A massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte,o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto... Nunca vi um gênio com gosto médio.
( ARIANO SUASSUNA )
A massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte,o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto... Nunca vi um gênio com gosto médio.
( ARIANO SUASSUNA )
Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa.
( ARIANO SUASSUNA)
Eu digo sempre que das três virtudes teologais chamadas, eu sou fraco na fé e fraco na qualidade, só me resta a esperança.
( ARIANO SUASSUNA)
A massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto... Nunca vi um gênio com gosto médio.
( ARIANO SUASSUNA)
Depois que eu vi num hotel em São Paulo um show de rock pela televisão, nunca mais eu critiquei os cantores medíocres brasileiros. Qualquer porcaria como a Banda Calypson ainda é melhor que qualquer banda de rock
( ARIANO SUASSUNA)
Não tenho medo de andar de avião como muitos dizem. O que eu tenho é tédio. Não agüento mais olhar aquelas aeromoças fazendo um teatro mímico para mostrar aos passageiros como usar às máscaras de oxigênio em caso de despressurização, e a porta de emergência
( ARIANO SUASSUNA)
Só tem dois tipos de cantador de viola: o bom, aquele que tem dom mesmo pra fazer a coisa, e o ruim, pra gente rir do que ele faz
( ARIANO SUASSUNA)
(com tema do nosso armorial) Diante de mim, as malhas amarelas do mundo, Onça castanha e destemida. No campo rubro, a Asma azul da vida à cruz do Azul, o Mal se desmantela. Mas a Prata sem sol destas moedas perturba a Cruz e as Rosas mal perdidas; e a Marca negra esquerda inesquecida corta a Prata das folhas e fivelas. E enquanto o Fogo clama a Pedra rija, que até o fim, serei desnorteado, que até no Pardo o cego desespera, o Cavalo castanho, na cornija, tenha alçar-se, nas asas, ao Sagrado, ladrando entre as Esfinges e a Pantera.
"Aqui morava um rei quando eu menino Vestia ouro e castanho no gibão, Pedra da Sorte sobre meu Destino, Pulsava junto ao meu, seu coração. Para mim, o seu cantar era Divino, Quando ao som da viola e do bordão, Cantava com voz rouca, o Desatino, O Sangue, o riso e as mortes do Sertão. Mas mataram meu pai. Desde esse dia Eu me vi, como cego sem meu guia Que se foi para o Sol, transfigurado. Sua efígie me queima. Eu sou a presa. Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa Espada de Ouro em pasto ensanguentado."
Com tema de Augusto dos Anjos Sobre essa estrada ilumineira e parda dorme o Lajedo ao sol, como uma Cobra. Tua nudez na minha se desdobra - ó Corça branca, ó ruiva Leoparda. O Anjo sopra a corneta e se retarda: seu Cinzel corta a pedra e o Porco sobra. Ao toque do Divino, o bronze dobra, enquanto assolo os peitos da javarda. Vê: um dia, a bigorna desses Paços cortará, no martelo de seus aços, e o sangue, hão de abrasá-lo os inimigos. E a Morte, em trajos pretos e amarelos, brandirá, contra nós, doidos Cutelos e as Asas rubras dos Dragões antigos.
Com tema de Deborah Brennand Eu vi a Morte, a moça Caetana, com o Manto negro, rubro e amarelo. Vi o inocente olhar, puro e perverso, e os dentes de Coral da desumana. Eu vi o Estrago, o bote, o ardor cruel, os peitos fascinantes e esquisitos. Na mão direita, a Cobra cascavel, e na esquerda a Coral, rubi maldito. Na fronte, uma coroa e o Gavião. Nas espáduas, as Asas deslumbrantes que, rufiando nas pedras do Sertão, pairavam sobre Urtigas causticantes, caules de prata, espinhos estrelados e os cachos do meu Sangue iluminado.
Com tema de Virgílio, o Latino, e de Lino Pedra-Azul, o Sertanejo Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo nas pedras do meu Pasto incendiado: fustiguem-lhe seu Dorso alardeado, com a Espora de ouro, até matá-lo. Um dos meus filhos deve cavalgá-lo numa Sela de couro esverdeado, que arraste pelo Chão pedroso e pardo chapas de Cobre, sinos e badalos. Assim, com o Raio e o cobre percutido, tropel de cascos, sangue do Castanho, talvez se finja o som de Ouro fundido que, em vão - Sangue insensato e vagabundo - tentei forjar, no meu Cantar estranho, à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!
Com tema de Renato Carneiro Campos Mas eu enfrentarei o Sol divino, o Olhar sagrado em que a Pantera arde. Saberei porque a teia do Destino não houve quem cortasse ou desatasse. Não serei orgulhoso nem covarde, que o sangue se rebela ao toque e ao Sino. Verei feita em topázio a luz da Tarde, pedra do Sono e cetro do Assassino. Ela virá, Mulher, afiando as asas, com os dentes de cristal, feitos de brasas, e há de sagrar-me a vista o Gavião. Mas sei, também, que só assim verei a coroa da Chama e Deus, meu Rei, assentado em seu trono do Sertão.
