Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada.
( Frases e Pensamentos de Fernando Pessoa) Tema: Morte
O Poeta é um fingidor,finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
( Frases e Pensamentos de Fernando Pessoa) Tema: Poesia
"Quero para mim o espírito desta frase,transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar."
( Frases e Pensamentos de Fernando Pessoa) Tema: Vida
"Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande,ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha."
( Frases e Pensamentos de Fernando Pessoa) Tema: Vida
Correr riscos reais, além de me apavorar, não é por medo que eu sinta excessivamente - perturba-me a perfeita atenção às minhas sensações, o que me incomoda e me despersonaliza.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis ( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
A arte é a auto-expressão lutando para ser absoluta.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
A ciência descreve as coisas como são; a arte, como são sentidas, como se sente que são.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
A fé é o instinto da ação.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
A maioria pensa com a sensibilidade, eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
A renúncia é a libertação. Não querer é poder.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
A única atitude intelectual digna de uma criatura superior é a de uma calma e fria compaixão por tudo quanto não é ele próprio. Não que essa atitude tenha o mínimo cunho de justa e verdadeira; mas é tão invejável que é preciso tê-la.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugna-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Amar é cansar-se de estar só: é uma covardia portanto, e uma traição a nós próprios (importa soberanamente que não amemos).
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
As figuras imaginárias têm mais relevo e verdade que as reais.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Conhece alguém as fronteiras à sua alma, para que possa dizer - eu sou eu ?
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Considerar a nossa maior angústia como um incidente sem importância, não só na vida do universo, mas da nossa mesma alma, é o princípio da sabedoria.
De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Despreza tudo, mas de modo que o desprezar te não incomode. Não te julgues superior ao desprezares. A arte do desprezo nobre está nisso.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Deus quer, o homem sonha e a obra nasce.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
E que a força do medo que tenho, não me impeça de ver o que anseio.
E que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Eu sou aquilo que perdi.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Eu sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Falar é ter demasiada consideração pelos outros. Pela boca morrem o peixe e Oscar Wilde.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Haja ou não deuses, deles somos servos.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Nenhuma ideia brilhante consegue entrar em circulação se não agregando a si qualquer elemento de estupidez. O pensamento colectivo é estúpido porque é colectivo: nada passa as barreiras do colectivo sem deixar nelas, como real de água, a maior parte da inteligência que traga consigo.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Nunca sabemos quando somos sinceros. Talvez nunca o sejamos. E mesmo que sejamos sinceros hoje, amanhã podemos sê-lo por coisa contrária.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo...
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
O Homem é do tamanho do seu sonho.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
O amor é um sonho que chega para o pouco ser que se é.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
O campo é onde não estamos. Ali, só ali, há sombras verdadeiras e verdadeiro arvoredo.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
O génio, o crime e a loucura, provêm, por igual, de uma anormalidade; representam, de diferentes maneiras, uma inadaptabilidade ao meio.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
O mais alto de nós não é mais que um conhecedor mais próximo do oco e do incerto de tudo.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
O pensamento pode ter elevação sem ter elegância, e, na proporção em que não tiver elegância, perderá a ação sobre os outros. A força sem a destreza é uma simples massa.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
O povo nunca é humanitário. O que há de mais fundamental na criatura do povo é a atenção estreita aos seus interesses, e a exclusão cuidadosa, praticada sempre que possível, dos interesses alheios.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem.Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
O verdadeiro cadáver não é o corpo (...), mas aquilo que deixou de viver(...)
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Os homens são fáceis de afastar. Basta não nos aproximarmos.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
PEDRAS NO CAMINHO? GUARDO TODAS, UM DIA VOU CONSTRUIR UM CASTELO...
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Para realizar um sonho é preciso esquecê-lo, distrair dele a atenção. Por isso realizar é não realizar..
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Para sêr grande, sêr inteiro; nada teu exagera ou exclui; sêr todo em cada coisa; põe quanto és no mínimo que fazes; assim em cada lago, a lua toda brilha porque alta vive.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Para viajar basta existir.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Precisar de dominar os outros é precisar dos outros. O chefe é um dependente.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Querer não é poder. Quem pôde, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Quero para mim o espírito desta frase,transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Sentir é criar. Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Ser imoral não vale a pena, porque diminui, aos olhos dos outros, a vossa personalidade, ou a banaliza. Ser imoral dentro de si, cercada do máximo respeito alheio.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Sinto-me nascido a cada momento / Para a eterna novidade do Mundo....
