Ah! Dentro de toda a alma existe a prova de que a dor como um dardo se renova quando o prazer barbaramente a ataca...
( Frases e Pensamentos de Augusto dos Anjos) Mensagem sobre Prazer
A dança dos encéfalos acesos Começa. A carne é fogo. A alma arde. A espaços As cabeças, as mãos, os pés e os braços Tombam, cedendo à ação de ignotos pesos! E então que a vaga dos instintos presos - Mãe de esterilidades e cansaços - Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos Subitamente a cerebral coréia Pára. O cosmos sintético da Idéia Surge. Emoções extraordinárias sinto Arranco do meu crânio as nebulosas E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!
No tempo de meu Pai, sob estes galhos, Como uma vela fúnebre de cera, Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilissimos trabalhos! Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos, Guarda, como uma caixa derradeira, O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri, Voltando à pátria da homogeneidade, Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui!
Homem, carne sem luz, criatura cega, Realidade geográfica infeliz, O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno, o alfa e o omega Amarguram-te. Hebdômadas hostis Passam... Teu coração se desagrega, Sangram-te os olhos, e, entretanto, ris! Fruto injustificável dentre os frutos, Montão de estercorária argila preta, Excrescência de terra singular. Deixa a tua alegria aos seres brutos, Porque, na superfície do planeta, Tu só tens um direito: - o de chorar!
Tinha no olhar cetíneo, aveludado, A chama cruel que arrasta os corações, Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o símb'lo do pecado. Bela, divina, o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos, Os seios brancos, palpitantes, mornos, Dançavam-lhe no colo perfumado. No entanto, esta mulher de grã beleza, Moldada pela mão da Natureza, Tornou-se a pecadora vil. Do fado Do destino fatal, presa, morria, Uma noite entre as vascas da agonia, Tendo no corpo o verme do pecado!
A um monstro Fome! E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta, Receando outras mandíbulas a esbangem, Os dentes antropófagos que rangem, Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríase sedenta, Rugindo, enquanto as almas se confrangem, Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim, tragando a ambiência vasta, No desembestamento que os arrasta, Superexcitadíssimos. os dois Representam. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois!
No alheamento da obscura forma humana, De que, pensando, me desencarcero, Foi que eu, num grito de emoção, sincero Encontrei, afinal, o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana, Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga, eu, feito força, impero Na imanência da Idéia Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tato - ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéias - Gozo o prazer, que os anos não carcomem, De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéias!
Triste, a escutar, pancada por pancada, A sucessividade dos segundos, Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos O choro da Energia abandonada! E a dor da Força desaproveitada - O cantochão dos dínamos profundos, Que, podendo mover milhões de mundos, Jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa... Da transcendência que se não realiza. Da luz que não chegou a ser lampejo... E é em suma, o subconsciente aí formidando Da Natureza que parou, chorando, No rudimentarismo do Desejo!
O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa, O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa, Livre deste cadeado de peçonha, Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposiç5es da Natureza, Ficar latindo minha dor medonha!
Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado, a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro, Pois, tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço, Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos - fontes de perdão - perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo, Se fosses Deus, no Dia de Juízo, Talvez perdoasses os que te mataram!
Arte ingrata! E conquanto, em desalento, A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda, Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento, Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!... E como o paralítico que, á mingua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar, com os dedos brutos Para falar, puxa e repuxa a língua, E não lhe vem á boca uma palavra!
Tome, Dr., esta tesoura, e ... corte Minha singularíssima pessoa. Que importa a mim que a bicharia roa Todo meu coração, depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também, das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se, portanto, minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo; Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétua grades Do último verso que eu fizer no mundo!
Célere ia o caixão, e, nele, inclusas, Cinzas, caixas cranianas, cartilagens Oriundas, como os sonhos dos selvagens, De aberratórias abstrações abstrusas ! Nesse caixão iam talvez as Musas , Talvez meu Pai ! Hoffmânnicas visagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas ! A energia monística do Mundo, À meia-noite, penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio ... Era tarde ! Fazia muito frio. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio !
Meia-noite, ao meu quarto me recolho. Meu Deus ! E este morcego! E, agora, vede: Na bruta ardência orgânica da sede, Morde-me a goela ígneo e escaldante molho " Vou mandar levantar outra parede ..." - Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho, Circularmente sobre minha rede Pego de um pau. Esforços faço. Chego A tocá-lo. Minh’alma se concentra. Que ventre produziu tão feio parto?! A consciência humana é este morcego! Por mais que a gente faça, à noite, ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto.
De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como estalactites de uma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas, Que, em desintegrações maravilhosas, Delibera, e depois, quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe, Chega em seguida às cordas da laringe, Tísica, tênue, mínima, raquítica ... Quebra a força centrípeta que a amarra, Mas, de repente, e quase morta, esbarra No molambo da língua paralítica!
- As árvores, meu filho, não tem alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice mais calma! - Meu pai, por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minh’alma!... - Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: "Não mate a árvore, pai, para que eu viva!" E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra.