Oh! Romã do pomar, relva esmeralda Olhos de ouro e azul, minha alazã Ária em forma de sol, fruto de prata Meu chão, meu anel , cor do amanhã Oh! Meu sangue, meu sono e dor, coragem Meu candeeiro aceso da miragem Meu mito e meu poder, minha mulher Dizem que tudo passa e o tempo duro tudo esfarela O sangue há de morrer Mas quando a luz me diz que esse ouro puro se acaba pôr finar e corromper] Meu sangue ferve contra a vã razão E há de pulsar o amor na escuridão
(in Folha de São Paulo, 30 de Novembro de 1999) O que houve em Canudos e continua a acontecer hoje, no campo como nas grandes cidades brasileiras, foi o choque do Brasil "oficial e mais claro" contra o Brasil "real e mais escuro". Ao Brasil oficial e mais claro que não é somente "caricato e burlesco", como afirmou um Machado de Assis, momentaneamente perturbado por sua justa indignação, pertenciam algumas das melhores figuras do patriciado do tempo de Euclydes da Cunha: civis e políticos como Prudente de Moraes, ou militares como o general Machado Bittencourt. Bem-intencionados mas cegos, honestos mas equivocados, estavam convencidos de que o Brasil real de Antônio Conselheiro era um país inimigo que era necessário invadir, assolar e destruir. O civil que começou a reparar esse erro doloroso foi Euclydes da Cunha. O militar foi o major Henrique Severiano, grande herói de Canudos, do lado do Exército. Através de sua bela morte, acendeu ele uma chama que, juntamente com a de Euclydes da Cunha, temos todos nós -intelectuais, políticos, padres, soldados- o dever de levar fraternalmente adiante. Conta-se, em "Os Sertões", sobre o incêndio dos últimos dias de Canudos: "O comandante do 25º batalhão, major Henrique Severiano, era uma alma belíssima, de valente. Viu em plena refrega uma criança a debater-se entre as chamas. Afrontou-se com o incêndio. Tomou-a nos braços; aconchegou-a do peito criando, com um belo gesto carinhoso, o único traço de heroísmo que houve naquela jornada feroz e salvou-a. Mas expusera-se. Baqueou mal ferido, falecendo poucas horas depois A meu ver, tal seria o militar simbólico, emblema do verdadeiro soldado brasileiro, capaz de apoiar um movimento em favor do povo, também simbolicamente representado aí por essa criança, iluminada entre as chamas do seu martírio. Euclydes da Cunha, formado, como todos nós, pelo Brasil oficial, falsificado e superposto, saiu de São Paulo como seu fiel adepto positivista, urbano e "modernizante". E, de repente, ao chegar ao sertão, viu-se encandeado e ofuscado pelo Brasil real de Antônio Conselheiro e seus seguidores. Sua intuição de escritor de gênio e seu nobre caráter de homem de bem colocaram-no imediatamente ao lado dele, para honra e glória sua. Mas a revelação era recente demais, dura demais, espantosa demais. De modo que, entre outros erros e contradições, só lhe ocorreu, além da corajosa denúncia contra o crime, pregar uma "modernização" que consistiria, finalmente, em conformar o Brasil real pelos moldes da rua do Ouvidor e do Brasil oficial. Isto é, uma modernização falsificadora e falsa, e que, como a que estão tentando fazer agora, é talvez pior do que uma invasão declarada. Esta apenas destrói e assola, enquanto a falsa modernização, no campo como na cidade, descaracteriza, assola, destrói e avilta o povo do Brasil real.