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Tenho em mim todos os sonhos do mundo
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Ter opiniões é estar vendido a si mesmo. Não ter opiniões é existir. Ter todas as opiniões é ser poeta.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Toda a poesia - e a canção é uma poesia ajudada - reflecte o que a alma não tem. Por isso a canção dos povos tristes é alegre e a canção dos povos alegres é triste.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Todo o prazer é um vício, porque buscar o prazer é o que todos fazem na vida, e o único vício negro é fazer o que toda a gente faz.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Todos temos por onde sermos desprezíveis. Cada um de nós traz consigo um crime feito ou o crime que a alma lhe pede para fazer.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Tuda vale a pena quando a alma não é pequena
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão...
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal, e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta é sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Tudo que existe existe talvez porque outra coisa existe. Nada é, tudo coexiste: talvez assim seja certo..
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos existem; cada um como é.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Ver e ouvir são as únicas coisas nobres que a vida contém. Os outros sentidos são plebeus e carnais. A única aristocracia é nunca tocar.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Ver muito lucidamente prejudica o sentir demasiado. E os gregos viam muito lucidamente, por isso pouco sentiam. De aí a sua perfeita execução da obra de arte.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
É Talvez o Último Dia da Minha Vida
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
ode ser que nos guie uma ilusão; a consciência, porém, é que nos não guia.
( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Eu amo tudo o que foi Tudo o que já não é A dor que já não me dói A antiga e errônea fé O ontem que a dor deixou O que deixou alegria Só porque foi, e voou E hoje é já outro dia. ( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
É talvez o último dia da minha vida. Saudei o sol, levantando a mão direita, Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus, Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada. ( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. ( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe porque ama, nem o que é amar Amar é a eterna inocência, E a única inocência, não pensar... ( Frases e Pensamentos de FERNANDO PESSOA )
Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: "Navegar é preciso; viver não é preciso". Quero para mim o espírito [d]esta frase, transformada a forma para a casar como eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade. É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.
Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê, Quem sente não é quem é, Atento ao que sou e vejo, Torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo É do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem; Assisto à minha passagem, Diverso, móbil e só, Não sei sentir-me onde estou. Por isso, alheio, vou lendo Como páginas, meu ser. O que segue não prevendo, O que passou a esquecer. Noto à margem do que li O que julguei que senti. Releio e digo : "Fui eu ?" Deus sabe, porque o escreveu.
Ó vento do norte, tão fundo e tão frio, Não achas, soprando por tanta solidão, Deserto, penhasco, coval mais vazio Que o meu coração! Indômita praia, que a raiva do oceano Faz louco lugar, caverna sem fim, Não são tão deixados do alegre e do humano Como a alma que há em mim! Mas dura planície, praia atra em fereza, Só têm a tristeza que a gente lhes vê E nisto que em mim é vácuo e tristeza É o visto o que vê. Ah, mágoa de ter consciência da vida! Tu, vento do norte, teimoso, iracundo, Que rasgas os robles — teu pulso divida Minh'alma do mundo! Ah, se, como levas as folhas e a areia, A alma que tenho pudesses levar - Fosse pr'onde fosse, pra longe da idéia De eu ter que pensar! Abismo da noite, da chuva, do vento, Mar torvo do caos que parece volver - Porque é que não entras no meu penssamento Para ele morrer? Horror de ser sempre com vida a consciência! Horror de sentir a alma sempre a pensar! Arranca-me, é vento; do chão da existência, De ser um lugar! E, pela alta noite que fazes mais'scura, Pelo caos furioso que crias no mundo, Dissolve em areia esta minha amargura, Meu tédio profundo. E contra as vidraças dos que há que têm lares, Telhados daqueles que têm razão, Atira, já pária desfeito dos ares, O meu coração! Meu coração triste, meu coração ermo, Tornado a substância dispersa e negada Do vento sem forma, da noite sem termo, Do abismo e do nada!
Silfos ou gnomos tocam?... Roçam nos pinheirais Sombras e bafos leves De ritmos musicais. Ondulam como em voltas De estradas não sei onde Ou como alguém que entre árvores Ora se mostra ou esconde. Forma longínqua e incerta Do que eu nunca terei... Mal oiço e quase choro. Por que choro não sei. Tão tênue melodia Que mal sei se ela existe Ou se é só o crepúsculo, Os pinhais e eu estar triste. Mas cessa, como uma brisa Esquece a forma aos seus ais; E agora não há mais música Do que a dos pinheirais.
As tuas mãos terminam em segredo. Os teus olhos são negros e macios Cristo na cruz os teus seios (?) esguios E o teu perfil princesas no degredo... Entre buxos e ao pé de bancos frios Nas entrevistas alamedas, quedo O vendo põe o seu arrastado medo Saudoso o longes velas de navios. Mas quando o mar subir na praia e for Arrasar os castelos que na areia As crianças deixaram, meu amor, Será o haver cais num mar distante... Pobre do rei pai das princesas feias No seu castelo à rosa do Levante !
