra si mesmo o seu aguilhão envenenado. Ai! meu irmão, nunca viste uma virtude caluniar-se e apunhalar-se a si própria? O homem é um ser que deve superar-se, por isso necessitas amar as tuas virtudes - porque por elas morrerás.
Gosto dos valentes; mas não basta bater a torto e a direito; é preciso saber ainda no que se bate. E muitas vezes há mais coragem em se conter e passar adiante, a fim de se reservar para um adversário mais digno. Tende apenas inimigos dignos de ódio, e não inimigos desprezíveis; é necessário que possais estar orgulhosos dos vossos inimigos; já vos ensinei isso. É necessário reservardes-vos para um adversário mais digno, meus amigos; por isso tereis de passar por cima de muitas ofensas, - passar por cima de muita canalha que vos massacrará com as palavras povo e nação. Livrai o vosso olhar de se misturar às suas contestações. É um matagal de direitos e de abusos. Ter de considerá-los irrita. Lançar aí os olhos - atirar-se para a confusão - é a mesma coisa; ide-vos pois para os bosques e deixai dormir a vossa espada! Segui os caminhos que vos pertencem. E deixai povos e nações seguirem os seus escuros caminhos, na verdade, nos quais não brilha uma única esperança!