Minha divinatória Arte ultrapassa os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica, derrota Na atual força, integérrima, da Massa. É a subversão universal que ameaça A Natureza, e, em noite aziaga e ignota, Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos, derrubadas, Federações sidéricas quebradas... E eu só, o último a ser, pelo orbe adeante, Espião da cataclísmica surpresa A única luz tragicamente acesa Na universalidade agonizante!
Morri! E a Terra - a mãe comum - o brilho Destes meus olhos apagou!... Assim Tântalo, aos reais convivas, num festim, Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por quê?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse, do que este que palmilho E que me assombra, porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta, Hoje, porém, que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho, Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou!
Na velhice automática e na infância, (Hoje, ontem, amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia, Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal; cresto o sonho; achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. Existo Como o cancro, a exigir que os sãos enfermem... Teço a infâmia; urdo o crime; engendro o iodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen!
Quando, à noite, o Infinito se levanta A luz do luar, pelos caminhos quedos Minha tactil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão, dona, por fim, de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos, Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado, Nos paroxismos da hiperestesia, O Infinitésimo e o Indeterminado... Transponho ousadamente o átomo rude E, transmudado em rutilância fria, Encho o Espaço com a minha plenitude!
Sou uma Sombra! Venho de outras eras, Do cosmopolitismo das moneras... Pólipo de recônditas reentrâncias, Larva de caos telúrico, procedo Da escuridão do cósmico segredo, Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. Em minha ignota mônada, ampla, vibra A alma dos movimentos rotatórios... E é de mim que decorrem, simultâneas, A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tectos, Não conheço o acidente da Senectus - Esta universitária sanguessuga , Que produz, sem dispêndio algum de vírus, O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social, possuo uma arma - O metafisicismo de Abidarma - E trago, sem bramânicas tesouras, Como um dorso de azêmola passiva, A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. Com um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. A podridão me serve de Evangelho... Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques E com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha, Amarguradamente se me antolha, À luz do americano plenilúnio, Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias, Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno, Com a cara hirta, tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens, Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender, quebrando estéreis normas, A vida fenomênica das Formas, Que, iguais a fogos passageiros, luzem... E apenas encontrou na idéia gasta, O horror dessa mecânica nefasta, A que todas as cousas se reduzem! E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes, Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar, já nos últimos momentos, Como quem se submete a uma charqueada, Ao clarão tropical da luz danada, espólio dos seus dedos peçonhentos. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá, rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis, Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor, causa úbiqua de gozo, Raio X, magnetismo misterioso, Quimiotaxia, ondulação aérea, Fonte de repulsões e de prazeres, Sonoridade potencial dos seres, Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas, abdômen, O coração, a boca, em síntese, o Homem, - Engrenagem de vísceras vulgares - Os dedos carregados de peçonha, Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares! A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come, Numa glutoneria hedionda, brincam, Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece ... E até os membros da família engulham, Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão, fazendo um s. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo, À guisa de um faquir, pelos cenóbios?! ... Num suicídio graduado, consumir-se, E após tantas vigílias, reduzir-se A herança miserável de micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomista exalta, Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. Como que, em suas células vilíssimas, Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. Brancas bacantes bêbedas o beijam. Suas artérias hírcicas latejam, Sentindo o odor das carnações abstêmias, E à noite, vai gozar, ébrio de vício, No sombrio bazar do meretrício, O cuspo afrodisíaco das fêmeas. No horror de sua anômala nevrose, Toda a sensualidade da simbiose, Uivando, à noite, em lúbricos arroubos, Como no babilônico sansara, Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda. Negra paixão congênita, bastarda, Do seu zooplasma ofídico resulta... E explode, igual à luz que o ar acomete, Com a veemência mavórtica do ariete E os arremessos de uma catapulta. Mas muitas vezes, quando a noite avança, Hirto, observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende, Que, tateando nas tênebras, se estende Dentro da noite má, para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura, E de su'alma na caverna escura, Fazendo ultra-epilépticos esforços, Acorda, com os candieiros apagados, Numa coreografia de danados, A família alarmada dos remorsos. E o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio - Macbeths da patológica vigília, Mostrando, em rembrandtescas telas várias, As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. As alucinações tácteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam... A asa negra das moscas o horroriza; E autopsiando a amaríssirna existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna, Reconhecendo, bêbedo de sono, Na própria ânsia dionísica do gozo, Essa necessidade de horroroso, Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova, Quando o prazer barbaramente a ataca... Assim também, observa a ciência crua, Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa, Abranda as rochas rígidas, torna água Todo o fogo telúrico profundo E reduz, sem que, entanto, a desintegre, A condição de uma planície alegre, A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento, Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética, Que a mais alta expressão da dor estética Consiste essencialmente na alegria. Continua o martírio das criaturas: - O homicídio nas vielas mais escuras, - O ferido que a hostil gleba atra escarva, - O último solilóquio dos suicidas - E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!" Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos, Da luz da lua aos pálidos venábulos, Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo, julgava ouvir monótonas corujas, Executando, entre caveiras sujas, A orquestra arrepiadura do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo, Na podridão do sangue humano imerso, Prostituído talvez, em suas bases... Era a canção da Natureza exausta, Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres, Há-de ferir-me as auditivas portas, Até que minha efêmera cabeça Reverta à quietação da treva espessa E à palidez das fotosferas mortas!