Não digas nada! Nem mesmo a verdade Há tanta suavidade em nada se dizer E tudo se entender - Tudo metade De sentir e de ver... Não digas nada Deixa esquecer Talvez que amanhã Em outra paisagem Digas que foi vã Toda essa viagem Até onde quis Ser quem me agrada... Mas ali fui feliz Não digas nada.
Põe-me as mãos nos ombros... Beija-me na fronte... Minha vida é escombros, A minha alma insonte. Eu não sei por quê, Meu desde onde venho, Sou o ser que vê, E vê tudo estranho. Põe a tua mão Sobre o meu cabelo... Tudo é ilusão. Sonhar é sabê-lo.
Teus olhos entristecem Nem ouves o que digo. Dormem, sonham esquecem... Não me ouves, e prossigo. Digo o que já, de triste, Te disse tanta vez... Creio que nunca o ouviste De tão tua que és. Olhas-me de repente De um distante impreciso Com um olhar ausente. Começas um sorriso. Continuo a falar. Continuas ouvindo O que estás a pensar, Já quase não sorrindo. Até que neste ocioso Sumir da tarde fútil, Se esfolha silencioso O teu sorriso inútil.
...E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade. (Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio Na Ordem Templária De Portugal) Conta a lenda que dormia Uma Princesa encantada A quem só despertaria Um Infante, que viria De além do muro da estrada. Ele tinha que, tentado, Vencer o mal e o bem, Antes que, já libertado, Deixasse o caminho errado Por o que à Princesa vem. A Princesa Adormecida, Se espera, dormindo espera, Sonha em morte a sua vida, E orna-lhe a fronte esquecida, Verde, uma grinalda de hera. Longe o Infante, esforçado, Sem saber que intuito tem, Rompe o caminho fadado, Ele dela é ignorado, Ela para ele é ninguém. Mas cada um cumpre o Destino Ela dormindo encantada, Ele buscando-a sem tino Pelo processo divino Que faz existir a estrada. E, se bem que seja obscuro Tudo pela estrada fora, E falso, ele vem seguro, E vencendo estrada e muro, Chega onde em sono ela mora, E, inda tonto do que houvera, À cabeça, em maresia, Ergue a mão, e encontra hera, E vê que ele mesmo era A Princesa que dormia.
Ao longe, ao luar, No rio uma vela, Serena a passar, Que é que me revela ? Não sei, mas meu ser Tornou-se-me estranho, E eu sonho sem ver Os sonhos que tenho. Que angústia me enlaça ? Que amor não se explica ? É a vela que passa Na noite que fica.
Andei léguas de sombra
Dentro em meu pensamento.
Floresceu às avessas
Meu ócio com sem-nexo,
E apagaram-se as lâmpadas
Na alcova cambaleante.
Tudo prestes se volve
Um deserto macio
Visto pelo meu tato
Dos veludos da alcova,
Não pela minha vista.
Há um oásis no Incerto
E, como uma suspeita
De luz por não-há-frinchas,
Passa uma caravana.
Esquece-me de súbito
Como é o espaço, e o tempo
Em vez de horizontal
É vertical.
A alcova
Desce não se por onde
Até não me encontrar.
Ascende um leve fumo
Das minhas sensações.
Deixo de me incluir
Dentro de mim. Não há
Cá-dentro nem lá-fora.
E o deserto está agora
Virado para baixo.
A noção de mover-me
Esqueceu-se do meu nome.
Na alma meu corpo pesa-me.
Sinto-me um reposteiro
Pendurado na sala
Onde jaz alguém morto.
Qualquer coisa caiu
E tiniu no infinito.
Meu pensamento Em ti se perde. Ver é dormir Neste momento. Que bom não ser 'Stando acordado ! Também em mim enverdecer Em folhas dado ! Tremulamente Sentir no corpo Brisa na alma ! Não ser quem sente, Mas tem a calma. Eu tinha um sonho Que me encantava. Se a manhã vinha, Como eu a odiava ! Volvia a noite, E o sonho a mim. Era o meu lar, Minha alma afim. Depois perdi-o. Lembro ? Quem dera ! Se eu nunca soube O que ele era.
Deixa-me ouvir o que não ouço...
Não é a brisa ou o arvoredo;
É outra coisa intercalada...
É qualquer coisa que não posso
Ouvir senão em segredo,
E que talvez não seja nada...