(in Folha de São Paulo, 01/02/00) Escreve-me um jovem físico de São Paulo. Chama-se Júlio, tem 26 anos e elogia as posições que venho tomando nesta coluna em favor do povo pobre do Brasil. Diz que, a princípio, ficou mesmo admirado por ver a Folha acolhê-las e publicá-las. Mas depois, refletindo melhor, chegou à conclusão de que, tendo eu uma visão religiosa do mundo e do homem, aquelas posições ficam todas invalidadas, porque a idéia de Deus é o principal sustentáculo do castelo de privilégios da elite econômica política, que dela se serve para manter o povo resignado diante de todas as desigualdades e injustiças. Na carta, o jovem físico não colocou seu sobrenome, e é por isso que não o transcrevo aqui. Se, por acaso, estas linhas vierem a cair sob seus olhos, peço-lhe que me mande um bilhete com seu telefone: gostaria muito de conversar um pouco com ele, para agradecer pessoalmente os termos amistosos com os quais, na carta, até as discordâncias foram formuladas. Mas aqui, logo de entrada, gostaria de dizer-lhe que o Deus de quem me considero filho não é capitalista e anti-socialista como declarou o economista Roberto Campos em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras. Não se deixe Júlio impressionar por nossos erros e pecados. Olhe somente o Cristo e ouça o que ele dizia. Leia os "Atos dos Apóstolos" e veja como os primitivos cristãos procuravam organizar a sociedade: "A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava seu o que possuía, mas tudo era comum entre eles (...). Não havia entre eles indigente algum; (...) e distribuía-se a cada um segundo a sua necessidade". Num ponto, porém, Júlio tem razão em sua crítica ao cristianismo: depois que o imperador Constantino romanizou temporalmente a Igreja, esta passou a dotar as desigualdades e injustiças do Império Romano. Mesmo assim, mesmo governada por mapas como Alexandre 6º, a Igreja continuou condenando a usura e a ganância. De modo que, como Max Weber demonstrou de modo irrespondível, foi o pensamento protestante que procurou legitimar a injustiça social e a desigualdade: segundo os ideólogos "brancos, anglo-saxões e protestantes", a riqueza era um sinal de predileção de Deus. E, juntando-se isso à "sobrevivência do mais apto" de Darwin e Spencer, o capitalismo seria, mesmo, preferido por Deus. Entretanto - e graças sejam dadas a Ele por isso! - no século 20 os papas João 23 e Paulo 6º afastaram a Igreja de tal visão anticristã. De maneira que eu, católico, posso dizer a Júlio que Deus, segundo visto por João 23 e por outros que pensam como eu, é cristão, católico e socialista. O Deus que é capitalista (e que, portanto, pode ser colocado a serviço da injustiça e da desigualdade) é o do presidente Clinton, de Roberto Campos e do bispo Edir Macedo.
(in Folha de São Paulo, 27/06/00) Em 1990, quando tomei posse de minha cadeira na Academia Brasileira de Letras, agi de modo a ligar o mais possível a cerimônia, o uniforme, o colar e a espada aos rituais de festa do nosso povo. Eu lera, de Gandhi, uma frase que me impressionou profundamente. Dizia ele que um indiano verdadeiro e sincero, mas pertencente a uma das classes mais poderosas de seu país, não deveria nunca vestir uma roupa feita pelos ingleses. Primeiro, porque estaria se acumpliciando com os invasores. Depois, porque, com isso, tiraria das mulheres pobres da Índia um dos poucos mercados de trabalho que ainda lhes restavam. A partir daí, passei a usar somente roupas feitas por uma costureira popular, Edite Minervina. E também foi ela quem cortou e costurou meu uniforme acadêmico, bordado por Cicy Ferreira. Isaías Leal fez o colar e a espada, unindo, nesta, num só emblema, a zona da mata e o sertão. Naquele ano, era Miguel Arraes quem governava Pernambuco. E, como o Estado que me adotou como filho se encarregou da doação normalmente feita ao acadêmico pela terra de seu nascimento, combinei tudo com o governador e fizemos, no palácio do Campo das Princesas, uma espécie de cerimônia prévia na qual Arraes (que, como eu, é egresso do Brasil oficial, mas procura se ligar ao real) faria o discurso de entrega das insígnias; e artistas populares me entregariam os adereços feitos por eles: Edite e Cicy, o fardão, Isaías Leal, o colar, e mestre Salusitano, a espada (que, na ABL, meseria entregue por meu mestre Barbosa Lima Sobrinho). Depois que Isaías Leal me deu o colar, no Recife, pedi à maior cantadora nordestina, Mocinha de Passira, que o colocasse em meu pescoço - uma vez que, na Academia, escolhera para isso outra mulher, minha querida Rachel de Queiroz. Como se vê, em tudo, eu tentava mostrar, do modo canhestro, simbólico e precário que me é possível, que, apesar de nascido e criado no Brasil oficial, procuro sempre não esquecer que existe o Brasil real e é a seu lado que me alinho em todas as circunstâncias da minha vida. Foi por tudo isso também que, escrevendo aqui em dezembro do ano passado, escolhi dois personagens simbólicos para representarem o Brasil real. Dizia: -O primeiro é Chico Ambrósio, cabreiro do sertão da paraíba, homem de sangue predominantemente indígena e jeito aciganado; a outra é Mocinha de Passira, violeira dotada de uma voz impressionante” E concluía: -Na minha opinião, o que devemos fazer é olhar o brasil de Chico e Mocinha para seguir e aprofundar (no campo social, político e econômico) o caminho indicado por Antônio Conselheiro - aquele socialismo-de-pobre que, para nós, foi uma picada aberta em direção ao sol de Deus. Nos tempos de desprezo que estamos vivendo em relação à cultura brasileira (e em especial à popular), espero, então, que pelo menos as nossas universidades percebam a importância dessa cantora e repentista, que, como afirmei em meu discurso da ABL, significa para mim, para o Brasil e para o nosso povo o mesmo que Pastora Pavón representava para García Lorca, para a Espanha e para o povo espanhol.