Deixa-me ouvir... Não fales alto !
Um momento !... Depois o amor,
Se quiseres... Agora cala !
Tênue, longínquo sobressalto
Que substitui a dor,
Que inquieta e embala...
O quê? Só a brisa entre a folhagem?
Talvez... Só um canto pressentido?
Não sei, mas custa amar depois...
Sim, torna a mim, e a paisagem
E a verdadeira brisa, ruído...
Vejo-me, somos dois...
Dorme, criança, dorme, Dorme que eu velarei; A vida é vaga e informe, O que não há é rei. Dorme, criança, dorme, Que também dormirei. Bem sei que há grandes sombras Sobre áleas de esquecer, Que há passos sobre alfombras De quem não quer viver; Mas deixa tudo às sombras, Vive de não querer.
Vou com um passo como de ir parar Pela rua vazia Nem sinto como um mal ou mal-'star A vaga chuva fria... Vou pela noite da indistinta rua Alheio a andar e a ser E a chuva leve em minha face nua Orvalha de esquecer ... Sim, tudo esqueço.Pela noite sou Noite também E vagaroso eu ...] vou, Fantasma de magia. No vácuo que se forma de eu ser eu E da noite ser triste Meu ser existe sem que seja meu E anônimo persiste ... Qual é o instinto que fica esquecido Entre o passeio e a rua? Vou sob a chuva, amargo e diluído E tenho a face nua.
Leve no cimo das ervas O dedo do vento roça... Elas dizem-me que sim... Mas eu já não sei de mim Nem do que queira ou que possa. E o alto frio das ervas Fica no ar a tremer... Parece que me enganaram E que os ventos me levaram O com que me convencer. Mas no relvado das ervas Nem bole agora uma só. Porque pus eu uma esperança Naquela inútil mudança De que nada ali ficou? Não: o sossego das ervas Não é o de há pouco já. Que inda a lembrança do vento Me as move no pensamento E eu tenho porque não há.
EU AMO TUDO o que foi, Tudo o que já não é, A dor que já me não dói, A antiga e errônea fé, O ontem que dor deixou, O que deixou alegria Só porque foi, e voou E hoje é já outro dia.
Fito-me frente a frente, Conheço que estou louco. Não me sinto doente. Fito-me frente a frente. Evoco a minha vida. Fantasma, quem és tu ? Uma coisa erguida. Uma força traída. Neste momento claro, Abdique a alma bem ! Saber não ser é raro. Quero ser raro e claro.
Fito-me frente a frente E conheço quem sou. Estou louco, é evidente, Mas que louco é que estou ? É por ser mais poeta Que gente que sou louco ? Ou é por ter completa A noção de ser pouco ? Não sei, mas sinto morto O ser vivo que tenho. Nasci como um aborto, Salvo a hora e o tamanho.
Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar.
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...
Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
Ainda que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...
Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo. Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Toda a gente que eu conheço e que fala comigo Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó principes, meus irmãos, Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? Poderão as mulheres não os terem amado, Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? Eu, que venho sido vil, literalmente vil, Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Os antigos invocavam as Musas.
Nós invocamo-nos a nós mesmos.
Não sei se as Musas apareciam
Seria sem dúvida conforme o invocado e a invocação.
Mas sei que nós não aparecemos.
Quantas vezes me tenho debruçado
Sobre o poço que me suponho
E balido "Ah!" para ouvir um eco,
E não tenho ouvido mais que o visto
O vago alvor escuro com que a água resplandece
Lá na inutilidade do fundo...
Nenhum eco para mim...
Só vagamente uma cara,
Que deve ser a minha, por não poder ser de outro.
E uma coisa quase invisível,
Exceto como luminosamente vejo
Lá no fundo...
No silêncio e na luz falsa do fundo...
Que Musa! ...
Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo, Espécie de acessório ou sobressalente próprio, Arredores irregulares da minha emoção sincera, Sou eu aqui em mim, sou eu. Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma. Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim. E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente, Como de um sonho formado sobre realidades mistas, De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico, Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima. E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua, Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda, De haver melhor em mim do que eu. Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa, Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores, De haver falhado tudo como tropeçar no capacho, De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas, De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida. Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica, Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar, De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo A impressão de pão com manteiga e brinquedos De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina, De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela, Num ver chover com som lá fora E não as lágrimas mortas de custar a engolir. Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado, O emissário sem carta nem credenciais, O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro, A quem tinem as campainhas da cabeça Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima. Sou eu mesmo, a charada sincopada Que ninguém da roda decifra nos serões de província. Sou eu mesmo, que remédio! ...Conheça também o blog Fernando Pessoa